Leigas e leigos, ânimo!

No mês vocacional, lembremo-nos do preponderante da missão dos leigos
Por Edson Sampel / São Paulo, Região Sudeste, Brasil, 24 de Agosto de 2015 (ZENIT.org)

Qual é o papel dos leigos na Igreja? O Concílio Vaticano II nos dá a resposta. A “índole secular”, isto é, a vocação para estar no mundo, caracteriza especialmente os leigos, segundo a constituição dogmática “Lumen Gentium” (n.º 31). Deste modo, os leigos são responsáveis pela evangelização das realidades seculares, como a família, o mundo do trabalho, a economia e, principalmente, a política.
O cumprimento destas “tarefas terrestres” por parte dos leigos é tão importante, que o Concílio lhes faz uma séria advertência: “Afastam-se da verdade os que, sabendo não termos aqui [neste mundo] cidade permanente, mas buscarmos a futura, julgam, por conseguinte, poder negligenciar os seus deveres terrestres, sem perceberem que estão mais obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé (…)” (Constituição pastoral “Gaudium et Spes”, n.º 43).
O decreto “Apostolicam Actuositatem”, também do Concílio Vaticano II, discorre especificamente acerca do apostolado dos leigos e preceitua constituir obrigação deles “aperfeiçoar as coisas temporais dentro do espírito cristão (n.º 4), bem como construir a ordem temporal, em espírito de concórdia (n.º 7).
Por fim, a legislação eclesiástica confirma o plano do Concílio Vaticano II para os leigos, convidando-os a animar e a aperfeiçoar a ordem das realidades temporais com o espírito do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo (cânon 225, § 2.º do C.I.C.). Dadeus Grings, arcebispo emérito de Porto Alegre, escreveu que quando se indaga a Igreja sobre o que ela faz em prol do bem-comum, deve-se devolver a pergunta aos leigos (“A Ortopráxis na Igreja”, p. 60).
Pelo que se constata do magistério do Concílio Vaticano II, a alma do apostolado laical se situa em todas as atividades inerentes ao dia a dia de qualquer cidadão. É verdade que muitas vezes os leigos são solicitados para o auxílio em encargos intraeclesiais (catequese, liturgia, ministério extraordinário etc.), porém, isto não é o típico do apostolado laical que, como vimos, caracteriza-se pela secularidade (estar no mundo), ou seja, por dar o testemunho do evangelho fora da Igreja.
Participar dos sacramentos, máxime da santíssima eucaristia aos domingos, é condição sine qua non para que os leigos possam desempenhar frutuosamente as chamadas atividades seculares, levando a boa nova do Divino Salvador aos lugares onde somente eles conseguem penetrar (cânon 225, §1.º do C.I.C.).
Infelizmente ainda permanece em muitas comunidades eclesiais certa mentalidade que visa a “clericalizar” os leigos, tendo-os por bons apenas se eles desempenham alguma função estritamente pastoral. Tal modo de pensar, conforme vimos acima, vai de encontro ao projeto do Concílio Vaticano II e infantiliza os católicos leigos.
Onde estão, por exemplo, as “bancadas católicas” nos diversos parlamentos legislativos do Brasil? Verificamos, isto sim, a presença das “bancadas evangélicas”, porquanto nossos irmãos separados parecem estar mais cônscios de sua laicidade e, graças a Deus, pugnam pelos valores do cristianismo, combatendo projetos de lei que anelam por destroçar a família.
Os leigos não podem fazer uma dicotomia entre a fé e a vida quotidiana, mormente porque o papel deles é exatamente santificar a vida quotidiana, evangelizando no trabalho, na família, na arte, na política, enfim, nas cidades, nas ruas.
Os leigos hão de seguir o exemplo de uma leiga, Maria santíssima, a mãe de Jesus. Esta mulher leiga é decerto o protótipo do autêntico discípulo do Messias e o comportamento dela serve de parâmetro tanto para leigos quanto para clérigos.

 

UM PASSO PARA FRENTE
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá – AP

Aconteceu durante uma guerra. Os homens lutavam para escrever uma página da história. O grupo estava avançando, afundando na lama. Não havia caminho e cada passo exigia um esforço fora do comum. O capitão decidiu fazer uma última e desesperada tentativa. Juntou os soldados, quase irreconhecíveis, com os uniformes incrustados de lama e de medo.

– Preciso de voluntários – gritou o comandante olhando aqueles rostos e querendo ver neles algum sinal de heroísmo – vou lhes deixar alguns instantes para decidirem, quem se oferecer dê um passo para frente! – Virou as costas e esperou.

Quando encarou novamente os homens viu uma única fila compacta.

– Ninguém se ofereceu? – perguntou com amargura.

– Capitão, todos nós demos um passo para frente – respondeu, quase sem voz, o mais jovem daqueles uniformes.

Parece uma cena de filme, de tão acostumados que estamos com a ficção da televisão. Histórias verdadeiras de heroísmo, porém, existem e acontecem todos os dias. Falo de pessoas honestas, cumprindo o seu dever com humildade e dedicação. Outras ajudando o próximo ou servindo a quem precisa sem alarde e sem propaganda. Existem também os casos que se tornam manchetes como os de alguém que devolve dinheiro alheio, encontrado por acaso, e também em ocasiões de desastres quando a solidariedade e o amparo vêm, muitas vezes, de quem menos se esperava. Assim é o heroísmo: um gesto que suscita admiração e deveria conduzir à imitação. Debochar de quem se esforçou, arriscou a vida ou simplesmente mostrou solidariedade e honestidade é, no mínimo, inverter os valores sobre os quais deveria alicerçar-se uma sociedade que busca o bem e a convivência pacífica de todos. É importante que, ao menos algumas vezes, o bem se torne notícia, para não esquecermos que a atitude mais comum a todos nós deveria ser praticar aquelas virtudes que embelezam e enriquecem a vida. É sempre bom que, no meio de tantas notícias trágicas ou sobre as futilidades dos “famosos”, apareçam notícias, do bem, bem feitas e merecedoras de reconhecimento.

A esta altura, não seria o caso de pensar que nós todos poderíamos ou deveríamos ser um pouco mais heróis? Quando Jesus nos convida a segui-lo carregando a nossa cruz nos manda, afinal, a não fugir das nossas responsabilidades e das infinitas possibilidades de fazer o bem que, com certeza, aparecem todos os dias à nossa frente. Se o extraordinário chama a nossa atenção, o cotidiano pode fazer de nós verdadeiros heróis da paciência, da perseverança, e da fidelidade. Talvez a cruz de todos os dias seja tão pesada quanto um gesto ocasional único e irrepetível. Ou, talvez, o gesto heróico se torne possível porque todos os dias treinamos um pouco de amor para não perder o costume da generosidade, a sensibilidade do coração, enfim a disposição a fazer o bem. Não é por acaso que o pior inimigo da nossa vida cristã não seja tanto o mal que, graças a Deus, não cometemos tanto assim, mas a mediocridade, isto é, a incapacidade de sobressair: na nossa maneira de falar e agir, pelo bem que cumprimos, pelas virtudes que praticamos, pela bondade que espalhamos. Para nós cristãos, esforçarmo-nos para sermos melhores não é ambição, mas obrigação. Simplesmente para não cair na indiferença e esquecer a alegria de doarmos um pouco, ou muito, da nossa própria vida. Somente assim nos salvamos da mediocridade e ajudamos a outros a dar um sentido melhor à própria vida. Para sermos bons cristãos não basta não fazer o mal, é urgente fazer o bem.

Neste último domingo de agosto, precisamos agradecer a tantos irmãos e irmãs que ajudam nas nossas paróquias e comunidades. Além daquelas pessoas maravilhosas sempre disponíveis para ajudar em tudo o que for preciso, existem também muitos ajudando em serviços específicos conforme a disponibilidade e as capacidades de cada um. Lembramos de maneira especial as catequistas e os catequistas e todos aqueles que procuram fazer conhecer e amar mais a nossa fé. No entanto qualquer um que pratica o bem é, de fato, um evangelizador, um sinal de esperança e de vida nova para quem o encontra.

Estamos combatendo uma guerra contra a indiferença e a mediocridade, precisamos de voluntários. Quem puder dê um passo para frente. Qualquer vitória contra o egoísmo começa assim.

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