XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Pe. Inácio José Schuster

O que contamina o homem
Deuteronômio 4, 1-2. 6-8; Tiago 1, 17-18. 21. 27; Marcos 7, 1-8. 14-15. 21-23

“Escutai, todos, e compreendei: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulhos, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro e são elas que tornam impuro o homem”. Na passagem do Evangelho deste domingo, Jesus arranca pela raiz a tendência a dar mais importância aos gestos e aos ritos exteriores que às disposições do coração, o desejo de aparentar que se é — mais que de sê-lo — bom. Em resumo, a hipocrisia e o formalismo. Mas podemos tirar hoje desta página do Evangelho um ensinamento de ordem não só individual, mas também social e coletivo. A distorção que Jesus denunciava de dar mais importância à limpeza exterior que à pureza do coração se reproduz hoje em escala mundial. Há muitíssima preocupação pela contaminação exterior e física da atmosfera, da água, pelo buraco de ozônio; e pelo contrário, silêncio quase absoluto sobre a contaminação interior e moral. Nós nos indignamos ao ver imagens de pássaros marinhos que saem de águas contaminadas por manchas de petróleo, cobertos de óleo, incapazes de voar, mas não fazemos o mesmo por nossas crianças, precocemente viciados e apagados por causa do manto de malícia que já se estende sobre cada aspecto da vida. Que fique bem claro: não se trata de opor entre si os dois tipos de contaminação. A luta contra a contaminação física e o cuidado da higiene é um sinal de progresso e de civilização ao que não se pode renunciar a nenhum preço. Jesus não disse, naquela ocasião, que não era preciso lavar as mãos ou os utensílios e tudo o demais; disse que isso, por si só, não basta; não vai à raiz do mal. Jesus lança então o programa de uma ecologia do coração. Tomemos alguma das coisas «contaminadoras» enumeradas por Jesus, a calúnia com o vício a ela emparentado de dizer maldades à custa do próximo. Queremos fazer de verdade um trabalho de saneamento do coração? Empreendamos uma luta sem tréguas contra nosso costume de fofocar, de fazer críticas, de participar em murmurações contra pessoas ausentes, de lançar juízos rapidamente. Isto é um veneno dificílimo de neutralizar, uma vez difundido. Uma vez, uma mulher foi confessar-se com São Felipe Néri acusando-se de ter falado mal de algumas pessoas. O santo a absolveu, mas lhe deu uma estranha penitência. Disse-lhe que fosse para casa, tomasse uma galinha e voltasse onde ele estava, despenando-a pouco a pouco ao longo do caminho. Quando chegou de novo ante ele, este lhe disse: «Agora volte para casa e recolha uma por uma as penas que você deixou cair quando vinha para cá». «Impossível! — exclamou a mulher. O vento já as dispersou em todas as direções.» É aí onde queria chegar São Felipe. «Viu – disse-lhe — como é impossível recolher as penas uma vez que o vento as levou? Igualmente, é impossível retirar as murmurações e calúnias uma vez que saíram da boca.»

 

Evangelho segundo São Marcos 7, 1-8.14-15.21-23
Os fariseus e alguns doutores da Lei vindos de Jerusalém reuniram-se à volta de Jesus, e viram que vários dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar. É que os fariseus e todos os judeus em geral não comem sem ter lavado e esfregado bem as mãos, conforme a tradição dos antigos; ao voltar da praça pública, não comem sem se lavar; e há muitos outros costumes que seguem, por tradição: lavagem das taças, dos jarros e das vasilhas de cobre. Perguntaram-lhe, pois, os fariseus e doutores da Lei: «Porque é que os teus discípulos não obedecem à tradição dos antigos e tomam alimento com as mãos impuras?» Respondeu: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos. Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.» Chamando de novo a multidão, dizia: «Ouvi-me todos e procurai entender. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios. Todas estas maldades saem de dentro e tornam o homem impuro.»

Neste vigésimo segundo domingo do tempo comum, realiza Jesus uma forte denuncia contra o formalismo religioso. A ocasião lhe advém do fato de os discípulos seus comerem com mãos impuras, isto é, comerem sem terem por primeiro passado pelo lavabo. Para os fariseus isto era uma transgressão violenta das tradições dos antigos. Marcos enumera algumas destas tradições, às quais se dava maior importância, do que a vontade de Deus expressa no Decálogo. Esta denúncia de Jesus tem a sua atualidade nos dias de hoje. Através deste texto vigoroso de Marcos, Jesus denuncia em primeiro lugar uma devoção farisaica Para algumas pessoas, e fato, o estarem muito próxima da Igreja as leva a estarem longe de Deus. Uma devoção farisaica consiste em se preocupar com as aparências e não cuidar da essência e do coração. Abandonar uma religião do coração, em prol de uma religião aparente. Ao lado da devoção farisaica, existe a devoção supersticiosa, ou a religiosidade supersticiosa. Existem pessoas que buscam Deus desta maneira, e ao lado da religião supersticiosa, existe a religião interesseira. O que é uma religião interesseira? É uma espécie de comércio que se estabelece com Deus; eu dou determinadas coisas à Deus, faço determinadas penitências, me privo de algum bem útil para a minha existência, afim de obter Dele um complemento de graça, algum favor que eu penso não poder receber de outra maneira. Devoção ou religião farisaica, religião supersticiosa, religião interesseira e acrescentaria uma quarta religião que Jesus denuncia também com vigor: a religião narcisista, isto é, eu pensar que para Deus, existo apenas “eu”. Mas eu sou objeto de minhas orações. Eu rezo, mas peço apenas para mim mesmo. Eu rezo, mas eu não penso nos demais. Eu não penso na abrangência da Igreja, eu não penso nos grandes problemas que assolam o país, a comunidade, ou até mesmo a internacionalidade toda inteira. Jesus rejeita todo este tipo de religiosidade falsa e aparente, que sacrifica a verdadeira religião que a busca sincera da vontade de Deus em todas as nossas ações. Juntamente com este rechaço, rechaça também um certo complexo de culpabilidade. Existem pessoas que se sentem culpadas sem terem motivos para tanto. Se uma pessoa, por exemplo, não pode ir à missa dominical, por um motivo grave, não deve se sentir culpada; mas muitas vezes se sacrifica um verdadeiro sentimento de culpabilidade. Sim, eu devo sentir-me culpado verdadeiramente, eu sou um pecador. Jesus, através deste Evangelho, coloca as coisas em dia e mostra o lado da verdadeira religião.

 

A paz procede do coração de cada homem
Concílio Vaticano II / Constituição dogmática sobre a Igreja no mundo actual, «Gaudium et Spes», § 82

As sondagens até agora diligente e incansavelmente levadas a cabo acerca dos problemas da paz e do desarmamento, bem como as reuniões internacionais que trataram deste assunto, devem ser consideradas os primeiros passos para a resolução de tão graves problemas e devem no futuro promover-se ainda com mais empenho, para se obterem resultados práticos. No entanto, evitem os homens entregar-se apenas aos esforços de alguns, sem se preocuparem com a própria mentalidade. […] Nada aproveitarão com dedicar-se à edificação da paz enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os homens e os opuserem uns aos outros. Donde a enorme necessidade de uma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. Aqueles que se consagram à obra da educação, sobretudo da juventude, ou que formam a opinião pública, considerem como gravíssimo dever o de procurar formar as mentalidades de todos para novos sentimentos pacíficos. Todos nós temos, com efeito, de reformar o nosso coração, com os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade.

 

Transplante de coração
Meditação do Pe. Pedro García, missionário claretiano
(Mc 7, 1-23) 22º do Tempo Comum

O evangelho que Marcos nos apresenta neste domingo é interessante e nos ensina uma lição, aparentemente muito elementar, mas que tem uma grande repercussão na vida do homem, especialmente do cristão. Tudo começa por culpa dos próprios escribas e fariseus, mestres de Israel, cujas práticas religiosas – rigorosas, infantis e até ridículas muitas vezes, inventadas por eles mesmos ou recebidas dos seus antepassados – chocavam com a liberdade saudável, equânime e séria que Jesus praticava com seus discípulos. Jesus se atém à Lei, enquanto os escribas e fariseus a desvirtuam com seus acréscimos tão divertidos… Assim, começam perguntando para Jesus: “Por que os teus discípulos – não se atrevem a dizer-lhe: ‘começando por ti’ – não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” (Mc 7, 5). A resposta de Jesus poderia aparecer imediatamente depois, mas Marcos – que escreve em Roma, para os romanos que não conhecem os costumes de Israel – acrescenta um inciso muito interessante: “Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre” (Mc 7, 3-4). Como percebem que Jesus não se importa com semelhantes bobagens, perguntam-lhe quase furiosos: “Por que teus discípulos comem com as mãos imundas, sem se importarem com a tradição dos antigos?”. A resposta de Jesus vai ser contundente: “E por que vós, por conservar esses costumes dos homens, deixais passar despercebido o mandato de Deus? Sois um povo que honra Deus com os lábios, mas tendes o coração bem longe d’Ele”. Jesus não quer continuar discutindo; prefere voltar-se aos discípulos e às pessoas simples que o rodeiam, para ensinar-lhes uma verdade muito profunda. “Vamos ver se todos me entendem bem! Nada do que entra no homem o torna mau, mas o que sai do homem é que o mancha e o torna mau de verdade. Porque, vejamos: onde nascem as coisas ruins que os homens fazem? Nascem dentro ou fora do homem? Não é verdade que saem de dentro? Porque de dentro, ou seja, do coração, saem todas as más intenções: as fornicações, os roubos, os homicídios, os adultérios, a avareza, a maldade, o engano, a desonestidade, a inveja, a calúnia, a soberba. De onde saem todas estas ações, se não é do coração? Todos estes atos maus – e não o fato de comer sem lavar as mãos – são os que mancham de verdade uma pessoa!…” Jesus não tinha estudado psicologia em nenhuma universidade. Mas Ele, o formador do coração do homem e observador muito atento sempre, ganhava de qualquer professor de psicologia… Efetivamente, podemos considerar cada ação que fazemos como uma criatura que nasce de nós. Nós a concebemos em nossa mente e gestamos em nosso coração. Pensamos nela mil vezes antes de levá-la à prática. Analisamos os prós e contras. Realizá-la é como dar à luz. Nasce a criatura que concebemos voluntariamente. Então, entra em jogo a sinceridade conosco mesmos: uma ação boa? Teve uma gestação muito feliz dentro da nossa cabeça e do nosso coração. Uma ação ruim? Teve, infelizmente também, uma gestação muito longa. Por isso mesmo, somos responsáveis por nossas ações, tanto pelas boas quanto pelas ruins… É muito certo aquele princípio de psicologia e de moral aplicado aos males que uma pessoa comete e dos quais Jesus nos fala neste evangelho tão grave: “Ninguém se torna mau de repente. Aqueles que caem em coisas muito graves começam por coisas muito pequenas”. Por onde se começa? Normalmente, por um simples pensamento: “Eu me daria bem se fizesse isso…!”. Já está dentro a semente do mal. Depois, chega o momento de pensar mil vezes naquilo e alegrar-nos com isso: “E se eu fizesse mesmo?”. Finalmente, chega a hora de realizá-lo: “E por que não? Então, claro que sim!”. Este é o processo do qual Jesus nos fala hoje: de dentro, de dentro é que vem todo o mal!… Pois bem, se queremos evitar o mal ou retificá-lo depois de cometer a burrada, virá o momento de voltar à razão e, sobretudo, ao próprio Jesus Cristo. Primeiramente à razão. E aqui vale a pena lembrar os versos do poeta latino: “Longe com os princípios! A medicina chega tarde, quando os males cresceram muito pelo atraso do remédio…”. É preciso frear o quanto antes o caminho do pensamento e do desejo. Se olharmos para Jesus Cristo, quem nos vem à memória é São Paulo: “Tende em vós os mesmos sentimentos do Senhor Jesus”. Hoje, gostaríamos de traduzir este desejo do Apóstolo com uma expressão como esta: um “transplante de coração”! Que desapareça de nosso peito esse nosso coração tão cheio de imperfeições; que o substituamos pelo coração do próprio Cristo. Este sim que seria o remédio dos remédios… Senhor Jesus Cristo! O mundo padece de muitos males, é verdade, e vós diagnosticais acertadamente sua origem mais profunda. Por que não transformais nosso coração? Por que os que são vossos – nós, pelo menos – não pensamos como vós, não somos puros, bondosos e generosos como vós, para não realizar mais que obras boas que curariam o mundo?… Jesus Cristo, cirurgião divino, transformai nosso coração!

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda