XVII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Recolhei os pedaços que sobraram
XVII Domingo do tempo comum (B)
2 Reis 4, 42-44; Efésios 4, 1-6; João 6, 1-15

Durante vários domingos, o Evangelho está tomado do discurso que Jesus pronunciou sobre o pão da vida na sinagoga de Cafarnaum, e que o evangelista João refere. A passagem deste domingo vem do episódio da multiplicação dos pães de dos peixes, que se torna uma introdução ao discurso eucarístico. Não é por acaso que a apresentação da Eucaristia começa com o relato da multiplicação dos pães. Com isso, o que se quer dizer é que não se pode separar, no homem, a dimensão religiosa da material; não é possível prover suas necessidades espirituais e eternas, sem preocupar-se, ao mesmo tempo, por suas necessidades terrenas e materiais. Foi precisamente esta, por um motivo, a tentação dos apóstolos. Em outra passagem do Evangelho, se lê que eles sugeriram a Jesus que despedisse a multidão para que fosse aos povoados vizinhos para buscar o que comer. Mas Jesus respondeu: «Dai-lhes vós mesmos de comer!» (Mt 14, 16). Com isso, Jesus não pede aos seus discípulos que façam milagres. Pede que façam o que puderem. Pôr em comum e compartilhar o que cada um tem. Na aritmética, multiplicação e divisão são duas operações opostas, mas neste caso são a mesma coisa. Não existe «multiplicação» sem «partição» (ou compartilhar)! Este vínculo entre o pão material e o espiritual era visível na forma em que se celebrava a Eucaristia nos primeiros tempos da Igreja. A Ceia do Senhor, chamada então de ágape, acontecia no marco de uma refeição fraterna, na que se compartilhava tanto pão comum como o eucarístico. Isso fazia com que fossem consideradas escandalosas e intoleráveis as diferenças entre quem não tinha nada para comer e quem se «embriagava» (1Cor 11, 20-22). Hoje, a Eucaristia já não se celebra no contexto da refeição comum, mas o contraste entre quem tem o supérfluo e quem carece do necessário não diminuiu, pelo contrário, assumiu dimensões planetárias. Sobre este ponto, o final do relato também tem algo a nos dizer. Quando todos se saciaram, Jesus ordenou: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». Nós vivemos em uma sociedade onde o desperdício é habitual. Passamos, em cinqüenta anos, de uma situação na que as pessoas iam ao colégio ou à Missa dominical levando, até a porta, os sapatos na mão para não gastá-los, a uma situação na que se joga fora o calçado quase novo para adaptar-se à moda mutante. O desperdício mais escandaloso acontece no setor da alimentação. Uma pesquisa do Ministério de Agricultura dos Estados Unidos revela que um quarto dos produtos alimentícios acaba cada dia no lixo, isso sem falar do que se destrói deliberadamente antes que chegue ao mercado. Jesus não disse aquele dia: «Destruam os pedaços que sobraram, para que o preço do pão e do peixe não baixe no mercado». Mas é precisamente o que se faz hoje em dia. Sob o efeito de uma publicidade maçante, «gastar, não economizar» é atualmente a senha na economia. Certo: não basta economizar. O ato de economizar deve permitir que os indivíduos e as sociedades dos países ricos sejam mais generosos na ajuda aos países pobres. Se não, é mais avareza do que economia.

 

Ser um milagre
Dom Jesús Sanz Montes, ofm, bispo de Huesca e de Jaca

O Evangelho deste domingo dá sequência ao da semana passada onde Jesus percebeu outro tipo de carência, talvez mais elementar, mas igualmente evidente, entre aquela multidão que o seguia: não só não tinham pastor e precisavam de ensino, mas tampouco tinham pão, e então, igualmente precisavam de alimento: “Jesus, ao ver que muita gente se reunia disse a Felipe: com que compraremos pães para que comam?”. Em meio à estranheza de Felipe chega André e aponta uma solução: aqui há um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas o que é isto para tanta gente? A evidente provocação estava servida, e ante a desmedida missão de ter que alimentar tantos com tão pouco, era lógica aquela reação dos discípulos: isso nos supera, não sabemos o que fazer nem por onde começar. Como diz o Evangelho de Marcos: “vamos comprar duzentos denários de pão para dar-lhes de comer?”. Jesus fez esse milagre ante todos, e ficou manifesta a grandeza de Deus… mas através da pequenez humana: foi realizado com a ajuda humilde do menino que encontrou André,  com seus cinco pães e seus dois peixes. É um impressionante testemunho de como Jesus não quis mostrar-nos um rosto de Deus auto-suficiente e depreciativo com respeito a seus filhos, mas que – por assim dizer – quis ter necessidade de nossa pequena colaboração humana para que sua grandeza divina possa ser manifestada. Outras fomes de outros pães têm atingido nossa querida humanidade: a paz, o trabalho, a justiça, o amor, o respeito, a esperança, a fé, a verdade… e um longo etcétera tão imenso quanto a própria humanidade. São muitas as fomes dos homens. Talvez haja quem espere de Deus um milagre sonoro e estrondoso. Enquanto Jesus continuará nos dizendo como então: dai-lhes vós de comer, buscai o pão adequado para essas fomes concretas. Então sentiremos o mesmo estupor que sentiram os discípulos no lago da Galiléia. Jesus continua fazendo milagres, mas estes passam por nossas mãos, nosso coração, nossos olhos, nossos lábios: Ele precisa também hoje de nossos pães e nossos peixes, para dar de comer à multidão de tão diversas fomes. O milagre somos nós, que oferecendo nossa pequenez, Deus converte em grandeza, em sinal. E também hoje as pessoas ficarão saciadas. Não vemos a fome? Não nos vemos como o pão que é partilhado pelas mãos de Jesus? Deixemo-nos tomar, partir e repartir, deixemo-nos ser milagre para os demais.

 

Evangelho segundo São João 6, 1-15
Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos. Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Filipe respondeu-lhe: «Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.» Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer. Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

Por Pe. Fernando José Cardoso
Neste décimo sétimo domingo do tempo comum, seguindo o lecionário do ano B, nós fazemos um parênteses mais ou menos longo no texto de Marcos para lermos seguidamente o capítulo VI, que trata do Pão da Vida. Certa vez perguntaram a François Sagan se ela cria em Deus; respondeu ela que Deus não lhe interessava minimamente e acrescentou: “Quando eu vejo tanta miséria, tanta fome, tanta crueldade neste mundo, das duas uma: ou Deus não é bom, ou Deus não é onipotente e, portanto a conclusão é sempre a mesma, não me interessa”. Neste domingo nós examinamos o contrário do que esta francesa afirmava: Jesus se importou sim, com a situação concreta e material daqueles que o seguiam e o ouviam. Certa vez – é o Evangelho de hoje – Jesus multiplicou os pães para dar de comer aquela multidão, antes de falar do alimento espiritual que Deus, o Pai, ofereceria a todo o ser humano de boa vontade. Jesus possuía psicologia, Jesus não era uma pessoa superficial, Jesus sabia que um estômago faminto, não tem ouvidos para o mundo espiritual. Jesus já antecipava no seu gesto, o que a Igreja, fez no passado e continua a fazer no presente. Quantas congregações e ordens religiosas foram inspiradas pelo Espírito Santo, para vir em socorro da miséria material do ser humano. Quantas ordens e congregações religiosas para cuidarem dos pobres, dos ignorantes e levá-los ao caminho da cultura. Quantas ordens e congregações religiosas se abriram para aqueles que possuem pouco, para aqueles que sofrem no corpo e no espírito. Jesus não é indiferente ao que se passa nesta nossa vida material, embora mais do que nós, e melhor do que nós, saiba que esta vida não é tudo e que esta vida não é mais importante, nem por isto deixa de cuidar dela. Ele não a negligenciou em nenhum momento. Porém, Deus não pode e não quer, transformar por toque mágico este mundo, num mundo de encantamentos. Deus sempre desejou a participação do ser humano. A terra deste planeta é suficiente para alimentar todas as bocas, o dinheiro que corre neste mundo é mais do que suficiente para eliminar uma série de problemas estruturais na sociedade, na comunidade e na vida de cada um de nós, mas somos nós como sociedade, como comunidade, como pessoas que mal barateamos os bens que recebemos de Deus, ou então de uma maneira egoísta juntamos apenas para nós, e com o coração egoísta também, jamais aprendemos a compartilhar que quer que seja. Pessoas assim: Deus não modificará a humanidade, mas também não pode receber a acusação de falta de interesse. A falta de interesse é de nós homens que queremos um álibi facial e jogamos a responsabilidade de maneira fácil também na sua pessoa.

 

«Este é na verdade o Profeta que devia vir ao mundo!»
Santo Hilário (c. 315-367), Bispo de Poitiers e Doutor da Igreja
Comentário ao Evangelho de S. Mateus, 14, 11; PL 9, 999 (a partir da trad. Matthieu commenté, DDB 1985, p. 98 rev.; cf SC 258, p. 23)

Os discípulos dizem que têm apenas cinco pães e dois peixes. Os cinco pães significavam que estavam ainda submetidos aos cinco livros da Lei, e os dois peixes que eram alimentados pelos ensinamentos dos profetas e de João Baptista. […] Eis o que os apóstolos tinham para oferecer em primeiro lugar, uma vez que ainda se encontravam ali; e foi dali que partiu a pregação do Evangelho. […] O Senhor tomou os pães e os peixes. Ergueu os olhos ao céu, abençoou-os e partiu-os. Dava graças ao Pai por estar encarregado de os alimentar com a Boa Nova, após os séculos da Lei e dos profetas. […] Os pães também são dados aos apóstolos: era por eles que os dons da graça divina deviam ser espalhados. Em seguida, as pessoas são alimentadas com os cinco pães e os dois peixes. Uma vez saciados os convivas, os bocados de pão e de peixe que sobejaram eram de tal forma abundantes que encheram doze cestos. Isto significa que a multidão fica saciada com a palavra de Deus, que provém do ensinamento da Lei e dos profetas. É a abundância do poder divino, reservado para os povos pagãos, que transborda na sequência do serviço do alimento eterno. Ela realiza uma plenitude, a do número doze, como o número dos apóstolos. Ora acontece que o número dos que comeram é o mesmo que o dos crentes vindouros: cinco mil homens (Mt 14, 21; At 4, 4).

 

17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG).

“Deus habita em seu templo santo, reúne seus filhos em sua casa; é ele que dá força e poder a seu povo.” (Sl  67, 6s.,36)

Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs,
A auto-revelação de Jesus é colocada no Evangelho de hoje, lido segundo a tradição joanina, para demonstrar um momento decisivo de fé dos discípulos. Refletimos o episódio da multiplicação dos pães, numa seqüência às leituras dos domingos precedentes (cf Jo 6,1-15). João fala da multiplicação dos pães como ponto de partida do discurso eucarístico e como seu sinal. Entretanto, a parte principal do trecho da multiplicação dos pães nós iremos refletir nos domingos seguintes.
Nós nos lembramos que, depois que os discípulos foram enviados para a missão pastoral, no domingo passado, foram convidados por Jesus para um retiro espiritual, para um momento de privilegiada oração e de súplicas ao Pai, para abençoar a missão que era feita em Seu nome. E, mais do que tudo isso, os discípulos que receberam um mandato de anunciar o Senhor deveriam voltar a Ele próprio para se enriquecerem com a água viva que saía de sua boca. Quando foram para o retiro espiritual nós vimos que a multidão que estava sem pastor pediu que Jesus viesse ao seu encontro.
É essa mesma multidão que caminhava para Jerusalém, que faz uma estadia em Cafarnaum. E o que fazem em Cafarnaum? Querem ver a Jesus, quer ouvir aquele que cura, aquele que é um profeta, que dá o pão da palavra e o pão da vida eterna.
Nós vimos no domingo precedente que Jesus teve compaixão do povo que estava naquela relva. Era tempo da Páscoa, esses peregrinos caminhavam para Jerusalém, para a Páscoa. Grande multidão que quer significar que o povo simples acolhia os ensinamentos de Jesus e caminhava à sua procura para ouvi-Lo, para converter-se ao seu Evangelho, para vivenciar os seus conselhos e para caminhar com Ele.

Queridos irmãos,
Na primeira leitura observamos que Eliseu sacia milagrosamente o povo (2Rs 4,42-44). Elias e Eliseu renovam os “grandes feitos” de Javé no tempo do Êxodo. Eliseu sacia cem pessoas com vinte pãezinhos de cevada, lembrando a fartura do maná no tempo de Moisés (Ex 16). Fica até sobrando. Alimento à vontade é um bendito sinal do tempo messiânico, que se realiza em Jesus Cristo, conforme nos anuncia o Evangelho de hoje.

Irmãos e irmãs,
Jesus subiu ao monte para rezar ao Pai, para depois descer à planície para saciar a fome daquela multidão que, próxima da Páscoa, caminhava em busca daquele que era considerado o Salvador, o novo Messias.
Os montes sempre foram para os judeus a habitação de Deus. Ao falar de cima do monte, Jesus fala com a autoridade divina e, ao descer do monte, para fazer o discurso eucarístico na planície de Cafarnaum, vem revestido da força de Deus. Cristo é o novo mestre e guia. Jesus oferece seu corpo como alimento vindo do céu. A fartura do alimento distribuído, de cinco pães comem cinco mil pessoas e sobram doze cestos, sem contar as crianças e as mulheres, essa fartura indicava a bênção do Onipotente, dos céus, sinal da era messiânica, intervenção direta de Deus.
A Eucaristia será a maior de todas as bênçãos, porque será o próprio Filho de Deus que não só intervém com força divina, mas se deixa comer como fonte inesgotável de graças salvadoras. Quem lhe come o corpo e lhe bebe o sangue não terá mais fome nem sede, o que significa uma vida de alegria e de graça, que se completa na posse da divindade, da comunhão com Deus.

Irmãos e irmãs,
O pão que alimentou essas pessoas na planície de Cafarnaum tem um significado profundo para todos nós: Cristo é o próprio pão, o maná que desceu do Céu, dado em cada Santa Missa pela nossa salvação, alimento que nos conduz a Deus, que nos sacia para os embates da vida, alimento de salvação, alimento que pavimenta uma auto-estrada para o céu, o Reino das alegrias eternas.
Jesus, ao repartir o pão para cinco mil homens, inaugura um novo tempo na vida comunitária. Por isso, todos nós devemos repartir o pão como alimento que sacia e pão da palavra que alimenta nossa vida de fé. Palavra de fé, palavra de vida que é plenificada na Missa, com o alimento do Cristo, que se dá a nós como alimento de salvação.

Irmãos e Irmãs,
A segunda leitura ajuda-nos a sentir o ambiente de reunião escatológica que marca a multiplicação dos pães, realização do banquete escatológico anunciado em Is 25,6-8. Esse banquete é para todos os povos, demonstrando o universalismo da unidade e da salvação da Igreja, resumida na leitura de Ef 4,4-6: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”.
Jesus não veio propriamente para distribuir cestas básicas e ser eleito político, para resolver problemas sociais. É preciso caminhar para o fundamental: que conheçam o Deus de amor e de justiça que se revela em Jesus. É para isso que o Mestre vai pronunciar o Sermão do Pão da Vida, como veremos nos domingos seguintes.
A Igreja mudará de fisionomia na medida em que os cristãos e os responsáveis pelas instituições eclesiais tomarem consciência das exigências que o mundo coloca à sua fé e à sua caridade. O essencial é reestruturarmos a vocação evangélica da Igreja na verdade, para que ela continue sendo o sinal de Deus para todos os que têm fome do pão da Eucaristia e da vida eterna.
Oremos, irmãos, para que Deus nos ensine cada vez mais a repartir o pão da vida e o pão da palavra. Lembre-se que a sua parte deve ser feita, porque o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada. A política de Deus é a da partilha, do amor, da acolhida e da solidariedade. Estas políticas pessoais, cada vez mais esquecidas por nós.
Ajude-nos a Providência a caminhar e a repartir, valorizando a Eucaristia como momento privilegiado de nossa caminhada de fé. Amém!

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