A Lamparina do Sacrário

Há 138 anos a chama que jamais se extingue…
Por Mons. Inácio José Schuster

Tomemos a lamparina que continuamente arde próximo ao sacrário. Quantos pensamentos salutares ao espírito este singelo objeto pode nos prestar?

Momentos após expirar no madeiro, Nosso Senhor Jesus Cristo recebia de Longino o derradeiro golpe de lança. E muitos autores cristãos referem, em comentários que ricamente mesclam elevado estudo teológico com a mais fina poesia, que desse lado transpassado do Deus morto, donde verteu sangue e água, nasceu também a Santa Igreja Católica.

Em seus séculos de existência, essa Igreja imortal foi crescendo em sabedoria e santidade. E tudo o que ela foi destilando nessa tão longa caminhada têm em sua raiz última valores infinitos, pois que é oriundo daquele Sangue infinitamente precioso derramado na Cruz.

Cada costume, cada gesto na liturgia, cada trecho de melodia sacra e cada peça sobre o altar são carregados de significados santos e profundos. Pode-se dizer, sem temor de exagero, que em nossa santa religião não há uma pedra, por menor que seja, a qual ao ser movida não revele por trás de si um tesouro sobrenatural.

Tomemos, por exemplo, a lamparina que continuamente arde próxima ao sacrário. É um objeto singelo, no entanto poderá inspirar salutares pensamentos proveitosos ao espírito.

A pequena chama pode bem ser comparada a tantas almas contemplativas, as quais felizmente sempre houve. Enquanto a cidade e o mundo ardem em agitação febril, buscando um sem-fim de realizações terrenas, lá estão elas, revezando-se diante de Deus, de maneira a nunca interromper sua adoração. Não é um pensamento confortador? Quer seja dia, quer noite, sempre haverá um coração cristão postado diante do tabernáculo, à semelhança do persistente lume.

Em sentido bem diferente, a pequena e coruscante labareda também nos pode lembrar a alma do cristão comum. E de qual maneira? Poderíamos imaginá-lo assim:

Há dias em que uma igreja vive o esplendor das cerimônias litúrgicas. Repleta de fiéis, vibra e rejubila ao som do órgão e ao colorido cortejo dos paramentos, enquanto dezenas de círios festivos rebrilham sobre os altares. Estes seriam, para a alma, os momentos de alegria, de consolação espiritual e abundância de favores divinos. No entanto, há também os momentos em que essa mesma igreja está quase vazia. Pode ser um dia não festivo, naquelas semanas mortas do ano. Não há música nem cores vibrantes. E das velas desfeitas, já não restam mais que poças de cera ressecada, sobre melancólicos altares desnudos. Assim figuramos o que seriam para a alma os dias difíceis, de prova e aridez, nos quais o próprio Deus parece ter-se ausentado. Neste clima sombrio, olhemos, entretanto, ao lado do sacrário, e lá estará a pequenina chama a bruxulear, talvez a única luz dentro de toda a igreja.

A minúscula chama da lamparina seria, neste caso, bem o símbolo da fé no espírito cristão. Quando tudo parece imerso em trevas, todos os esforços se revelam inúteis e o mar das provações ameaça submergir a pobre alma, a luz da fé, por menor que seja, traz em si aquela força e aquela esperança, que são o elo sobrenatural que liga o homem ao seu Criador. Tudo pode ser restaurado.

Cada centelha de fé – ainda que muito pequena – que arde no fundo de um coração batizado, é como uma lamparina a arder diante de Deus. Jamais devemos permitir que ela se apague. Nela está a semente da Glória, da felicidade celeste, da Luz eterna que jamais se extinguirá.

Senhor, fazei que eu seja aquela luz,
humilde mas constante, a pequenina luz,

junto ao Vosso Sacrário,
que não fraqueja nem um só instante.

Que nunca se me acabe, ó meu Senhor,
o azeite da minha adoração por Vós.

E que por Vossa graça eu ilumine tudo em meu redor,
procurando que com a minha luz
não deixe sentir sós os que,
fiéis, buscam o Vosso amor.

Eu sei que, na aparência da humildade,
não tem medida o que agora Vos peço:

Graça maior que estar ao Vosso lado
não tem comparação e não tem preço.

Por isso, ó Deus do infinito amor,
ouvi minha alma, sempre,

sempre a rezar, sem que,
por um momento, desfaleça.

Para que, ao fim deste agreste caminho,
possa olhar Vosso rosto e nele me reconheça.

Nele reconheça a humilde centelha de Vós em mim, Senhor,
desde que me criastes, e que,

apesar das minhas muitas faltas sempre,
como meu Pai, me perdoastes por Vosso amor.

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