Natividade de Nossa Senhora – 08 de Setembro

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Mateus 1, 1-16.18-23

Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos; Judá gerou, de Tamar, Peres e Zera; Peres gerou Hesron; Hesron gerou Rame; Rame gerou Aminadab; Aminadab gerou Nachon; Nachon gerou Salmon; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão; Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Uzias; Uzias gerou Jotam; Jotam gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; Josias gerou Jeconias e seus irmãos, na época da deportação para Babilônia. Depois da deportação para Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim gerou Azur; Azur gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleázar; Eleázar gerou Matan; Matan gerou Jacob. Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo. Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus conosco.

Hoje, oito de setembro, nós celebramos a Natividade, isto é, o nascimento da Virgem Maria. Não se trata de uma festa escriturística ou bíblica, nada há na Escritura a respeito do nascimento de Nossa Senhora. Não conhecemos com exatidão os nomes de seus pais, que uma tradição ocidental convencionou chamar Joaquim e Ana. Não sabemos onde Nossa Senhora nasceu, em que ano ela nasceu, e com quantos anos ela deixou este mundo. Com outras palavras ignoramos a extensão da vida da Virgem Maria. Eu gostaria de transmitir a todos hoje um aspecto de Nossa Senhora que me chamou muito a atenção ultimamente e me foi transmitido por um sacerdote profundo. Dizia-me: “Padre já teve em mente o seguinte: a pessoa mais querida de Deus, a pessoa que hoje depois de Jesus Cristo, é a mais celebrada na Igreja e a pessoa mais desconhecida?” O que terá feito Nossa Senhora durante toda a vida que esteve neste mundo? Absolutamente nada de extraordinário, ninguém deve ter dado muita importância a Nossa Senhora, ninguém deve ter pedido ou suplicado graça alguma a Nossa Senhora. Deve ter vivido uma vida de família, e depois de viuvez e solidão, bastante provada para os parâmetros deste mundo aqui. Deus não terá poupado Nossa Senhora como nem mesmo Jesus Cristo foi libertado de suas angustias e suas dores. A pessoa mais querida, a criatura mais ovacionada na nossa Igreja, foi uma mulher do povo, que cresceu no meio do povo, uma mulher que jamais se distinguiu do povo, em vida nunca se sobressaiu por nada, uma mulher que simplesmente levou uma vida de dona de casa, que nunca realizou nada de extraordinário, uma vida totalmente escondida com Cristo em Deus. Hoje esta mulher é aclamada. No mundo inteiro hoje, nove meses depois de oito de dezembro, depois de termos celebrado a sua Imaculada Conceição, celebramos o seu nascimento. No dia da Assunção celebramos outro nascimento: o seu nascimento para a Glória. Poderíamos dizer que Deus esconde para si dos olhares curiosos deste mundo, todas as pessoas que Ele escolhe, ou que Ele ama com carinho todo especial.

 

Hoje desponta a aurora da salvação
Santo André de Creta (660-740), monge e bispo
Homilia 1, para a Natividade da Santa Mãe de Deus; PG 97, 805 (a partir da trad. do breviário francês)

Já não vivemos sob a escravidão dos elementos do mundo, como diz o apóstolo Paulo. Já não estamos submetidos à letra da Lei (Col 2, 8; Rom 7, 6). Com efeito, é nisto que consiste o essencial das graças de Cristo; é aqui que o mistério se manifesta e que a natureza é renovada: Deus fez-se homem e a humanidade assim assumida é divinizada. Foi, portanto, necessário que a esplêndida habitação de Deus, tão visível entre os homens, fosse precedida por uma introdução à alegria, de que decorreria para nós o magnífico dom da salvação. Tal é o objeto da festa que celebramos: o nascimento da Mãe de Deus inaugura o mistério que tem por conclusão e termo a união do Verbo com a carne. […] Agora que a Virgem acaba de nascer e se prepara para ser Mãe do Rei universal de todos os séculos […], é o momento em que recebemos do Verbo uma dupla mercê: somos conduzidos à verdade e libertados da vida de escravidão sob a letra da Lei. Como? Por que forma? Sem dúvida nenhuma, porque as sombras se desvanecem com a chegada da luz, porque a graça faz com que a liberdade substitua a letra. A festa que celebramos está nesta fronteira, porque faz a ligação entre a verdade e as imagens que a prefiguram, substitui o que era velho por coisas novas. […] Que toda a criação cante e dance e dê o seu melhor contributo para a alegria deste dia! Que o céu e a terra formem hoje uma única assembléia! Que tudo o que está no mundo e acima do mundo se una no mesmo concerto de festa. Com efeito, hoje o santuário criado eleva-se até onde residirá o Criador do universo. E uma criatura é preparada, por esta disposição inteiramente nova, para oferecer ao Criador uma morada santa.

 

Festa da Natividade de Nossa Senhora
Santo Antônio de Pádua  

1. Digamos: A gloriosa Virgem Maria foi como a estrela da manhã entre as nuvens. Escreve o Eclesiástico: A beleza do céu é a glória das estrelas, que ilumina o mundo (Eclo 43, 10). Nestas três palavras observam-se os três fatos que resplandeceram admiravelmente na Natividade de Maria Santíssima. Primeiramente, a exultação dos Anjos, quando se diz: A beleza do céu. Conta-se que um homem santo, mergulhado em devota oração, ouviu a doce melodia dum canto angélico no céu. Passado um ano, no mesmo dia, voltou a ouvi-lo e perguntou ao Senhor que lhe revelasse o que vinha a ser aquilo. Foi-lhe respondido que nesse dia nascera Maria Santíssima. Por esse motivo, os Anjos no céu cantavam louvores ao Senhor. Esta a razão de se celebrar nesse dia a Natividade da gloriosa Virgem. Na segunda palavra observa-se o segundo fato, a pureza da sua Natividade, quando se afirma: A glória das estrelas. Assim como uma estrela difere de outra estrela em claridade (1Coríntios 15, 41), assim a Natividade da Virgem Maria difere da natividade de todos os santos. Na terceira palavra observa-se o terceiro fato, a iluminação de todo o mundo, quando se diz: Que ilumina o mundo. A natividade da gloriosa Virgem iluminou o mundo, coberto de trevas e da sombra da morte. E por isso diz bem o Eclesiástico: Como estrela da manhã no meio da névoa etc. Maria Santíssima, mensageira do Salvador e perfeita em tudo.

2. A estrela da manhã é chamada de Lúcifer, por luzir mais claramente entre todos os astros. Por isso é chamada a estrela por excelência. Lúcifer, precedendo o sol e anunciando a manhã, com a luz do seu fulgor afasta as trevas da noite. A estrela da manhã ou Lúcifer é Maria Santíssima, que, nascida no meio da névoa, afugentou a névoa tenebrosa, e na manhã da graça anunciou o sol da justiça aos que habitavam nas trevas. Dela diz o Senhor a Jó: És tu porventura que fazes aparecer a seu tempo a estrela da manhã (Jó 38, 32). Quando chegou o tempo da misericórdia (Salmo 101, 14), o tempo de edificar a casa do Senhor, o tempo aceitável e o dia da salvação, o Senhor fez aparecer a estrela da manhã, Maria Santíssima, para luz dos povos. Os povos devem dizer o que disseram a Judite, como se lê no seu livro: O Senhor abençoou-te com a sua fortaleza, porque ele por ti aniquilou os nossos inimigos… Ó filha, tu és bendita do Senhor Deus altíssimo, sobre todas as mulheres que há sobre a terra. Bendito seja o Senhor, que criou o céu e a terra, que te dirigiu para cortares a cabeça ao príncipe dos nossos inimigos. Porque hoje engrandeceu o teu nome tanto, que nunca o teu louvor se apartará da boca dos homens (Judite 13, 22-25). Foi, portanto, Maria Santíssima, na sua Natividade, como a estrela da manhã. Dela diz ainda Isaías: Sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz (Isaías 11, 1). Repare-se que Maria Santíssima se chama vara, por causa das cinco propriedades que esta possui: é longa, reta, sólida, grácil e flexível. Maria Santíssima foi longa na contemplação, reta na perfeição da justiça, sólida na estabilidade do entendimento, grácil na pobreza, flexível na humildade. Esta vara saiu da raiz de Jessé, pai de Davi, de quem proveio Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo (Mateus 1, 16). Por isso se lê no Evangelho de hoje: Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi (Mateus 1, 1).

3. Sairá uma vara da raiz de Jessé e uma flor sairá das suas raízes. Vejamos o que significam, no sentido moral, as três palavras: raiz, vara, flor. A raiz significa a humildade de coração; a vara, a retidão da confissão e a disciplina da satisfação; a flor, a esperança da felicidade eterna. Jessé interpreta-se ilha ou sacrifício, e significa o penitente, cujo espírito deve ser uma espécie de ilha. Chama-se ilha, por estar situado no sal, isto é, no mar. O espírito do penitente situa-se no mar, ou seja, na amargura. O penitente é batido pelas ondas das tentações e, todavia, fica firme. E oferece ao Senhor um sacrifício em odor de suavidade. A raiz de Jessé é a humildade da contrição, de que sai a vara da confissão reta e a disciplina da discreta mortificação. E observe-se que a flor não brota do cimo da vara, mas da raiz. Uma flor brotará da sua raiz, porque a flor, ou a esperança da felicidade eterna, brota, não da mortificação do corpo, mas da humildade do espírito. Com tudo isto concorda o que se lê no Evangelho de hoje, em que São Mateus, descrevendo a geração de Cristo, primeiro põe Abraão, em segundo lugar Davi, em terceiro a transmigração da Babilônia. Abraão que disse: Falarei ao meu Senhor, embora eu seja pó e cinza (Gênesis 18, 27), designa a humildade do coração; Davi, cujo coração reto esteve com o Senhor: Encontrei Davi, um homem segundo o meu coração (Atos 13, 22), a retidão da confissão; a transmigração de Babilônia, a disciplina da mortificação e a tolerância da tribulação. Se existirem em ti estas três gerações, conseguirás a quarta geração, a de Jesus Cristo, que nasceu da Virgem Maria, de cuja Natividade se diz hoje: Como a estrela da manhã no meio da névoa.

4. E enfim: E como a lua cheia brilha durante a sua vida. Maria Santíssima chama-se lua cheia, porque perfeita sob todos os aspectos. A lua é imperfeita no quarto crescente ou minguante, porque tem mancha e pontas. Mas a gloriosa Virgem nem na sua Natividade teve mancha, porque foi santificada no ventre materno e guardada pelos Anjos, nem durante a vida possuiu as pontas da soberba, e, por isso, brilha plena e perfeita. Chama-se luz, por diluir as trevas. Rogamos-te, portanto, Senhora nossa, que tu, Estrela da manhã, afastes com o teu esplendor a névoa da sugestão diabólica, que encobre a terra do nosso espírito; tu que és a lua cheia, enchas o nosso vazio, diluas as trevas dos nossos pecados, a fim de que mereçamos chegar à plenitude da vida eterna, à luz da glória sem falha. Auxilie-nos o Senhor, que te criou para seres a nossa luz. Para nascer de ti, fez-te nascer hoje. A Ele seja prestada honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém.   Santo Antônio de Lisboa, Obras Completas, Lello & Irmão – Editores, 1987, Volume I, pp. 901-905. Compilação: Frei Antônio Corniatti, OFM Conv

 

Natividade de Nossa Senhora
P. António Vieira, Sermão do Nascimento da Mãe de Deus, pregado em Odivelas

Maria sabe para que nasceu
Se eu licitamente me pudera queixar do Evangelista, neste dia me queixara, e cuido que com razão. Cala nele o Evangelho três coisas não pequenas, que devera dizer, e diz só uma, posto que grande, que devera calar. A obrigação dos historiadores dos nascimentos das grandes personagens é dizer o lugar onde nasceram, o tempo em que nasceram, e os pais de quem nasceram. E celebrando o mundo hoje o Nascimento da maior Pessoa depois de Deus, que saiu à luz do mesmo mundo, o Evangelho que conta e nos propõe a Igreja Católica: nem do lugar, nem do tempo, nem dos pais de que nasceu, faz menção ou memória alguma. Isto é o que cala o Evangelista que devera dizer. E que é o que diz, que devera calar? – Diz que de Maria, nasceu Jesus. É verdade que antecipando os olhos ao futuro, a soberana Princesa que hoje nasce, nasce para que d’Ela haja de nascer Jesus; mas se o Evangelista cala o mundo, se cala o donde, e se cala o de quem nasceu: porque diz o para quê? Bem se mostra que a pena que isto escreveu foi tirada das asas do Espírito Santo… Nos nascimentos humanos, fazem grande caso os filhos de Adão (…) da grandeza da terra e da pátria onde nascem; estimam, e estimam-se sobretudo da nobreza da geração e pais de que nascem. Mas quando nasce A que o Espírito Santo preveniu com a Graça Original para Esposa sua, não quer o mesmo Espírito Santo que se diga que nasceu na sexta idade do mundo, e no quarto ano da Olimpíada cento e noventa; nem que nasceu na cidade de Nazaré, chamada por antonomásia Flor da Galiléia; nem que nasceu de Joaquim e Ana – nos quais se uniu desde Abraão e David por legítima e continuada descendência o sangue de todos os Patriarcas e Reis -, e só manda escrever, que nasce A de que nasceu Jesus. Por quê? – Porque só quando se sabe o para que nasceu cada um, se pode fazer verdadeiro juízo do seu nascimento. Quereis saber quão feliz, quão alto e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? – Vede o para que nasceu. Nasceu para que d’Ela nascesse Deus: da qual nasceu Jesus. (…).

Figuras de Maria
Nasce hoje Eva para meter debaixo do pé e quebrar a cabeça à antiga e enganadora Serpente, que com o veneno original tinha infeccionado toda a sua descendência. Nasce hoje Sara para ser Mãe universal da Fé, e de todos os que desde então haviam de esperar escuramente, e depois crer com toda a luz, a divindade do Messias. Nasce Rebeca para tirar a bênção do cego Isaac ao rústico e fero Isaú, e dá-la ao manso e religioso Jacob. Nasce Raquel para ser a mais formosa, a mais servida e mais amada que Lia, mas como Lia a mais fecunda. Nasce Ester para ser a maior Senhora do Mundo, a mais respeitada do seu Supremo Monarca, isenta de todas as leis e superior a todas. Nasce Débora, a famosa guerreira, a quem seguiam como soldados em ordenados esquadrões as estrelas do céu, e por quem os soldados venciam sem ferida como estrelas na terra. Nasce Judite para libertar dos exércitos inimigos a sitiada Betúlia, e arvorar sobre seus muros, cortada com a própria espada, a cabeça do soberbo Holofernes. Nasce Abigail para convencer com a sua prudência e aplacar com a sua piedade, não a David descortesmente ofendido, mas ao mesmo Deus das vinganças justamente irado. Nasce Rute não só para colher, mas para regar com orvalho do céu e criar as espigas, de que irá fazer o pão que sustentará o mundo. Nasce finalmente hoje Maria, não a irmã, mas a Mãe do verdadeiro Moisés, para passar o Mar Vermelho a pé enxuto, para ser a primeira que cante o triunfo da tirania do Faraó, e a primeira que ponha os passos seguros no caminho da Terra da Promissão.(…) Nasce (ide agora lembrando-vos ou desenrolando as figuras). Nasce para se Arca de Noé, em que o gênero humano afogado no dilúvio se reparasse do naufrágio universal do mundo; nasce para ser Escada de Jacob, e não para que os descuidados de sua salvação se não aproveitassem d’Ela, como o mesmo Jacob dormindo, mas para que vigilantes e seguros subam por Ela da terra ao Céu; nasce como Vara de Moisés, para ser o instrumento de todas as maravilhas de Deus, e a segunda jurisdição, fama e alegria de sua Onipotência; nasce para ser o verdadeiro e infalível Propiciatório em que Deus, ofendido e irado, trocada a justiça em misericórdia, O tenhamos sempre propício; nasce para ser Trono do Rei dos reis, o Salomão divino, ao qual trono as três hierarquias das criaturas visíveis e as três das invisíveis servem de peanha, não humildes como degraus por se confessarem sujeitas a sua grandeza, mas soberbas como leões por acrescentarem altura a sua majestade; nasce para ser Torre fortíssima de David, fornecida e armada de milhares de escudos, tão prontos, sempre à nossa defesa, como seguros e impenetráveis a todos os golpes de nossos inimigos; nasce para ser verdadeira Arca do Testamento, coroada com as duas coroas de Mãe e Virgem, dentro da qual não só se conservam inteiras as Tábuas da Lei, mas esteve e está encerrado o Maná que desceu do Céu, donde quotidianamente O podemos colher, por isso coberto e encoberto, mas não fechado. Nasce para ser, não uma, senão as duas árvores famosas do Paraíso terreal: a da Vida e a da Ciência; porque d’Ela havia de nascer o Bendito Fruto em que estão depositados todos os tesouros da Ciência e Sabedoria de Deus, e o da Vida da Graça, no mesmo Paraíso perdida, e por Ela restaurada; Nasce para ser em seus passos como os daquelas duas colunas que guiaram o Povo escolhido até à Terra da Promissão: uma de nuvem para nos amparar e defender dos raios do Sol de Justiça; e outra de fogo, para nos iluminar na noite escura desta vida, até nos colocar seguros no dia eterno da Glória. Nasce, enfim, para ser Vara de Jessé, de cujas raízes havia de nascer a mesma Vara – Maria – que hoje nasce, e a mesma Flor – Cristo Jesus – que d ‘Ela nasceu. Auxílio dos Cristãos Para todos estes bens nasce hoje esta grande menina, posto que entre figuras e enigmas, como Sol entre nuvens. (…) Infinitos são os nomes, ou sobrenomes, com que a mesma Virgem Maria costuma ser invocada e louvada, nascidos todos (notai) na etimologia dos mesmos benefícios, que é o mais nobre e sublime nascimento que eles podem ter. (…) Tais são todos os nomes e sobrenomes com que a Cristandade invoca, venera e dão graças à Virgem Maria, tirados todos e fundados nas etimologias dos benefícios já experimentados e recebidos, para obra dos quais hoje nasce ao mundo. Perguntai aos enfermos para que nasce esta Celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para SENHORA DA SAÚDE; perguntai aos pobres, dirão que nasce para SENHORA DOS REMÉDIOS; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para SENHORA DO AMPARO; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para SENHORA DA CONSOLAÇÃO; perguntai aos tristes, dirão que nasce para SENHORA DOS PRAZERES; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para SENHORA DA ESPERANÇA. Os cegos dirão que nasce para SENHORA DA LUZ; os discordes: para SENHORA DA PAZ; os desencaminhados: para SENHORA DA GUIA; os cativos: para SENHORA DO LIVRAMENTO; os cercados: para SENHORA DA VITÓRIA. Dirão os pleiteantes que nasce para SENHORA DO BOM DESPACHO; os navegantes: para SENHORA DA BOA VIAGEM; os temerosos da sua fortuna: para SENHORA DO BOM SUCESSO; os desconfiados da vida: para SENHORA DA BOA MORTE; os pecadores todos: para SENHORA DA GRAÇA; e todos os seus devotos: para SENHORA DA GLÓRIA. E se todas estas vozes se unirem em uma só voz (…), dirão que nasce (u.) para ser MARIA E MÃE DE JESUS. (…)

 

Deus quis imprimir em Maria um referencial
“Vinde, todas as nações, vinde, homens de todas as raças, línguas e idades, de todas as condições: com jubilo celebremos a natividade da alegria do mundo inteiro!” Este é o trecho inicial da Homilia de São João Damasceno por ocasião da festa da Natividade.

No ano 431 DC, após o Concílio de Éfeso, onde foi declarado o Dogma da Santa Mãe de Deus, surge na Igreja o interesse de recuperar as tradições Marianas.

O portal Canção Nova fez uma entrevista exclusiva com Padre Antônio Xavier, que faz seu mestrado em Ciências Bíblicas em Jerusalém. Ele irá nos introduzir no contexto desta festa que hoje celebramos.

Ele nos conta que existe um apócrifo chamado Proto Evangelho de S. Tiago que narra a história de São Joaquim e Santana, os acontecimentos que antecedem o nascimento de Maria, tratando inclusive da sua Imaculada Conceição e da sua natividade: “Este Evangelho apócrifo nos informa que São Joaquim era um sacerdote do Templo e que Ana já de idade avançada não tinha tido nenhum filho.”

S. Tiago indica o local do Nascimento da Virgem Maria, que seria numa casa nas proximidades do Templo em Jerusalém. Ali foi construída uma pequena capela nos primeiros séculos do Cristianismo.

Esta data da natividade da Virgem foi instituída no século quinto, no mesmo dia em que foi feita a dedicação da pequena igreja, dia 08 de setembro: “Ressalto que esta data também define o dia da Imaculada Conceição, dia 8 de Dezembro, são exatamente 9 meses, da sua concepção ao nascimento.”

Esta igreja existe ate hoje apesar de ter sido reconstruída muitas vezes: “É importante lembrar e celebrar a Natividade de Nossa Senhora, porque sua história tem seu cume na pessoa de Jesus. Não nos esqueçamos que ela foi preparada para ser a Mãe do Messias.”

Deus em Maria prepara o caminho para Jesus: “Era natural que Ele também nascesse de alguém puro e santo, não que alguém que nasça de maneira natural não possa ter uma vida Santa, porém Deus quis imprimir um referencial na Virgem Maria. De certa forma é o fato dela ser a Mãe de Jesus que já a coloca numa posição diferente.”

“Ela é gente, pessoa humana como nos somos”, ressalta o sacerdote: “Mas é importante atentarmos que a dignidade individual de cada um é impressa por fatores particulares, por detalhes e não somente pela natureza humana.”

Esta festa foi difusa pelo mundo inteiro, e chega a Roma por volta do seculo XVII, assim ganhou a forca que temos hoje: “Maria deu a luz a Jesus, este lugar e de extrema importância; Ela não deu a Jesus simplesmente a vida, ela preparou o caminho.”

“Nossa Senhora é uma figura singular na historia da Salvação, a mais ninguém foi dada essa oportunidade, nem antes, nem durante, nem depois. Jesus se encarnou uma única vez.” Ressalta padre Xavier.

Maria narra os fatos que eram secretos. Conheceram Jesus o profeta, mas é Maria quem narra como se deu o seu nascimento no Evangelho de São Lucas, porem tudo isso apos sua ascensão ao Céu: “Maria guardava tudo no coração. As pessoas acreditavam em Jesus por Jesus e não porque Maria fazia propaganda Dele, não foi feito um marketing na pessoa de Cristo. Não foi isso que sua mãe fez.”

Maria era uma mulher de intimidade com o Pai, uma mulher de profunda oração: “Nossa confiança em Deus não esta baseada na quantidade de respostas que temos, mas na certeza de que Ele nos respondera , a certeza de que Deus nos mostrara o que e necessário.”

A Virgem e modelo para nos cristãos e nos indica um caminho a seguir, nos aponta o sacerdote: “As dúvidas não a impediram de seguir em frente. Hoje em dia as pessoas mudam de ideia quando pensam que não encontraram respostas para tudo, ai começam a achar que aquilo não e valido e que é preciso mudar o percurso. A resposta que eu estou procurando existe e tenho que caminhar de encontro a ela. Olhemos para Maria, o principal para ela, era estar sempre agindo, não se deixava derrotar pelo que não era capaz de compreender.”

“Santo é o Pai, que quis que em ti e por ti se cumprisse o mistério que predeterminara antes de todos os séculos. Tu és a única esperança de alegria, a protetora da vida e, junto de teu Filho, a reconciliadora e firme garantia da salvação.” São João Damasceno

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