Martírio de São João Batista – 29 de Agosto

Por Pe. Fernando José Cardoso

Hoje, 29 de agosto, Martírio de São João Batista. A liturgia tem leituras próprias, porém vamos continuar a meditar as leituras feriais. No Evangelho de hoje, Jesus, através de uma parábola, coloca-nos também de sobreaviso, contra o perigo de vivermos de maneira incoerente, e quem vive de maneira incoerente neste mundo diante de Deus, não se prepara para o encontro derradeiro e definitivo. Este se assemelha às virgens estúpidas da parábola narrada por Jesus. Seria terrível, após uma vida incoerente toda inteira, ouvir de Jesus no ultimo dia: “Na verdade Eu não vos conheço, na verdade Eu não te conheço”. Paulo fala, na primeira Epístola, de sabedoria humana contraposta à sabedoria Divina. Os gregos, diz ele, vão atrás dos requintes da filosofia, de um raciocínio razoável, lógico. Os judeus vão à cata de sinais prodígios e milagres. “Nós, diz Paulo, anunciamos Cristo crucificado, que é escândalo para uns e idiotice para outros”. Cristo crucificado em primeiro lugar, escândalo para os pagãos. Algum ser humano logicamente iria imaginar que se pregasse uma religião de um Deus crucificado, alguém humanamente poderia imaginar que esta religião teria adeptos? Ao lado de uma sabedoria humana e contraposta a sabedoria humana, existe a sabedoria de Deus, apesar de os pagãos insistirem na lógica, no conceito claro, Deus mostra a Sua liberdade através da pregação da loucura da cruz. Os judeus insistiram com Jesus a vida inteira para que lhes fizesse milagres, ou então lhes indicasse um sinal vindo do céu a  Seu modo, a gosto deles. Jesus se recusou terminantemente a isto. Hoje os textos querem dizer a nós que o cristianismo é obra de Deus. O que parece ser fraqueza para a lógica humana, é exatamente o que Deus assume para levar os seres humanos à salvação, e o que é fraqueza de Deus, é mais forte do que os homens, e através da pregação da loucura da cruz, milhões de seres conosco, e antes de nós, aderiram ao Deus Jesus crucificado.

 

Nós temos dois textos que falam do martírio de João Batista. O Primeiro, não canônico, foi escrito por Flávio Josefo, o segundo texto é o do nosso evangelista. Do ponto de vista histórico, o texto de Flávio Josefo é mais atendível Marcos é mais folclórico, porque mistura com narração de sua morte, um banquete dado por Erodes Antipas, traz o motivo de uma dançarina, que recebe do rei, a promessa de obter a metade do seu reino. Nós conhecemos na literatura da Antiguidade todos esses clichês literários. De qualquer maneira embora a eperícope de Marcos seja menos realista e histórica que Flávio Josefo, ambos falam do final desta grande figura: João Batista. João Batista havia precedido Jesus no Seu nascimento, na Sua vida pública, na Sua pregação e agora o precede na Sua morte. João Batista havia fascinado a muitos, havia batizado Jesus. É possível imaginar Jesus, durante algum período, discípulo de João Batista antes de iniciar um caminho todo próprio e Seu. É possível que Jesus tenha lido nas entrelinhas e no horizonte da decapitação de João Batista, a Sua própria sorte, Seu próprio Cálice, Sua morte dolorosíssima, Ele também foi entregue às mãos dos homens. Ontem dizia que ninguém anuncia o Evangelho de maneira, confortável e sem pagar o preço desse anúncio através do sofrimento apostólico. Isso valeu para o Precursor e vale, antes de tudo, para Jesus. Os verdadeiros missionários podem não derramar o sangue, mas certamente, sofrem durante o tempo em que anunciam a Boa Nova do Reino de Deus. Jesus Cristo nos ensina que Deus não liberta os seus queridos missionários dos sofrimentos que lhes podem vir. Deus normalmente não realiza nenhum milagre para nos libertar de sofrimentos apostólicos. Dá-nos a força para os superarmos, como certamente, concedeu a João Batista.

 

João Batista utiliza o tema habitual da pregação profética denunciando o pecado, de modo ainda mais intenso diante da vinda de Jesus que irá inaugurar o Julgamento, o que é anunciado como iminente. Ele volta para os fariseus e os denomina “raça de víboras”. Estes se separando dos demais membros do povo, olhava-os do alto e de longe, com desprezo. Sem falar da hipocrisia que os caracterizava, pois observavam uma vida rigorosa só de fachada. Os saduceus formavam o partido sacerdotal e tinham uma vida instalada, muito mais politizada. Estavam alinhados com o poder romano até mesmo em algumas questões religiosas. Ao falar da ira que está para vir, ele se refere ao dia do julgamento e, ao mesmo tempo, suas palavras soam como um apelo à conversão e à penitência: “Fazei pois dignos frutos de penitência”. Não só uma boa vontade vaga, mas atos que sejam fruto de uma penitência interior. Atos, não só formais e exteriores, mas que fossem testemunhas indispensáveis e assim a árvore fosse reconhecida por seus frutos. A pregação de João Batista tem assim um tríplice anúncio: A aproximação do Reino-Julgamento; Fazer penitência, conversão; Evitar o perigo de serem presas do pecado. Caso contrário a árvore será cortada e jogada ao fogo, ou seja, pelo fogo será julgado o valor da obra. “Porque, comenta Santo Agostinho, existem dois reinos e dois povos, o de Cristo e o do diabo”. Por isso, João Batista dirá mais adiante que “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo”. Santo Hipólito dirá que “a água está significando o Espírito e o fogo, o sangue”, que segundo Santo Agostinho significa “a tribulação que iram padecer os fiéis pelo nome de Cristo”. Quantos seguirão Jesus no martírio, fortalecidos em seus corações pelo amor de Deus e por sua verdade. Herodes, convidado a se libertar do pecado, preferiu livrar-se do homem que o confrontava com o seu pecado. “João reprovava Herodes, escreve Orígenes (204), com a liberdade de um profeta; levado à prisão por causa disto, não temia a morte, mas somente pensava no Cristo que ele tinha anunciado. E não podendo ir ao seu encontro, envia dois de seus discípulos para interrogá-lo: “És tu aquele que deve vir?” Os discípulos retornam, e relatam ao seu mestre o que o Salvador tinha dito. Então João, armado para o combate, morre com segurança”. “Senhor, concedei-nos uma consciência iluminada pelo vosso Espírito Santo, para que guiados por Ele sejamos fiéis à vossa mensagem”.

 

Martírio de São João Batista – Mc 6, 17-29
Cale-se a voz do Precursor, para que não mais seja ouvida a Palavra. Sejam caladas, mais tarde, as vozes dos apóstolos e discípulos de todos os tempos, para que já não ressoe mais a Palavra. No entanto, quem pode silenciar a Palavra eterna do Pai, Jesus Cristo, Senhor nosso? Se a voz de João, o Batista, não pode mais soar, o seu sangue grita: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). E, do mesmo modo, grita o sangue de todos os que, desde João até os dias de hoje, deram a vida pelo testemunho do Senhor e não O renegaram. Herodes, porém, representa o mundo: “tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava”. Como soava a voz profética de João diante de Herodes, denunciando seus erros e anunciando a Verdade, assim ressoa hoje a voz da Igreja, profética igualmente, diante do mundo. Ressoa a voz do Papa, não mais do que um homem, velho e frágil, encarregado de uma missão que ultrapassa suas forças; mas tornado por Deus “uma cidade fortificada, uma coluna de bronze, um muro de ferro contra todo o mundo” (Jr 1, 18). Tal como João, o Papa e a Igreja embaraçam a quem os escuta. Os poderosos da terra temem a este homem velho, mas verdadeiramente enviado por Deus, e tremem ao ouvir a sua voz, portadora da Palavra. “Seu som ressoa e se espalha em toda a terra, chega aos confins do universo a sua voz” (Sl 18, 5). E quem poderá silenciá-la?
Sermão sobre a Degolação de São João Batista, de Lansperge, o Cartuxo (1489-1539), religioso e teólogo
Fonte: http://www.evangelhoquotidiano.org

 

João Batista morre por Cristo
João não viveu para si próprio nem morreu para si próprio. A quantos homens carregados de pecados a sua vida dura e austera não terá levado à conversão? A quantos homens a sua morte não merecida não terá encorajado a suportar as provas? E a nós, donde nos vem hoje a ocasião para darmos fielmente graças a Deus, senão da lembrança de São João Batista, assassinado pela justiça, ou seja por Cristo? […] Sim, João Batista sacrificou de todo o coração a sua vida terrena por amor de Cristo; preferiu menosprezar as ordens do tirano que as de Deus. Este exemplo  ensina-nos que nada nos deve ser mais querido que a vontade de Deus. Agradar aos homens não serve de grande coisa; em geral, até prejudica grandemente. […] Por esta razão, com todos os amigos de Deus, morramos para os nossos pecados e as nossas preocupações, pisemos o nosso amor próprio desviado e deixemos crescer em nós o amor fervoroso a Cristo.

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