Santo Agostinho de Hipona

Santo Agostinho, ornamento da ordem episcopal, um dos mais brilhantes astros do orbe cristão, e tão distinto entre os doutores da Igreja, nasceu em Tagaste, cidade da Numídia, em Állica, no dia 13 de Novembro de 354. Foi de família honrada, e ainda que Patrício, seu pai, não era cristão, sua mãe, santa Mônica, ganhou por tal forma o coração do marido por sua mansidão, por seu sofrimento, paciência e virtude que obteve que toda a família se fizesse cristã. Não exercitou pouco a virtude e a paciência de sua santa mãe a inquieta e buliçosa infância de Santo Agostinho. Pela vivacidade extraordinária do seu gênio e pela veemência de suas paixões, era pouco dócil. A mesma facilidade que tinha em compreender tomava-o frouxo e descuidado em estudar. A sua paixão dominante era o amor da liberdade e dos divertimentos, não podendo tolerar nem freio nem sujeição. Não poupava a virtuosa mãe meio algum para lhe dar uma educação cristã. Tinha-o alistado entre os catecúmenos quando caiu perigosamente enfermo e se viu às portas da eternidade. Ele próprio pediu então o batismo; mas, melhorando em seguida e desconfiando todos de suas más inclinações, teve-se por conveniente deferi-lo até que, com a madureza da idade, melhorasse de disposição. Logo que aprendeu a ler em Tagaste, enviaram-no a Madaura, cidade pouco distante, a estudar gramática e letras humanas. Imediatamente se enamorou muito das fábulas e de todos os vãos delírios da antiguidade profana. Cedo começou a sobressair entre todos os condiscípulos pela superior valentia do seu engenho, distinguindo-se particularmente no exercício da eloqüência. Deram a seu pai informações tão vantajosas da sua rara compreensão e extraordinários talentos, que aos dezesseis anos de idade o retirou de Madaura e o enviou a Cartago, para que ali continuasse os estudos. Mas, enquanto dispunha a viagem para aquela cidade, demorou-se um ano em Tagaste sem se aplicar a coisa alguma, em casa de seus pais; e neste tempo, fazendo os seus costumados estragos a ociosidade, entregou-se sem freio a toda a casta de dissoluções. Aflita em extremo, a piíssima mãe fazia quanto podia para que o filho se emendasse. Mas, nem rogos, nem amorosas repreensões, nem salutares conselhos faziam impressão em um mancebo perdido, a quem tudo dissimulava a excessiva indulgência de seu pai. Passando a Cartago, ainda mais desaforadamente correu pelos excessos da lascívia, fomentada por perversas companhias e pelos espetáculos profanos, a que era violentamente inclinado. Contudo, no meio de tão grande desordem, como não podia apagar do seu coração aquelas impressões, que nele tinham gravado as primeiras lições cristãs de sua virtuosa mãe, pedia a Deus, de onde a onde, a dom da castidade, mas com receio de que se lha concedesse. Deleitava-se muito em ler as obras de Cícero, nas quais só o desgostava, como ele próprio disse, não encontrar o nome de Jesus Cristo, que se lhe gravou na alma desde os mais tenros anos. Como a desordem dos costumes conduz quase sempre à irreligião, caiu em todos os erros dos maniqueus. No entanto, mais e mais aflita, chorava Santa Mônica amargamente dia e noite diante do Senhor, pedindo-lhe sem cessar que tivesse misericórdia da alma dele. Sendo já Agostinho a admiração dos sábios pela perfeita compreensão de todas as obras de Aristóteles e por sua celebrada eloqüência, ensinou retórica em Cartago aos vinte anos de idade; e crescendo nele a ambição com o aplauso, resolveu passar a Roma. Por mais que fizesse, não pôde ocultar este desígnio à sua piedosa mãe, que tinha vindo a Cartago para trabalhar mais eficazmente em convertê-lo. Quis seguir Agostinho; mas este desembaraçou-se daquele estorvo com um artificioso engano. Aconselhou-a a que passasse a noite em oração na capela de são Cipriano, que estava logo ali perto do porto; e enquanto a mãe se achava assim entretida, fez-se à vela. Hospedou-se em Roma em casa de um maniqueu, onde caiu perigosamente enfermo; mas nem por isso se converteu. Professou nesta cidade a retórica com maior aplauso ainda do que em Cartago, ao tempo em que o magistrado de Milão escreveu ao prefeito de Roma, pedindo-lhe que lhe enviasse um retórico hábil e distinto. Pouco demorou a escolha; Agostinho foi preferido a todos os outros. Logo que chegou a Milão, foi visitar o bispo Santo Ambrósio, cuja fama era grande em todo o mundo. Recebeu-o com tanto agrado, que começou a ganhar-lhe o coração; assistindo depois com freqüência aos sermões do santo prelado, sentia renovarem-se em sua alma todos os remorsos da consciência. Já havia tempo que, tendo confundido a Fausto, o mais famoso dos bispos maniqueus, em uma conferência pública, professava a seus erros um grandíssimo desprezo, e andava muito desgostoso com tal seita; mas as relações ilícitas que tinha com uma mulher, de quem tinha tido um filho, estorvavam-lhe a conversão, não obstante estar persuadido de que só a religião cristã era a verdadeira. Nestas circunstâncias, chegou a Milão santa Mônica, resolvida a não abrir mão da empresa até alcançar de Deus a conversão do filho, ajudada agora por santo Ambrósio. Pareceu a esta santa mulher que era conveniente casá-lo para o tirar da má vida. Consentiu Agostinho em se separar, mandando para a África a mulher com quem vivia amancebado, a qual passou o resto de seus dias na penitência. Entretanto, como não cessava a graça de solicitar interiormente o coração de Agostinho – já pelos conselhos de sua mãe, já pelas conversas e sermões de Santo Ambrósio – teve desejo de uma conferência com um presbítero, chamado Simpliciano, que instruíra o mesmo santo Ambrósio. Este exortou-o vivamente a romper com os laços que o traziam aprisionado, e referiu-lhe a conversão de Vitoriano, em que tanta parte havia tomado o mesmo Agostinho, e que ele bem conhecia. Este exemplo impressionou-o tão vivamente que resolveu imitá-lo; mas era apenas uma meia vontade, que nunca passava à execução. Estando um dia no quarto com o seu amigo Alípio, entrou Ponciano. Viu em cima da mesa as epístolas de são Paulo, com o que se mostrou muito edificado, e como era muito cristão, tomou daqui ocasião para falar da assombrosa vida de santo Antão, da multidão de mosteiros que povoavam os desertos e da admirável conversão de dois oficiais do imperador, que, lendo a vida deste grande santo, imediatamente voltaram costas ao mundo e abraçaram a vida cenobítica, entregando-se à oração e à penitência. Despediu-se Ponciano. Agostinho, vivissimamente comovido com o que acabava de ouvir, levantou-se e, voltando-se para Alípio, disse-lhe, em tom de voz que denotava bem o muito que a graça trabalhava em seu coração: «Que é isto, Alípio? Em que nos detemos? Levantam-se os indoutos e arrebatam-nos o céu? E nós com toda a nossa ciência andamos sempre de rastos pela terra? Pois quê! Porque eles foram mais sensatos do que nós, não ousamos nós sê-lo tanto como eles? E porque eles foram adiante, teremos nós vergonha de os seguir?» Dizendo isto, saiu do quarto arrebatadamente. Admirado Alípio de tão estranha mudança, foi-o seguindo até ao jardim. Ali sentou-se Agostinho e começou a desabafar em lágrimas e suspiros; mas, não tendo toda a liberdade que desejava à vista do amigo, levantou-se e, sem dizer nada, dirigiu-se para a parte mais solitária do jardim; lançou-se ao chão debaixo duma figueira, e desatando em uma torrente de lágrimas, começou a exclamar com voz entrecortada de soluços: «Até quando, Senhor, até quando terei de experimentar os efeitos da vossa indignação? Até quando deixarei sempre para amanhã o que posso fazer hoje? E se amanhã, porque não desde agora?» Ao pronunciar isto, ouviu uma voz milagrosa que lhe dizia: «Toma e lê, toma e lê». Atônito com o que ouvia, levanta-se, volta a procurar o amigo, toma nas mãos as epístolas de são Paulo, que tinha deixado ao pé dele; abre-as e depara com estas palavras: «Despi-vos da dissolução, dos deleites, das imundícies; mas revesti-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis da carne no que toca a concupiscências», Mal acabou de ler a última palavra, logo se conheceu superior a todas as irresoluções. Alípio, igualmente movido, quis ser seu companheiro na nova vida. Retiraram-se os dois, foram ter com santa Mônica e referiram-lhe quanto se tinha passado. Foi inexplicável o gozo da santa matrona, especialmente quando ouviu a seu filho Agostinho que já não pensava em casar-se, mas no retiro e na solidão. Para melhor se dispor a fim de receber o santo batismo, retirou-se Agostinho a uma casa de campo perto de Milão, em companhia da mãe, do filho Adeodato e do amigo Alípio. Neste retiro compôs o tratado da Vida feliz, o da Imortalidade da alma, o da Ordem da Providência e os Solilóquios. Passava quase metade da noite meditando nas verdades da religião; continuava as suas orações até uma hora adiantada do dia. E encontrava nos salmos um gosto muito requintado. Escreveu a santo Ambrósio – que tinha manifestado a santa Mônica um gozo singularissimo por aquela conversão – dando-lhe conta da disposição em que se via e pedindo-lhe santas instruções a fim de se preparar para o sagrado batismo. No princípio da quaresma de 387 voltou a Milão, onde foi batizado por Santo Ambrósio, no sábado santo, em companhia do filho Adeodato e do amigo Alípio. Contava então santo Agostinho trinta e três anos. Elevado pelo batismo à dignidade de filho de Deus, resolveu conservá-la toda a vida com a pureza de costumes e com o regramento de todo o proceder. Mas considerando que o espírito do mundo podia servir de embaraço aos seus intentos, tomou o partido de se retirar, resolvido a procurar na África aquele lugar que lhe pareceu mais a propósito para chorar os seus pecados. Partiu de Milão em companhia da mãe e do filho, demorando-se no porto de Óstia à espera de embarcação. Aqui perdeu sua querida mãe, santa Mônica; não pôde recusar o tributo de temas lágrimas àquela que tantas havia chorado por ele durante a sua vida. Concluído o funeral de sua santa mãe, passou a Roma, com intenção de se demorar algum tempo nesta cidade; empregou-o todo na conversão dos maniqueus. Não podendo tolerar-lhes o descaramento com que se jactavam de sua imaginária continência, para os curar e reduzir à fé, compôs então os dois livros dos Costumes da Igreja Católica e dos Costumes dos maniqueus; e quase logo a seguir o tratado do Livre arbítrio. contra os mesmos hereges. Depois duma estada em Roma, de quinze a dezesseis meses, embarcou em Óstia e aportou à Áftica por fins do Inverno do ano 389. Retirou-se a uma casa de campo com alguns amigos e por espaço de três anos entregou-se inteiramente a exercícios de devoção e de rigorosa penitência. Ocupava-se dia e noite em oração, no estudo da religião e da Sagrada Escritura. Jejuava com extremo rigor e macerava a carne com grandes e contínuas penitências. Neste santo retiro compôs os dois livros sobre o Gênesis, e o que intitulou o Mestre. que é um admirável diálogo com seu filho Adeodato, a quem pouco tempo depois perdeu no mesmo retiro. Contava Agostinho quase três anos de piedosas delícias, sossego e gosto daquela amável solidão, quando o obrigou a sair dela a fama da sua eminente virtude e da sua rara sabedoria. Certo grande senhor da cidade de Hipona, uma das principais da Numídia, bom cristão e grande amigo do nosso santo, instou com ele para que fosse visitá-lo. Consentiu em fazer esta viagem com a esperança de o mover e aumentar a sua pequena comunidade. Achando-se em Hipona, o bispo da cidade, chamado Valério, propôs ao povo a necessidade que tinha a sua igreja de um presbítero virtuoso e sábio que auxiliasse o mesmo bispo nas funções do ministério pastoral. Como a sabedoria e a virtude de Agostinho eram bem conhecidas, não quiseram outro; mas era mister surpreendê-lo, porque o abismava até a sombra desta dignidade. Um dia entrou na igreja, quando estavam juntos os fiéis, e no mesmo instante lançaram mão dele; e sem darem ouvidos nem aos seus rogos nem às suas lágrimas nem às suas razões, todos a uma voz começaram a clamar que o ordenassem de presbítero. O bispo Valério, que estava já de acordo, fez ainda menos caso do que os outros, de seus argumentos, e depois de lhe conferir as outras ordens, ordenou-o sacerdote. Um dos motivos que mais o moveram foi a promessa de um terreno para fundar um mosteiro. Logo que se acabou a fábrica, concorreu a povoá-lo grande número de pessoas, para as quais compôs o santo a sua regra. Era neles extrema a pobreza, o jejum e o silêncio contínuos, a oração apenas interrompida de longe a longe. É esta a regra admirável que foi como a mãe fecunda de tantas famílias religiosas e é ainda hoje uma das mais ilustres e das mais santas que ornam a Igreja. Posto não ser costume na igreja de África os presbíteros pregarem, sendo este ministério privativo do pastor, não hesitou Valério em dispensar este costume a favor de Agostinho. Quis pois que repartisse ao povo o pão da divina palavra, e fê-la com tanto fruto que só o conheciam pelo nome de apóstolo da palavra de Deus. Pregava-a todos os dias, e cada dia com maior concurso e com aplauso mais universal. Não se contentando Agostinho com fazer guerra aos vícios por meio dos seus sermões, fazia-lha também, e não menos sangrenta, com as armas de seus escritos. Compôs o livro da Utilidade da fé, com o qual reformou muitos abusos que se haviam introduzido em Hipona. Teve uma disputa pública com Fortunato, que era chefe dos maniqueus, na qual não só o confundiu, mas até o convenceu, pois chegou a prometer converter-se, muito embora se limitasse a ausentar-se da cidade. No ano de 393 assistiu ao concílio de Hipona, convocado por Aurélio, bispo e primaz de Cartago, no qual, a rogo dos padres, compôs a obra da Fé e do Símbolo, que é admirável compêndio da doutrina cristã. No mesmo ano, publicou vários escritos contra os donatistas e maniqueus, declarando-se o açoite de todos os hereges. No ano de 394 estreitou-se a íntima amizade entre são Jerônimo e Santo Agostinho, tendo-a ligado Alípio em uma viagem que fez à Palestina. Também são Paulino de Nola quis ter correspondência com o nosso santo, que era venerado no mundo como o oráculo da Igreja. O bispo Valério, receando que o privassem de Agostinho, chamando-o a governar alguma diocese, resolveu pedi-lo para seu coadjutor e conseguiu-o. Juntos os bispos da província, não fazendo caso da resistência que ele opunha, obrigaram-no a render-se à vontade do Senhor, consagrando-o bispo coadjutor do de Hipona no ano 395, aos quarenta e dois de idade. Tremeram logo todas as seitas ao verem Agostinho na sé episcopal. Os donatistas, de que estava cheio aquele país, prevendo o perigo que o seu partido corria, se Agostinho se declarasse contra eles, pediram composição. Propôs-lhes uma conferência; obrigaram o seu bispo Proculiano a aceitá-la; mas este não teve valor para se medir com semelhante adversário. Recorreram a um bando de facinorosos que era a flor dos donatistas em honestidade. Chamavam-lhes Circunceliões, porque sua ocupação principal era rondarem continuadamente as casas para cometerem toda a casta de violências e crueldades. Sedentos do sangue dos católicos, mais o eram ainda do de Agostinho; muitas vezes tentaram assassiná-lo, mas sempre o livrou Deus por milagre. Não obstante, não descansava o santo de trabalhar em sua conversão, já por palavras, já por seus escritos; foi por esta ocasião que redigiu os trabalhos sobre o batismo e sobre a unidade da Igreja. Assistiu a muitos concílios que se convocaram em Cartago e em outras partes, sendo a alma e oráculo de todos eles. Mas não o ocupavam tanto os hereges, que não dedicasse a sua principal atenção ao cuidado do seu rebanho, principalmente depois da morte do bispo Valério, seu predecessor: visitando a diocese com todo o zelo e com todo o fruto correspondente ao alto conceito da sua santidade e de seu mérito. Como os donatistas não cessavam de perturbar a igreja de África, viu-se obrigado o imperador Honório a permitir uma disputa pública entre os indivíduos mais hábeis dos dois partidos. Celebrou-se em Cartago, no ano de 411; concorreram a ela 286 bispos católicos e 279 donatistas. Assistiu a este famoso congresso o tribuno Marcelino, a quem o imperador nomeou seu comissário para evitar toda a desordem. Quem mais sobressaiu foi Santo Agostinho, que deixou confundido a Petiliano, o Aquiles dos hereges. Triunfou a religião católica e dissipou-se como fumo aquela espessa nuvem de donatistas. Mas não foram estes os únicos hereges que o santo venceu, nem esta a única vitória que obteve. Havia-o escolhido Deus para perseguir, para arrancar a máscara, para atacar e vencer todas as heresias. Depois de confundir, prostrar e aterrar os arianos, priscilianistas, origenistas e maniqueus, foi-lhe preciso terçar armas com Pelágio. Este monge, originário da Irlanda, de tal maneira havia enganado o mundo com a sua compostura exterior, com o seu aspecto de homem penitente e mortificado e com todo o aparato de varão exemplar e virtuoso, que geralmente era tido como homem santo, e à sombra desta reputação tinha difundido por toda a parte o veneno da mais perniciosa heresia. Enquanto o mestre a ia alastrando pelo Egito, o seu discípulo Celéstio semeava-a e difundia-a pelo Ocidente. Refutou Santo Agostinho todos os erros desta seita por um prodigioso sucesso de escritos, que com justa razão lhe mereceram o glorioso nome de doutor e defensor da graça. Não se falava já em todo o orbe cristão senão dos talentos, obras e vitórias de santo Agostinho, venerado como assombro do mundo e defensor da Igreja. De todas as partes acudiram para consultá-lo; não se celebrava concílio ou congresso de bispos e de doutores a que não fosse chamado, e onde não fosse ouvido como oráculo. Mas o que maior admiração causa é que, sendo tão elevado o seu mérito e a sua fama tão extraordinária, fosse maior ainda a sua humildade. Aquele grande e sublime engenho nunca perdeu de vista o seu nada, nem os extravios da sua juventude. Com este humílimo espírito compôs o livro das suas Confissões, procurando diminuir a alta reputação de santidade com esta pública confissão de seus pecados. Diz-se que, passando um dia à beira-mar, pensando no mistério da Santíssima Trindade, em que então se ocupava, encontrou um menino, ao parecer muito afadigado em meter a água do mar em uma poça que abrira no area!. Perguntou-lhe o santo o que desejava ele fazer. «Meter toda a água do mar nesta poça», respondeu-lhe o menino. «Pois, filho, respondeu-lhe santo Agostinho, não vês que isso é impossível?» «Mais fácil é isto, tomou-lhe o menino, do que compreender com teu limitado entendimento a grandeza do mistério incompreensível». Assim como a ciência não havia entumecido o seu coração, também os estudos não lhe haviam entibiado a devoção. De poucos santos se conta virtude mais afetuosa, mais tema, nem de maior suavidade, do que a de santo Agostinho; de poucos que tivessem o coração tão abrasado no amor de Deus, puro, ativo e fogoso; de poucos que professassem a Jesus Cristo e a sua Mãe Santíssima uma devoção mais viva, nem mais tema. «Atravessaste, Senhor, o meu coração, diz ele, com uma seta tão penetrante, que bem metida adentro no peito, ficou abrasado o ferro dentro da ferida». Este era aquele divino fogo que ilustrava o seu entendimento, que inflamava o seu coração, e que nele ateava aquele fogoso zelo, por cujo impulso foi sempre o açoite dos hereges. Basta ler os Solilóquios. as Meditações e as Confissões para reconhecer o fogo do amor de Deus que o consumia, e o bom fundamento com que o pintam com o coração na mão, todo cercado de chamas. O esmero da sua pureza não podia ser maior, não consentiu nunca que lhe entrasse em casa mulher alguma, nem a sua própria sobrinha, nem mesmo a sua irmã. A caridade para com os pobres correspondia ao seu grande amor de Deus. Dizia que as rendas do bispo eram rendas do pobre, e que se o pobre não achava que comer em casa do bispo, era preciso que o bispo ficasse nesse dia sem comer. Não podia suportar os murmuradores; e era ditado comum que a murmuração temia tanto a presença de Agostinho, como o erro temia as suas disputas. Achando-se o santo doutor adiantado em idade, pediu que lhe dessem por companheiro o presbítero Heráclio, para com ele dividir os cuidados da diocese. Vendo-se agora aliviado, empreendeu a revisão e o exame de suas obras, que orçavam já por 232 livros, compreendidos em 80 tratados de diferentes matérias, sem incluir um grande número de cartas e de sermões sobre assuntos muito importantes. Este exame e revisão produziu a obra das suas Retratações em que emenda o que achou menos conforme ou menos exato, censurando e criticando os seus mesmos escritos com severidade. Havia já algum tempo que santo Agostinho, consumido de penitências e de trabalhos, se sentia muito desfalecido, quando o conde Bonifácio, ressentido do imperador Valentiniano m, de quem se julgava agravado, chamou os Vândalos de Espanha. Desembarcou em África o rei destes, Genserico, à frente de oitenta mil homens, e em menos de dois anos se fez senhor de toda ela, à exceção das três cidades principais: Cartago, Hipona e Cirte. Muitos bispos, à aproximação destes bárbaros, retiraram-se; mas Santo Agostinho não quis nunca abandonar o seu rebanho. Exortava-os todos os dias a aplacar a cólera de Deus pelas penitências; não cessava de chorar dia e noite na presença do Senhor, suplicando-Lhe que não perdoasse ao pastor, mas que salvasse as ovelhas. A cidade estava cercada e sem esperança de socorro. Pediu ao Senhor que, se era sua vontade que a cidade caísse em poder dos bárbaros, o tirasse do mundo antes que fosse testemunha daquela desdita. Conheceu que Deus o tinha ouvido, pela enfermidade que o visitou. Dispôs-se para morrer. Recebeu os sacramentos com a fé e a piedade que o animavam; e no dia 28 de Agosto do ano 430 deu tranqüilamente a alma a Deus, rodeado dos discípulos e do clero, todos desfeitos em pranto, ao terceiro mês de sítio da cidade. Tal foi a preciosa morte deste homem verdadeiramente grande, a quem os maiores homens da Igreja chamam o farol dos doutores, o modelo dos prelados, o escudo da fé, o arsenal da religião, a torre de David donde pendem mil arneses, o açoite dos inimigos de Jesus Cristo, a coluna da Igreja e o mais iluminado mestre da moral cristã. Os sumos pontífices, e até mesmo os concílios têm feito magníficos elogios da doutrina de Santo Agostinho e de seus escritos. O Papa são Celestino engrandece a sua fé, e chama-o, com outros pontífices, seus predecessores, um dos primeiros doutores da Igreja. São Paulino apelida-o sol da terra; são Jerônimo, o inimigo do erro; e Sulpício Severo, industriosa abelha que sustenta os fiéis com o mel da sua doutrina e com o ferrão transverbera de lado a lado os hereges. Foi sepultado o seu santo corpo com toda a solenidade possível na igreja catedral. No ano seguinte apoderaram-se os bárbaros da cidade; puseram-lhe fogo, mas as chamas pouparam o sepulcro e a livraria do santo, onde estavam todas as suas obras. Os bispos de África, desterrados para a Sardenha, levaram consigo o são corpo, e em seu exílio serviu-lhes de grande consolação aquele tesouro. Ali esteve por espaço de 206 anos, até que Luitprando, rei dos Lombardos, o mandou trasladar para Pavia, no ano de 722, e naquela cidade se conserva ainda exposto à veneração pública.

 

Oração de Santo Agostinho

Diante de Vós, Senhor, apresentamos o fardo dos nossos crimes e simultaneamente as feridas que por causa deles recebemos. Se pensarmos no mal que fizemos, é bem pouco o mal que sofremos e muito maior o que merecemos. Foi grave o que ousamos cometer e leve o que agora sofremos. Sentimos que é dura a pena do pecado e, no entanto não nos decidimos deixar a ocasião dele. A nossa fraqueza geme esmagada sob o peso dos castigos com que nos punis justamente, e a nossa maldade não quer se desfazer dos seus caprichos. O espírito anda atormentado, mas a cerviz não se verga. A nossa vida suspira no meio das dores e não nos corrigimos. Se contemporizardes conosco, não nos emendamos, e se tirais de nós vingança, gritamos que não podemos. Se nos castigais, sabemos declarar que somos réus, mas se afastais por um pouco a Vossa ira, esquecemos logo o que deploramos. Se levantardes a mão, logo prometemos a emenda, se retirais a espada, já nos esquecemos da promessa. Se nos feris, gritamos que nos perdoeis, se nos perdoais logo entramos de Vos provocar. Tendes-nos aqui, Senhor, diante de Vós, confessamos os nossos pecados; se Vos não amerceais de nós, aniquilar-nos-á a Vossa justiça. Concedei-nos Pai onipotente, o que sem merecimento algum de nossa parte Vos pedimos, Vós que nos tirastes do nada. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

V. Senhor, não nos trateis segundo os nossos pecados. R. Nem nos castigueis segundo as nossas iniqüidades.

Oremos – Ó Deus, a quem o pecado ofende e a penitência propícia, olhai favoravelmente para as preces do Vosso povo e relegai para longe os vossos castigos da Vossa ira, que merecemos com os nossos pecados. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

 

PAPA CITA SANTO AGOSTINHO PARA EXPLICAR ESPÍRITO SANTO
Oferece uma explanação teológica da Trindade

SYDNEY, domingo, 20 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Com a ajuda de Santo Agostinho, Bento XVI dá uma breve aula de teologia sobre a terceira pessoa da Santíssima Trindade na vigília de sábado da Jornada Mundial da Juventude, no hipódromo de Randwick, em Sydney. O Espírito Santo «tem sido, de variadas maneiras, a Pessoa esquecida da Santíssima Trindade», disse o Papa aos jovens. «Uma clara noção d’Ele parece estar quase fora do nosso alcance». O Pontífice relembrou que era criança quando ouviu falar do Espírito Santo, mas nunca conseguiu entender a terceira pessoa da Trindade até se tornar um sacerdote e começar a estudar os escritos de Santo Agostinho. Ele disse que o entendimento de Agostinho sobre o Espírito Santo também se «desenvolveu gradualmente», e «foi uma luta». O Santo Padre falou que o teólogo teve «três intuições particulares relativas ao Espírito Santo enquanto vínculo de unidade no seio da Santíssima Trindade: unidade como comunhão, unidade como amor duradouro, unidade como doador e dom. «Estas três intuições – disse o Papa –  não são meramente teóricas; ajudam a explicar como age o Espírito». «Num mundo em que tanto os indivíduos como as comunidades sofrem muitas vezes por falta de unidade e coesão, tais intuições ajudam-nos a permanecer sintonizados com o Espírito e a alargar e esclarecer o âmbito do nosso testemunho».

Unidade
Bento XVI explicou que a primeira intuição de Santo Agostinho vem da reflexão sobre as palavras «Santo» e «Espírito», que «dizem respeito àquilo que pertence à natureza divina». «Em outras palavras», ele acrescenta, «àquilo que é compartilhado pelo Pai e pelo Filho na sua comunhão». «De fato, só na vida de comunhão é que a unidade subsiste e a identidade humana se realiza plenamente: reconhecemos a necessidade comum de Deus, correspondemos à presença unificadora do Espírito Santo e damo-nos reciprocamente servindo uns aos outros». Amor Bento XVI ainda falou sobre a segunda intuição do santo de Hipona, o Espírito Santo como amor que permanece. Na primeira carta de João, capítulo 1, versículo 16 está escrito que «Deus é amor», acrescentou o Papa. «Agostinho sugere que estas palavras, embora referindo-se à Trindade no seu todo, também se devem entender como expressão duma característica particular do Espírito Santo». O pontífice explica: «Refletindo sobre a natureza permanente do amor – quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele’  – Agostinho interroga-se: é o amor ou o Espírito que garante o dom duradouro?» Citando a obra do santo «De Trinitate», o Santo Padre reflete na conclusão do teólogo:  «O Espírito Santo faz-nos habitar em Deus e Deus em nós; mas é o amor que causa tudo isto. Portanto, o Espírito é Deus enquanto amor». «É uma explicação magnífica», exclama o bispo de Roma. «Deus compartilha-Se como amor no Espírito Santo». Bento XVI reflete ainda: «O amor é o sinal da presença do Espírito Santo. As idéias ou as palavras que carecem de amor – ainda que se apresentem sofisticadas ou sagazes – não podem ser ‘do Espírito’.» «Além disso, o amor apresenta um traço particular: longe de ser permissivo ou volúvel, tem uma missão ou um objetivo a realizar que é o de permanecer. Por sua natureza, o amor é duradouro.» «Mais uma vez, queridos amigos», diz o Papa, «podemos dar uma vista de olhos àquilo que o Espírito Santo oferece ao mundo: amor que dissolve a incerteza; amor que supera o medo da traição; amor que traz em si a eternidade; o verdadeiro amor que nos introduz numa unidade que permanece!»

Dom
Bento XVI disse que a terceira intuição de Santo Agostinho – o Espírito Santo como dom – deriva do relato evangélico da conversa de Cristo com a mulher samaritana junto ao poço. «Aqui Jesus revela-Se como o dador de água viva, que em seguida será especificada como sendo o Espírito», explica. Citando o Evangelho de João o bispo de Roma diz que «O Espírito é ‘o dom de Deus’ – a fonte interior – que sacia verdadeiramente a nossa sede mais profunda e nos conduz ao Pai». Com base ainda na obra «De Trinitate», o Santo Padre explica que «Agostinho conclui que o Deus que Se concede a nós como dom é o Espírito Santo». O Pontífice continua: «Amigos, uma vez mais lancemos um olhar sobre a Trindade em ação: o Espírito Santo é Deus que eternamente Se dá; como uma nascente perene, Ele oferece-Se precisamente a Si mesmo». «Observando este dom incessante, chegamos a ver os limites de tudo o que perece, a loucura duma mentalidade consumista. De forma particular, começamos a compreender por que motivo a busca de novidade nos deixa insatisfeitos e desejosos de algo diferente.» «Porventura não andamos nós à procura de um dom eterno? À procura da fonte que jamais se exaurirá? Com a samaritana exclamemos: Dá-me desta água, para que eu não sinta mais sede!» «Jovens caríssimos» – continua o Papa –, «vimos que é o Espírito Santo quem realiza a maravilhosa comunhão dos crentes em Cristo Jesus. Fiel à sua natureza de dador e simultaneamente de dom, agora Ele está a atuar por meio de vós. Inspirados pelas intuições de Santo Agostinho, fazei com que o amor unificante seja a vossa medida; o amor duradouro seja o vosso desafio; o amor que se dá a vossa missão».

Realidade
Bento XVI disse aos jovens que «há momentos, porém, em que nos podemos sentir tentados a procurar certas satisfações fora de Deus», e fez a mesma pergunta que Cristo fez aos doze Apóstolos: «Também vós quereis retirar-vos?» «Talvez um tal afastamento ofereça a ilusão da liberdade. Mas onde nos leva? Para quem havemos nós de ir? De fato, em nossos corações, sabemos que só o Senhor tem ‘palavras de vida eterna’.» Citando Agostinho, Bento XVI diz que «o afastamento d’Ele é só uma tentativa vã de fugirmos de nós mesmos». «Deus está conosco, não na fantasia, mas na realidade da vida», disse o Papa. «O que temos de procurar é enfrentar a realidade, não fugir dela. Por isso, o Espírito Santo atrai-nos delicada mas resolutamente para aquilo que é real, duradouro, verdadeiro. É o Espírito que nos reconduz à comunhão com a Trindade Santíssima!»

 

Um gênio da humanidade e um grande santo
Entrevista com o cardeal Angelo Scola: Santo Agostinho

ROMA, segunda-feira, 27 de agosto de 2012 (ZENIT.org) – O cardeal arcebispo de Milão celebrará a eucaristia na Basílica de São Pedro in Ciel d’Oro, de Pavia, túmulo de Santo Agostinho, no dia 28 de agosto, memória litúrgica do santo. Agostinho está enterrado em Pavia desde o século VIII: descansa na basílica de São Pedro in Ciel d’Oro, aos pés da arca de mármore erguida no século XIV pelo prior agostiniano Bonifacio Bottigella, que mais tarde se tornou bispo de Lodi. A Arca de Santo Agostinho, assim chamada em honra do santo, traz o ano de 1362 gravado em letras góticas, festejando agora, portanto, os seus 650 anos de construção. Em 28 de agosto, memória litúrgica do santo, diante do seu túmulo, a eucaristia será celebrada às 9 horas pelo bispo de Pavia, dom Giovanni Giudici, às 11 pelo prior geral da Ordem de Santo Agostinho, pe. Robert F. Prevost, e às 18h30 pelo cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão. ZENIT pediu que o cardeal Scola fizesse uma breve reflexão sobre a figura de Santo Agostinho e agradece a ele pela entrevista concedida. Eminência, o arcebispo de Milão vai celebrar a eucaristia no túmulo de Santo Agostinho. Renova-se o vínculo singularíssimo na fé cristã entre Ambrósio e Agostinho, que, além de pastores do povo de Deus, são mestres de cultura e de espiritualidade para o Ocidente. Estamos a poucos meses do XVII centenário do Édito de Milão: o que Ambrósio e Agostinho ainda podem dizer a este respeito? Cardeal Scola: Ambrósio e Agostinho viveram as décadas difíceis da transição entre o velho, representado pelo Império Romano esgotado e em declínio inexorável, e o novo, que se anunciava no horizonte, mas que ainda não revelava com nitidez os seus contornos. Eles estavam imersos numa sociedade em muitos aspectos semelhante à nossa, abalada por mudanças contínuas e radicais, sob a pressão dos povos estrangeiros e da depressão econômica, devida às guerras e às carestias. Nessas condições, mesmo na profunda diversidade de história e temperamentos, Ambrósio e Agostinho foram indomáveis anunciadores do Cristo para cada homem, na certeza humilde de que a proposta cristã, se aceita livremente, é um recurso valioso para a construção do bem comum. Eles foram firmes defensores da verdade, apesar do risco e das dificuldades que isso implica, sabendo que a fé não mortifica a razão, mas a completa; e que a moral cristã aperfeiçoa a moral natural, sem contradizê-la, e promove a sua prática. Usando termos do debate contemporâneo, podemos defini-los como dois paladinos da dimensão pública da fé e de um conceito saudável de lacidade. O Santo Padre, na carta apostólica Porta Fidei, que apresenta o Ano da Fé, cita Santo Agostinho ao dizer que “os crentes se fortalecem crendo”. No Ano da Fé, qual pode ser, na sua opinião, a lição da vida humana e espiritual de Santo Agostinho? Cardeal Scola: Numa das audiências gerais dedicadas a Santo Agostinho, Bento XVI retomou a expressão “velho mundo”, e disse: “Se o mundo envelhece, Cristo é eternamente jovem. Daí o convite de Agostinho: Não se recusem a rejuvenescer com Cristo, mesmo no velho mundo. Ele diz: Não tenhas medo; a tua mocidade se renova como a da águia” (cf. Sermão 81,8; Bento XVI, audiência geral de 16 de janeiro de 2008). Agostinho é um poderoso testemunho da contemporaneidade de Cristo para cada homem e da profunda conveniência da fé para a vida. O que significa a perenidade do pensamento e da história humana de Santo Agostinho? Cardeal Scola: É o inquietum cor, do qual ele mesmo nos fala no incipit das Confissões. A busca incansável, que fascina os homens de todos os tempos, é especialmente valiosa para nós, que hoje estamos imersos, e muitas vezes perdidos, nas complicações deste início do terceiro milênio. Uma busca que não para na dimensão horizontal, mas que se expande para a dimensão vertical. O próprio Agostinho descreve isto, quando, numa passagem dos solilóquios, afirma: “Eis que eu orei a Deus. O que, pois, queres saber? Todas essas coisas que pergunteiem oração. Resume-asem poucas palavras. Desejo conhecer a Deus e a alma. E nada mais? Nada mais” (Agostinho, Solilóquios I, 2,7). Eminência, quem é Santo Agostinho para o senhor? Cardeal Scola: Um gênio da humanidade e um grande santo, um homem plenamente realizado. Eu fico impressionado, a este respeito, com uma afirmação de Maritain que repito muito aos jovens, muitas vezes tão obcecados com o problema do sucesso e da auto-realização: “Não há personalidade realmente perfeita a não ser nos santos. Mas como? Os santos, acaso, se propunham a desenvolver a própria personalidade? Não. Eles a encontraram sem procurá-la, por procuravam a Deus somente” (J. Maritain).

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