XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Pe. Inácio José Schuster

Efatá. Abre-te!
Isaías 35, 4-7a; Tiago 2, 1-5; Marcos 7, 31-37

A passagem do Evangelho nos refere uma bela cura realizada por Jesus: «Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer “Abre-te”. Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade». Jesus não fazia milagres como quem move uma varinha mágica ou estala os dedos. Aquele «gemido» que deixa escapar no momento de tocar os ouvidos do surdo nos diz que se identificava com os sofrimentos das pessoas, participava intensamente em sua desgraça, se encarregava dela. Em uma ocasião, depois de que Jesus havia curado muitos enfermos, o evangelista comenta: «Ele tomou nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades» (Mt 8, 17). Os milagres de Cristo jamais são fins em si mesmos; são «sinais». O que Jesus fez um dia por uma pessoa no plano físico indica o que Ele quer fazer cada dia por cada pessoa no plano espiritual. O homem curado por Cristo era surdo-mudo, não podia comunicar-se com os outros, ouvir sua voz e expressar seus próprios sentimentos e necessidades. Se a surdez e mudez consistem na incapacidade de comunicar-se corretamente com o próximo, de ter relações boas e belas, então devemos reconhecer que todos somos, uns mais, outros menos, surdo-mudos, e é por isso que Jesus dirige a todos aquele grito seu: efatá, abre-te!. A diferença é que a surdez física não depende do sujeito e é totalmente sem culpa, enquanto a moral é culpável. Hoje se evita o termo «surdo» e se prefere falar de «incapacidade auditiva», precisamente para distinguir o simples fato de não ouvir da surdez moral. Somos surdos, por exemplo, quando não ouvimos o grito de ajuda que se eleva para nós e preferimos pôr entre nós e o próximo o «duplo vidro» da indiferença. Os pais são surdos quando não entendem que certas atitudes estranhas ou desordenadas dos filhos escondem um pedido de atenção e de amor. Um marido é surdo quando não sabe ver no nervosismo de sua mulher o sinal do cansaço ou a necessidade de um esclarecimento. E o mesmo quanto à esposa. Estamos mudos quando nos fechamos, por orgulho, em um silêncio esquivo e ressentido, enquanto talvez com uma só palavra de desculpa e de perdão poderíamos devolver a paz e a serenidade ao nosso lar. Os religiosos e as religiosas têm, no dia, tempos de silêncio, e às vezes se acusam na Confissão, dizendo: «Quebrei o silêncio». Penso que às vezes deveríamos acusar-nos do contrário e dizer: «Não quebrei o silêncio». O que, contudo, decide a qualidade de uma comunicação não é simplesmente falar ou não falar, mas falar ou não fazê-lo por amor. Santo Agostinho dizia às pessoas em um discurso: É impossível saber em toda circunstância o que é o justo que se deve fazer: se falar ou calar, se corrigir ou deixar passar algo. Eis aqui então que se dá uma regra que vale para todos os casos: «Ama e faz o que quiseres». Preocupa-te de que em teu coração haja amor; depois, se falas, será por amor, se calas, será por amor, e tudo estará bem porque do amor não brota mais que o bem. A Bíblia permite entender onde começa a ruptura da comunicação, de onde vem nossa dificuldade para relacionar-nos de uma maneira sã e bela uns com os outros. Enquanto Adão e Eva estavam em boas relações com Deus, também sua relação recíproca era bela e extasiante: «Esta é carne de minha carne…». Enquanto se interrompe, pela desobediência, sua relação com Deus, começam as acusações recíprocas: «Foi ele, foi ela…». É daí de onde é preciso recomeçar cada vez. Jesus veio para «reconciliar-nos com Deus» e assim reconciliar-nos uns com os outros. Ele o faz sobretudo através dos sacramentos. A Igreja sempre viu nos gestos aparentemente estranhos que Jesus realiza no surdo-mudo (pôr os dedos nos ouvidos e tocar a língua) um símbolo dos sacramentos graças aos quais Ele continua «tocando-nos» fisicamente para curar-nos espiritualmente. Por isso, no batismo, o ministro realiza sobre o batizando os gestos que Jesus realizou sobre o surdo-mudo: põe-lhe os dedos nos ouvidos e lhe toca a ponta da língua, repetindo a palavra de Jesus: efatá, abre-te! Em particular, o sacramento da Eucaristia nos ajuda a vencer a incomunicabilidade com o próximo, fazendo-nos experimentar a mais maravilhosa comunhão com Deus.

 

Evangelho segundo São Marcos 7, 31-37
Tornando a sair da região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galiléia, atravessando o território da Decápole. Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele. Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava corretamente. Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam. No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

Por Pe. Fernando José Cardoso
Neste vigésimo terceiro domingo do tempo comum, mostra-nos a liturgia Jesus curando um surdo que falava com dificuldade. Marcos havia primeiramente individualizado esta cura fora da Galiléia, numa região pagã. Jesus não admite publicidade ao seu redor; toma o surdo-mudo e o leva a um lugar afastado, coloca os dedos em suas orelhas, e com saliva toca a sua boca, olha para o céu dá um gemido e diz: “Efatá” isto é, abre-te. Algumas pessoas poderiam sentir-se chocadas com estes gestos, um tanto grossolanos de Jesus. Porque não usar gestos mais elegantes, porque tocar as orelhas do surdo, porque com a saliva tocar-lhe os lábios? Não podia Jesus organizar e realizar esta cura a distancia com o imperativo da sua voz? Notem bem: Jesus é nosso Deus, e Deus em Cristo! É o Verbo Encarnado, Verbo de Deus que se encarna, ou seja, qualquer ação salvífica de Jesus passa pela encarnação, atinge necessariamente a sua carne e nos chegam através do Seu corpo. É assim, realisticamente que Jesus realizava as suas curas, é desta forma que vão nascer os Sacramentos da Igreja que são administrados em Seu nome. Um sacerdote não pronuncia apenas palavras quando batiza em nome de Cristo, ele derrama água na cabeça do batizado. Um sacerdote não profere apenas a fórmula da unção dos enfermos, ele unge com óleo o doente, e assim todos os sacramentos chegam a nós encarnadamente, através do realismo corpóreo da nossa pessoa. Jesus naquele dia fez um surdo-mudo tornar-se sadio, ouvir e falar. Existem surdez muito mais aguda, profundas e graves com trágicas conseqüências, do que a surdez física. Existe em primeiro lugar, a surdez do coração: nós reclamamos enormemente do silêncio de Deus. Mas estamos dispostos a ouvir mesmo Deus com os nossos ouvidos? Somos capazes de fazer silêncio para distinguir a voz de Deus daquele outro vozerio, que não acrescenta nada de edificante a nossa existência? Muitas vezes se tem a impressão de que nós somos um conjunto enorme de criaturas que falam sem nenhuma realidade edificante a transmitir, e pessoas que são totalmente surdas com relação a Deus. O Evangelho de hoje nos ensina, nos adverte a ouvirmos a voz de Deus, deixando de lado a surdez do coração. Adverte-nos também a não falarmos mal dos outros. Não abrir os lábios para a maledicência, mas para louvarmos e bendizermos a Deus e para apregoar os seus benefícios.

 

«Faz tudo bem feito»
São Lourenço de Brindisi (1559-1619), capuchinho, Doutor da Igreja
11º domingo depois do Pentecostes, Primeira Homilia, 1.9.11-12; Opera omnia, 8, 124.134.136-138 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 286)

A Lei divina narra as obras que o Senhor realizou na criação do mundo e acrescenta: «Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa.» (Gn 1, 31). […] O Evangelho conta a obra da Redenção e da nova Criação e diz também: «Faz tudo bem feito» (Mc 7, 37). […] Seguramente que o fogo, pela sua natureza, não pode irradiar outra coisa que não seja calor: não pode produzir frio. O sol só difunde luz e não pode ser causador de trevas. Da mesma forma, Deus só pode realizar boas obras, visto que é a bondade infinita e a própria luz. É um sol que espalha uma luz infinita, um fogo que dá um calor infinito: «faz tudo bem feito». […] A Lei diz que tudo o que Deus fez era bom e o Evangelho que «faz tudo bem feito». Ora, fazer coisas boas não é fazê-las pura e simplesmente bem. Na verdade, muitos fazem coisas positivas sem as fazerem bem: os hipócritas fazem obras benéficas com mau espírito, com uma intenção perversa e falsa. Deus, pelo contrário, faz tudo bom e bem feito. «O Senhor é justo em todos os Seus caminhos e misericordioso em todas as Suas obras» [Sl 145 (144), 17] […] E se Deus, sabendo que nós descobrimos a alegria no que é bom, fez todas as obras boas para nós e as fez bem, por que não nos propomos fazer de boa vontade apenas obras boas e bem feitas, uma vez que sabemos que é nelas que Deus encontra a Sua alegria?

 

“Tudo o que faz é admirável: faz ouvir os surdos e falar os mudos”
Jean Tauler (cerca de 1300 – 1361), dominicano em Estrasburgo
Sermão 49

Temos de olhar de perto o que é que torna o homem surdo. Por terem prestado ouvidos às insinuações do Inimigo, por terem escutado as suas palavras, o primeiro par dos nossos antepassados foram os primeiros a ensurdeceder. Também nós, depois deles, de tal forma que não podemos nem ouvir nem compreender as amorosas inspirações do Verbo eterno. No entanto, sabemos bem que o Verbo eterno está no fundo do nosso ser, tão inefavelmente perto de nós e em nós que o nosso próprio ser, os nossos pensamentos, tudo o que podemos nomear, dizer ou compreender, tudo isso não está tão perto de nós, não nos é tão intimamente presente como o é o Verbo eterno. E o Verbo fala sem cessar dentro do homem. Mas o homem não ouve tudo isso por causa da grande surdez de que foi atingido… Ao mesmo tempo, ele foi de tal forma atingido nas suas outras faculdades que ficou também mudo e não se conhece a si mesmo. Se quisesse falar do seu interior, não o poderia fazer, porque não sabe onde está nem conhece a sua própria maneira de ser… Que é então este sussurrar perigoso do Inimigo? É toda a desordem que ele te faz ver sob o seu aspecto ilusório e te persuade a aceitar, servindo-se do amor ou da busca das coisas criadas, deste mundo e de tudo o que se prende a ele: bens, honras, os nossos amigos e parente, inclusive a tua própria natureza, numa palavra, tudo o que te traz o gosto por este mundo decaído. De tudo isso é feito o seu sussurrar…
Vem então Nosso Senhor: põe o seu dedo santo na orelha do homem e a saliva na língua, o que faz que o homem reencontre a palavra.

 

“Efatá!”, “abre-te”
23º do Tempo Comum (Mc 7, 31-37), escrito por Dom Santiago Agrelo OFM, arcebispo de Tánger (Marrocos).

Naquele tempo, Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.

Efatá é o nome de uma escola em Tánger, de educação especial para crianças surdas e mudas. Efatá foi a palavra que Jesus pronunciou antes que o surdo experimentasse que “seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”. E este é o nome que recebe na celebração do Batismo cristão um rito que recorda e atualiza o que Jesus fez quando curou aquele surdo que gaguejava. Naquele dia, o celebrante, tocando com o dedo polegar seus ouvidos e sua boca, disse: “O Senhor Jesus, que fez os surdos ouvirem e os mudos falarem, lhe conceda que possa logo ouvir sua Palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus Pai.” Efatá é uma palavra chave na liturgia deste domingo; palavra que o Senhor pronuncia hoje para todos e que tem, para cada um de nós, uma ressonância pessoal. Você pode intuir que esta Efatá, foi a palavra dita pelo Senhor quando o mar se abriu para a passagem dos escravos rumo à liberdade. Vossa voz, ó Deus, ressoou no deserto: “Efatá!”, para que o céu desse seu pão e a rocha desse sua água. “Efatá!”, dissestes, e abristes, como com uma faca, as águas do Jordão, que se tornaram porta pela qual entraram vossos filhos à terra das vossas promessas. “Efatá!”, disse Deus, e se abriram os céus sobre o batismo de Jesus e sobre a humildade do seu batismo; e se abriu o paraíso sobre a cruz de Jesus, e o paraíso ficou à mercê dos ladrões; e se abriram os sepulcros, e os vencidos fugiram da morte. Não diga “Abrir-se-ão os olhos do cego e os ouvidos do surdo”, porque a palavra se cumpriu, a profecia já é evangelho, a promessa se tornou realidade e agora, com Cristo, o Senhor, em comunhão com Cristo ressuscitado, você, que estava morto, vê e escuta e entra com Ele pelas portas abertas de Deus. “Louva, alma minha, o Senhor!”

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