Festa de Nossa Senhora da Piedade – 15 de Setembro

Nossa Senhora da Piedade é aquela que recebendo o Divino Filho em seus braços, depois de sua morte trágica na Cruz, levou-o com os fiéis discípulos e piedosas mulheres até o sepulcro. Foi sempre um tema muito procurado pela arte cristã que encontra nos episódios da vida de Jesus e de sua Santíssima os motivos para edificação, mais ainda, porque nos sofrimentos, encontram os cristãos, um grande consolo, verificando que eles são próprios ao caminho da perfeição, e se Deus os teve, com sua Mãe, não é demais que os mortais os suportem.

 

NOSSA SENHORA DA PIEDADE, ROGAI POR NÓS!
Por Mons. Inácio José Schuster

Com alegria celebramos a Festa da Padroeira de Hamburgo Velho, Nossa Senhora da Piedade. A Festa da Padroeira, seja liturgicamente, seja recreativamente, é um momento importante para todos nós proclamarmos nossa fé em Cristo Jesus e louvarmos Sua e nossa Mãe, a Senhora da Piedade.  Continuamos a tradição de nossos antepassados, que há mais de 167 anos celebram a Padroeira destas terras, e rezamos com Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja: “Se é certo que todas as graças que Deus nos concede, como eu tenho por certo, passará pelas mãos de Maria, também tenho por certo que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a sublime graça da perseverança final. E certamente a conseguimos, se confiadamente a pedimos sempre a Maria suplicando-lhe por intermédio de suas benditas dores”.

Não convém e nem será próprio do devoto de Maria Santíssima, meditar nos lances da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, abstraindo da figura co-redentora de sua Mãe. E ao invocarmos as chagas do Salvador como a cura de nossos pecados, é preciso lembrar que tal impetração passa pelos rogos da Medianeira de todas as graças. Dispensadora, por vontade divina, de todos os dons celestiais, os méritos dessas chagas como que foram todos entregues a Ela, para deles dispor em benefício dos homens. Em certo sentido, Maria Santíssima é, pois, a dona dessas chagas. Aliás, as imagens de Nossa Senhora da Piedade — inclusive a famosa Pietà de Michelangelo —, que representam Jesus morto no colo de Maria, exprimem muito bem a idéia desse augusto senhorio: a Mãe é a dona daquele cadáver e, portanto, de todos os méritos infinitos que aquele Homem inanimado em seus braços conquistou para nós. Tudo nos vem através d’Ela, e por mais extraordinário que seja o valor dessas chagas, sem a intercessão de Maria nada obteremos. Peçamos, então, o patrocínio de Nossa Senhora da Piedade, a invocação propícia para essas súplicas. É a figura da Santíssima Virgem que traz seu próprio coração chagado e ferido pela consideração dos padecimentos do Filho. Nunca a alma de uma mãe carregou chaga semelhante à que feriu o coração de Maria, tomado por imensurável tristeza durante a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse Imaculado Coração transpassado pela espada da dor é a porta por onde atingimos as chagas de Jesus. Rezemos a Nossa Senhora da Piedade, do fundo de nossa alma, confiantes e humildes, na certeza de que Ela alcançará em nosso favor a aplicação dos méritos infinitos dos sofrimentos redentores de seu Divino Filho.

Com São Pio de Pietrelcina, digamos, de coração para Coração, no colo da Mãe de Jesus e nossa: “Nossa Senhora, infunde em mim o mesmo amor que arde em teu coração por Jesus”.

 

Depois de celebrarmos a cruz de Jesus e seu mistério de amor para com cada um de nós, hoje nos recordamos dos sofrimentos de Maria. O Evangelho não é concreto ao descrever psicologicamente as dores de Maria. E, no entanto essa devoção agitou muito a Idade Média. No século XIX, ela entrou para a liturgia, aos 15 de setembro. Há uns anos atrás, todos nós presenciamos uma terrível tragédia acontecida na cidade de São Paulo. A tragédia aérea de Airbus da TAM. Eu me recordo de ter visto nas telas da TV, mulheres desesperadas, chorando por seus filhos que haviam tragicamente perdidos suas vidas. Naquele momento eu me recordei de Nossa Senhora das Dores. Essas mulheres nas telas dos nossos canais de televisão imitavam, inconscientemente, as dores da Virgem Maria, porque Maria também passou por essa tribulação. A Virgem Maria teve que contemplar, angustiada e sofredora o seu Filho moribundo, pendente de uma cruz. Depois da morte, recebeu a Seu Corpo sem vida nos próprios braços, como nós recordamos nos exercícios da Via Sacra que realizamos e cujo momento dramático foi imortalizado na Pietá de Michellangelo. Naquela ocasião fiz uma prece a Nossa Senhora da Piedade, por todas aquelas mães e por todos os parentes das vítimas daquele desastre que nos encheu a todos de grande tristeza e luto. Hoje eu dedico esta celebração de Nossa Senhora da Piedade a todas essas mulheres intrépidas que carregam no coração a dor lancinante pela perda de um ente querido. Quero dizer apenas que Deus não é insensível aos nossos sofrimentos, Deus não foi insensível ao sofrimento de seu filho Jesus, Deus não foi insensível de Maria santíssima. Deus não é insensível aos sofrimentos de todos aqueles e aquelas que estão hoje acabrunhados sob o peso de tantas tragédias no corpo ou no espírito. É um mistério o sofrimento e não adianta muitas elucubrações ou filosofia. Não podemos e não devemos tripudiar sobre as dores dos outros. Mas nós queremos afirmar a todos que existe uma maneira de sofrer. Uma maneira de sofrer que é cristã isto é uma maneira de sofrer sem o desespero, uma maneira de sofrer com a esperança de que tudo isso neste mundo é provisório e que um dia reencontraremos a paz na Pátria Celeste, quando Deus tiver enxugado as lágrimas de cada um de nós.

 

Durante a Ceia da Quinta-feira Santa, Jesus demonstrava uma serenidade transcendente, manifestando seu amor por toda a humanidade. O ponto culminante é a instituição da Eucaristia, sacramento de sua real e verdadeira presença no meio de nós, pelo qual Ele atualiza seu sacrifício na Cruz na oblação ao Pai. No Horto das Oliveiras revela-se sua angústia humana diante do que o aguarda. Jesus clama: “Pai se possível afaste de mim este cálice”. É a luta interior presente em seu coração, porém a vitória, ao contrário de Adão, é sua identificação com a vontade do Pai: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”. E nesta Sexta-feira Santa nós contemplamos em sua prisão, paixão e crucifixão. Fixemos nossos olhos em Jesus e deixemo-nos invadir pela sua misericórdia: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Ao bom ladrão, Ele diz: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. E que gesto profundo de amor para conosco, ao nos dar como Mãe, sua própria Mãe: Apontando para o discípulo amado diz “Eis tua Mãe”, e para sua Mãe: “Eis teu filho”. João representa todo verdadeiro discípulo de Jesus, de modo que todo discípulo seu reconhece Maria como sua Mãe e ela intercede por todos, tendo seu olhar maternal sobre cada um de nós. No madeiro da cruz, o Senhor e Mestre revela sua profunda comunhão conosco. Ele assumiu nossa humanidade, tornando-se um de nós. É a humanidade de Jesus, que experimentamos quando clama: “Tenho sede”, ou ainda, no último momento, “Pai. Por que me abandonastes?”. Todos os nossos sofrimentos, nossas dores são assumidos por Jesus e nós Nele participamos do mistério da Redenção. De nossa própria, como também de todos os homens. Jesus é o nosso Salvador, pois Nele experimentamos a salvação. São Gregório de Nazianzo dirá que “uma só gota de seu sangue renova o mundo inteiro”.  Só Deus salva e na Cruz transparece a sua divindade. Abandonado por todos e no vazio de sua humanidade, Ele exclama na gratuidade absoluta, doando-se totalmente ao Pai: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. É a doação que nos salva, que nos redime e se torna o sentido último e mais profundo de nossa vida. Por isto  dá seu último suspiro: “Tudo está consumado”.   Sim, na medida em que vivermos tal doação e nossa vida se colocar toda voltada para Deus e Nele orientada para um serviço despretensioso aos irmãos e irmãs, participamos, como dom gratuito de Deus, da salvação que Jesus nos trouxe.

 

NOS BRAÇOS DE MARIA

Na verdade, esta é a posição que Maria assume nos dias de hoje: ela nos toma em seus braços, como tomou naquele dia o Corpo de Jesus, descido da cruz. Quando Cristo morreu, era preciso tirar, rapidamente, o Corpo d’Ele da cruz, porque o dia terminava às seis horas da tarde. Os corpos não podiam ficar ali depois desse horário porque começava o dia do sábado. Ao ser tirado da cruz, o Corpo do Senhor foi deixado nos braços da Virgem Maria. Michelangelo esculpiu uma linda estátua traduzindo isso. É a chamada Pietà, a Nossa Senhora da Piedade. Todos nós precisamos estar, assim, nos braços de Nossa Senhora. O Corpo de Jesus ficou estraçalhado: depois da flagelação, da coroação de espinhos, da subida para o Calvário, o Corpo d’Ele foi sendo dilacerado. Por fim, na cruz, chegou o auge disso. Os romanos amarravam os prisioneiros uns aos outros para percorrerem o caminho até a cruz. Os condenados andavam em fila carregando cada um o pedaço transversal da cruz. As mãos eram amarradas naquele pedaço de madeira. A corda que amarrava as mãos do que estava à frente amarrava também os pés do prisioneiro de trás e assim por diante, um amarrado no outro. O condenado mais perigoso, naquela época, era sempre crucificado no meio de outros. E Jesus foi considerado o prisioneiro mais perigoso: temiam toda aquela gente que queria chaciná-lo ou mesmo que Seus amigos interviessem. Ele, por ser o condenado mais perigoso, foi colocado no meio dos outros dois. Imagine, então: a qualquer queda ou solavanco daquele prisioneiro que estava à frente, Cristo iria ao chão… Pior ainda! Quando o de trás tropeçava, Jesus, sem defesa, por estar com as mãos presas no madeiro, ia de rosto ao chão. O Santo Sudário mostra que a face do Senhor ficou transfigurada. É o que está descrito em Isaías 53 e no Salmo 22: “Aquele diante do qual a gente esconde o rosto”. Quando você vê um acidente feio demais, automaticamente fecha os olhos ou leva a mão ao rosto para não ver. Realmente, o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo ficou deformado, por tantas vezes que Ele caiu de rosto no chão. O Santo Sudário mostra – e os especialistas examinaram – o hematoma de um dos olhos d’Ele, que ficou como que destruído com aquelas quedas. Você sabe tudo o que Jesus passou ao ser crucificado e nas três horas em que ficou na cruz. Foi esse Corpo que a Santíssima Virgem Maria recebeu ao pé do madeiro. Foi esse Corpo que ela recebeu ao pé da cruz nos seus braços. O que aconteceu com o Corpo de Cristo é apenas um sinal, porque Ele carregou sobre Si todos os nossos pecados e enfermidades. Ele tomou sobre Si todas as nossas enfermidades. Todos os nossos sofrimentos. As nossas chagas do corpo, da alma e do espírito. Os nossos pecados. As deformações que os vícios fizeram em cada um de nós. Todo estrago que o pecado fez em nós o Senhor carregou sobre o Seu Corpo. Foi por isso que o Corpo de Jesus Cristo ficou naquele estado. Maria está nos tomando na mesma situação em que tomou o Corpo de Jesus. Tomou-nos em seus braços para curar nossas chagas, nossas enfermidades e todos os estragos que a vida, o pecado e o mundo fizeram em nós. Mesmo que exteriormente não pareça, infelizmente, em nosso interior, em nossa alma, em nosso espírito, ficaram todas essas deformações. Nossa Senhora, ao pé da cruz, quer tomar a cada um de nós em seus braços para nos banhar no Sangue de Jesus. Para nos curar e nos libertar. Tocar uma por uma em nossas chagas. E fazer-nos, realmente, novos. Imagine quantas machucaduras a vida vez em você! Coisas das quais você teve ou não teve culpa. Porém, a vida fez em você. Quanta gente foi mal amada e rejeitada até pelas pessoas mais importantes, como o pai, a mãe. Quantos de nós fomos “socados” quando éramos crianças. Passamos necessidades. Até fome. Mas, muito mais que fome de alimento, tínhamos fome de amor, necessidade de carinho e de presença, mas não os tivemos. Não temos culpa dessas marcas todas. Mas carregamos essas feridas. Quantos de nós, pequeninos ainda, já fomos vítimas de paixões humanas. Abusaram de nós. Ensinaram-nos coisas terríveis. Não estou dizendo que haja culpa. Não! Nós acabamos sendo vítimas. Mas é impressionante como isso fica na lembrança! Até as brincadeiras sexuais que fizeram conosco, porque éramos novos, como uma chapa fotográfica muito sensível, tudo ficou gravado. De quando em quando isso volta à nossa lembrança, com pesar, sentimento de culpa e de acusação. Como fomos estragados pelo álcool, pelas drogas, por amigos e amigas!… Estragados por uma sexualidade malvivida em nossa adolescência e juventude! Estragados em nossos afetos, porque usaram e abusaram de nossa necessidade de amar e ser amados. Quantos de nós carregamos, hoje, uma ferida terrível por causa de maus-tratos de pai e mãe. Por causa de brigas e até separação dos pais… Por causa de adultério, infidelidade… Nós somos uma chaga viva! Assim como o rosto de Jesus ficou irreconhecível de tanto ir ao chão, o nosso rosto – a nossa identidade, aquilo que somos –, o nosso rosto de filhos de Deus é que foi jogado, violentamente, ao chão. O nosso rosto ficou tão desfigurado, uma chaga viva, a ponto de não se ver em nós a face de filhos de Deus. Nossa Senhora quer curar tudo isso! Peça que ela venha curá-lo.

(Trecho retirado do livro “Maria – A Mulher do Gênesis ao Apocalipse” de monsenhor Jonas Abib).

 

Nossa Senhora da Piedade
A mais remota representação da Senhora da Piedade em Portugal, foi pintada em madeira, que se encontrava numa das capelas do claustro da Sé em Lisboa. Pertencia a uma antiqüíssima Irmandade, que tinha por função principal enterrar os mortos, visitar e confortar os encarcerados e acompanhar os criminosos que iam padecer a pena ultima. Essa pintura representando Nossa Senhora assentada ao pé da Cruz, tendo nos braços Jesus Morto, foi o emblema das Casas de Misericórdia, que por iniciativa de frei Miguel de Contreiras, se fundaram em Portugal, começando pela de Lisboa. Tinha essa Nossa Senhora da Sé de Lisboa, uma Irmandade que se supõe já existia desde antes do ano de 1230, pois foi nesse ano que ela figura no acompanhamento do pai de Santo Antônio, que acusado falsamente de um crime, ia ser levado à forca, quando seu filho, o grande taumaturgo português chegou a tempo de salvá-lo, por uma milagrosa demonstração de sua inocência. Muito venerada em Portugal era Nossa Senhora da Piedade de Merceana, que segundo a tradição aparecera no tronco de uma árvore, no início do século XII. Contam que, certo dia, um lavrador começou a notar que um dos bois de sua manada, lhe desaparecia todo dia à mesma hora, voltando pouco depois. Seguiram o boi e verificaram dirigir-se o animal a uma carvalheira, debaixo da qual se ajoelhava, olhando para um dos galhos. Interior da igreja da Serra da Piedade, em Caeté, Minas Gerais Encontraram então uma pequena efígie gótica da Senhora da Piedade, que mais tarde foi colocada numa capela construída naquele sítio. Este culto deve ter entrado no estado de Minas Gerais através dos bandeirantes, pois Nossa Senhora da Piedade era a padroeira de Guaratinguetá, passagem obrigatória nos tempos em que os viajantes que transitavam entre Rio de Janeiro e São Paulo, e cujo porto era muito freqüentado pelos aventureiros que subiam a serra da Mantiqueira à procura dos veios auríferos nos Campos dos Cataguás. Talvez o primeiro santuário de Nossa Senhora da Piedade naquela província tenha sido o de Barbacena, antiga Borda de Campolide, onde era venerada uma imagem da Virgem trazida de Portugal por algum imigrante ou por um padre jesuíta, e cuja matriz foi benta em 1748. Daí a devoção se espalhou pela terra mineira, indo localizar-se principalmente na Serra da Piedade. Segundo a tradição, esse santuário plantado no alto da montanha, próxima a Caeté, se prende as perseguições que o Marques de Pombal moveu contra Os jesuítas e varias famílias nobres da Lusitânia. Entre os fugitivos da vingança do ministro de D. José I encontrava-se o arquiteto Antônio da Silva Bracarena, que prometera à Virgem Santíssima construir-lhe uma igreja, se ficasse livre. Tendo se refugiado na Vila Nova da Rainha (hoje Caeté), resolveu erigir um templo no alto da serra que ele avistara rodeada de nuvens. Sua decisão tornou-se mais forte quando soube de um estranho fato acontecido naquele local, alguns anos antes. Uma menina, muda de nascença, avistou por várias vezes no alto da montanha, aureolada de luz, a Virgem Maria trazendo nos braços o seu Divino Filho morto, e após estas visões principiou a falar corretamente. Bracarena iniciou então a edificação da igreja e mandou vir da cidade do Porto uma imagem de Nossa Senhora da Piedade, de tamanho natural, reprodução em madeira da célebre Pietá de Miguel Ângelo. Esta efígie se encontra ainda hoje no altar-mor da igreja serrana e a ela são atribuídos vários milagres, que atraem todos os anos milhares de peregrinos. A construção desta capela foi muito demorada, tendo terminado somente em 1770, com o auxílio do povo, e desde então a serra passou a ser denominada Serra da Piedade. Após a morte de Bracarena, que foi sepultado no adro do templo, debaixo do altar da Virgem, vários ermitões o sucederam, continuando a zelar pela Senhora. Apesar disto, a igreja chegou a ameaçar ruir, mas, devido à intercessão do cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional resolveu restaurar a tradicional capela, que foi entregue aos cuidados dos frades dominicanos. Por iniciativa desses religiosos foi iniciada a construção da Casa dos Romeiros a fim de abrigar melhor o grande número de fiéis que anualmente sobem a montanha para renderem homenagem à Virgem Santíssima. Nossa Senhora da Piedade já era considerada um pouco protetora geral de todos os mineiros, quando em 1958 assim foi proclamada por bula do Papa São João XXIII. Contudo, a sua consagração oficial como Padroeira do Estado de Minas Gerais deu-se a 31 de julho de 1960, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, com a presença do Governador de Minas e autoridades civis, militares e religiosas. A capela de Nossa Senhora da Piedade, situada a quase 1800 metros de altitude, apresenta ao devoto que sobe a sua escarpada montanha um panorama amplo e maravilhoso e uma alegria semelhante, com certeza, aquela que ele sentirá ao atingir o Paraíso Celeste após a rude caminhada neste mundo, guiado e auxiliado pelas mãos suaves de Maria. Esta devoção é muito divulgada no Brasil, pois, além das 73 igrejas que a tomaram por Padroeira, encontramos imagens da Virgem Dolorosa em quase todos os antigos templos, espalhados pelo nosso País.

Fontes: Augusto de Lima Júnior, em “História de Nossa Senhora em Minas Gerais”, Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1956, pp. 131-139.  Nilza Botelho Megale, em “Invocações da Virgem Maria no Brasil”, Ed. Vozes, 4a. edição, pp. 383-387.

 

Ladainha de Nossa Senhora da Piedade  

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Deus Pai de Misericórdia, tende piedade de nós.
Jesus, Filho de Maria, tende piedade de nós.
Espírito Santo Santificador, tende piedade de nós.
Nossa Senhora da Piedade, rogai por nós.
Santa Mãe das Dores,
Mãe do Sofrimento,
Mãe da Angústia,
Mãe das Lágrimas,
Mãe da Solidão,
Mãe do Silêncio,
Mãe Crucificada,
Mãe dos Desesperados,
Mãe dos Humilhados,
Mãe dos Excluídos,
Casa dos Desterrados,
Auxílio dos Desempregados,
Socorro dos Famintos,
Refúgio dos Perseguidos,
Consolo das Viúvas,
Amparo dos Órfãos,
Companheira dos Solitários,
Arca da Aliança Eterna,
Cálice do Sofrimento de Jesus,
Patena do corpo Sofredor de Cristo,
Porta do Coração de Jesus,
Espelho da Justiça Divina,
Nova Eva,
Rosa Mística,
Reparadora da Nova Aliança,
Consoladora dos Aflitos,
Ovelha Transpassada de Dor,
Vaso de sofrimento Infindável,
Túmulo de Nossos Pecados,
Refúgio dos Pecadores,
Saúde dos Enfermos,
Coração Transpassado,
Coração Atormentado,
Coração Coroado de Espinhos,
Coração Chagado,
Coração Fonte de Amor,
Coração Compassivo,
Coração Forte até o Fim,
Esperança dos Cristãos,
Esperança dos Humildes,
Esperança dos que Sofrem,
Esperança dos que Morrem,
Esperança de Dias Melhores,
Esperança de Santidade,
Esperança dos Peregrinos,
Esperança da Humanidade,
Esperança Nossa,
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós, Senhor.
– Rogai por nós, ó Mãe da Piedade.
– Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
OREMOS: Ó Deus, quando o Vosso Filho foi exaltado, quisestes que Sua Mãe estivesse junto à Cruz, sofrendo com Ele. Dai à Vossa Igreja, unida a Maria na Paixão de Cristo, participar da Ressurreição do Senhor, que Convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DA PIEDADE

Ó Maria, Ó Mãe fecundíssima de toda a piedade, pelas lágrimas que derramastes junto à Cruz do vosso Filho, pela dor que trespassou o Vosso coração amante junto à Cruz, donde por nós pendia morto o Vosso querido Jesus, dai-nos a verdadeira piedade na terra, a fim de que, unidos e sempre unidos a essa Cruz, atravessemos sãos e salvos esta pobre mansão de exílio, com os olhos fitos e sempre fitos no Céu.

(Retirado do livro HORAS DE PIEDADE, 29ª edição, 1958)

 

Minha Mãe dolorosíssima, não vos deixo sozinha a chorar, mas quero vos acompanhar também com as minhas lágrimas. Esta graça vos peço hoje: alcançai-me uma compreensão sempre maior da paixão de Jesus e vossa, para que em todos os dias de minha vida eu possa ser solidário com as pessoas que sofrem, vendo nelas vossas dores e as do meu Redentor. Elas me alcançarão o perdão, a perseverança, o Céu, onde espero cantar a misericórdia infinita do Pai por toda a eternidade. Amém.

 

Santíssima e Imaculada Virgem Maria, Mãe da Piedade, Padroeira e Senhora nossa, recorro à vossa proteção, e a vós consagro minha vida, de discípulo(a) missionário(a). Em vosso coração, Mãe Compassiva, deposito, agora, confiante, minhas súplicas e necessidades. (silêncio para fazer pedido de graça) Alcançai-me o que vos peço; guardai-me na paz, livre de perigos e ciladas, comprometido com a justiça, exemplar na solidariedade, para que o mundo creia e se abra ao amor de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte

 

“PARAI E VEDE SE HÁ DOR SEMELHANTE À MINHA DOR”
Lucía Pérez Wheefock

Rememorando com piedade os sofrimentos que por nossa salvação padeceu a Virgem Maria, recebemos de Deus grandes graças e benefícios. E cumprimos um preceito do Espírito Santo: “Não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eclo 7, 29).

É impossível não sentir profunda emoção ao contemplar alguma expressiva imagem da Mater Dolorosa e meditar estas palavras do Profeta Jeremias, que a piedade católica aplica à Mãe de Deus: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1, 12).

A esta meditação nos convida a Liturgia do dia 15 deste mês, dedicado a Nossa Senhora das Dores.

Quatro grandes privilégios “Não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eclo 7, 29). É grato imaginar que este preceito do Espírito Santo tenha inspirado aos cristãos dos primeiros séculos uma veneração especial pelos sofrimentos da Mãe de Deus e nossa. A este respeito, Santa Isabel de Hungria (+1231) relata ter sido beneficiada por uma aparição na qual São João Evangelista lhe revelou que, justamente no dia da partida da Virgem Maria para o Céu, ele teve uma visão de como foi o encontro d’Ela com seu Divino Filho. Nesse primeiro encontro – narrou São João – o Redentor e sua Mãe conversaram sobre os sofrimentos que ambos suportaram no Calvário. No final, a Virgem Maria pediu a Jesus graças e privilégios especiais para todos aqueles que, na terra, se lembrassem e se compadecessem dos gemidos, das lágrimas e das dores que Ela padeceu, em união com Ele, para nossa Redenção.
E seu Divino Filho atendeu prontamente esse pedido, concedendo-Lhe quatro grandes favores:
Primeiro: quem invocar a Virgem Maria por suas dores e prantos terá a ventura de fazer verdadeira penitência de seus pecados antes de morrer.
Segundo: terá a proteção e o amparo de Nossa Senhora das Dores em todas as adversidades e trabalhos, especialmente na hora da morte.
Terceiro: quem, por memória das dores e prantos de Nossa Senhora, incluir em seu entendimento também as da Paixão, receberá no Céu um prêmio especial.
Quarto: e obterá dessa Soberana Senhora tudo quanto pedir para sua salvação e sua utilidade espiritual.

Como progrediu essa devoção Já no séc. IV alguns insignes doutores da Igreja – Santo Efrém, Santo Ambrósio e Santo Agostinho – teceram comoventes considerações sobre as dores de Maria. No fim do séc. XI, outro doutor da Igreja, Santo Anselmo, propagava a devoção a Nossa Senhora das Dores. Muitos monges beneditinos e cistercienses faziam coro com ele nessa propagação. No século seguinte, o grande São Bernardo de Claraval, também doutor da Igreja, levou mais longe a prática dessa devoção. A todos esses se juntaram os ardorosos frades servitas, já no séc. XIII. Em decorrência desse aumento de devoção, logo floresceram esplêndidos monumentos artísticos e literários em louvor à Mãe das Dores. Um deles – o hino Stabat Mater, composto por Iacopone de Todi por volta de 1300 – foi adotado na Liturgia e desperta nos ouvintes os melhores sentimentos de ternura e compaixão para com a Virgem sofredora: “Estava a Mãe dolorosa aos pés da Cruz, lacrimosa, da qual o Filho pendia…” No campo das imagens sagradas, destacam-se as da “Piedade”: a Mãe dolorosa e lacrimosa contemplando o corpo sacratíssimo do Filho que jaz inerte em seus braços virginais. E as da “Soledade”: o Filho já foi sepultado, a Mãe não tem mais nem sequer o cadáver para contemplar, em suas mãos resta apenas um sudário! Em 1423, para reparar os ultrajes dos hereges hussitas que, com sacrílego furor, desfiguravam as imagens de Nosso Senhor e da Virgem Santíssima, o Concílio Provincial de Colônia instituiu a comemoração litúrgica das Dores de Maria. Três séculos depois, em 1727, o Papa Bento XIII inscreveu- a no Calendário Romano, estendendo a celebração para a Igreja no mundo inteiro. Atualmente, a Liturgia cultua Nossa Senhora das Dores no dia 15 de setembro, data estabelecida pelo Papa São Pio X em 1913.

As Sete Dores de Maria As sete dores, as sete tristezas ou as sete espadas… O relato dos Santos Evangelhos forneceu à piedade popular os elementos para formar a coleção dos sete grandes padecimentos da Virgem Mãe.

“Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2, 35), profetizou Simeão a Maria, no Templo. Esta foi sua primeira grande dor. Seguem-se depois as demais, na ordem cronológica do Evangelho: a fuga para o Egito, a perda do Menino Jesus no Templo, a ida para o Calvário, a Crucifixão de Nosso Senhor, a descida da Cruz, e o sepultamento. Durante certo tempo, a memória de Nossa Senhora das Dores se comemorava sob o título de celebração das Sete Dores de Maria, introduzida na Liturgia em 1668, por iniciativa da Ordem dos Frades dos Servos de Maria (Servitas). Essa Ordem goza do privilégio de um Prefácio próprio para a comemoração litúrgica de 15 de setembro, no qual se faz esta comovedora oração a Deus Pai, uma verdadeira obra-prima de piedade e teologia: “Vós, para restaurar o gênero humano, em sábio desígnio, associaste benignamente a Virgem a vosso Filho Unigênito; e Ela que, pela ação fecundante do Espírito, tinha-se tornado a Mãe d’Ele, por novo dom de vossa bondade tornou-se sua auxiliar na Redenção; e as dores que Ela não sofreu ao dar ao mundo seu Filho, sofreu, gravíssimas, para fazer-nos renascer em Vós.”

(Revista Arautos do Evangelho, Set/2005, n. 45, p. 18-19)

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