XVI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster 

Vinde para um lugar deserto e descansai um pouco
XVI Domingo do tempo comum (B)
Jr 23, 1-6; Ef 2, 13-18; Mc 6, 30-34

Na passagem do Evangelho, Jesus convida seus discípulos a separar-se da multidão, do seu trabalho, e retirar-se com Ele a «um lugar deserto». Ele lhes ensina a fazer o que Ele fazia: equilibrar ação e contemplação, passar do contato com as pessoas ao diálogo secreto e regenerador consigo mesmo e com Deus. O tema é de grande importância e atualidade. O ritmo de vida adquiriu uma velocidade que supera nossa capacidade de adaptação. A cena de Charlot concentrado na linha de montagem em Tempos Modernos é a imagem exata desta situação. Perde-se, desta forma, a capacidade de separação crítica que permite exercer um domínio sobre o fluir, freqüentemente caótico e desordenado, das circunstâncias e das experiências diárias. Jesus, no Evangelho, jamais dá a impressão de estar agitado pela pressa. Às vezes, ele até perde o tempo: todos o buscam e Ele não se deixa encontrar, absorto como está na oração. Às vezes, como em nossa passagem evangélica, Ele inclusive convida seus discípulos a perderem tempo com Ele: «Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco». Ele recomenda freqüentemente que não se agitem. Também o nosso físico, quanto bem recebe através de tais «folgas». Ao mandamento «Lembrai-vos de santificai as festas», seria preciso acrescentar: «Lembrai-vos de santificar as férias». «Parai (literalmente: tirai férias!), sabei que eu sou Deus», diz Deus em um salmo (Sl 46). Um meio simples de fazer isso poderia ser entrar em uma igreja ou em uma capela de montanha, em uma hora onde estiver deserta, e passar um pouco de tempo «solitário» lá, a sós conosco mesmos, a sós frente a Deus. Esta exigência de tempos de solidão e de escuta se apresenta de forma especial aos que anunciam o Evangelho e aos animadores da comunidade cristã, que devem permanecer constantemente em contato com a fonte da Palavra que devem transmitir aos seus irmãos. Os leigos deveriam alegrar-se, não se sentir descuidados, cada vez que o próprio sacerdote se ausenta para um tempo de recarga intelectual e espiritual. É preciso dizer que as férias de Jesus com os apóstolos foram de breve duração, porque as pessoas, vendo-o partir, seguiram-no a pé até o lugar de desembarque. Mas Jesus não se irrita com as pessoas que não lhe dão trégua, senão que «se comove», vendo-as abandonadas a si mesmas, «como ovelhas sem pastor», e começa a «ensinar-lhes muitas coisas». Isso nos mostra que é preciso estar dispostos a interromper até o merecido descanso frente a uma situação de grave necessidade do próximo. Não se pode, por exemplo, abandonar ou estacionar em um hospital, um idoso sobre quem se tem a responsabilidade, para desfrutar de umas férias sem incômodos. Não podemos esquecer das muitas pessoas cuja solidão elas não escolheram, senão que a sofrem, e não por algumas semanas ou um mês, senão por anos, talvez durante a vida toda. Também aqui cabe uma pequena sugestão prática: olhar à nossa volta e ver se existe alguém a quem ajudar a sentir-se menos sozinho na vida, com uma visita, uma ligação, um convite a vê-lo um dia no lugar das férias: aquilo que o coração e as circunstâncias sugiram.

 

Os discípulos (esta é a primeira vez que São Marcos os chama Apóstolos) “voltaram para junto de Jesus”, depois do envio que escutamos no domingo passado. Jesus convida-os a repousar, mas uma multidão impedia que tal acontecesse: “Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas. Na 1ª Leitura, Jeremias fala durante os últimos dias do reino da Judéia, antes do exílio. Em nome de Deus, acusa e condena os reis e os dirigentes do povo, que são chamados pastores, porque “dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas”. Deus chama “ovelhas” às pessoas simples do povo. É uma situação muito idêntica aos dias de hoje. As pessoas simples eram esquecidas, desprezadas e exploradas pelo poder. O Deus de Israel sai em seu socorro. No tempo de Jeremias, a autoridade civil e religiosa estava nas mesmas mãos. Hoje, isso não acontece, mas o problema continua a existir. Deus condena aqueles que têm autoridade e que a usam para fazer mal às “suas ovelhas”. Em seguida, aparece no texto a experiência mística do homem bíblico crente: “Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas de todas as terras onde se dispersaram e as farei voltar às suas pastagens”. Este “Oráculo do Senhor” começa já a manifestar o núcleo da revelação perante a humanidade perdida, abandonada e oprimida. Jeremias anunciou a vinda de um rei prudente, ou seja, Jesus, o “Bom Pastor” (Jo 10), a presença do “Eu sou” entre a humanidade, não como um rei poderoso, mas como um simples servidor, um do povo, sem nenhum título entre os nobres de Israel, alguém que “nem tem tempo para comer”. Jesus compadeceu-Se da multidão; é a atitude de Deus perante a humanidade. No mundo, há pessoas simples e há pessoas com inteligência e com poder e algumas até governam o mundo. Mas, de uma maneira ou de outra, todos entramos no mesmo grupo: perdidos, como ovelhas sem pastor. A última frase do evangelho deste domingo é surpreendente: “E começou a ensinar-lhes muitas coisas”. São João diz-nos que Jesus é o Bom Pastor que ama as suas ovelhas até dar a vida por elas. São Marcos destaca o “núcleo”, ou seja, a maneira como Jesus concretiza o anúncio do Antigo Testamento “Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas”: ensina calmamente o povo, ou seja, toda a humanidade. Jesus fala de Deus, da vida, do amor, da esperança; ensina para que as pessoas O escutem, lhe abram o coração, participem da sua experiência e assim aprendam pessoalmente qual é a verdade e a vida. A verdadeira obra de Deus não é escolher novos líderes do povo, mas pela Sua Palavra oferecer a todos o Espírito de amor, de vida e de esperança. É assim que nos convertemos nas suas ovelhas e em criaturas novas que entendem pessoalmente o valor do amor, do desprendimento, do serviço, da esperança; pessoas que acreditam e vivem. É um processo – itinerário nunca terminado. Somos cristãos na medida em que escutamos, rezamos, abrimos o coração e deixamos que a Sua palavra penetre na nossa vida. A Carta aos Efésios resume a obra salvífica de Jesus Cristo deste modo: “Foi Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava” (o ódio). O primeiro grande princípio que Jesus ensina é o amor; amou até ao fim, até a cruz. Todos têm conhecimento de povos e culturas que se enfrentam violentamente. De fato, os sofrimentos do mundo atual resumem-se a estes confrontos. Constantemente, levantamos “barreiras” que separam, tanto morais como físicas. A obra salvadora de Jesus é destruir essas barreiras na cabeça e no coração das pessoas. Como são fortes e horríveis os argumentos que justificam a indiferença, a condenação, o esquecimento, o desprezo, o insulto, a agressão, a violência. A fé cristã proclama que estas barreiras têm que ser destruídas, lutando contra a corrente que afirma que é impossível tal acontecer. Mas, foi isto que Jesus veio fazer ao mundo. Com a sua palavra e o seu Espírito de amor e de perdão, com a sua morte na cruz, entregando-se ao Pai, abriu o caminho da Paz.

 

As ovelhas sem pastor
Dom Paulo Mendes Peixoto

O domingo é um dia especial na vida de todas as pessoas. É dia de festa, de solenidades, de alegria benfazeja e de descanso. Ele tem uma grande força irradiante de energia de comunhão, de convivência, de revigorar as forças das pessoas e de motivar a esperança. Todo esse calor humano deve ser imbuído de atitudes de justiça e de uma paz positiva, com valores que estimulam à vivência de uma vida feliz.

Na realidade cotidiana, marcada por tantas situações, até inesperadas, não podemos perder de vista o rumo, vivendo como pessoas perdidas no mundo, como ovelhas sem pastor, sem referências e de visão muito reduzida, fechada em si mesma. O encanto deve ser recuperado na partilha fraterna do domingo, chamado “Dia do Senhor”, encontrando, na oportunidade, as referências para o bem viver e a capacidade para uma vida saudável.

Para o cristão, mesmo numa cultura marcadamente individualista, ele deve buscar a força que estimula sua caminhada diária na convivência comunitária, na oração e na escuta atenta da Palavra de Deus. Isto tradicionalmente vem acontecendo no domingo, mesmo com sua perda de sentido nos últimos tempos. Aí está a referência maior para o seu ser e a sua dignidade. É um reabastecimento espiritual e físico adquirido no clima espiritual deste Dia do Senhor.

A confiança depositada na Palavra de Deus, que acontece também no diálogo, na convivência fraterna e amiga, na partilha familiar, é capaz de tirar todo medo e angústia próprios dos novos tempos, que são geradores de stress e depressão, atingindo uma grande porcentagem das pessoas. A raiz de tudo isto está no “Senhor que é o Pastor que nos conduz”, seja na tristeza ou na dificuldade, seja na felicidade e no amor.

O Bom Pastor é aquele que destrói os muros de separação entre as pessoas, que aproxima os que estão distantes e acolhe a todos, sem distinção, não deixando que haja ovelhas sem pastor. Ele cria em nós pessoas novas e estabelece a paz, proporcionando um mundo diferente e possível.

 

“Encheu-se de compaixão para com eles, porque eram como ovelhas sem pastor”
“Onde levas o teu rebanho a pastar”, ó bom pastor que o carregas tudo sobre os teus ombros? Porque toda a raça humana é uma única ovelha que tu tomaste aos ombros. Mostra-me o lugar da tua pastagem, faz-me conhecer as águas do repouso, leva-me para a erva suculenta, chama-me pelo nome, para que eu ouça a tua voz, eu que sou tua ovelha, que a tua voz seja para mim a vida eterna. Sim, diz-mo, “tu a quem o meu coração ama”. É assim que te chamo porque o teu Nome está acima de todo o nome, inexprimível e inacessível a toda a criatura dotada de razão. Mas este nome, testemunho dos meus sentimentos para contigo, exprime a tua bondade. Como não te amaria eu, a ti que me amaste quando eu era negra, a ponto de dares a tua vida pelas ovelhas de quem és o pastor? Não é possível imaginar maior amor do que teres dado a vida pela minha salvação.   Ensina-me então “onde levas o teu rebanho a pastar”, que eu possa encontrar a pastagem da salvação, saciar-me com o alimento celeste que todo o homem deve comer se quiser entrar na vida, correr para ti que és a fonte e beber a longos tragos a água divina que fazes brotar para os que têm sede. Essa água corre do teu lado desde que a lança aí abriu uma chaga e todo aquele que a prova torna-se uma fonte de água brotando para a vida eterna.
São Gregório de Nissa (cerca de 335 – 395), monge e bispo
Homilias sobre o Cântico dos Cânticos (Referências bíblicas: Ct 1,7; Lc 15,5; Sl 22; Jo 10,3; Ct 1,7; Fl 2,9; Ct 1,5; Jo 10,11; 15,13; 19,34; 4,14)

 

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG).

“É Deus quem me ajuda, é o Senhor quem defende a minha vida. Senhor, de todo o coração hei de vos oferecer o sacrifício, de dar graças ao vosso nome, porque sois bom” (Sl 53, 6-8).

Irmãos e irmãs,

Todas as vezes que encontramos uma pessoa doente ou com fome a primeira atitude que devemos ter é a atitude que nos ensina Jesus neste domingo, a COMPAIXÃO. Os apóstolos que voltaram para perto de Jesus estavam preocupados, depois de seu estágio pastoral, não com o que fizeram ou ensinaram. Eles estavam preocupados com o próprio e único Senhor Jesus. Era necessário voltar ao Mestre, buscar a fonte da vida. E, aqui, é necessário esse reencontro para que todos nós tenhamos certeza do necessário: agimos e trabalhamos em nome e na ação de Nosso Senhor Jesus Cristo. “O mandato apostólico foi dado por Jesus e é em seu nome que todos devem trabalhar a nova evangelização”. Por isso, “depois do estágio pastoral, Jesus convida seus discípulos para um descanso, ou seja, para um retiro espiritual, para que suas forças sejam revigoradas”. Quando Jesus chegou com os seus apóstolos no lugar destinado para o retiro, acontece o inesperado: uma multidão comprimida espera por Jesus para vê-lo, para ouvi-lo, para compartilhar o seu sofrimento e sua caminhada. Nesse instante, Jesus nos ensina qual deve ser a atitude do cristão: a compaixão. Jesus deixa de lado o retiro e vai ao encontro do povo que está sedento da Palavra de Deus. A Primeira Leitura(Jr 23,1-6) nos apresenta os maus pastores e o verdadeiro pastor de Israel. Os reis de Judá foram maus pastores para o rebanho. Por isso, serão castigados. Mas, Deus reunirá, novamente, seu rebanho, de todos os lugares, e dar-lhe-á um bom pastor, um descendente de Davi, que poderá chamar-se “Javé nossa justiça”. Ele realizará o Reino de Deus entre os homens e as mulheres.

Meus prezados irmãos e irmãs,

No Evangelho de hoje, São Marcos (Mc 6,30-34) emprega a palavra “apóstolo”. “É a única vez que o evangelista usa este termo que significa aquele que é enviado para uma missão. Aquele que vai em nome de alguém. Aquele que age em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.” Ninguém é apóstolo por sua conta e por sua preferência. O apóstolo recebe o chamado e a missão que vêm de Deus e deve agir em nome do Onipotente, anunciando a todos os povos, não a sua mensagem, mas a mensagem de quem o enviou e de quem o apóstolo representa. A finalidade principal do apóstolo é pregar a palavra de Deus, dando testemunho do que contêm as Sagradas Escrituras, indo de porta em porta anunciando o hoje da salvação. Por isso, o retiro para um lugar deserto que Jesus propõe no Evangelho tem uma grande motivação: para que os seus apóstolos rezem e estejam em íntima unidade com o projeto de Salvação, revigorados na sua missão para evangelizar. Por isso, meus irmãos, nós somos sempre convidados para rezar, para orar, pedindo a Deus força e luzes para continuar a nossa caminhada.

Meus irmãos,

As ovelhas que correm atrás de Jesus e pede que tenha para com elas um pouco de atenção são chamadas de “ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), ovelhas sem rumo certo, sem compromisso, aquelas que correm para ver se conseguem um novo rumo pra a sua vida. “A primeira leitura nos ensina que Deus é mesmo o Bom Pastor, aquele que conduz as suas ovelhas”. O Novo Testamento demonstra que o Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, é o próprio Senhor Jesus. Falar do Bom Pastor é falar da meta básica da vida cristã, que é a unidade. A segunda leitura nos ensina que a unidade é importante e urge em nosso meio. Do conjunto das leituras de hoje retiramos uma lição que merece muita reflexão de nossa parte: a reconciliação do homem com Deus o une com seus irmãos, com a sua comunidade. Na prática, porém, o homem, muitas vezes usa Deus para justificar discriminação, ódio, perseguição, pobreza, miséria, fome, etc. Jesus, entretanto, fez “dos dois um só povo”, “um só corpo”, “um só rebanho”, “um homem novo”, “em si mesmo”. Este único corpo é, ao mesmo tempo, o do Cristo e o da comunidade constituída por Ele. Ele veio a nós, dando-nos o poder de nos aproximar do Pai: movimento recíproco, cuja iniciativa está do lado da graça de Deus. Acolher o povo de Deus, ensinar-lhe as coisas do Reino, tudo o que Jesus faz para o povo com vista ao Reino dos Céus é pastoral em proveito de Deus, é cuidar de seu rebanho. Por isso, Jesus dará a sua vida em benefício de toda a humanidade. O que faz algo ser pastoral não é nenhuma atividade determinada, mas o intuito com que ela é assumida: transformar um povo sem rumo em povo conduzido por Deus. Assim, nesta missa, o importante não é multiplicar as atividades chamadas pastorais, mas cuidar de que os que as realizam tenham alma de pastor. E isso é muito fácil, basta acolher, ter liderança e amor, se necessário dando a própria vida pela evangelização, pela edificação do Reino de Deus. Que todos nós possamos caminhar pela pastoral que nos conduz para o caminho de Deus, de seus mandamentos, de sua vida.

Caros fiéis,

A Segunda Leitura nos apresenta a Unidade dos gentios e judeus em Cristo(Ef 2,13-18). Do ponto de vista do judaísmo, os pagãos estavam longe de Deus. Cristo, porém, os trouxe para perto. Por eles Deus chamou a todos. Não há mais discriminação. De judeus e gentios, fez uma nova realidade: o “homem novo”.

Meus irmãos,

Todos nós somos pastores uns dos outros, embora nossas áreas de atuação e o alcance de nosso trabalho sejam diferentes, cada qual de conformidade com a vocação que assumiu. Mas, os pastores não são donos do rebanho. O rebanho de Deus hoje é a Igreja, não mais limitada ao povo de Israel, mas aberta a todos os povos. Esse rebanho precisa de pastores santos e trabalhadores, que desapareçam para que o Cristo apareça. Que todos nós possamos fazer como Jesus que, tendo compaixão, abandonou um retiro e se colocou do lado do povo. Fica um conselho aos novos padres que nunca deixem de dar uma bênção ou atender a um sacramental. O que o povo mais precisa é do carinho, da atenção e do amor de seus pastores, pastores e fiéis comprometidos com a construção aqui e agora da Jerusalém Celeste. Rezemos, pois, para que o Senhor da Messe e Pastor do Rebanho faça florescer cada vez mais santas vocações para o ministério sacerdotal e para o ministério batismal, num mundo onde todos possam dar testemunho do Cristo Ressuscitado, o pastor por excelência, Amém!

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