O que é um ato de reparação?

A importância da espiritualidade da reparação na recepção dos Sacramentos e na prática das devoções

A espiritualidade reparadora faz parte da piedade cristã, pois é um dos efeitos constitutivos do mistério da redenção realizado por Jesus Cristo. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “toda a vida de Cristo é mistério de Redenção”1. Esta nos vem, antes de tudo, pelo sacrifício de Cristo na cruz, mas este mistério está em ação em toda a vida de Jesus. Por isso, Sua submissão a José e Maria, no tempo de Sua vida oculta2, serve de “reparação para nossa insubmissão”3. Entretanto, a reparação dos nossos pecados acontece de forma radical e definitiva no sacrifício de Cristo: “Como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos”4. Pela Sua obediência até a morte, Jesus se tornou o Servo Sofredor, que oferece Sua vida em “sacrifício expiatório”5. Cristo “tomou sobre si o pecado de muitos homens”6, justificou-os tomando “sobre si suas iniquidades”7. Por Seu sacrifício na cruz, “Jesus prestou reparação por nossas faltas e satisfez o Pai por nossos pecados”8.

Essa reparação pelos nossos pecados, realizada por Jesus Cristo no Seu sacrifício na cruz, está presente nos sacramentos e se atualiza na celebração da Santa Missa. Pois, “enquanto sacrifício, a Eucaristia é também oferecida em reparação dos pecados dos vivos e dos defuntos, e para obter de Deus benefícios espirituais ou temporais”9. Por isso, a participação na Santa Missa nos faz participantes da obra reparadora de Jesus Cristo. Na celebração da Eucaristia, a reparação pelos nossos pecados e pelos pecados do mundo faz parte do culto espiritual oferecido a Deus, juntamente com devida adoração, a ação de graças e a súplica.

No sacramento da penitência, a reparação pelos pecados cometidos também está presente, pois na absolvição é perdoada a pena eterna, ou seja, o castigo merecido pelos nossos pecados. Esse sacramento é constituído de três atos do penitente e da absolvição dada pelo sacerdote.

“Os atos do penitente são o arrependimento, a confissão ou manifestação dos pecados ao sacerdote e o propósito de cumprir a penitência e as obras de reparação”10. Quando os pecados são cometidos contra a justiça, no caso de um bem roubado ou contra a verdade, no caso de calúnia ou difamação, além da reparação espiritual11, que se dá pela oração, faz-se necessária a reparação material12, que pode ser a devolução do bem roubado ou a prática de uma obra de caridade, no primeiro caso, ou a reparação moral13, que pode ser o reconhecimento público do mal cometido, no segundo caso. A reparação moral e às vezes material do mal causado deve ser avaliada segundo a medida do prejuízo causado e no quanto este obriga a consciência do penitente14.

Depois de recebermos a absolvição dos pecados no sacramento da penitência e cumprir a penitência e as obras de reparação, a pena eterna é perdoada. Entretanto, a pena temporal, que é a tarefa de eliminar as raízes que o pecado deixou em nós mediante a mortificação das paixões desregradas, permanece. Por isso, são particularmente importantes o jejum, a esmola, a penitência e a oração, que podem ser oferecidos em reparação das penas pelos nossos próprios pecados e pelos pecados das almas que estão no purgatório.

As obras de misericórdia corporais podem também ser oferecidas em reparação pelos pecados: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir aos enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos. Igualmente podemos oferecer as obras de misericórdia espirituais: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; rogar a Deus por vivos e defuntos. Além das obras de misericórdia, podemos oferecer as indulgências concedidas pela Igreja para apagar as penas temporais pelos nossos pecados ou pelas almas que estão no Purgatório. São várias as celebrações, como a Festa da Misericórdia, as orações, como o Rosário; e as ocasiões, como peregrinações aos santuários e aos lugares santos, que são enriquecidas com as indulgências.

A espiritualidade da reparação se faz presente de modo especial na devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Muitos santos propagaram essa devoção. Dentre eles, destacamos São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, o Beato Henrique Suso, São Pedro Canísio, São Francisco de Sales, São João Eudes, São João Bosco e Santa Margarida Maria Alacoque. Com a ajuda do seu diretor espiritual, o beato Cláudio de la Colombière, Santa Margarida, com o seu ardente zelo, conseguiu que o culto ao Sagrado Coração de Jesus adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã. Dentre as associações que promovem o culto ao Coração de Jesus, as piedosas práticas de reparação, de modo especial destacam-se as manifestações de ardentíssima piedade e devoção do Apostolado da Oração. Este propaga a devoção da comunhão reparadora nas nove primeiras sextas-feiras em desagravo ao Sagrado Coração de Jesus, segundo as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque.

Para que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus produza frutos mais abundantes na família cristã e em toda a humanidade, o Papa Pio XII recomenda: “procurem os féis unir a ela estreitamente a devoção ao coração imaculado da Mãe de Deus”15. Pois, foi por vontade de Deus que, na obra da Redenção humana, a Virgem Maria estivesse inseparavelmente unida a seu Filho Jesus Cristo; tanto que a nossa salvação é fruto da caridade de Cristo e dos Seus sofrimentos, aos quais foram intimamente associados o amor e as dores de Sua Mãe Santíssima. “Por isso, convém que o povo cristão, que de Jesus Cristo, por intermédio de Maria, recebeu a vida divina, depois de prestar ao Sagrado Coração o devido culto, renda também ao amantíssimo coração de Sua Mãe celestial os correspondentes obséquios de piedade, de amor, de agradecimento e de reparação”16.

Considerando que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus está intimamente unida à do Imaculado Coração da Virgem Maria, a espiritualidade da comunhão reparadora ganha particular importância. Essa realidade nos foi confirmada pela própria Virgem Maria, em uma de suas aparições a Irmã Lúcia em Fátima, Portugal. Nossa Senhora mostrou o seu Coração Imaculado rodeado de espinhos, que significam os nossos pecados, e pediu que fizéssemos atos de reparação, de desagravo, para tirar esses espinhos dele. De modo especial, a Virgem de Fátima recomendou a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados. Segundo Irmã Lúcia, “da prática da devoção dos primeiros sábados, unida à consagração ao Imaculado Coração de Maria, depende a guerra ou a paz do mundo”17. Por isso, nos tempos de guerra e violência em que vivemos, torna-se particularmente urgente o desagravo das ofensas contra o Coração Imaculado da Virgem Mãe de Deus.

Assim, a espiritualidade reparadora tem como finalidade nos conduzir a Jesus Cristo e à salvação eterna. Por isso, procuremos com maior empenho conhecer melhor essa doutrina da Santa Mãe Igreja sobre a reparação das penas temporais e das ofensas contra o Sacratíssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Pois, conhecendo melhor a espiritualidade da reparação, viveremos melhor esse caminho que nos coloca no mistério da Redenção da humanidade. Que a vivência da espiritualidade da reparação das penas temporais pelos nossos pecados e pelas almas do purgatório e do desagravo das ofensas contra o Coração de Jesus e o Coração de Maria sejam causa de salvação eterna para muitos.

Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, rogai por nós!

Natalino Ueda
Missionário da comunidade Canção Nova, desde 2005 cursou Filosofia e Teologia, atua no portal cancaonova.com como produtor de conteúdo é autor do blog Todo de Maria. blog.cancaonova.com/tododemaria

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda