Fé em Jesus Cristo e Crendice Popular

Pe. Inácio José Schuster, Vigário Geral

Muito do que as pessoas chamam de fé, na verdade não passa de crendice. Crendice é toda confiança depositada em alguém ou em alguma coisa que não tem qualquer eficácia. Crendice também se mistura com superstição. Um exemplo de superstição ou crendice popular são os jogadores de futebol que fazem questão de entrar com o pé direito dentro de campo. Eles acreditam que esse ritual, entrar saltitando com o pé direito dentro de campo, pode influenciar no resultado da partida ou ao menos livrá-lo de alguma lesão. Existem outras práticas supersticiosas que são fruto das crendices populares, como jogar sal grosso nos cantos da casa para protegê-la ou carregar trevo de quatro folhas dentro da carteira para prosperar. O problema está no fato de que muitas pessoas que apelam para crendices, também dizem ter fé em Jesus Cristo. Aliás, vêm se desenvolvendo dentro do contexto cristão práticas que estão mais relacionadas a crendices do que fé. A fé está em Jesus Cristo, mas ainda assim apela-se para o óleo ungido, o manto santo, a água santificada, o pão abençoado no monte, a rosa purificada, o lenço umedecido e por aí vai.

O Evangelho de São João nos mostra Jesus socorrendo um paralítico cuja esperança estava depositada numa lenda (João 5, 1-11). Em Jerusalém, havia um tanque chamado Betesda. Algumas pessoas acreditavam que de vez em quando, talvez uma vez ao ano, descia um anjo do céu e agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, depois de agitada as águas, era curado de qualquer doença que tivesse. Por essa razão, costumava reunir grande número de pessoas com problemas de saúde esperando o movimento das águas. Na verdade, esta era apenas uma crendice popular local. Mas essa lenda se estabelecia por causa da carência das pessoas, como por exemplo, de um paralítico que ganhou atenção especial de Jesus. São João diz que ele sofria daquela paralisia havia trinta e oito anos. Imaginem vocês: alguém que sofria desse mal num tempo em que não havia qualquer suporte previdenciário ou amparo do governo, e num tempo onde as pessoas atribuíam às doenças razões espirituais, ou seja, se ele estava doente é porque merecia, e isto justificava a falta de generosidade. Portanto, a situação era extremamente dramática. Qualquer sinal de esperança era uma fonte de alento. Era melhor acreditar numa lenda do que não acreditar em nada.

A humanidade se modernizou, mas ainda há pessoas buscando solução para seus problemas colocando sua confiança em coisas ou em rituais totalmente sem eficácia. É até compreensível, pois o desespero, a falta de esperança, a ausência de perspectiva força as pessoas a desenvolverem crendices. Como dissemos, para muitos, melhor é acreditar numa lenda do que não acreditar em nada. Mas naquele dia, no tanque de Betesda, Jesus queria deixar uma lição. Quando o Mestre soube que aquele homem vivia naquele estado durante tanto tempo, lhe perguntou: “Você quer ser curado?” Disse o paralítico: “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim”. Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. São João nos conta que imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar. Jesus queria mostrar àquelas pessoas ao curar aquele paralítico, que aquilo que eles chamavam de fé, não passava de crendice. Eles esperavam por um anjo que nunca viria. E pior do que a falta de esperança, pode ser a falsa esperança.

Talvez você tenha vivido carregado de crendice e acha que isso é fé. Fé é a confiança depositada exclusivamente em Jesus Cristo, na Sua Palavra, nos Seus Sacramentos. A fé em Jesus Cristo dispensa amuletos, objetos auxiliares ou rituais complementares. Crendice é contrária à fé cristã porque a pessoa confia, não no poder de Deus, mas no poder do óleo ungido, do manto santo, da água santificada, do pão abençoado no monte, da rosa purificada ou no poder do lenço umedecido e do sal espalhado pelos cantos da casa. Quando você acredita que o poder emana das coisas, dos objetos ou de determinadas pessoas, cai na crendice e falta com a fé verdadeira. Cristão supersticioso é um pagão disfarçado de seguidor de Jesus Cristo. Portanto, supere a crendice e confie em Jesus Cristo, na Sua Palavra, nos Seus Sacramentos.

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