Escritos que tratam de aparições e revelações particulares

É VERDADE QUE OS ESCRITOS QUE TRATAM DE APARIÇÕES E REVELAÇÕES PARTICULARES NÃO PRECISAM DA LICENÇA DO ORDINÁRIO LOCAL PARA SUA DIVULGAÇÃO?  
Pe. Inácio José Schuster
Vigário Geral da Diocese de Novo Hamburgo e Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico Regional Sul 3 de Porto Alegre

Não é verdade. A reforma codicial de 1983 reorganizou a disciplina que tinha sido tratada de forma ampla pelo Papa Paulo VI e no cânon 824 § 2, se prescreve categoricamente: “o que neste título se estabelece sobre os livros (necessidade de licença e aprovação do Ordinário Local próprio do autor do livro), há de se aplicar a quaisquer escritos destinados a divulgar-se publicamente, a não ser que conste outra coisa”.

Sabe-se que o Código não faz exceção com os escritos que narram experiências de revelações particulares; logo, a interpretação válida e autêntica do dispositivo legal acima mencionado, é que estes textos também precisam da autorização correspondente.

Isto porque tais escritos contêm matéria que interessa especialmente a religião e aos costumes de acordo com o cânon 827 § 3 (se recomenda que se submetam ao juízo do Ordinário do lugar os livros sobre matérias das que se trata no § 2, ainda que não se utilizem como texto no ensino, e igualmente aqueles escritos nos que se contenha algo que se relacione de maneira peculiar com a religião ou a honestidade dos costumes).

Ainda deve ser lembrado que está vedado a exposição, venda ou mesmo doação de tais obras em igrejas e oratórios, de escritos que não tenham sido aprovados pela competente autoridade eclesiástica, conforme o cânon 827 § 4 (Nas igrejas ou oratórios não se podem expor, vender ou dar livros ou outros escritos que tratem sobre questões de religião ou de moral, que não hajam sido editados com licença da autoridade eclesiástica competente ou aprovados depois por ela).

Quando pessoas ou grupos desobedecem a hierarquia eclesiástica publicando clandestinamente tais escritos, estão demonstrando que são uma facção e um segmento cismático, e com seu proceder desautorizam tudo o que vierem a publicar.

Corresponde ainda mencionar que existem critérios de crítica interna, para examinar os conteúdos de tais revelações. Podemos distinguir:

a) critérios a respeito dos videntes (sanidade mental, equilíbrio emocional, transparência e simplicidade de comportamento);

b) critérios a respeito da mensagem transmitida pela aparição (ortodoxia em relação à revelação pública e com a doutrina da Igreja, convergência com o Magistério e ensinamento pontifício, coerência entre o visto, ouvido e afirmado pelos videntes); e

c) critérios a respeito das ressonâncias da aparição ou revelação (sinais sobrenaturais e frutos espirituais destacados).

 

REVELAÇÕES PARTICULARES – ORIENTAÇÕES
Escrito por Dom Nelson Westrupp, SCJ

Visto que muitos de nossos diocesanos e diocesanas insistentemente nos pedem uma palavra de esclarecimento a respeito de aparições, possíveis revelações particulares e alocuções interiores, as presentes ORIENTAÇÕES PASTORAIS, assim o esperamos, deverão servir de base para o posicionamento de nossos queridos diocesanos sobre esses assuntos.

‘Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos’ (Hb 1, 1-2). ‘Deus é amor’ (1Jo 4, 8), e quer livremente partilhar com os homens Sua vida e felicidade. Por isso, Deus se revela. Revelar quer dizer levantar o véu. Desde a origem do mundo, Deus se dá a conhecer, por meio das coisas criadas que, em sua beleza e harmonia, são um testemunho perene da bondade do Criador (cf. Rm 1, 19-20).

‘Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu senso do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus’ (CIC 33), de modo que em toda parte, mesmo os que nunca tiveram contato com as Sagradas Escrituras nem ouviram falar de Jesus Cristo, podem conhecer a Deus como princípio e fim último de todas as coisas à luz da razão natural (Concílio Vaticano I: DS 3004; DV 6; CIC 36).

Além desta revelação natural, ‘Deus, que ‘habita uma luz inacessível’ (1Tm 6, 16), quer comunicar a sua própria vida divina aos homens’ (CIC 52). ‘Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1, 19), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2, 18; 2Pd 1, 4)’ (DV 2; CIC 51). Para isso, Deus escolhe Abraão, em quem serão abençoadas todas as nações da terra (cf. Gn 12, 3).

‘Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, através de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro’ (CIC 62). A esse povo, através dos patriarcas e profetas, Deus se revela de maneira particular, para que fosse ‘a raiz sobre a qual serão enxertados os pagãos tornados crentes’ (CIC 60; cf. Rm 11, 17-18.24).

Esta autocomunicação de Deus na história tem na Encarnação do Verbo a sua plenitude. ‘Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não haverá outra palavra senão esta’ (CIC 65).

Por isso, ‘já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação’ de Cristo no final dos tempos (cf. DV 4). Esta revelação especial ou sobrenatural está consignada nas Sagradas Escrituras, sendo garantida em sua infalibilidade por uma assistência especialíssima do Espírito Santo, que conferiu aos Hagiógrafos ou Escritores Sagrados os carismas extraordinários da revelação e da inspiração. Desta maneira, podemos dizer que a Bíblia, embora escrita por homens os mais diversos, é de fato Palavra de Deus.

Por outro lado, ‘embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos’. É neste sentido que devemos entender o desenvolvimento do dogma na Igreja: não se trata de novas revelações, mas de um aprofundamento, um desabrochar de verdades já contidas no depósito da fé.

‘No decurso dos séculos houve revelações denominadas ‘privadas’, e algumas delas têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé. A função delas não é ‘melhorar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela com mais plenitude em uma determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja’ (CIC 67).

É o caso, por exemplo, das aparições da Mãe de Deus em Fátima ou Lourdes. Note-se que o nome ‘revelação privada’ não quer significar que tais ‘revelações’ não sejam conhecidas pelo grande público, ou que digam respeito apenas aos videntes ou a um círculo limitado de pessoas. Pode se tratar de um fenômeno de repercussão nacional ou mesmo mundial. No entanto, tais possíveis ‘revelações’ são ditas, ainda assim, ‘privadas’ ou ‘particulares’ porque não fazem parte do depósito da fé católica.

Em outras palavras, nenhum católico está obrigado a aceitá-las, mesmo quando já consagradas pela devoção do grande público, ao contrário do que acontece com a revelação especial, tal como nos é apresentada nas Sagradas Escrituras e transmitida pelo magistério da Igreja. Neste caso, todo católico tem a obrigação de acatar tudo o que a Igreja propõe como verdade de fé e de moral. ‘A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da qual Cristo é a perfeição.

Este é o caso de certas Religiões não-cristãs e também de certas seitas recentes que se fundamentam em tais ‘revelações’’ (CIC 67), como é o caso, por exemplo, dos Mormons ou do Espiritismo. Ultimamente, tem-se multiplicado o fenômeno de aparições atribuídas a Nossa Senhora, tanto no Brasil como no estrangeiro. A respeito de tais fenômenos, existem opiniões favoráveis e opiniões contrárias.

O que a Igreja tem a dizer? A Igreja é cautelosa; antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, manda examinar o caso criteriosamente, pois sabe que muitas vezes os fiéis, com toda boa fé, podem imaginar estar vendo e ouvindo o que não passa de projeções de sua fantasia. Não existe legislação canônica sobre a avaliação do fenômeno das aparições e manifestações miraculosas. O Direito Canônico cala sobre o assunto. O que existe é uma práxis observada pelos bispos e pela Sé Apostólica. Os critérios básicos são os seguintes1:

A) Critérios a respeito dos videntes
– Deve ser verificado o estado de saúde física e mental dos videntes por parte de médicos competentes e psicólogos ou psiquiatras a fim de que não se confunda alucinação com visão.
– É importante verificar se há falta de sinceridade e de humildade da parte dos videntes, se há interesse em tirar proveito próprio ou em se colocar no centro das atenções.
– Verificar os contra-testemunhos que os videntes apresentam na vida cotidiana, a falta de respeito e de obediência aos pastores, a exploração das emoções com objetivos comerciais, políticos ou outros interesses.
– O objetivo de qualquer revelação autêntica é a edificação da Igreja. Por isso, tudo o que a divide, tudo o que leva ao pecado, tudo o que não leva à evangelização não pode vir de Deus. ‘Os videntes deixam de ter credibilidade a partir do momento em que procuram sustentar com apoio celestial, portanto, com autoridade pretensamente superior à da Igreja, uma certa orientação doutrinária, da qual se estivesse convencido; ou então promover mais facilmente certos aspectos da vida cristã, como os sacramentos, valendo-se da tendência das massas para o maravilhoso’2.

B) Critérios a respeito da mensagem transmitida pela aparição
São basicamente três os critérios a serem indicados aqui:
1º) Ortodoxia: o conteúdo da mensagem das aparições não pode estar em contradição com a revelação bíblica, nem com a doutrina da Igreja.
2º) Convergência: O conteúdo da mensagem deve estar em sintonia com as linhas pastorais da Igreja e os pastores podem encontrar nessa mensagem matéria para incentivar a vida pastoral e a conversão e renovação da vida cristã.
3º) Coerência: Deve haver uma coerência entre o que os videntes vêem, ouvem e dizem. O conjunto deve formar uma mensagem coerente. Além disso, toda autêntica aparição há de ser coerente com as linhas e o espírito do Evangelho. Assim, as muitas minúcias (quanto a datas, local, duração e tipo dos fenômenos preditos) merecem reservas, pois não são habituais na linguagem da Sagrada Escritura. O Senhor Jesus mesmo recusou-se, mais de uma vez, a revelar a data de sua vinda e do fim dos tempos (cf. Mc 13, 32; At 1, 7).

C) Critérios a respeito das ressonâncias da aparição
1º) Sinais: O fenômeno pode estar acompanhado de milagres, curas, conversões, fenômenos cósmicos extraordinários em favor da veracidade da aparição, os quais, porém, devem ser cuidadosamente examinados pela ciência e pela teologia. E como dizia o Papa João XXIII, em sua radiomensagem de 18/2/1959, comemorativa do centenário de Lourdes, que os dons extraordinários são concedidos aos fiéis ‘não para propor doutrinas novas, mas para guiar nossa conduta’3.
2º) Que Frutos espirituais estão surgindo em decorrência da aparição? Trata-se de conversões, renovação da vida cristã, devoção mais intensa e mais qualificada a Nossa Senhora, amor à Igreja, vocações missionárias, sacerdotais e consagradas? Caso o resultado dos exames acima sejam positivos, a Igreja não somente permite, mas favorece o culto ao Senhor ou ao santo(a) que se julga ter aparecido. É o caso do culto a N. S. de Fátima ou de Lourdes, havendo inclusive a festa respectiva no calendário da Igreja.

Importante: embora a Igreja favoreça o culto a Nossa Senhora em tal ou tal lugar, ela não obriga os fiéis a acolher as respectivas revelações particulares, uma vez que elas não fazem parte do depósito da fé: fica a critério de cada fiel julgar as razões pró e contra a autenticidade de cada ‘aparição’ não condenada pela Igreja e daí assumir ou não sua mensagem para a própria vida.

A respeito de tais fenômenos extraordinários, o Papa Bento XIV (1740-1758) publicou o seguinte: ‘A aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de publicá-las, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois estas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem, contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável’4. Esta posição tornou-se clássica na prática da Igreja. Pode acontecer ainda que a Igreja se abstenha de qualquer pronunciamento a respeito dos fenômenos e do culto prestado em decorrência dos mesmos. É o que acontece na maioria dos casos: não há motivos para condenar os fenômenos relatados; nem a saúde mental dos (as) videntes dá lugar a suspeitas nem as mensagens apresentadas por eles contêm alguma heresia ou erro na fé. A Igreja considera os frutos pastorais que decorrem de tais mensagens: muitos fiéis se beneficiam peregrinando a tal ou tal lugar ou santuário; aí se convertem, recuperam ou adquirem o hábito da prática sacramental, da oração… Por tudo isso, a Igreja deixa que a piedade se desenvolva até haver razões de ordem doutrinária ou moral que exijam algum pronunciamento. Diante dos fenômenos de aparições e revelações particulares, a Igreja tem a obrigação de ser prudente. Ela é responsável pela preservação da doutrina da fé. Por um lado, ela sabe que o Espírito Santo pode falar por vias extraordinárias, de tal modo que não lhe é lícito extinguir o Espírito (cf. 1Ts 5, 19s); por outro lado, o extraordinário não é a via normal pela qual Deus guia seus filhos. A fé madura não diz Sim a qualquer notícia sobre portentos, prodígios e milagres, mas pergunta sempre: por que deveria eu crer? Qual a autoridade de quem me transmite a notícia? Em que se baseia? Como fala?

Do que foi dito, segue que:
a) aparições e revelações particulares não devem ser presumidas nem admitidas em primeira instância num juízo precipitado. Os fenômenos alegados hão de ser comprovados ou criteriosamente credenciados;
b) diante de um fenômeno tido como extraordinário, procurem-se, antes do mais, as explicações ordinárias ou naturais (físicas, psicológicas, parapsicológicas);
c) é preciso levar em conta a fragilidade humana, sujeita a engano, sugestões, alucinações coletivas, etc. Facilmente quem conta um fato acrescenta-lhe ou subtrai-lhe um traço que pode ter importância; em conseqüência, um acontecimento explicável por vias naturais pode tornar-se, na boca dos narradores, um fenômeno altamente portentoso. Daí o senso crítico, que deve começar por investigar de que realmente se trata, para depois procurar a explicação adequada. Leve-se em conta especialmente a tendência dos meios de comunicação social a provocar artificiosamente as emoções e o sensacionalismo, sem compromisso sério com a verdade.

A Diocese de São José dos Campos, na pessoa de seu Bispo Diocesano, apresenta as seguintes orientações para a prática do povo de Deus:
a) Não se faça, em nome de Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, lotações para afluírem aos locais de supostas aparições.
b) Não se divulgue nas Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, folhetos, apostilas, fitas cassete ou vídeos com mensagens de cunho milenarista, apocalíptico ou catastrófico.
c) Seja mantida a devida prudência com relação aos escritos de pessoas que teriam a faculdade de locução interior. O devido cuidado deve ser tomado de não colocá-los em forma de leitura espiritual como substituto ou auxiliar da Palavra de Deus.
d) Cada coordenador tenha como referência, para orientações com relação a esta temática, além das presentes orientações, os Subsídios Doutrinais 1 da CNBB, intitulado ‘Aparições e revelações particulares’.
e) Em última instância, prevaleça sempre a palavra do Bispo Diocesano. Gostaria de terminar essas orientações pastorais, recordando o que nos ensina o Vaticano II sobre o culto da Bem-aventurada Virgem, o qual admoesta todos os filhos e filhas da Igreja ‘a que generosamente promovam o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem-aventurada Virgem, dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo Magistério no curso dos séculos e observem religiosamente o que em tempos passados foi decretado sobre o culto das imagens de Cristo, da Bem-aventurada Virgem e dos Santos’ (LG 67). ‘Ademais, saibam os fiéis que a verdadeira devoção não consiste num estéril e transitório afeto, nem numa certa vã credulidade, mas procede da fé verdadeira pela qual somos levados a reconhecer a excelência da Mãe de Deus, excitados a um amor filial para com nossa Mãe e à imitação das suas virtudes’ (ib., 67); Enquanto peregrinamos, Maria será a mãe educadora da fé (cf. LG 63). Ela cuida que o Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em nós frutos de santidade (cf. Puebla, 290).
Como pastor da Diocese de São José dos Campos, envio a todo o Povo de Deus que aqui peregrina, minha saudação e a bênção em Cristo Ressuscitado. Decreto: Que esta Carta Pastoral seja afixada em lugar visível para os fiéis e publicada no Jornal Expressão.
São José dos Campos, 25 de março de 1996. Dom Nelson Westrupp, SCJ Bispo diocesano

1 O documento de referência é uma nota confidencial da Congregação para a Doutrina da Fé, de 25 de fevereiro de 1978. Veja-se também: R. PANNET, Les Apparitions Aujourd’hui. 1988, p.145-146.
2 Cf. C. I. GONZALEZ, Maria, Evangelizada, Evangelizadora. CELAM, Ed. Loyola, 1990, p.401-402.
3 Cf. Pergunte e responderemos, setembro de 1995, p.392-393. 4 De Servorum Beatificatione II, c.32,11.

N.B.: Na elaboração deste documento, foram consultadas, entre outras, as seguintes fontes:
– Aparições e Revelações particulares (Subsídios Doutrinais 1, CNBB), Ed. Paulinas.
– Compêndio do Vaticano II (DV e LG).
– Catecismo da Igreja Católica (CIC).
– JOÃO PAULO II, Redemptoris Mater.
– CARLOS IGNÁCIO GONZALES, Maria, Evangelizada e Evangelizadora, CELAM, Ed. Loyola., 1990.
– ESTÊVÃO BETTENCOURT, OSB, Pergunte e Responderemos, setembro de 1995.
– STEFANO DE FIORES, Dicionário de Mariologia. Ed. Paulus, 1995.
– DOCUMENTO DE PUEBLA.

 

REVELAÇÕES PRIVADAS CRITÉRIOS DE DISCERNIMENTO
Paulo A. Martin

Atualmente uma gigantesca onda de ´mensagens inspiradas´ tem invadido o mundo católico, como reflexo de um fenômeno mais amplo: a grande explosão de misticismo que vem substituindo um já desgastado e rançoso racionalismo. Acrescentem-se aí as angústias de um fim de milênio “e de uma civilização espiritualmente agonizante” e teremos o mais propício ambiente para a subcultura do ´aparicionismo´, que infesta hoje muitos ambientes católicos.

As ´aparições´ de Nossa Senhora se multiplicam por todo o mundo, às centenas, sendo a de Medjugorje, na Croácia, a mais difundida. Além dessas ´aparições´, não são poucas as pessoas que se dizem divinamente ´inspiradas´, recebendo ´mensagens´ espirituais de Jesus e Maria.

Entre essas poderíamos citar o Pe. Stefano Gobbi “que diz receber locuções interiores de Nossa Senhora” e a ortodoxa Vassula Ryden, cuja obra em seis volumes (supostamente escrita sob o ditado de Jesus) tem sido amplamente difundida no Brasil, mesmo depois de condenada pelo Vaticano.

Tais manifestações, por serem tão abundantes, tendem a provocar no católico uma polarização: ou ceticamente recusam todos os fenômenos (e pretensos fenômenos) ou os aceitam integralmente, sem nenhum discernimento. Diante do silêncio da maioria das autoridades eclesiásticas, que parecem ter abdicado da função de ensinar, é conveniente recordarmos aqui o perene ensinamento da Igreja em matéria tão delicada, e não obstante tão importante, cuja omissão tem levado os fiéis a aderir indiscriminadamente a doutrinas ´inspiradas´ que nada têm de inspiradas nem de católicas. As revelações são manifestações sobrenaturais de verdades ocultas ou de fatos incomuns.

Para que haja verdadeiramente revelação é necessário que o seu conhecimento se opere por via sobrenatural. Quanto à destinação, as revelações podem ser públicas ou privadas. As revelações públicas (ou universais) estão contidas na Bíblia e no depósito da tradição apostólica, transmitidas e mantidas pela Igreja. Essas revelações universais terminaram com a pregação dos apóstolos e são de crença obrigatória para todos os fiéis.

As revelações privadas (ou particulares) são feitas usualmente aos santos, e a Igreja não obriga acreditá-las, mesmo quando as aprova. Quando a Igreja aprova uma revelação privada, essa aprovação é simplesmente uma declaração de que ela não encontrou nada nessas revelações que fosse contrário à fé e aos bons costumes, e que os fiéis podem lê-las sem nenhum perigo para as almas.

Ouçamos o que diz o papa Bento XIV: ´O que se deve pensar das revelações privadas aprovadas pela Santa Sé, as de Santa Hildegarda, Santa Brígida, Santa Catarina de Sienna? Dissemos que não é nem obrigatório nem possível dar-lhes um assentimento de fé católica, mas somente de fé humana, conforme as regras da prudência, que no-las apresenta como prováveis e piedosamente críveis´ (De canon., 1 III,c. Liii, n° 15).

Repetimos a afirmação básica: não é obrigatório nem possível dar às revelações privadas um assentimento de fé católica, mesmo que tais revelações tenham sido aprovadas pela Igreja. É importante que o leitor tenha isso bem presente, para que não se pense que é pecado colocar-se contra uma revelação privada.

Ouçamos o cardeal Pitra: ´Sabemos que somos plenamente livres de crer ou não nas revelações privadas, mesmo nas mais dignas de fé. Mesmo quando a Igreja as aprova, elas são recebidas como prováveis e não como indubitáveis (…) É totalmente permitido afastar-se dessas revelações, mesmo aprovadas, quando alguém se apoia sobre razões sólidas, sobretudo quando a doutrina contrária é estabelecida por documentos inatacáveis e uma experiência certa´ (Livro sobre Santa Hildegarda, p. XVI).

E não se admire o leitor de que mesmo em revelações aprovadas de pessoas canonizadas existam erros dos mais variados tipos. Vale a pena conhecer algumas causas de erros que podem ocorrer numa revelação verdadeira, ou tida como tal em determinada época.

1) Interpretações incorretas.
Não é incomum que o próprio vidente possa interpretar mal a revelação que recebe. Isso se deve, em primeiro lugar, à obscuridade da revelação, sobre a qual o vidente possui uma inteligência apenas parcial. Há também outras causas, como por exemplo o apego do vidente a certos preconceitos que interferem na correta compreensão da mensagem recebida. O exemplo clássico é o de São Pedro, que teve a visão de uma toalha contendo diversos animais, enquanto uma voz por três vezes lhe dizia: ´Levanta-te Pedro, mata e come.´ Ele acreditou que se tratasse de sua alimentação, tanto mais que teve a visão quando estava com fome e lhe preparavam o almoço (Atos X, 10). Inicialmente ele não compreendeu o sentido simbólico da visão, que tinha por objetivo convencê-lo de que devia batizar os pagãos sem lhes impor primeiro as práticas da lei mosaica. Santa Joana d’Arc também interpretou erroneamente as mensagens que ouvia interiormente: acreditou que seria libertada. Foi martirizada.

2) Imprópria consideração dos elementos históricos.
Engana-se freqüentemente aquele que atribui aos detalhes históricos de uma revelação ou visão uma exatidão absoluta. Detalhes como a paisagem, o tipo de roupa, a língua falada, os costumes locais, quase sempre estão em desacordo com os conhecimentos históricos ou senão, diferem consideravelmente mesmo em santos que tiveram visões sobre o mesmo tema. Quando Deus dá uma visão a uma alma, é para a sua santificação pessoal e não para satisfazer a curiosidade histórica. Há inúmeros exemplos desse engano em visões sobre a paixão e morte de Nosso Senhor.

3) Intromissão da atividade humana na ação sobrenatural.
Engana-se aquele que pensa que uma revelação não diabólica ou é inteiramente divina ou inteiramente humana; o espírito humano pode imiscuir-se, em certa medida, na ação sobrenatural, alterando partes da revelação. Catarina Labouré, por exemplo, fez predições verdadeiras com até quarenta anos de antecedência, e fez também predições falsas. Santa Hildegarda é outro exemplo: analfabeta, ela compunha e ditava textos em latim. Suas numerosas obras inspiradas, entretanto, contém os erros científicos de sua época. Embora nos repugne encontrar erros em revelações recebidas por santos e santas, a lição que daí se tira não é a de que se deve desprezá-las por completo, mas sim que se deve abandonar a idéia tão popular e romântica de que tudo que vem da parte de um santo é infalível. (O leitor interessado em conhecer mais profundamente os exemplos de erros em revelações aprovadas deve consultar a obra clássica de A. Poulain, ´Des Grâces d’Oraison´, na qual nos baseamos para este artigo).

Se a situação é assim complicada em relação aos santos, o que pensar das revelações privadas recebidas (como é hoje tão freqüente) por pessoas comuns ´donas de casa, estudantes, empresários´?
E se existem erros mesmo em revelações privadas aprovadas, qual a diferença entre esses erros e os que aparecem numa revelação condenada?Como julgar aquelas pessoas que se apresentam como portadoras de uma mensagem ´inspirada´?
A Igreja nos propõe um procedimento de extremo bom senso, baseado na sua experiência bimilenar com a matéria.

 

SOBRE O “MOVIMENTO SALVAI ALMAS”
Pe. Marcélo Tenorio

Chegou-me ao conhecimento um chamado “movimento Salvai Almas” que, aparentemente católico, parece ser uma associação de fiéis devotos das santas almas do purgatório. Li vários livros deste “movimento” – como eles gostam de se chamar – inclusive estive em contato direto com um dos membros, o mesmo que me emprestou os citados livros.
Interessante é que este senhor começou a fazer direção espiritual comigo. Falando-me sobre o movimento, pedi-lhe livros. Li, analisei e vi, de súbito, todas essas heresias denunciadas aqui neste artigo. Como sacerdote exortei-o a abandonar essas “revelações”, visto que estão contra o Magistério Infalível da Igreja, e, claro, não poderia eu dirigir alguém que aderisse formalmente à heresia.
Tomei ciência de que este senhor atacou-me em testemunho pessoal postado na net, como podem ler abaixo. Isso só comprova a desobediência ao clero e à Igreja, o ódio por todos que se opõem a estas fantasias. São comuns os ataques do “vidente” Cláudio aos sacerdotes, seus seguidores não poderiam ser diferentes. Leiamos estas pérolas que comprovam o sectarismo latente deste “movimento”:
“… procurei divulgar a um sacerdote piedoso que se propôs a ser meu diretor espiritual, porém descobri uma falsa humildade em sua batina preta, pois me chamou atenção dizendo que os livros eram hereges e que estava em pecado, me pressionou na parede dizendo que só continuaria sendo meu diretor espiritual se eu admitisse não acreditar nas mensagens do grupo Salvai Almas, eu afirmei com todas as letras que eu acreditava, pois a nossa Senhora esta na frente desta obra, pois o padre deixou transparecer a sua insatisfação em aceitar leigos na frente de obras, descartando totalmente a possibilidade da mensagens de Nossa Senhora serem verdadeiras…”
“… porém o não do padre foi o meu sim definitivos para o Grupo Salvai Almas, me apresentei ao grupo de caminhantes dos cemitérios de Campo Grande e passei a visitar diariamente um todos os dias…” (cf: http://www.recadosaarao.com.br/index.asp?id_artigo=4162).
Uma pena! Tão humilde este senhor, que preferiu seguir as fábulas, caminhar pelos cemitérios, ouvindo os mortos…
O padre orgulhoso aqui, prefere escutar e seguir a Igreja!
Tudo se baseia em pretensas revelações particulares de Nosso Senhor, Nossa Senhora, São Miguel Arcanjo e outros santos a um casal com pseudônimos de “José de Nazaré” e “Maria Angelina”. Segundo o relato, ambos são simples, humildes e moram numa casinha de madeira de pinus. Coloca-se que possuem um diretor espiritual, um sacerdote, entretanto, este mesmo sacerdote não tem nenhuma autoridade sobre eles, o que é estranho, pois em toda história da Igreja todos os santos e místicos se colocaram em obediência absoluta ao Diretor Espiritual, visto que o demônio engana e pode colocar nas almas pretensões de santidade.

Vejamos o relato do livro “Fundamentos da Salvação”, sobre o assunto. A separação numérica é nossa.

1. Rejeição à legítima interferência da Igreja pelo estudo e análise.
“Eles têm acompanhamento espiritual de sacerdote, mas Nossa Senhora…
(1) … não pede que ele “avalize” este livro, para…
(2) …evitar que ele seja mais “perseguido” do que já é, em vista…
(3) … do magistério que exerce. Em mensagem a José, datada de 02/10/98 JESUS diz claramente…
(4) … que exime os sacerdotes em questão, de avalizar esta obra, porque a Igreja não encontraria formas de a justificar, mas que a próxima terá que ser analisada e avalizada por eles. Para sermos justos, eles até que se estavam…
(5) … dispondo a prefaciar esta obra, fazendo algumas modificações. Mas Jesus e Maria, em mensagens individuais e claras dizem a ambos:
(6) O livro fica como está! Ordem cumprida, este livro fica pois, (7) … apenas a cargo dos leigos. E que o Senhor nos ajude!”

Analisemos por partes. (1, 2, 3)
A autora do livro é a própria “Virgem Maria” que não aceita que este livro seja analisado pelo clero para que ele, o livro, não venha a ser perseguido.
Que estranho e contraditório. Não é essa a doutrina que Nosso Senhor deixou sobre a sua Igreja, fundada sobre os apóstolos, com a missão de Ensinar. Ainda sobre ela, diz o divino mestre: “quem vos ouve, a mim ouve (Lc 10,16).
Aqui, está uma suposta Maria, que certamente não é Nossa Senhora, pois a Mãe de Deus é doutora em teologia e doutrina católica e esta aqui parece protestante e anti-clerical, visto que, sobre um assunto que deve ser analisado pela autoridade da Igreja, esta Maria simplesmente rejeita e não aceita a análise do clero, temendo que o livro seja perseguido. Mas que “Maria” medrosa! Está com medo de que, Maria?! Parece aquela outra Maria, da nossa literatura brasileira…
(4). Esta “Maria” “exime” os sacerdotes deste trabalho, porque a Igreja não encontraria “formas de justificar”.
“Xiii!!!” Aqui o “caldo entornou”, como diria o mineiro. É grave, gravíssimo, e de certa forma importante esta colocação da “Maria perigosa”. Grave, porque é uma colocação absurda, visto que a Santa Igreja é Mãe e Mestra da Verdade e recebeu a Verdade plena de seu divino fundador, de forma que, com a morte do último apóstolo, encerrou-se toda revelação. Nada existe mais para nos ser revelado sobre a sagrada doutrina, pois “vos ensinei tudo que ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15). Dizer que a Igreja não tem condições de emitir um juízo em matéria de fé, porque há algo que ela não sabe, desconhece, é heresia grosseira.
Esta heresia grosseira é o dado importante para percebermos aqui a incompatibilidade com a sagrada doutrina, desmascarando sua pretensa origem divina. Como Deus não pode errar nem se contradizer, logo, podemos afirmar categoricamente: são falsas tais revelações. Não são católicas tais revelações! Não são da Virgem Maria, Mãe de Deus tais revelações!
No final da citação, “Jesus e Maria”, chancelam dizendo que os padres não devem mexer no livro: “fica como está, apenas a cargo dos leigos”.
Nossa Senhora, depois de tantos séculos intervindo no mundo, teria resolvido tornar-se revolucionária? Ela que sempre ordenava que os videntes procurassem o padre, o bispo e a eles se submetessem, aqui resolve fazer diferente, porque há coisas que ela revelou que nem a Igreja sabe! Absurdo!
Isso nos faz lembrar São Paulo que nos diz: “Mesmo que um anjo do céu vos ensine algo diferente do nosso ensino, seja excomungado!” (Gl 1, 8-9)

2. Rejeição ao ensino por parte do clero.
Ora, percebemos algo estranhíssimo, não só contra a prática comum da Igreja, mas, sobretudo no que se refere à autoridade do sacerdote que está dentro do tríplice múnus que Nosso Senhor conferiu à Igreja: Santificar, Ensinar e Governar. O Padre age na própria pessoa de Cristo e, é sua função, guiar as almas para Deus. Na direção espiritual caberá ao sacerdote conduzir o dirigido por caminhos seguros, na reta doutrina, e numa equilibrada prática da fé e da espiritualidade. De forma que, Cristo sempre fala através do diretor espiritual, cabendo-lhe ao dirigido a pronta obediência. Em apenas um caso deve a alma desobedecer ao seu diretor: quando ele o induzir contra a Fé e a Moral. Fora disso, deve-lhe acatamento.
Se lermos a vida de Santa Teresa d’Ávila, encontraremos várias exortações sobre a necessidade de se ter um diretor espiritual. Sem ele a alma estará certamente exposta às mentiras e enganos do diabo.
São Pio de Pietrelcina nada fazia sem que tivesse o aval de seu diretor espiritual. E se era um santo cheio de carismas e portentosos milagres, tudo, tudo mesmo, ele submetia ao seu pai espiritual e nada fazia sem ele. Deixava sempre o discernimento, a última palavra, ao mestre de sua alma, como pode-se facilmente ver no livro que contém suas cartas ao seu Diretor.
Como dizia o Cônego Ogier: “Aquele que se constitui seu próprio Mestre, torna-se discípulo de um louco”.
Cassiano, São Francisco de Sales e Leão XIII, reforçam a doutrina perene da Igreja sobre a necessária direção espiritual, vejamos:
“Encontramos nas próprias origens da Igreja uma célebre manifestação desta lei: posto que Saulo, respirando ameaças e matança, tivesse ouvido a voz do mesmo Cristo, e lhe houvesse perguntado: ‘Senhor que queres que eu faça?’ – É para damasco, a Ananias que é enviado… Isto mesmo é o que se tem praticado na Igreja: é a doutrina que unanimemente professaram todos quantos no decorrer dos séculos, brilharam pela ciência e santidade” (Leão XIII).
Fala o grande doutor da mística católica, São João da Cruz, sobre a vontade de Deus em relação ao Diretor Espiritual:
“Deus gosta tanto que o homem se submeta à direção de outro homem que não quer de maneira alguma ver-nos dar pleno crédito às verdades sobrenaturais que Ele próprio comunica, antes de elas terem passado pelo canal duma boca humana”.
O livro em questão começa já atestando que a autoria é de “Nossa Senhora” e lógico, ela sendo a autora, também cabe-lhe a dedicação de sua obra. Ela oferece também sua dedicatória, vejamos:

“DEDICATÓRIA DE NOSSA SENHORA
A Américo Odorizzi e excelentíssima família, pelo desvelo e amor com que têm colocado sua Editora a serviço desta obra de Deus. Que Deus os abençoe e a seus funcionários”.
Em seguida vem as ameaças a todos aqueles que não acreditarem no que está escrito no livro: “Quero alertá-los do fato de que: “Cada livro vale a libertação de 100 almas do purgatório.” Portanto, cada livro retido, impede a libertação destas 100 almas. Ai dos que impedem! Terão o peso de 100 por 1. Arcarão com as responsabilidades! Reza por eles! Esta obra também foi feita para eles! Amém! Eu vos abençôo a todos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo Amém! Maria Mãe do Universo!”

3. Esta pretensa “revelação” é apresentada como obrigatória para todos, quase como uma Revelação Pública.
Vejamos: essa “Maria”, não só escreve livros, mas também muda, sem comunicar ao Papa, a doutrina da Igreja em relação às revelações particulares.
Sabemos que nenhum fiel católico está obrigado a dar acatamento de fé às chamadas revelações privadas, mesmo aquelas, de certa forma, reconhecidas pela Igreja, como as aparições da Virgem em Lourdes, Fátima, Guadalupe, visto que nada acrescentam ao depósito da Fé.
Ninguém comete pecado se não acreditar em Fátima, nas aparições de Nossa Senhora à Santa Catarina, etc., porque tudo o que era necessário à nossa salvação já nos foi revelado por Nosso Senhor e nos é ensinado pela suprema autoridade do Magistério da Igreja e é o que chamamos de Revelação Pública, a qual todos estão obrigados a crer. Vale salientar que em nenhuma aparição autêntica de Nossa Senhora houve o ensino de uma nova doutrina, de uma nova verdade, visto que TUDO já nos foi transmitido.
Qualquer pretensa aparição que venha com uma nova mensagem, com algo novo, não provêm do Espírito Santo, mas do pai e mestre da mentira, o diabo, para sufocar a verdade e enganar os fracos.

O que ensina a Igreja sobre as revelações particulares:
Bento XIV: “Apesar de uma adesão de fé católica não pode e não pode ser dado a revelações assim aprovadas, ainda, uma adesão de fé humana, feita de acordo às regras de prudência lhes é devido, pois, de acordo com estas regras tais revelações são prováveis e dignas de crédito piedoso”.
Catecismo da Igreja Católica: Cristo, o Filho de Deus feito homem, é do Pai, a Palavra perfeita e insuperável em que ele disse tudo; Não haverá outra palavra do que este A economia cristã, portanto, uma vez que é a nova e definitiva aliança, jamais passará, e nenhuma nova revelação pública é de se esperar, antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo como João da Cruz diz: “Qualquer pessoa que pretenda consultar a Deus ou alguma visão ou revelação seria culpado não só de comportamento tolo, mas também de ofendê-lo, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e vivendo com o desejo por alguma outra novidade” (65-66).

4. Fuga de um discurso racional da Fé: desprovida de análise teológica e filosófica.
O livro em questão faz um discurso, em nome de Nossa Senhora, contra o que se chama de racionalização.
Vejamos: “ASSUNTO DO LIVRO
O tema que abordaremos neste livro, pode-se dizer que é de teor bastante “obscuro”, dentro da Igreja Católica, Apostólica, Romana, Una e Santa, por se tratar de assunto pouco estudado e com poucas referências na Bíblia: A SANTA IGREJA PADECENTE – O PURGATÓRIO
Obscuro dizemos e achamos nós, que racionalizando sempre e tudo, muito pouco ou quase nada entendemos sobre a Divina Misericórdia, sobre a Justiça de Deus e sobre como funciona o elaborado e milimétrico processo de salvação das nossas almas.
Por isso, ANTES de questionar, deixemos que Nossa Senhora esclareça:
(…) Muitas indagações haverão! Muita polêmica, por tratar-se de assunto obscuro para a Igreja! Eu, porém, não vejo nenhuma obscuridade nisto…” (os grifos são nossos).

5. Desconhecimento pleno da Doutrina sobre a Igreja.
Aqui tudo volta. Há algo tão obscuro, mas tão obscuro que nem a Igreja saberia, apenas Nossa Senhora! Eis mais um erro grosseiro e, desta vez, em relação à eclesiologia. A Igreja é colocada como associação de fiéis, mas não como mistérica, vinda do coração da Trindade e tendo a sua consumação na glória.
Nossa Senhora, por mais excelsa e sublime que seja, é sempre filha da Igreja no sentido de que esta, como nos ensina Santo Agostinho, é maior que a Virgem Maria. Ora, dizer que a Igreja nada sabe e a Virgem sabe de coisas que a Igreja desconhece, é, na verdade, nada entender sobre a doutrina católica romana, logo, fica mais que comprovado que não há possibilidade de que seja divina esta pretensa revelação, pois ela não suportaria um mínimo confronto com o Catecismo Romano.
É elementar para a eclesiologia a origem divina da Igreja por sua cabeça, o Verbo encarnado, e além de sua fonte de salvação para todos os homens, nela está toda a Verdade sobre Deus, sobre o mundo e sobre o homem. Verdade esta revelada e confiada à sua hierarquia para que seja ensinada a todos os homens: “Ide e ensinai”. Só ensina quem sabe. A Igreja possui a verdade plena, por isso o papa João XXIII pode proclamá-la “Mater et Magistra” da Verdade.
Mas percebamos que, para fugir desta enrascada, o próprio livro condena a atitude de se buscar a explicação racional, convocando todos a darem, sem questionamentos, adesão de fé a tudo isso. Ou seja: deve-se crer, sem duvidar, que verdadeiramente é Nossa Senhora e o céu que estão conduzindo tudo isso.
Ora, ora! Quanto mais essa “Maria” escreve, pior fica. A fé não é um sentimento, um “achismo”, nada disso. Isso não é católico. É subjetivismo, filho do modernismo, além de conter uma boa pitada de neo-liberalismo religioso que é, justamente, a fuga da submissão à legítima autoridade da Igreja.
Ensina Santo Tomás de Aquino que a Fé é a adesão da inteligência à Verdade e, claro, esta Verdade ensinada infalivelmente pela a Igreja.
Num belo documento que tratava da Fé mais a Razão, o Santo Padre João Paulo II colocava:
“6. Credenciada pelo fato de ser depositária da revelação de Jesus Cristo, a Igreja deseja reafirmar a necessidade da reflexão sobre a verdade… “17. Não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização. Aponta nesta direção o livro dos Provérbios, quando exclama: « A glória de Deus é encobrir as coisas, e a glória dos reis é investigá-las » (25, 2). Deus e o homem estão colocados, em seu respectivo mundo, numa relação única. Em Deus reside a origem de tudo, n’Ele se encerra a plenitude do mistério, e isto constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário, compete o dever de investigar a verdade com a razão, e nisto está a sua nobreza…
“Indo mais longe, Santo Tomás reconhece que a natureza, objeto próprio da filosofia, pode contribuir para a compreensão da revelação divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a a perfeição, assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta, iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora sublinhando o caráter sobrenatural da fé, o Doutor Angélico não esqueceu o valor da racionabilidade da mesma; antes, conseguiu penetrar profundamente e especificar o sentido de tal racionabilidade. Efetivamente, a fé é de algum modo « exercitação do pensamento »; a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando presta assentimento aos conteúdos de fé; é que estes são alcançados por decisão livre e consciente” (Cf. Carta Encíclica Fides et Ratio, João Paulo II).
Encontra-se também nestas “revelações” o ensinamento dado por “Maria”, sobre o chamado “grande purgatório”. O que seria isso?
Bem, essa Maria explica de forma inusitada que nem Santo Tomás de Aquino, o doutor angélico, conseguiu formular em sua Suma Teológica.
Vejamos: “Não é, também, que Deus tenha mudado Sua santa justiça, ou “abrandado” a Sua santa lei. O problema, é que se tornaram tantas as ocasiões de pecado para o homem de hoje, que é quase impossível para uma pessoa qualquer, mesmo vivendo santamente, passar alguns minutos sem pecar. E são bilhões de pecados que se cometem por dia no mundo…”
Então, Nosso Senhor o que faz? Muda as regras. Cria o grande purgatório para dar uma segunda chance àqueles que morrem em pecado mortal.
Vejamos esta esdrúxula explicação:
“O Grande Purgatório é, na verdade, um quase inferno. A única diferença é que, mesmo ali, a alma sabe que, um dia, perto ou longe, ela irá para os braços do Pai Eterno. Quanto tempo se fica ali? Um segundo ou por milênios seguidos. Tudo depende do estado da alma. Um exemplo de que uma pessoa pode ficar tantos anos no Purgatório foi-nos dado em Fátima na 2ª das aparições, onde, ao ser questionada pela Jacinta uma das videntes, a respeito de uma senhora X, falecida há já 4 anos, portanto em 1913, Nossa Senhora respondeu que ela estava no Purgatório e “vai ficar lá até o final dos tempos”…
Sabe-se hoje que milhões de pessoas no mundo, conhecedores desta revelação, já rezaram exaustivamente por esta alma, entretanto, ela pode estar lá, ainda hoje sofrendo. Porque as orações não a alcançam.
Neste local, a alma “estaciona” e dali não sai, até ter pago integralmente a sua pena, porque as graças não a conseguem alcançar. Eis aí o Grande Purgatório…
Bem sabemos a imensidade de pecados mortais que se cometem hoje no mundo e sabemos que milhares de pessoas, morrem hoje em toda a terra, sem receber os sacramentos e sem poderem se preparar para outra vida. Assim, nosso entendimento leva a imaginar que todas estas pessoas morrem eternamente. Ora, isso seria uma imensa vitória do louco satanás…
Assim, o que o Arcanjo São Miguel tem revelado a José de Nazaré e Maria Angelina, é que existe este imenso “vácuo”, onde se manifesta a Eterna Misericórdia deste nosso Deus de Amor. Existe sim um local, onde as almas dos que morrem, mesmo com alguns pecados ditos por nós “mortais”, podem encontrar AINDA a salvação: O Grande Purgatório. Um local (ou estado de alma) imenso e impressionante. E ao mesmo tempo terrível. Ele se encontra exatamente as “portas do inferno” e nele, “malham” as almas que “quase”, caíram no abismo negro do sem Deus. Porque o espaço entre o Inferno e o Grande Purgatório é de apenas “milímetros”.
Enquanto ali permanecem, as almas não recebem as graças das orações, nem de militantes nem dos glorificados. Quer dizer, para elas não adianta rezar, nem mesmo mandar rezar as poderosíssimas santas Missas, enquanto eles permanecerem naquele abismo”.
Aí está uma doutrina estranha à Fé Católica sobre o que se chama aqui de “Grande Purgatório”, onde ficam as almas que morreram em pecado mortal. Local onde as orações nem chegam. Até mesmo o augusto sacrifício da Missa torna-se ineficaz.
Que absurdo! Que disparate! Que heresia! E o pior: pretensamente atribuídas à Santíssima Virgem Maria e a São Miguel Arcanjo.
O que acabamos de ler não é doutrina católica, mais um verdadeiro delírio, que pode enganar as mentes fracas.
Vejamos o que a Santa Igreja nos ensina sobre a realidade do purgatório:
“Há também um fogo de expiação, no qual por certo tempo, se purificam as almas dos justos, até que lhes sejam franqueado o acesso da Pátria Celestial, lugar onde nada de impuro pode entrar” (Cf. Catecismo Romano, V, artigo 1-3).
Fala o Dogmático Concílio de Trento, em sua seção XXV, no decreto sobre o Purgatório:
“983. Já que a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, apoiada nas Sagradas Letras e na antiga Tradição dos Padres, ensinou nos sagrados Concílios e recentemente também neste Concílio Ecumênico, que existe purgatório [cfr. n° 840], e que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do altar [cfr. n° 940, 950], igualmente não seja permitido divulgar ou discorrer sobre assuntos duvidosos ou que trazem a aparência do falso. Sejam ainda proibidas como escandalosas e prejudiciais aos fiéis aquelas coisas que têm em vista provocar a curiosidade ou que reascendem a superstição”.
“Por ali se deve defender a doutrina da lei divina que exclui do reino de Deus não só os infiéis, mas também os fiéis fornicadores, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, beberrões, maldizentes, gatunos (1Cor 6, 9s) e todos os que cometem pecados mortais, dos quais se podem abster com o auxílio da graça divina, e pelos quais se separam da graça de Cristo [cân. 27]. 835. Cân. 25. Se alguém disser que o justo peca em qualquer obra boa, ao menos venialmente, ou (o que é mais intolerável ainda) mortalmente; e que por isso merece penas eternas, não se condenando [porém] somente porque Deus não imputa aquelas boas obras para a condenação — seja excomungado [cfr. n° 804].

Em suma:
1. A Igreja ensina a existência do purgatório, que é um estágio de purificação para as almas que morreram na amizade de Deus, ou seja, em pecado venial e, que, por isso, precisam de uma purificação, antes de entrarem no gozo da visão beatífica. De forma que costumamos chamá-las de “santas almas”, visto que a sua salvação é garantida, logo após a etapa purificatória.
2. Os que morrem em pecado mortal, morrem excluídos da Graça de Deus, recebendo assim a condenação eterna no inferno.
3. As orações, penitências, mortificações que os fiéis oferecem pelas santas almas, lhes são de grande alívio e, até podem contribuir para uma imediata saída do purgatório.
4. Não existe maior oração de grande eficácia para as almas do que o Santo Sacrifício da Missa. Atesta a sagrada doutrina, como também o testemunho dos santos místicos. Muitas almas são libertadas quando se celebra os sagrados mistérios.

Portanto NÃO SÃO CATÓLICAS estas afirmações contidas neste livro de que:
1. Por causa do aumento de pessoas que morrem em pecado mortal, Deus teria criado o chamado “Grande Purgatório”, com possibilidade de salvação, após longo período de sofrimento.
2. Que nesse grande purgatório são sem valor a comunhão dos santos e as orações, sacrifícios, mortificações, que nenhuma oração pode lá chegar.
3. Que mesmo o Santo Sacrifício da Missa é ineficaz para as almas do grande purgatório.

Inexiste na Fé Católica essa estranha doutrina do grande purgatório e, tudo o que foi dito acima, jamais poderia ter sido dito por Nossa Senhora e São Miguel Arcanjo porque constituem verdadeiras heresias e, como tais, condenadas pelo Concílio de Trento.
Quem as divulga, quem as defende, incorre em pecado grave e em pena de Excomunhão, como podemos ver claramente no Cân. 25, da Justificação, do sagrado concílio.

Concluindo, exortamos a todos que mantenham distância deste movimento, sobretudo de seus escritos cheios de erros contra a Fé.
O demônio, sendo o pai da mentira, sabe dissimular um mal com roupagem de bem. A mentira sempre é tentativa de maquiar a Verdade, por isso uma boa mentira sempre, à primeira vista, parece-nos verdadeira em sua máscara. Todavia, basta aprofundá-la e submetê-la a crivos irrefutáveis que tudo desmorona e aparece, enfim, o seu verdadeiro rosto.
Dou a todos um antídoto contra essas novidades: submetam tudo ao Magistério da Igreja, visto que a Igreja não pode errar, porque Cristo não erra.
Lembremo-nos, novamente do conselho paulino: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja excomungado!” (Gl 1, 8-9)
Mas alguns poderão objetar:
“Ah! Mas isso mudou a minha vida. Era ruim, agora sou bom, etc!”
“Ah, tem padres que acreditam, tem bispos que apóiam…”
“Eu sinto que é verdadeiro, porque me faz bem crer…”
Tudo isso são balelas.
Lutero era padre. Judas, bispo. Um padre, um bispo e até mesmo um papa, estão a serviço da Fé imutável da Igreja, nada podendo subtrair ou acrescentar.
Fujamos destas novidades que põem em risco a nossa fé. Fiquemos com as palavras sábias de Pio XI:
“A todos quanto agora sentem sede da Verdade, dizemo-lhes: ide a Tomás de Aquino”.
Neste livro “Fundamentos da Salvação”, existem outras coisas curiosamente perigosas, tal como a “Ponte da Salvação”, óleos sagrados, freqüentes mensagens e comunicações com mortos que precisariam ser melhor analisadas pelo magistério, mas fiquemos por aqui. É como um afeito dominó. Desmascarado suas falácias, todo o resto cede.
É verdade que cabe aos bispos diocesanos, como doutores que são, e, em última instância à Santa Sé Apostólica, uma formal análise e condenação desses escritos. No entanto, não exime de nós padres o grave dever de orientar os fiéis sobre tais erros e heresias. Se vejo um ladrão roubando alguém, posso, tranquilamente gritar “pega ladrão!”, mesmo antes da autoridade competente declará-lo de fato um ladrão. O óbvio não se julga, se constata.
De fato, o que vimos acima é tão verdadeiro quanto “santa-do-mel” ou quanto uma nota de duzentos centavos novos.
“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” (2Tm 4,1-5).

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