Transfiguração do Senhor – 06 de Agosto – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

A cruz não é o termo. A dor não é o último destino do homem. É um caminho e nada mais, um meio para chegar ao gozo do Senhor. E Jesus quer dar uma amostra desse gozo aos três discípulos que hão-de presenciar, mais de perto, os tormentos da sua Paixão. Ao regressar de Cesárea, chegou, com os Doze, em uma tarde de Agosto, ao sopé do Tabor, montanha graciosa, símbolo da felicidade sobrenatural, do amor beatífico, do abraço de Deus. Deixou nove discípulos na falda do monte e, levando consigo Pedro, João e Tiago, subiu ao cume, para orar. Dizem que Pedro representa os constantes na fé, Tiago os firmes na esperança, João os ardentes no amor. Pedro é o Vigário de Jesus Cristo; João, o discípulo virgem; Tiago, o primeiro Apóstolo mártir. Chegando a um lugar tranqüilo, começaram a orar. Jesus prolongou a sua oração, mas os discípulos estavam rendidos de sono. Adormeceram. «Enquanto Jesus orava transfigurou-se diante deles e o seu rosto resplandecia como o sol e as suas vestes tomaram-se brilhantes e duma alvura extrema, como a da neve. Neste instante apareceram Moisés e Elias em forma gloriosa, falando com Ele; e falavam da sua saída (deste mundo), que havia de cumprir-se em Jerusalém. Os discípulos, ao despertar. viram a glória de Jesus e os dois varões que estavam com Ele». Que impressão para os três! Ver o seu amado Mestre, cheio de graça, formosura e majestade, a conversar com aqueles dois santíssimos varões: Moisés, o libertador do povo judeu, e Elias, o grande profeta mártir, que durante a vida haviam ansiado pela vinda do Ungido do Senhor e agora eram chamados do outro mundo para O ver, ouvir e Lhe falar… A Transfiguração é a vitória da Luz: Elias foi arrebatado ao Céu em carro luminoso de fogo; Moisés desceu do monte com feixes de luz na fronte. Jesus é a Luz eterna, é Luz da Luz que ilumina a todo o homem que vem a este mundo. Desde que nasceu, a beleza divina da sua alma não cessou de crescer aos olhos dos homens. Agora brilhava deslumbrante. Transparecia através do corpo e do vestido. Erguia o seu corpo acima da terra, e se Jesus não tivera atendido senão às exigências da sua natureza divinizada, ter-se-ia realizado ali a ascensão. Mas renunciava a ela e falava com os dois Aparecidos a respeito de como havia de sair da vida mortal. Elias saíra sem morrer. Moisés saíra morrendo, mas de morte tão suave que a Escritura afirma que expirou no ósculo de Deus. Ambos conheceram, sobre este monte, uma ciência mais alta. A ciência de preferir a morte: a ciência de morrer de maneira infame em uma cruz, nu, desprezado, escarnecido pela multidão, abandonado do próprio Deus, para realizar assim a redenção dos homens. Eis do que se falava sobre o Tabor. Moisés e Elias contemplavam extáticos, mudos de assombro e de admiração, aquela maneira de sair da vida, única, maravilhosa, digna de Jesus. Nem Pedro nem Tiago nem João compreendiam aquilo. Só viam a glória. E como amavam ternamente o seu Mestre, assistiam radiantes à sua glorificação. A Pedro que, como os grandes corações, tinha o segredo das frases belas, ocorreu uma, admirável: «Senhor, como se está bem aqui: façamos três tendas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Para si não pedia nada, porque tinha a certeza de participar da glória do seu bom Mestre. Mas o Evangelista adverte que, falando assim, «Pedro não sabia o que dizia». «Estando Ele ainda a falar. veio uma nuvem luminosa que os envolveu e ao entrarem na mesma tiveram medo. E eis que saiu da nuvem uma voz que dizia: – Este é o meu Filho amado em quem pus toda a minha complacência. Ouvi-O.  Ouvindo aquela voz, os discípulos caíram de bruços e tiveram muito medo. Porém, Jesus aproximou-Se deles. tocou-lhes e disse: – Erguei-vos e não temais. Eles então, erguendo os olhos e olhando à volta, não viram ninguém senão Jesus». Tudo voltara ao estado normal. O rosto de Jesus perdera o seu fulgor, a túnica era como todos os dias e Ele voltava a ser o Amigo carinhoso de cada hora. Nessa noite, porém, três homens tinham assistido à glória do Nazareno e escutado a voz de Deus: – Este é o meu Filho muito amado: escutai-O. E um deles, Pedro, poderá um dia escrever nas suas cartas: «Nós escutamos esta voz descida do Céu, quando estávamos com Ele no monte santo». E para defender a verdade do seu testemunho, viria a morrer mártir. Antigamente, Deus falou aos Patriarcas por meio dos Profetas. Agora fala-nos por meio do seu Filho. Com Ele dá-nos tudo, por Ele nos diz tudo: escutemo-Lo. Quando desciam do monte, Jesus interrompeu o silêncio em que vinham, meditando no que acabavam de ver, e disse-lhes: «A ninguém direis o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite de entre os mortos». E eles calaram-se durante aqueles dias e não disseram a ninguém o que tinham visto; mas, de si para si, cogitavam o que significaria quando ressuscite de entre os mortos. Parecia-lhes impossível que o seu Mestre pudesse morrer e estar entre os mortos e por isso desconfiavam que aquela frase tivesse qualquer sentido misterioso. Apagadas as luzes do Tabor, tinham de descer às misérias da vida diária, às rivalidades dos fariseus, aos ataques do Tentador. Já não viam as claridades do monte nem escutavam a voz do Pai. Não é possível permanecer sempre no gozo das alturas. É preciso descer. Mas continuaram eles e continuamos nós escutando a voz do Filho nas palavras do seu Evangelho «que fazeis muito bem em atender, como a luz que brilha no meio das trevas, até que nasça o dia e se acenda a luz nos vossos corações». Assim nos diz, aconselhando-nos a ouvir a palavra de Deus escrita, o próprio são Pedro, aquele ditoso apóstolo que escutou a sua palavra falada. Fazeis muito bem atendendo-a, que a sua palavra é luz e esta vida é uma passagem tenebrosa. Esperai algum tempo: também para vós brilhará o dia de uma transfiguração maravilhosa e nascerá em vossos corações uma torrente de luz e ficareis convertidos em claridade e. sereis semelhantes a Deus, porque O vereis tal como é: não brilhante como o Sol, não branco como a neve, mas como é… E cantareis eternamente o hino de gratidão e de amor: – Senhor! Como estamos bem aqui!

 

No dia da Transfiguração do Senhor, ouvimos o Evangelho segundo Mateus, que nos ensina a contemplar Jesus transfigurado no alto do monte. Naquela ocasião, segundo o Evangelista, Jesus tomou três dos seus discípulos e seguiu em direção à montanha. Afastados do convívio de todos, em lugar ermo e silencioso, a primeira condição para se contemplar a face de Deus no rosto de Cristo, que é a suprema vocação Cristã. Deus não está no barulho, na algazarra. Quem vive da manhã à noite extrovertidamente, não é capaz de ouvir a Palavra de Deus. Naquele momento os três estavam em condições. Esta se deu num relance. Eles puderam contemplar com seus próprios olhos, Jesus transfigurado. Naquele momento algo da Glória Pascal se antecipou na vida de Jesus. Aqueles discípulos que estavam destinados a serem testemunhas do desfiguramento de Jesus, por ocasião da sua Paixão, agora o viam Transfigurado e assim alimentavam sua fé para os dias de crise que estavam por vir. O cristianismo não é neste mundo a religião da visão. De fato o texto da transfiguração se termina, relatando que depois do êxtase, levantando os olhos não viram mais ninguém, a não ser Jesus. Se o cristianismo, neste mundo não é a religião da visão, é com certeza a religião da escuta, pois a última vez que o Pai falou no Novo Testamento, foi exatamente neste dia: “Este é o Meu Filho. Escutai-O o que Ele diz”. Jesus havia dito imediatamente antes que tinha que sofrer muito pela salvação de todos nós. Esta era a Palavra de Deus que os discípulos haviam de escutar, sobretudo contemplar, por ocasião da Paixão. Foram fracos naquela circunstância, mas depois se recuperaram e se tornaram arautos do cristianismo, pregadores do Evangelho. A visão está destinada para o outro mundo, a outra vida. Aqui resta-nos a escuta obediente que realizamos através da fé. Somente aqueles que tiverem obedecido a Deus diariamente em Suas Palavras, se purificam interiormente e vão se tornando capazes de O contemplar um dia, no Reino dos Céus.

 

«A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR, NOSSA TRANSFIGURAÇÃO»
Pe. José Artulino  Besen

“Ó Cristo Deus, tu te transfiguraste sobre a montanha, mostrando aos discípulos tua glória, à medida que lhes era possível contemplá-la. Também sobre nós, pecadores, deixa brilhar tua luz eterna, pelas orações da Mãe de Deus. Ó Doador da luz, glória a ti!”
Os Evangelhos sinóticos (Mt 17, 1-13; Mc 9, 6-8; Lc 9, 28-36) relatam a revelação ocorrida no Monte Tabor: Pedro, Tiago e João contemplam Jesus, mais brilhante do que o sol, conversando com Moisés e Elias. E, como no dia do Batismo, a voz do Pai declara “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o”. No século VI a festa da Transfiguração, 6 de agosto, difundiu-se por todo o Oriente e em 1457 o papa Calixto III introduziu-a no Ocidente, em agradecimento pela vitória conseguida contra os turcos. Quando Pedro pediu ao Senhor para construir tendas e residirem no monte, estava equivocado: a Transfiguração não é uma emoção para ser degustada, mas um caminho que passa pela paixão e morte; também se equivocou Calixto III, pois não foi um triunfo terreno. A Transfiguração foi um lampejo, um resplendor do reino que é Jesus: é a Luz da Páscoa, do Pentecostes, da Parusia. É o Senhor da Luz. Naquela hora, conversando com Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, Jesus ilumina todo o Antigo Testamento, revela o novo Êxodo (sua Paixão e Morte) e é revelado como a Luz das Nações. Pedro, Tiago e João são as testemunhas da Nova Aliança: contemplam o Cristo transfigurado e o contemplarão ressuscitado. O Cristo do Tabor é o mesmo Jesus que peregrinava pela Palestina, o Deus feito homem, o Homem-Deus. Todos os olhos conseguiam somente contemplar o homem, mas, na Transfiguração, o Espírito transfigurou os olhos dos discípulos e eles contemplaram o Homem-Deus. Tendo seus olhos lavados pela graça, foram tomados pela energia divina. A antiga e a nova Aliança Conversando com Moisés e Elias, Jesus insere a antiga Aliança na nova: ele é o Mediador e a realização dos dois Testamentos. O Pai de Jesus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e é o Pai do Colégio apostólico. Freqüentemente a história nos coloca frente a contradições: o mesmo dia 6 de agosto, quando a Igreja da Nova Aliança celebra a Transfiguração é, para o povo da Antiga Aliança o dia 9 do mês de Av, quando faz memória da destruição do Templo em 586aC e em 70pC. Nossas igrejas estão iluminadas para celebrar a Luz do Tabor e as Sinagogas, ao contrário, ficam em semi-escuridão, com apenas uma vela acesa para a leitura das Lamentações. Nós nos alegramos pela Luz que nos invade, que nos transfigura, e o povo judeu chora a ausência de seu Templo e chora também todas as perseguições que sofreram por causa do ódio humano e cristão. Enquanto Cristo conversa com Moisés e Elias, nós cristãos blasfemamos contra o povo judeu, chegando à Shoah, ao Holocausto desse povo sob o nazismo. O Cristo transfigurado é filho de Abraão segundo a carne e nós, pela Transfiguração, somos filhos de Abraão segundo o Espírito. Toda oposição e ódio negam a verdade que emana da pessoa que é a Luz dos Povos, o Senhor.

 

LIÇÃO DA TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS
A oração, «questão de vida ou morte», afirma no Ângelus

CIDADE DO VATICANO, domingo, 4 de março de 2007 (ZENIT.org). Publicamos as palavras que Bento XVI pronunciou neste domingo, ao rezar a oração mariana do Ângelus junto a milhares de peregrinos congregados na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Queridos irmãos e irmãs: Neste segundo domingo da Quaresma, o evangelista Lucas sublinha que Jesus Subiu ao monte «para orar» (9, 28) junto com os apóstolos Pedro, Tiago e João e, «enquanto orava» (9, 29), aconteceu o luminoso mistério de sua transfiguração. Subir ao monte, para os três apóstolos, implicou envolver-se na oração de Jesus, que se retirava com freqüência para orar, especialmente na aurora ou após o entardecer, e às vezes durante toda a noite. Pois bem, somente nessa ocasião, no monte, Ele quis manifestar aos seus amigos a luz interior que o invadia quando rezava: seu rosto — lemos no Evangelho — iluminou-se, e suas vestes deixaram transluzir o esplendor da Pessoa divina do Verbo encarnado (cf. Lucas 9, 29).

Na narração de São Lucas, há outro detalhe que é digno de ser destacado: ele indica o objeto da conversa de Jesus com Moisés e Elias, aparecidos junto a Ele transfigurado. Estes, narra o evangelista, «falavam de sua partida (em grego ‘éxodos’), que se cumpriria em Jerusalém» (9, 31).

Portanto, Jesus escutava a Lei e os profetas que falam de sua morte e ressurreição. Em seu diálogo íntimo com o Pai, Ele não sai da história, não foge da missão para a qual veio ao mundo, apesar de saber que, para chegar à glória, terá de passar através da cruz. Mais ainda, Cristo entra mais profundamente nesta missão, aderindo, com todo o seu ser, à vontade do Pai, e nos demonstra que a verdadeira oração consiste precisamente em unir nossa vontade à vontade de Deus.

Para um cristão, portanto, rezar não é evadir-se da realidade e das responsabilidades que esta comporta, mas assumi-las até o fundo, confiando no amor fiel e inesgotável do Senhor. Por este motivo, a comprovação da transfiguração é, paradoxalmente, a agonia em Getsêmani (cf. Lucas 22, 39-46). Ante a iminência da paixão, Jesus experimentará a angústia mortal e se encomendará à vontade divina; nesse momento, sua oração será penhor de salvação para todos nós. Cristo, de fato, suplicará ao Pai celestial que «o livre da morte» e, como escreve o autor da Carta aos hebreus, Ele «foi escutado por sua atitude reverente» (5, 7). A prova dessa escuta é a ressurreição.

Queridos irmãos e irmãs: a oração não é algo acessório ou opcional, mas uma questão de vida ou morte. Somente quem reza, isto é, quem se confia a Deus com amor filial, pode entrar na vida eterna, que é o próprio Deus. Durante este tempo de Quaresma, peçamos a Maria, Mãe do Verbo encarnado e Mestra de vida espiritual, que nos ensine a rezar como seu Filho o fazia, para que nossa existência se transforme pela luz de sua presença.
[Tradução realizada por Zenit. © Copyright 2006 – Libreria Editrice Vaticana]

 

ORAÇÃO, «QUESTÃO DE VIDA OU MORTE», assegura bento XVI
Ao meditar sobre a Transfiguração no Ângelus dominical
CIDADE DO VATICANO, domingo, 4 de março de 2007 (ZENIT.org). A oração é «uma questão de vida ou morte», pois dela depende nossa relação de amor com Deus, porta para entrar na vida eterna, explicou Bento XVI neste domingo.

Ao dirigir-se aos milhares de peregrinos congregados na Praça de São Pedro, no Vaticano, por ocasião da oração mariana do Ângelus, o Papa tirou essa lição da passagem evangélica da liturgia deste dia, em que se revive o mistério da Transfiguração de Jesus.

«A oração não é algo acessório ou opcional, mas uma questão de vida ou morte», afirmou, falando desde a janela de seus aposentos, em uma bela manhã ensolarada.

«Somente quem reza, isto é, quem se confia a Deus com amor filial, pode entrar na vida eterna, que é o próprio Deus», acrescentou.

O bispo de Roma reviveu os momentos em que Jesus subiu ao monte «para orar» junto com os apóstolos Pedro, Tiago e João e, «enquanto orava», aconteceu o luminoso mistério de sua transfiguração.

«Subir ao monte, para os três apóstolos, implicou envolver-se na oração de Jesus, que se retirava com freqüência para orar, especialmente na aurora ou após o entardecer, e às vezes durante toda a noite», recordou.

«Nessa ocasião, no monte, Ele quis manifestar aos seus amigos a luz interior que o invadia quando rezava, acrescentou, explicando o sentido do fenômeno narrado pelo evangelista: seu rosto — lemos no Evangelho — iluminou-se, e suas vestes deixaram transluzir o esplendor da Pessoa divina do Verbo encarnado.»

Segundo o Evangelho explica, nesse momento Jesus conversou com Moisés (em representação da Lei) e com Elias (um dos profetas) sobre sua paixão, morte e ressurreição em Jerusalém.

«Em seu diálogo íntimo com o Pai, Ele não sai da história, não foge da missão para a qual veio ao mundo, apesar de saber que, para chegar à glória, terá de passar através da cruz.»

«Mais ainda — afirmou –, Cristo entra mais profundamente nesta missão, aderindo, com todo o seu ser, à vontade do Pai, e nos demonstra que a verdadeira oração consiste precisamente em unir nossa vontade à vontade de Deus.»

«Para um cristão, portanto, rezar não é evadir-se da realidade e das responsabilidades que esta comporta, mas assumi-las até o fundo, confiando no amor fiel e inesgotável do Senhor», indicou o Santo Padre.

Ele concluiu convidando os fiéis «neste tempo de Quaresma», a pedir a Maria, «Mestra de vida espiritual», que «nos ensine a rezar como seu Filho o fazia, para que nossa existência se transforme pela luz de sua presença».

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