A Assunção de Maria Santíssima ao Céu

Fundador dos Franciscanos da Imaculada explica como ganhar o Céu
Padre Stefano M. Manelli, F.I.

ROMA, segunda-feira, 13 de agosto de 2012 (ZENIT.org) – Ao contemplar a assunção de Maria ao céu em corpo e alma, contemplamos o nosso destino final de acordo com o plano de Deus: o paraíso. Para merecer o paraíso, no entanto, precisamos nos esforçar para viver como Maria viveu, praticando as virtudes no sacrifício diário da nossa vida. “Só será recompensado quem tiver legitimamente lutado”, diz o apóstolo Paulo (2 Tim 2, 5). A assunção da Virgem Maria ao céu nos lembra as suas virtudes santas, brilhantes como estrelas no firmamento da sua vida. Toda a vida de Maria foi uma constelação de virtudes, um Éden de graça na terra, depois transportado para o Éden infinito e eterno dos céus. E nós, contemplando Maria, temos que aprender a viver como ela para ser um dia acolhidos no paraíso. É por esta razão que a Igreja diz que sobre a terra os homens “voltam os olhos para Maria, que refulge como o modelo da virtude perante toda a comunidade dos eleitos” (Lumen Gentium). O papa Paulo VI afirma que as virtudes de Maria são o modelo para todos, e que “dessas virtudes da Mãe também se adornarão os filhos, que, com tenaz propósito, se espelham nos seus exemplos para reproduzi-los na própria vida” (Marialis cultus). Mas quais são as virtudes de Maria que mais devemos imitar? O grande apóstolo de Maria, São Luis Grignion de Montfort, nos ensina que “a verdadeira devoção à Santíssima Virgem leva a alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes de Maria, em particular a sua humildade profunda, a sua fé viva, a sua obediência cega, a sua contínua oração, a sua mortificação universal, a sua pureza divina, a sua caridade ardente, a sua paciência heroica e a sua sabedoria divina”. Que tesouro imenso de virtudes sublimes é Maria! Se o caminho da virtude foi o caminho de Maria para o céu, então ele deve ser também o nosso caminho. Não há outra maneira de ir da terra ao céu sem passar pelo purgatório, que é um lugar de purificação dolorosa, diante do qual empalidecem até mesmo os sofrimentos mais atrozes da terra. Todos os santos são santos porque praticaram as virtudes de modo perfeito, brilhando mais por alguma virtude que os caracteriza em particular: assim, São Francisco de Assis brilha em especial pela pobreza; Santa Clara de Assis pelo amor à Eucaristia; São Luís Gonzaga pela pureza; Santa Teresa de Jesus pela oração; São Francisco Xavier pelo amor às almas nas missões; Santa Gemma Galgani pelo amor ao Cristo crucificado e à Virgem das Dores; São Maximiliano Kolbe pelo amor à Imaculada Conceição; São Pio de Pietrelcina pelo amor ao rosário. Nossa Senhora de Fátima também nos fala do purgatório, e em termos nada reconfortantes. Para a pequena Lúcia, que perguntava onde estava a alma de uma companheira falecida recentemente, Maria respondeu: “Ela está no purgatório e lá permanecerá até o fim do mundo”. É terrível. Mas por que não pensamos que poderia ser assim para nós também? No céu se entra perfeito, com todas as virtudes. Os três pastorzinhos compreenderam isto muito bem e se aplicaram com todo o ardor na busca da virtude. Jacinta, por exemplo, nos encanta pela candura e pela mortificação, pela oração e pela paciência nos sofrimentos terríveis que padeceu ao passar por uma cirurgia sem anestesia. Fascina especialmente pela sua caridade heroica para com os pobres pecadores, que eram a paixão do seu coração inocente. O pequeno Francisco de Fátima, igualmente, nos encanta pelo seu recolhimento, pela sua reserva e capacidade de contemplação e de adoração. São coisas incríveis em um menino de dez anos, idade em que eles são apaixonados pelo esporte e por correr despreocupadamente. Quanta maturidade, no entanto, e que paixão amorosa ele demonstra ao querer sempre “consolar Jesus”, passando horas a fio perto do tabernáculo, onde Jesus fica escondido! É assim que se entra no céu. Só assim. Contemplando Maria assunta ao céu, descobrimos o verdadeiro caminho da vida cristã, na esteira esplendorosa e sublime da Mãe Celestial: um caminho de virtudes que nos levam para cima. Virtude a praticar: a imitação de Maria.
(Tradução:ZENIT)

 

Assunção: a mulher e o menino vencem o dragão
Festa da Assunção de Nossa Senhora
Padre Angelo del Favero

Irmãos, Cristo ressuscitou dos mortos, primícias daqueles estão mortos. Como de fato em Adão todos morrem, assim em Cristo todos recebem a vida…: primeiro Cristo, as primícias; depois, na sua vinda, aqueles que são de Cristo”.  AP 11, 19a; 12,1- 6a.10ab “O templo de Deus que está no céu se abriu, e apareceu no templo a arca da sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e uma grande tempestade de granizo. Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas;estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz. Apareceu então outro sinal no céu: um grande Dragão… O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho, tão logo nascesse. Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono… e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar … Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo”. Lc 1,39-56 Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.41.Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo.Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? (…)Maria, então, disse: “Minha alma engrandece o Senhor…” “A  imaculada Mãe de Deus, a sempre virem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” : estes são os termos concisos da proclamação dogmática da Assunção de Maria Santíssima ao céu (Pio XII, “MunificentissimusDominum”, 1950). E assim anunciado pela Igreja ao mundo inteiro que, junta a “Cristo ressuscitado dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Cor 15,20), no paraíso atualmente já está presente em alma e corpo sua Mãe Maria, ainda que a hora da segunda vinda de Jesus não tenha ainda chegado (1 Cor 15,23).  Ao definir o dogma da Assunção, deliberadamente Pio XII não responde às perguntas relativas ao desaparecimento de Maria: onde, como, quando Ela morreu? Do ponto de vista histórico, podemos dizer apenas que ignoramos quase tudo, mas o beato João Paulo II ensinou que o fato constitutivo humano do morrer é afirmado também pela Mãe de Jesus: “A experiência da morte enriqueceu a pessoa da Virgem: passando pela sorte comum dos homens, Ela é capaz de exercitar com mais eficácia a sua maternidade espiritual para com aqueles que estão na hora suprema de suas vidas” ( Audiência Geral, 25 de junho de 1997) Na encíclica Redemptoris Mater, João Paulo II escreveu que a maternidade amorosa de Maria abraça e defende toda a humanidade, como se fosse um filho único. “Maria, presente na Igreja como Mãe do Redentor, participa maternalmente na luta contra o poder das trevas que acontece em toda a história humana” (nº 47). À luz da Palavra de Deus, o papa enfatiza a luta dramática e ímpar entre a arrogância diabólica do mal e a fragilidade do bem, que está todos os dias diante dos nossos olhos. São João a descreve no Apocalipse, referindo-se historicamente às perseguições contra os cristãos no Império Romano. Bento XVI faz o seguinte comentário sobre os dois grandes sinais que ele viu: “Primeiro, o dragão vermelho, fortíssimo, com uma manifestação impressionante e inquietante do poder sem a graça, sem o amor, do egoísmo absoluto, do terror, da violência… O poder militar, político, propagandístico do Império Romano diante do qual a fé, a Igreja, aparecia como uma mulher indefesa, sem nenhuma chance de sobreviver, muito menos de vencer. E, no entanto, sabemos que no fim quem venceu foi a mulher indefesa; não foi o egoísmo nem o ódio que venceu; foi o amor de Deus. E o Império Romano se abriu à fé cristã. As palavras da escritura sempre transcendem o momento histórico” (Homilia da Assunção, 2007). Esta última afirmação de Bento XVI sobre o valor meta-histórico das Escrituras não significa a ausência de um vínculo profundo e significativo entre a Palavra e a vida presente. Ele logo acrescenta: “Nós vemos que ainda hoje o dragão quer devorar o Deus que se fez menino”. Aqui, o dragão que ameaça a mulher e a criança, que ameaça a Igreja, ameaça o próprio Deus. Ameaça Deus porque ameaça o homem. Sim, porque desde que Deus se fez um de nós, o destino de cada um de nós é também o destino de Deus. A encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995) o ensina explicitamente: “Na carne de cada pessoa, Cristo continua a revelar-se e a entrar em comunhão conosco, de modo que a rejeição da vida humana, nas suas várias formas, é realmente uma rejeição de Cristo” (nº 104). O símbolo do dragão infernal faz pensar nas muitas formas de violência brutal do homem contra o homem. Entre elas, é emblemático o que acontece na China há décadas, com a imposição de abortos criminosos, aos quais milhões de mulheres são obrigadas. Imagens terríveis deste furor mostraram recentemente o cadáver de um filho assassinado colocado ao lado da mãe: uma monstruosidade que a mídia mundial denuncia, ainda que timidamente, há anos, e que traz o nome estratégico de “política do filho único”. Mas esta denúncia, para não ser parcial e enganosa, não pode deixar de reconhecer também que o “grande dragão vermelho” continua a devorar milhões de crianças na maioria das nações do mundo, graças à indiferença quase geral dos meios de comunicação e daqueles que estão no poder político. Na Itália, em particular, não existe oficialmente a “política do filho único”, mas há uma cultura perversa, inevitavelmente acompanhada pela “política” da liberdade de escolha de matar as crianças concebidas e indesejadas: seja diretamente (Lei 194, Normas para a proteção social da maternidade e da interrupção voluntária da gravidez), seja indiretamente (Lei 40: Normas sobre a procriação medicamente assistida). Há quem pense que, quando escolhido voluntariamente, o aborto não é uma violência contra a mulher. Falso! É justamente quando é voluntário que o aborto destrói, além do filho, também a pessoa da mãe, moralmente. Pelo simples fato de querer suprimir o fruto do próprio ventre, a mãe nega a si mesma, nega a sua consciência e o seu ser materno, como bem indica e sempre indicará em todo o mundo a conhecida “síndrome pós-aborto”. Se considerarmos o lado oposto, do pretenso direito de ter um filho, veremos que a mulher que apela para a fertilização in vitro, quando dá o aval à matança “técnica” de uma dúzia de seus pequenos filhos no afã de conseguir “ter um nos braços”, se deixa envolver objetivamente por um contexto moral ainda mais horrível do que o da China. O que dizer, então, como conclusão de tudo isto e à luz do sinal luminoso de Maria Assunta? Com a palavra, Bento XVI: “Não temam por esse Deus aparentemente fraco. A luta já foi vencida. Este Deus frágil é forte: é a verdadeira força. E, assim, a festa da Assunção é um convite a confiarmos em Deus. Olhemos para Maria, que foi assunta. Deixemo-nos encorajar à fé e à festa da alegria: Deus vence! A fé aparentemente frágil é a verdadeira força do mundo. O amor é mais forte do que o ódio” (Homilia da Assunção).
(Tradução:ZENIT)

 

Seguindo o exemplo da Virgem Maria
Tudo está submetido ao poder de Deus

Não sabemos para onde apontam os sinais da realidade brasileira em momentos de campanhas eleitorais e do cenário de julgamento do mensalão. Será que, em tudo isso, está a vitória do povo brasileiro? Quem sairá ganhando? Quem vai perder? É a grande incógnita de um país que não prima pela justiça.

A Festa da Assunção de Maria contempla a vitória de Jesus Cristo sobre todos os poderes que tentam impedir a construção do reino de Deus. Maria é sinal da Igreja, cuja missão é conduzir o povo para a condição de liberdade e de vida feliz. Isto acontece na prática da fraternidade e da partilha em gesto de justiça.

A fé e o compromisso com o reino da vida são fundamentais. Isto é condição para que a pessoa seja sinal e aponte para o bem de forma correta. A fé na Palavra de Deus gera compromisso e faz das pessoas discípulas e missionárias de uma cultura de paz. Isto supõe dizer nas palavras de Maria: “Eis a serva do Senhor” (Lc 1, 38).

Quando vamos ao encontro do outro, como fez Maria em relação a Isabel, algo de revelador acontece. A generosidade, o serviço, o querer ajudar os mais necessitados acaba sendo sinal da presença de Deus, fazendo a pessoa superar todo tipo de atitude egocêntrica, egoísta e alheia às carências dos marginalizados da comunidade.

Tudo na natureza e na história está submetido ao poder de Deus, mas é uma realidade também sujeita à ação do mal. O Apocalipse apresenta a figura do “dragão” que está, a todo momento, desarticulando os planos do Criador. É o retrato de quem sinaliza o poder destruidor, seja de autoridades ou de pessoas comuns.

Não podemos viver esperanças vãs nem uma fé inútil, porque deixamos de ser sinal de vida para o mundo. Maria, com muitos títulos, foi sinal de uma nova realidade. Ela é sinal da Igreja com a missão de levar Cristo para as pessoas.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba
15/08/2012

 

Um grande sinal
Reflexões espirituais de Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará

Deus fala sempre e é necessário apurar os ouvidos diante de suas palavras. Muitas vezes o silêncio é a sua voz (Cf. Is 30,15; Sl 64,2), outras muitas vezes manifesta-se através de pessoas por ele enviadas, cujos gestos e respostas aos apelos do Senhor são altamente eloquentes. Grita bem forte diante da história o sinal que é a Igreja, esposa de Cristo, cuidada com amor por aquele que se entregou para fazê-la santa e imaculada. Sinal de Deus é o fato de ser esta mesma Igreja constituída por homens e mulheres marcados pela fragilidade comum a toda a natureza humana, mas tocados pela graça de Deus, que os conduz progressivamente à estatura de Cristo (Cf. Ef 4,13-16). O mistério de Cristo, luz do Mundo, há de resplandecer na face da Igreja. Tudo o que se diz da Igreja em geral pode ser aplicado em particular àquela que foi escolhida e preparada pelo Pai do Céu para ser Mãe de seu Filho amado, a Virgem Maria, Imaculada, Assunta ao Céu, sinal de Deus para o mundo. Por outro lado, tudo o que se diz de Maria pode ser aplicado à Igreja no seu conjunto, como graça e vocação (Cf. Ap 11,19; 12,1-10). Ao celebrarmos com a Igreja a Festa da Assunção de Nossa Senhora, deparamo-nos com uma torrente de ensinamentos a serem colhidos com sabedoria, ainda que não sejamos capazes de absorver toda a riqueza dos mistérios de Deus, realizados em santa cumplicidade com a humanidade, nos quais nos envolvemos, com Maria e do modo de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. O fato de Deus ter preservado da corrupção a Virgem Maria, elevando-a em corpo e alma, “assumindo-a” na “Assunção”, traz consigo a lição do grande valor dado por Deus a tudo o que é humano. Não nos é lícito desprezar o corpo humano, as realidades terrestres destinadas a contribuírem à realização das pessoas, a beleza da natureza, o relacionamento entre as pessoas. Tudo tem um destino de felicidade e de eternidade, tanto que buscamos um novo Céu e uma nova Terra, onde Deus será tudo em todos! É inclusive condição para a realização humana nesta terra o olhar otimista dos cristãos em relação a toda a criação. Cabe-lhes passar pelas estradas do mundo plantando e colhendo o bem, recuperando a realidade e o sonho oferecidos por Deus no Livro do Gênesis, pois ele nos quer felizes no Paraíso. Nossa vida na terra é ao mesmo tempo saudade e esperança do Paraíso. Em Cristo, Salvador e Redentor, tudo é recapitulado, ganha um novo e definitivo sentido. Olhar para o grande sinal aparecido do no Céu e dar-lhe um nome – Maria! – traz ainda a grande certeza de termos uma Mãe no Céu, criatura como todos nós, mas escolhida, preservada do mal e elevada à comunhão plena com a Trindade. Um privilégio e uma graça, que a tornou missionária! Ela chegou na frente para mostrar-nos a estrada. Bendita entre todas as mulheres (Lc 1,39-45) para nos mostrar o caminho da benção. Ela é Nossa Senhora da Esperança, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora do Presente e do Futuro! Junto de Deus está a nossa humanidade. Estabeleceu-se um laço definitivo, pelo que nos podemos renunciar a olhar para o Céu e caminhar para lá. Olhando para aquela que foi assunta ao Céu, parece-me encontrá-la realizada aqui na terra em muitas outras pessoas que trazem os traços de Maria. Dentre tantas, no mês dedicado às diversas vocações na Igreja, volto meu olhar para os homens e as mulheres que descobriram um chamado semelhante ao de Maria, tornando-se sinais da plenitude do Reino de Deus, na vida religiosa. Quando muitos põem toda a esperança nos bens da terra, a vida religiosa proclama a plenitude de Deus, com a bem-aventurança da pobreza, transformada em voto, entrega total de vida, e diz a todos que Deus eleva os humildes, despede os ricos de mãos vazias e sacia de bens os famintos. Com a virgindade e a castidade vividas e testemunhadas, os religiosos e as religiosas reconhecem que Deus olhou para a pequenez de seus servos e servas, e o proclamam senhor de todos os seus afetos, dispostos a construir a fraternidade, não constituindo para si uma família própria, mas suscitando a ternura da família dos filhos de Deus. Ao mundo que luta pelo poder e o domínio de uns sobre os outros, a vida religiosa proclama, com o desafiador voto de obediência – “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – que Deus derruba do trono os poderosos. Nos religiosos e nas religiosas o Senhor Jesus quer continuar a se fazer servo, obediente até à morte, e morte de Cruz (Cf. Fl 2,1-11). São pessoas que podem ser parecidas com Nossa Senhora, são homens e mulheres “apressados”, desejosos de viver, desde já, os valores da eternidade. Sintam-se reconhecidos e valorizados pela sociedade, pela Igreja e por todas as pessoas que têm sede de Deus e muitos jovens experimentem o chamado a seguir Jesus de perto nesta forma de entrega à Igreja e ao Reino de Deus. Com Nossa Senhora, com a Igreja e com as pessoas consagradas na Castidade, na Pobreza e na Obediência, pedimos ao Pai, Deus e eterno e todo-poderoso, aquele que elevou à glória do Céu, em corpo e alma a Virgem Maria, que nos faça viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória.

Invoquemos Maria, Mãe de Jesus, para que nos proteja das ofensas, livre dos ressentimentos e de todo mal
Na esperança de que Ela está perto de nós, especialmente nos momentos dolorosos, de sofrimentos, de incertezas, que Ela possa derramar sobre nós, nossas famílias, nossos entes queridos toda a Sua consolação e o Seu amor de mãe
Que Ela conserve em nós o sorriso e a alegria, também nas horas dolorosas, de modo que mesmo nesses momentos seja possível desfrutar da graça de Deus e manter a coragem e a disposição de nos oferecer ao Senhor e ao próximo.

 

HOMILIA Solenidade da Assunção da Beata Virgem Maria – Bento XVI
Paróquia pontifícia de “São Tomás de Villanova”, em Castel Gandolfo
Quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Queridos irmãos e irmãs, Em 1º de novembro de 1950, o Venerável Papa Pio XII proclamava como dogma que a Virgem Maria “terminado o curso da vida terrena, foi assunta à glória celeste em alma e corpo”. Esta verdade de fé era conhecida pela Tradição, afirmada pelos Padres da Igreja, e era, sobretudo, um aspecto relevante do culto rendido à Mãe de Cristo. O elemento cultual constitui, por assim dizer, a força motora que determinou a formulação deste dogma: o dogma parece um ato de louvor e de exaltação em relação à Virgem Santa. Este emerge também do próprio texto da Constituição apostólica, onde se afirma que o dogma é proclamado “em honra ao Filho, para a glorificação da Mãe e a alegria de toda a Igreja”. É expresso assim na forma dogmática algo que já foi celebrado no culto da devoção do Povo de Deus como a mais alta e estável glorificação de Maria: o ato de proclamação da Assunta se apresentou quase como uma liturgia da fé. E no Evangelho que escutamos agora, Maria mesma pronuncia profeticamente algumas palavras que orientam nesta perspectiva. Diz: “Todas as gerações, de agora em diante, me chamarão feliz” (Lc 1,48). é uma profecia para toda a história da Igreja. Esta expressão do Magnificat, referida por São Lucas, indica que o louvor à Virgem Santa, Mãe de Deus, intimamente unida a Cristo, seu filho, diz respeito à Igreja de todos os tempos e de todos os lugares. E a anotação destas palavras da parte do Evangelista pressupõe que a glorificação de Maria estivesse já presente no período de São Lucas e ele a considerou um dever e um compromisso da comunidade cristã para todas as gerações. As palavras de Maria indicam que é um dever da Igreja recordar a grandeza de Nossa Senhora para a fé. Esta solenidade é um convite, portanto, a louvar Deus, e a olhar para a grandeza de Nossa Senhora, para que conheçamos Deus na face dos seus.

Mas, por que Maria é glorificada na assunção ao Céu? São Lucas, como ouvimos, vê a raiz da exaltação e do louvor à Maria na expressão de Isabel: “Feliz aquela que acreditou” (Lc 1, 45). E o Magnificat, este canto ao Deus vivo e operante na história é um hino de fé e de amor, que brota do coração da Virgem. Ela viveu com fidelidade exemplar e guardou no mais íntimo do seu coração as palavras de Deus ao seu povo, as promessas feitas a Abraão, Isaac e Jacó, fazendo do seu conteúdo sua oração: a Palavra de Deus estava no Magnificat transformada em Palavra de Deus, lâmpada do seu caminho, até torná-la disponível a acolher também em seu ventre o Verbo de Deus feito carne. A atual página evangélica apresenta esta presença de Deus na história e no próprio desenvolver-se dos eventos; especialmente, há uma referência ao Segundo livro de Samuel no capítulo sexto (6, 1-15), no qual Davi transporta a Arca Santa da Aliança. O paralelo que faz o Evangelista é claro: Maria à espera do nascimento do Filho Jesus e a Arca Santa que porta em si a presença de Deus, uma presença que é fonte de consolação, de alegria plena. João, de fato, dança no ventre de Isabel, exatamente como Davi dançava diante da Arca. Maria é a “visita” de Deus que cria alegria. Zacarias, em seu canto de louvor, dirá explicitamente: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo” (Lc 1,68). A casa de Zacarias experimentou a visita de Deus com o nascimento inesperado de João Batista, mas, sobretudo, com a presença de Maria, que porta em seu ventre o Filho de Deus.

Mas agora nos perguntamos: o que a Assunção de Maria ensina ao nosso caminho, à nossa vida? A primeira resposta é: na Assunção vemos que em Deus há espaço para o homem, Deus mesmo é a casa com muitas moradas da qual fala Jesus (Jo 14, 2). O próprio Deus é a casa do homem, em Deus há espaço de Deus. E Maria, unindo-se a Deus, não se distancia de nós, não vai para uma galáxia desconhecida, mas quem vai a Deus se aproxima, porque Deus está perto de todos nós, e Maria, unida a Deus, participa da presença de Deus, está muito perto de nós, cada um de nós. Há uma bela palavra de São Gregório Magno sobre São Bento que podemos aplicar ainda também a Maria: São Gregório Magno diz que o coração de São Bento tornou-se grande que toda a criação podia entrar neste coração. Isso vale ainda mais para Maria: Maria, unidade totalmente a Deus, tem um coração tão grande que toda a criação pode entrar neste coração, e os testemunhos em todas as partes da terra o demonstram. Maria está perto, pode escutar, pode ajudar, está perto de todos nós. Em Deus, há espaço para o homem, e Deus está perto, e Maria, unida a Deus, está muito perto, tem um coração alargado como o coração de Deus.

Mas tem também outro aspecto: não só em Deus há espaço para o homem; no homem há espaço para Deus. Também vemos isso em Maria, a Arca Santa que porta a presença de Deus. Em nós, há espaço para Deus e nesta presença de Deus em nós, tão importante para iluminar o mundo na sua tristeza, em seus problemas, esta presença se realiza na fé: na fé abrimos as portas do nosso ser para que Deus entre em nós, para que Deus possa ser a força que dá vida e caminho ao nosso ser. Em nós, há espaço, vamos nos abrir como Maria se abriu, dizendo: “Seja realizada a Tua vontade, eu sou serva do Senhor”. Abrindo a Deus, não perdemos nada. Ao contrário: nossa vida torna-se rica e grande.

E assim, fé, esperança e amor se combinam. Existem hoje muitas palavras sobre um mundo melhor a esperar: seria a nossa esperança. Se e quando este mundo melhor vem, não sabemos, não sei. Certo é que um mundo que se afasta de Deus não se torna melhor, mas pior. Só a presença de Deus pode garantir também um mundo bom. Mas deixemos isso. Uma coisa, uma esperança é certa: Deus nos espera, nos aguarda, não caminhamos no vazio, somos esperados. Deus nos espera e encontramos, indo ao outro mundo, a bondade da Mãe, encontramos os nossos, encontramos o Amor eterno. Deus nos espera: esta é a grande alegria e a grande esperança que nasce exatamente desta festa. Maria nos visita, é a alegria da nossa vida e é a esperança da alegria.

O que dizer, portanto? Coração grande, presença de Deus no mundo, espaço de Deus em nós e espaço de Deus para nós, esperança, ser esperados: esta é a sinfonia desta festa, a indicação que a meditação desta Solenidade nos dá. Maria é aurora e esplendor da Igreja triunfante; ela é a consolação e a esperança para o povo ainda em caminho, diz o Prefácio de hoje. Vamos nos confiar à sua materna intercessão, para que o Senhor nos ajude a reforçar nossa fé na vida eterna; nos ajude a viver bem o tempo que Deus nos oferece com esperança. Uma esperança cristã, que não é somente nostalgia do Céu, mas vivo e operoso desejo de Deus aqui no mundo, desejo de Deus que nos torna peregrinos incansáveis, alimentando em nós a coragem e a força da fé que, ao mesmo tempo, é coragem e força no amor. Amém.

 

Como Maria, responder com generosidade a Deus é o ato mais digno da vida humana
Reflexões de Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

A Virgem Maria, Nossa Senhora, chegou à plena realização de todas as potencialidades humanas. Pelos merecimentos de seu Filho amado, foi preservada da mancha do pecado original, viveu nesta terra conduzida pelo chamado de Deus, para depois, ser elevada ao Céu, como professa a fé da Igreja. Na Assunção de Maria, todas as realidades desta terra são assumidas e acolhidas para adquirirem valor de eternidade. Sua presença e seu exemplo resplandecem como sinal luminoso para todos, podendo nela encontrar conforto e força todas as vocações e estados de vida. Olhar para Nossa Senhora estimula a caminhar com segurança, certos de que fomos feitos para o alto e para a felicidade.
No mês das vocações, voltamos o olhar para a aventura humana e religiosa vivida por Maria. Nela vemos realizada a vocação fundamental de todos os seres humanos, pois, em Cristo, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele, no amor (Cf. Ef 1, 4). Toda a vida de Nossa Senhora se orienta para o seu Filho, Jesus, Verbo de Deus feito carne. Ela se esvazia de si mesma e de seus próprios projetos, para abraçar o caminho da santidade, tornando-se ícone do que todos somos chamados a viver, pois  convidados a percorrer a estrada da resposta fiel a Deus.
O Apóstolo São Paulo, convicto da escolha feita, apresenta-se diante de suas comunidades na inteireza de sua entrega a Deus. Pode, então, abraçar como próprias as atitudes do mesmo Senhor Jesus Cristo: “Pela fidelidade de Deus, eu vos asseguro: a nossa palavra junto de vós não é ‘sim e não’. Pois o Filho de Deus, proclamado entre vós por mim, por Silvano e Timóteo, nunca foi ‘sim e não’, mas somente ‘sim’. Ao contrário, é nele que todas as promessas de Deus têm o ‘sim’ garantido. Por isso, também, é por ele que dizemos ‘amém’ a Deus, para sua glória. É Deus que nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos ungiu. Foi ele que imprimiu em nós a sua marca e nos deu como garantia o Espírito derramado em nossos corações” (2 Cor 2, 18-22). É com igual certeza que ousamos olhar para Maria, Nossa Senhora, a primeira na resposta ao plano de Deus. Que o seu sim se expresse também em nossa vida.
Maria deu o seu sim à vida. Sua existência, desde os primeiros passos e olhares, era voltada para a Palavra do Senhor e para uma vida humana saudável, na pobreza e no escondimento de Nazaré. Foi na escuta da mesma Palavra que se entregou, na oblação total de própria liberdade, tornando-se generosamente escrava da Palavra. Seu sim radical, dado a Deus e a seu plano de salvação, mudou a história da humanidade. “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Responder com generosidade a Deus é o ato mais digno da vida humana. Todas as vezes que alguém dá sua resposta a Deus, atualizando a graça do Batismo, o Espírito Santo vem sobre a pessoa e realiza a sua obra, edificando o bem! Dela queremos aprender a dizer sim!
Quando as incontáveis angústias de nosso tempo tantas vezes nos preocupam, vale a pena tomar consciência de que a vida de Maria foi marcada pelas surpresas do cotidiano e pela dor, visita inconfundível do Senhor. Para que se repita o nosso sim diante das eventuais decepções experimentadas ou as dores e pecados pessoais e sociais,  a mulher do equilíbrio e da firmeza seja vista como sinal. A Igreja identifica sete situações dolorosas, muito semelhantes àquelas vividas por nós. Maria, elevada ao Céu em corpo e alma, levou as cicatrizes da dor, para que ninguém desanime no caminho da perfeição a que somos chamados.
Uma espada a transpassar o coração, na profecia de Simeão (Cf. Lc 2, 21-40). Se um anjo lhe anunciara sua vocação de mãe do Verbo de Deus feito carne, muito cedo entendeu, para cedo amadurecer, o alcance de sua resposta a Deus. Não voltou atrás e acolheu de pé, na obediência, o projeto de Deus em sua vida. De fato, o Senhor não nos engana, prometendo apenas consolações, mas nos abre o horizonte com realismo, para que todos aprendamos a viver.
Com José, Maria soube que seu filho poderia ser morto pelo ódio sanguinário de Herodes (Cf. Mt 2, 13-18). Doeu-lhe o exílio, mas aprendeu e ensina a todas as gerações de cristãos a coragem para manter a fé a qualquer custo. Não é difícil identificar em nossos dias, no mesmo oriente médio, levas de cristãos em fuga por serem cristãos, firmes diante da provação. O mundo parece o mesmo!
A Terceira espada transpassou o coração de Maria quando perdeu seu filho no templo. Teve que compreender que o Jesus de seu coração é Filho do Pai do Céu e tem uma missão que supera todos os laços e afetos humanos (Cf. Lc 2, 41-52). Em sua dor se encontram as perdas humanas e a liberdade com que os pais e mães hão de educar seus filhos, não para si, mas para Deus e para a vida, olhando para frente!
No caminho do Calvário, a Maria discípula se encontra com seu Filho que carrega a cruz. A multidão não entende a profundidade do olhar, santa cumplicidade daquela Mãe que se fez companheira e colaboradora do Redentor. Ali estava presente o silêncio e o assentimento corajoso de tantas pessoas que não se negam a dar a sua colaboração na realização do plano de Deus.
Aos pés da Cruz, quando o Filho único a entrega como Mãe à humanidade chagada, representada por João, Maria experimenta a desolação, dando sua resposta e pronunciando o seu segundo e definitivo sim (Cf. Jo 19, 1-41). Está de pé, mulher madura para o amor e o sofrimento! Testemunha a morte redentora de seu Filho! Em sua coragem resplandece a disposição de todos os que estão prontos a viver a palavra: “Completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24). O que falta é a participação pessoal!
Aquela que recebera o anúncio de uma espada de dor, vê a lança do soldado transpassar o lado de seu Filho exangue, para depois acolher nos braços e conduzir à sepultura o seu corpo. Mais duas espadas, duas dores lancinantes, para se completar o caminho da perfeição e da maturidade!
Maria do sim nos ajude a percorrer a estrada da maturidade humana e cristã. Sua vida, assunta ao Céu, seja o sinal para nossa caminhada.

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