Vida Religiosa

Muitos estão sendo vencidos pelo medo de seguir, até o fim, o projeto de Jesus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

“O hábito não faz o monge”, diz o provérbio, mas, sem dúvida, chama um pouco, ou muita, atenção. Talvez uma criança curiosa tenha nos incomodado com perguntas inocentes querendo saber: “Por que aquela pessoa estava vestida daquele jeito?” Claro que podemos sair da pergunta com uma resposta curta e grossa: “É uma freira” ou “É um frei”. E se a criança insistir, querendo saber mais, saberíamos responder à altura e com gosto? Ou nos esconderíamos atrás do banal “deixa pra lá”, equivalente a não saber ou ao não querer responder? Tenho certeza: digam o que quiserem, finjam não ver, ignorem a presença deles e delas, mas os religiosos e as religiosas chamam atenção. Não porque queiram isso. Mas – ou por usarem o hábito ou pelo jeito – obrigam-nos a perguntar por que eles e elas escolheram aquela forma de viver. Por quê? Insisto sobre os questionamentos pelo fato de a vida religiosa também ter mudado. A freira que anda pelas casas do bairro pobre é formada em Pedagogia e está estudando Ciências Sociais. O monge, que abre a porta do convento e acolhe os mendigos é mestre em Letras pela PUC de São Paulo. O frei que anda de bicicleta, evitando os buracos e a lama da periferia, é advogado. A irmãzinha que cuida da creche é enfermeira diplomada e continua estudando Medicina de noite. O irmão que está no acampamento dos sem-terra é doutor em Teologia. E assim poderíamos continuar. Quem tem uma imagem dos irmãos e das irmãs como de “coitadinhos” meio perdidos e fora do tempo está muito enganado. Não somente porque eles e elas, hoje, estudam mais, mas porque continuam sabendo muito bem o que querem. Eles têm um grande projeto de vida. Querem ser felizes vivendo o Evangelho. Querem contribuir com a sociedade de hoje seguindo as pegadas de Jesus Cristo. Se a vida religiosa podia parecer, no passado, um refúgio para ter uma “certa” tranqüilidade, ou uma fuga por medo das coisas perigosas do mundo, hoje é exatamente o contrário. Vida religiosa não é para pessoas fracas. É cada vez mais exigente. Dizem que o celibato para o Reino de Deus e a virgindade consagrada são coisas para sexualmente frustrados. A pobreza é considerada excesso de loucura e inaptidão administrativa. A obediência, uma inútil inibição dos projetos pessoais, uma afronta à liberdade individual. Essas coisas são bobagens, claro, mas só para os acomodados, os que ficam alucinados e iludidos pelas coisas do mundo, para os que adoram encontrar defeitos nos outros e só sabem criticar. Por isso, a vida religiosa sempre será questionada e sempre chamará atenção. O caminho é difícil e a porta estreita. É preciso empurrá-la para entrar, não é para todos. Se não entendemos tudo isso, ou não sabemos responder bem às perguntas acima, tenhamos ao menos o bom senso de não falar à toa e, quem sabe, aprendamos a agradecer a essas pessoas, que pagam com a própria vida as suas escolhas. Se não fosse assim, a Irmã Dorothy Stang não teria morrido. O padre Bossi, do PIME, não teria sido seqüestrado lá nas Filipinas. Os religiosos e as religiosas podem ter muitos defeitos, como todos, mas não são nem bobos nem ingênuos. A chamada crise da vida religiosa pode ser pela quantidade; mas com certeza não o é pela qualidade. Talvez aos jovens, hoje, falte coragem. Estão sendo vencidos pelo medo de seguir, até o fim, o projeto de Jesus. Sentem medo de parecer diferentes ou de incomodar aos outros; de começar a mudar a história, mudando a própria vida. Por isso Jesus repetiu tantas vezes aos discípulos: não tenham medo… E o repete ainda em nossos dias. Para nós todos.

 

A VIDA CONSAGRADA

Na visão do apóstolo São Paulo (1Cor 12, 4-11), a comunidade cristã é constituída com uma riqueza incalculável de dons e ministérios, todos sob a ação do Espírito Santo, em vista do bem comum. É a chamada diversidade na unidade, um corpo com membros diferentes e distintos na sua ação. Assim temos na Igreja a Vida Religiosa, organizada atualmente nos chamados Institutos de Vida Consagrada. São instituições existentes e aprovadas pela Igreja, nas quais as pessoas livremente ligam-se, de forma muito natural, buscando objetivos muito definidos. E isto é fruto da ação do Espírito Santo, enriquecendo e animando a caminhada da Igreja. Uma das características de quem entra para a Vida Religiosa, é fazer os votos dos Conselhos Evangélicos, isto é, voto de castidade, de pobreza e de obediência. Além disto, devem viver a vida fraterna em comunidade, onde tudo é colocado em comum e ninguém é dono de nada. O desprendimento deve ser total, como “sinal” do Reino de Deus. A Vida Religiosa santifica e dá força à Igreja na sua história. É o Espírito de Deus quem vai despertando, nos chamados “fundadores”, um estilo de vida cristã com objetivos específicos. A Vida Religiosa é uma consagração da pessoa a Deus. É como um verdadeiro matrimônio que se estabelece com Deus, numa doação exclusiva e contínua. Os seus membros fazem votos, que podem ser perpétuos ou temporários, ficando estes últimos, sujeitos à renovação de tempo em tempo. Faz também parte da estrutura da Vida Religiosa a fraternidade vivida em comum por todos os seus membros. Após os votos, ou a partir do momento em que um membro passa a pertencer oficialmente ao Instituto, os seus bens são colocados em comum. Ele perde a capacidade de ter bens pessoais, mas no conjunto, é beneficiado por tudo o que é de todos. Na verdade é chamado a viver na pobreza, porém não lhe faltando o necessário para a sua vivência na comunidade. A vida religiosa acontece a partir de uma vocação divina. E um dos primeiros passos, de forma mais oficial, é o noviciado. Ali começa a vida no Instituto (Congregação). O vocacionado tem que ser admitido pelo Superior, mediante algumas condições: idade mínima de dezessete anos, saúde suficiente e comprovada maturidade para assumir tal estado de vida. Um destaque todo especial deve ser dado à liberdade na decisão. Ninguém pode ser forçado ao fazer a própria escolha do estilo de vida na Igreja. O noviciado deve cultivar nos noviços a vivência das virtudes humanas e cristãs, a busca da perfeição pela oração e pela renúncia de si mesmos, a contemplar os mistérios da salvação, a ler e meditar as Sagradas Escrituras, a prestar culto a Deus pela liturgia, a levar uma vida consagrada a Deus e aos homens, mediante os conselhos evangélicos, com os votos da obediência, da castidade e da pobreza, numa visão de amor à Igreja. O noviciado prepara a pessoa para ser admitida na profissão temporária. E é um tempo, não só de formação, mas também de discernimento e de prova. Existe uma grande seriedade no processo que culmina com a profissão religiosa, quando o membro assume publicamente a observância dos votos, consagrando-se a Deus pelo ministério da Igreja. A partir daí ele é incorporado ao Instituto com os direitos e deveres que lhes são próprios. A riqueza da Vida Religiosa enriquece também a Igreja. Os religiosos “puxam” a Igreja. Fazem com que ela reflita e tome posições concretas na sociedade. São quase como uma oposição, que faz com que, quem está na situação, mexa-se e coloque-se a serviço. Mas é a Igreja em movimento, fazendo acontecer a sua missão no mundo, construindo o Reino de Deus.

 

VIDA CONSAGRADA: SEGUIR CRISTO CASTO, POBRE E OBEDIENTE
Mirticeli Medeiros / Da Redação

Em todas as épocas mulheres e homens são chamados a vida consagrada

Durante o mês de agosto, a Igreja no Brasil convida os católicos a refletir sobre a riqueza das mais diversas vocações na Igreja e no domingo, 21, todos foram levados a lançar um olhar especial sobre a vida consagrada. O Vaticano possui a Congregação para os Institutos de vida consagrada e Sociedade de Vida Apostólica, órgão instituído em 29 de junho de 1908, que cuida justamente das mais diversas congregações religiosas e institutos de vida consagrada espalhados pelo mundo. A cada ano, o Papa também dirige uma mensagem especial a todos os religiosos e religiosas em 2 de fevereiro, dia mundial da vida consagrada. “Deste modo, a vida consagrada, na sua vivencia cotidiana sobre as estradas da humanidade, manifesta o Evangelho e o Reino já presente e operante”, disse o Papa emérito Bento XVI, em 2 de fevereiro de 2011. Ao pensar em vida consagrada, para a maioria, vem à mente as grandes mulheres como Madre Tereza de Calcutá, Edith Stein (Santa Tereza Benedita da Cruz) e tantas outras religiosas que ao entenderem o sentido mais profundo da vocação, traduziram o chamado em doação. Mulheres e homens de várias épocas que encarnaram na vida os conselhos evangélicos da pobreza, obediência e da castidade configurando-se a Cristo, pobre, casto e obediente. “A vida religiosa, de fato, conduz a pessoa a assumir de forma consciente e concreta o mistério da paixão de Cristo, sua morte e ressurreição. A partir deste fundamento, se forma o homem novo, o religioso e o apóstolo”, afirmou Irmã Maria Ângela, psicóloga e doutora em Vida Consagrada, da Congregação das Missionárias de Santo Antonio Maria Claret.

A vida consagrada não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja’

A formação na vida religiosa A religiosa, que realiza um estudo aprofundado sobre a formação na vida consagrada, destaca a responsabilidade da Igreja perante esta vocação tão nobre, que expressa sua beleza no rosto dos mais diversos carismas, suscitados pelo Espírito Santo, ao longo dos séculos. A Igreja, enfatiza Irmã Maria, entende a importância deste chamado para cumprir com eficácia sua missão universal e por isto, investe nestas vocações sobretudo no tocante à formação. “Em uma chave de leitura educativa e mística da maturidade à luz do mistério pascal, o documento de Diretrizes sobre a formação nos Institutos religiosos, de 1990, revela o processo de maturidade como um programa formativo que dura toda a vida”, salienta. A exortação pós sinodal Vita Consecrata, escrita pelo Papa São João Paulo II , em 1996, expressa bem o apreço da Igreja por esta vocação, destacando que estes religiosos realizam junto a Igreja, sua grande missão: evangelizar. “A presença universal da vida consagrada e o carácter evangélico do seu testemunho provam, com toda a evidência — caso isso fosse ainda necessário —, que ela não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja”, afirma a Exortação de São João Paulo II.

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