XXI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São João 6, 60-69

Depois de o ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» Mas Jesus, sabendo no seu íntimo que os seus discípulos murmuravam a respeito disto, disse-lhes: «Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse são espírito e são vida. Mas há alguns de vós que não crêem.» De fato, Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam e também quem era aquele que o havia de entregar. E dizia: «Por isso é que Eu vos declarei que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai.» A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.»

Vigésimo primeiro domingo do tempo comum, nós encerramos aquele parêntesis feito no Evangelho de Marcos, para inserirmos o longo discurso de João em seu capítulo sexto, a respeito do pão da vida. Jesus chega à conclusão, e tendo Ele chegado à conclusão, os seus discípulos saem chocados com Ele da sinagoga: “Esta palavra é dura, quem a pode suportar? Esta palavra é dura quem a pode tolerar?” Padre – dizia certa vez um paroquiano exaltado – o senhor deve saber que existem coisas na Igreja que não se compõem bem com a pós-modernidade, existem certos ensinamentos papais, sobretudo em matéria de moral sexual, que a maior parte da humanidade e boa parte dos fiéis, não aceita também. Padre – continuava este paroquiano exaltado – os senhores são mestres em dissimular as coisas, a propósito, quando foi sua última pregação a respeito do inferno? Sim, até na Sagrada Escritura onde existem páginas sublimes e existem passagens, infelizmente, que não devem mais ser aceitas hoje. Vocês padres são suficientemente inteligentes para colocarem bemol em afirmações passadas e que devem ser novamente ponderadas e transformadas. Jesus naquela ocasião sofria a mesma incompreensão, mas Jesus não colocou nenhum bemol em suas palavras, Jesus não adocicou a sua mensagem a respeito do pão da vida, Jesus não chamou às pressas aqueles que partiam em debandadas para se explicar melhor, ou então para desdizer o que havia pronunciado, quem sabe, para desfazer um equivoco grossolanos. Jesus insiste no realismo da Eucaristia diante daqueles Judeus que não toleravam esta linguagem, movidos e amparados pela própria Sagrada Escritura, onde é ensinado, no Antigo Testamento, que era coisa abominável beber sangue de alguém. “Esta palavra vos choca?” Jesus se volta aos doze, ao pequeno resto que continua com Ele: “Quereis também vós abandonar-me?” Pedro toma a palavra, é verdade, está um pouco aturdido também, não esperava um discurso assim tão cru e realístico: “Senhor, a quem iremos? No entanto, Vós tendes palavras de vida eterna, o choque é forte para nós também, mas não queremos abandoná-lo; a quem nós iríamos? Nós sabemos que Tu és, o Santo de Deus”. Diga alguém a mim, ou a qualquer outro sacerdote, qual a sua concepção de Eucaristia? O que pensa você a respeito da Eucaristia, e nós diremos que tipo de católico você é. Mas você sabe perfeitamente o que se passa numa Celebração Eucarística, que ela é um sacrifício outrora realizado historicamente e agora retomado, re-atualizado, sem ser repetido de maneira sacramental? Sabe você que ao estender a mão recebe o Corpo que foi por você foi triturado, o Sangue que por você foi derramado, e você O recebe com boas disposições? Antes de jogar pedras nos pobres judeus no passado, nós devemos examinar bem a maneira como nós procedemos diante deste mistério que forma, nutre e mantém a Igreja peregrina neste mundo em direção à Pátria Celeste.

 

«Tu tens palavras de vida eterna»
Santo [Padre] Pio de Pietrelcina (1887-1968), capuchinho
Carta 3, 980; GF, 196ss. (a partir da trad. Une Pensée, Médiaspaul, pp. 26-27)

Sê paciente e persevera na prática da meditação. A princípio, contenta-te com avançar em pequenos passos. Mais tarde, terás pernas que só te pedirão que corras, ou melhor, asas para voar. Contenta-te com obedecer. Nunca é fácil, mas foi a Deus que escolhemos como nosso quinhão. Aceita não seres ainda mais do que uma abelhinha no cortiço; depressa ela se tornará uma dessas grandes obreiras, hábeis na fabricação do mel. Permanece sempre humilde diante de Deus e diante dos homens, no amor. Então o Senhor falar-te-á em verdade e enriquecer-te-á com os Seus dons. Acontece às abelhas atravessarem grandes distâncias nos prados antes de chegarem às flores que escolheram; em seguida, fatigadas, mas satisfeitas e carregadas de pólen, regressam à colméia para aí realizarem a transformação silenciosa, mas fecunda, do néctar das flores em néctar da vida. Faz tu também assim: depois de teres escutado a Palavra, medita-a atentamente, examina os seus diferentes elementos, procura a sua significação profunda. Então, ela tornar-se-á clara e luminosa; ela terá o poder de transformar as tuas inclinações naturais em pura elevação do espírito; e o teu coração estará sempre mais intimamente unido ao coração de Cristo.

 

Maridos, amai vossas mulheres
XXI Domingo do tempo comum (B)
Josué 24, 1-2ª. 15-17b; Efésios 5,21-32; João 6, 61-70

«Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres a seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é cabeça da mulher, como Cristo é Cabeça da Igreja, o salvador do Corpo. Assim como a Igreja está submissa a Cristo, assim também as mulheres devem estar a seus maridos em tudo. Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e entregou-se por ela. […] Assim devem amar os maridos a suas mulheres como a seus próprios corpos, porque o que ama a sua mulher, ama a si mesmo». Desta vez desejaria centrar a atenção na segunda leitura do dia, procedente da Carta aos Efésios, porque contém um tema de grande interesse para a família. Lendo com olhos modernos as palavras de Paulo, salta à vista imediatamente uma dificuldade. Paulo recomenda ao marido que «ame» a sua mulher (e isto está bem), mas também recomenda à mulher que seja «submissa» ao marido, e isto, em uma sociedade fortemente (e justamente) consciente da paridade de sexos, parece inaceitável. De fato é verdade. Sobre este ponto São Paulo está condicionado pela mentalidade de seu tempo. Contudo, a solução não está em suprimir das relações entre marido e mulher a palavra «submissão», mas, no caso, em fazê-la recíproca, como recíproco deve ser também o amor. Em outras palavras, não só o marido deve amar a mulher, mas também a mulher ao marido; não só a mulher deve estar submetida ao marido, mas igualmente o marido à mulher. Amor recíproco e submissão recíproca. Submeter-se significa, neste caso, ter em conta a vontade do cônjuge, seu parecer e sua sensibilidade; dialogar, não decidir só; saber às vezes renunciar ao próprio ponto de vista. Em resumo, lembrar-se de que se passou a ser «cônjuges», isto é, literalmente, pessoas que estão sob «o mesmo jugo» livremente acolhido. O Apóstolo dá aos esposos cristãos como modelo a relação de amor que existe entre Criador e a Igreja, mas explica em seguida em que consistiu tal amor: «Cristo amou a Igreja e entregou-se por ela». O verdadeiro amor se manifesta na «entrega» ao outro. Há duas formas de manifestar o próprio amor à pessoa amada. O primeiro é dar-lhe presentes; o segundo, muito mais exigente, consiste em sofrer por ela. Deus nos amou da primeira maneira quando nos criou e nos encheu de bens: o céu, a terra, as flores, nosso próprio corpo, tudo é dom seu… Mas depois, na plenitude dos tempos, em Cristo, veio a nós e sofreu por nós, até morrer na cruz. Também ocorre assim no amor humano. Ao princípio, de noivos, se expressa o amor dando-se presentes. Mas chega o tempo para todos em que já não basta dar presentes; há que ser capazes de sofrer com e pela pessoa amada. Amá-la apesar das limitações que se vão descobrindo, dos momentos de pobreza, das enfermidades. Isto é verdadeiro amor que se parece ao de Cristo. Em geral chama-se o primeiro tipo de amor «amor de busca» (com um termo grego, eros); o segundo tipo, «amor de doação» (com o termo grego ágape). O sinal de que em um casal se está passando da busca à doação, do eros ao ágape, é esta: em lugar de perguntar-se: «Que mais poderia fazer por mim meu marido (respectivamente, minha mulher) que ainda não faz?», um começa a se perguntar: «Que mais eu poderia fazer por meu marido (ou minha mulher) que ainda não faço?».

 

Quando nós percebemos que algumas pessoas deixaram de “ir à missa” e que se afastaram de uma prática cristã, somos tentados a pensar que é fruto do nosso fracasso. Mas, não é bem assim. No Evangelho, encontramos algumas passagens da vida e do ministério de Jesus em que também Ele não colheu os frutos que desejava (os seus fracassos). Nos Atos dos Apóstolos, encontramos muitas passagens que nos relatam as dificuldades que tiveram os discípulos para evangelizar a sociedade do seu tempo, pregando os valores cristãos. O discurso do Pão da Vida não teve muito êxito. Muitos discípulos, ou seja, não só os fariseus que sempre estavam contra Ele, mas também alguns que O seguiam assustaram-se com o que Jesus dizia e “já não andavam com Ele”. Por que se escandalizaram? De que se escandalizaram? Como vimos nestes últimos domingos, o discurso do Pão da Vida tem dois temas: Jesus em quem se deve acreditar e Jesus que se deve comer, ou seja, a Fé e a Eucaristia. De qual “deles” se assustaram? É evidente que era duro de aceitar que era necessário “comer” Jesus para se alcançar a salvação e ter a vida. Mas também era inconcebível que fosse necessário “acreditar” em Jesus como o Enviado de Deus; Ele que era o filho do carpinteiro e que todos conheciam os seus familiares. A fé exige uma opção. Se alguém acredita que Jesus vem de Deus, terá de aceitar a Sua mensagem como vinda de Deus. A fé em Cristo supõe aceitar o estilo de vida que Ele nos propõe. Aqui é que mora o perigo. A fé exige uma opção; para isso nos prepara a primeira leitura. Depois da travessia do deserto, Josué, o sucessor de Moisés, antes de entrar na terra prometida, reúne o povo em Siquém e coloca-o perante um dilema: está disposto a servir ao Deus Único e Verdadeiro que o libertou do Egito e o orientou na travessia do deserto, mas que lhe propôs uma Aliança muito exigente e comprometedora, ou prefere optar por deuses mais tolerantes que conheceu de outros povos que contatou na viagem ou na terra em que vai entrar? “Escolhei hoje a quem quereis servir”. Cheio de emoção, o povo responde: “Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses”. Bem sabemos como foram breves estes bons propósitos! Hoje, a opção é apresentada a cada um de nós. Acreditar e aceitar Jesus não é uma questão pontual e de certo momento: supõe aceitar o estilo de vida de Jesus, a sua Nova Aliança, o seu evangelho com a lista das bem-aventuranças que é muito mais exigente que as “promessas e garantias” dos deuses falsos do nosso mundo. A quem devemos servir: a Jesus Cristo ou aos múltiplos mestres e messias e ídolos? Temos que fazer uma opção pessoal, não caindo na tentação do “sempre foi assim” ou porque é tradição da família. Perante a “dureza” das palavras de Jesus, nem todos O abandonaram. Os Doze, com Pedro à frente, ficaram com Jesus. Pedro era um discípulo com uma fé e um amor radicais a Jesus, apesar de não entender o que estava a ouvir e de negar o Senhor na hora suprema. Pedro gostava mais da experiência do Monte Tabor do que ouvir falar de morte e de entrega. Mas confia totalmente em Jesus: “Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”. Tomou a mesma atitude de Maria: “Faça-se em mim, segundo a tua palavra”; é a resposta de Samuel: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”; é a atitude de Saulo a caminho de Damasco: “Senhor, que queres que eu faça?”; é a atitude de milhões de pessoas que dizem “sim” a Deus. Procuremos não abandonar o Mestre, seduzidos pelas “promessas, garantias” e ideologias fáceis deste mundo. Não podemos andar vacilantes ou indecisos (“sermos mornos”). Sempre a confiar em Jesus Cristo, firmes no caminho que nos levará à verdadeira vida e à plena felicidade.

 

Eucaristia interpela hoje como há dois mil anos
Meditação do padre Pedro García, missionário claretiano, conhecido evangelizador na América Central
21º. D TC (João 6, 60-69)

Este é o quinto domingo que refletimos sobre a Eucaristia, pré-anunciada com a multiplicação dos pães e prometida por Jesus na sinagoga de Cafarnaum. A Liturgia da Igreja não faz nada semelhante com nenhuma outra página do Evangelho. Por que esta insistência? Simplesmente porque a Igreja sabe que na Eucaristia há uma fonte de onde emana toda sua vida, e sabe também que toda a vida de seus filhos –de todos nós– deve desembocar sempre na Eucaristia. Ou comungamos e temos a vida de Deus, ou não comungamos e a vida de Deus está em nós quase agonizando, se não completamente morta… O Evangelho de hoje nos faz ver o desenlace daquela dramática discussão de Jesus com seus rivais na sinagoga, quando lhes assegurou: “Eu sou o pão descido do céu. E se não comerdes da minha carne e não beberdes do meu sangue não tereis vida em vós”. Esta página nos declara a atitude de todos ante a Eucaristia, hoje como então. Ouvimos os escribas e fariseus, que cantavam na sinagoga, dizerem: “Mas, como pode este dar-nos de comer sua carne e de beber seu sangue? Isto é impossível!…”. Outros –e isto é o pior, porque estes são discípulos–, que dizem o que lemos hoje: “Como é dura e repugnante esta linguagem! Quem vai entendê-la e aceitá-la?”. Finalmente, os incondicionais, que não duvidam, como Pedro, que nos colocará nos lábios a última palavra deste drama. Jesus está triste, podemos assim falar. Esperava-se a reação negativa dos chefes judeus. Mas não podia pensar que os seus iriam negar sua adesão e a fé. Por isso, lamenta agora: “Isto que vos disse vos escandaliza? Pois, o que diríeis se me visses subir ao céu, onde estava antes?”. Jesus lhes estende uma mão, para que sua fé não falhe e não aconteça a ruptura, porque então estão perdidos, e lhes diz e aconselha: “Não façais caso das aparências. O Espírito é quem dá a vida, e vos peço que julgueis não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Minhas palavras são espírito e vida”. Judas, que dentro de um ano o trairá e o entregará, é o primeiro a colocar discórdia entre o grupo. Jesus se dá conta, o olha profundamente, e diz a todos com delicadeza: “Como há alguns entre vós que não crêem?”. Para ver se Judas e os outros se dão por aludidos!… Jesus passeia entre eles seu olhar dolorido, e continua: “Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim e crer em mim, se meu Pai não o atrai”. Tudo é obra da graça de Deus, que exige resposta nossa, que exige fé. Aqueles discípulos dissidentes não querem dar esta resposta à palavra de Jesus, e vão embora, ainda que Judas continue no grupo, mas cada vez mais receoso e afastado espiritualmente. Ao ver que vão embora, Jesus se dirige aos Doze, que estão pensativos: “Também vós quereis deixar-me sozinho?”. Menos mal que Pedro toma a palavra decidido, e responde em nome dos companheiros fiéis com palavras que expressarão a fé da Igreja em todos os séculos por vir: “Senhor! A quem iremos? Não há ninguém fora de ti. Pois só Tu tens palavras de vida eterna, e nós cremos que Tu és o santo e o enviado de Deus”. Qualquer um que sabe ler o Evangelho se dá conta de que a popularidade de Jesus cai vertiginosamente na Galileia. Chegam até o ponto de considerá-lo como um alucinado e um louco. Veja que dizer que vai dar sua carne para comer e seu sangue para beber já é demais! Este é o doloroso Evangelho de hoje. E somos nós os que podemos dizer a Jesus como Pedro e com a primeira Igreja: “Senhor, creio!”…, como podemos dizer-lhe com muito sarcasmo, como os incrédulos da sinagoga: “Isso, isso…!”. Ante o mistério da Eucaristia não há mais razões senão a fé cega na palavra de Jesus: “Creio, e basta!… Disse Jesus Cristo, e já tenho o bastante!… Não vejo nada, pois, muito melhor! Maior glória dou a Cristo e maior mérito tenho eu… Se os outros dizem que isto não é mais que uma lembrança de Jesus, eu me atenho a sua Palavra, que me diz categoricamente e sem mais explicações: ‘Isto é meu Corpo, este é meu Sangue…’”. Contudo, o melhor ato de fé será sempre a assiduidade em participar do sacrifício do Altar, em receber a Comunhão, e em adorar ao Senhor no Sacramento, onde permanece por nós com presença contínua. A Santa Missa, a Sagrada Comunhão, a Visita e a Hora Santa são o apogeu da fé. Não há medo que destrua o que faz da Eucaristia o centro de toda vida espiritual… Senhor Jesus Cristo! Obrigado, porque se deu a nós de forma tão admirável, e porque ficou entre nós de maneira tão amorosa! Dai a todos nós uma fé viva no Sacramento do amor. Que a Missa dominical seja o centro de nossa semana cristã, a Comunhão nos sacie a fome que temos de ti, e o Sacrário se converta no remanso tranquilo onde nossas almas encontrem a paz…

 

A dureza das palavras
Dom Paulo Mendes Peixoto, Bispo de São José do Rio Preto

Sabemos e conhecemos a força das palavras, que convencem quando ditas por quem tem verdadeira e autêntica autoridade. Elas podem ter dupla interpretação e causar na comunidade e nas pessoas conseqüências positivas ou negativas. Mas devem ser bem entendidas, especialmente por aqueles que são os seus reais destinatários. Na dimensão cristã e bíblica, as palavras do Mestre Jesus eram muito exigentes. Elas não passavam de uma convocação para o seguimento, com exigências muito fortes, causando em muitos um total desânimo e até desistência. Um dos apóstolos, Pedro, permanece firme, vendo nas palavras de Jesus Cristo “palavras de vida eterna”. A opção por Jesus Cristo exige adesão completa, radical e absoluta. Na atualidade, isto é cada vez mais difícil. Muitas pessoas preferem ficar no campo das curas e dos milagres, mas não de um exigente compromisso com a comunidade. Para quê enfrentar dificuldade e sofrimento? É a mentalidade da vida fácil e descartável. Portanto, não é fácil seguir Jesus Cristo. O seguimento supõe enfrentar uma nova identidade social e cultural, que não é a do mundo moderno, aquela que busca uma vida afortunada e atitude de prosperidade superficial, econômica e cômoda. A proposta de Jesus Cristo é exigente, que engloba o compromisso de amor e de doação da própria vida. Com medo das exigências, muitos vão embora. Jesus disse aos apóstolos: “Vocês também querem ir?”. Qual é a nossa decisão hoje diante das propostas do Evangelho? Temos que fazer uma opção entre o projeto de Deus e as propostas que o mundo nos oferece, que nem sempre estão de acordo com os valores éticos e nem promovem a cultura da paz. Estamos na cultura do fácil e do maravilhoso, sem sacrifício e sem renúncias verdadeiras. A sociedade tem propostas muito atraentes e que encantam todas as pessoas. Muitas vezes somos iludidos por isto e perdemos o rumo da história, perdendo até a nossa própria identidade como pessoas cristãs e humanas. Seguimos a força das palavras do mando e nos desviamos da Palavra de Deus.

 

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM
Jo 6, 60-69 “Tu tens palavras de vida eterna”

O texto de hoje forma a conclusão do grande discurso sobre o Pão da Vida. Mais uma vez, a bíblia deixa claro que diante de Jesus e das suas palavras, o ouvinte tem que tomar uma decisão radical. Os versículos do nosso texto não escondem o fato que nem todos conseguem optar por Jesus. As primeiras palavras de hoje, “depois de ter ouvido isso”, demonstram que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus, sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias dos versículos anteriores, a afirmação de Jesus de que Ele dá o seu corpo como pão da vida e o fato que o texto se dirige aos discípulos, indicam que provavelmente foi o discurso eucarístico a fonte de divisão. Porém, a afirmação de Jesus de que ele “dá a vida” – o que causou já uma divisão em 5, 19-47, e a identificação da sua palavra reveladora com “o pão vindo do céu” na primeira parte do discurso, talvez tenham criado a controvérsia. De qualquer maneira é importante notar que a divisão não se dá entre “os judeus”, mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus neste momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência da Comunidade do Discípulo Amado, pelo ano 90, quando estava sentindo na pele as dores de divisão, pois muitos dos seus membros estavam abandonando-a (essa divisão é o pano do fundo das três Cartas Joaninas). É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono da maioria dos seus discípulos. Ele não arreda o pé; mas, com toda calma, até convida os Doze para saírem, se não podem aceitar a sua palavra. Jesus não se preocupa com números – mas com a fidelidade ao Pai. Talvez até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo importante para nós, pois muitas vezes caímos na tentação de julgar o êxito pelos números! Igrejas cheias indicam sucesso! Mas nem sempre é assim – é mais importante ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que “fazer média” com a sociedade, às vezes através de uma pregação tão insossa, que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem consequências sociais. Mas, devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de Jesus em v. 63 quando diz que “É o Espírito que vivifica, a carne para nada serve”. Às vezes, usa-se essa frase (e outras de João) para justificar uma religião dualista, onde tudo que é “espírito” é bom e tudo que é material é do mal! Aqui João não distingue duas partes do ser humano; mas, duas maneiras de viver! A carne é a pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus; o espírito é a força que ilumina as pessoas e abre os seus olhos para que possam entender a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus. Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem em Jesus algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Pois só Jesus tem as palavras de vida eterna! Declaração atual, pois é moda na nossa sociedade – até entre muitos católicos praticantes – de correr atrás de tudo que é novidade: supostas aparições, esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de Deus nas Escrituras. O texto de hoje nos convida a nos examinarmos, a verificarmos se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra, ou se a deixamos de lado, achando – como as multidão no texto – que o seguimento de Jesus “é duro demais”! No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrarmos a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus “tem palavras de vida eterna”.

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