XV Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Ele os enviou de dois em dois
Amós 7, 12-15; Efésios 1, 3-14; Marcos 6, 7-13

«Jesus chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros. Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas.» Os estudiosos da Bíblia nos explicam que, como de costume, o evangelista Marcos, ao referir os fatos e as palavras de Cristo, leva em conta a situação e as necessidades da Igreja no momento ao qual escreve o Evangelho, isto é, depois da ressurreição de Cristo. Mas o fato central e as instruções que Cristo dá aos apóstolos nesta passagem se referem ao Jesus terreno. É o início e são as provas gerais da missão apostólica. Até então, tratava-se de uma missão limitada aos povos vizinhos, isto é, aos compatriotas judeus. Após a Páscoa, esta missão será estendida ao mundo inteiro, também aos pagãos: «Ide por todo o mundo e pregai a Boa Nova a toda a criação» [Mc 16, 15. Ndt]. Este fato tem uma importância decisiva para entender a vida e a missão de Cristo. Ele não veio para realizar uma proeza pessoal; não quis ser um meteorito que atravessa o céu para depois desaparecer no nada. Não veio, em outras palavras, só para aqueles poucos milhares de pessoas que tiveram a possibilidade de vê-lo e escutá-lo em pessoa durante sua vida. Pensou que sua missão tinha que continuar, ser permanente, de forma que cada pessoa, em todo tempo e lugar da história, tivesse a possibilidade de escutar a Boa Nova do amor de Deus e ser salvo. Por isso, escolheu colaboradores e começou a enviá-los a pregar o Reino e curar os doentes. Fez com seus discípulos o que faz hoje com seus seminaristas um bom reitor de seminário, que, nos fins de semana, envia seus jovens às paróquias, para que comecem a ter experiência pastoral, ou os manda a instituições caritativas para que ajudem a todos, que se ocupem dos pobres, dos extracomunitários, para que se preparem para a que um dia será sua missão. O convite de Jesus «Ide!» se dirige em primeiro lugar aos apóstolos, e hoje a seus sucessores: o Papa, os bispos, os sacerdotes. Mas não só a eles. Estes devem ser os guias, os animadores dos outros, na missão comum. Pensar de outra forma seria como dizer que se pode fazer uma guerra só com os generais e os capitães, sem soldados; ou que se pode formar uma equipe de futebol só com um treinador e um árbitro, sem jogadores. Após esse envio dos apóstolos, Jesus — lemos no Evangelho de Lucas — «designou outros setenta e dois, e os enviou de dois em dois diante de si, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir» (Lc 10, 1). Esses setenta e dois discípulos eram provavelmente todos os que Ele havia reunido até esse momento, ou ao menos todos os que o seguiam com certa continuidade. Jesus, portanto, envia todos seus discípulos, também os leigos. A Igreja do pós-Concilio assistiu a um florescimento dessa consciência. Os leigos dos movimentos eclesiais são os sucessores desses 72 discípulos… A vigília de Pentecostes deu uma imagem das dimensões deste fenômeno com esses milhares de jovens que chegaram à Praça de São Pedro para celebrar com o Papa as Vésperas da Solenidade. O que mais impressionava era a alegria e o entusiasmo dos presentes. Claramente, para esses jovens, viver e anunciar o Evangelho não era um peso aceito só por dever, mas uma alegria, um privilégio, algo que faz a vida mais bela de viver. O Evangelho emprega só uma palavra para dizer o que deviam pregar os apóstolos ao povo («que se convertessem»), enquanto que descreve longamente como deviam pregar. Com relação a isso, um ensinamento importante está no fato de que Jesus os envia de dois em dois. Isso de ir de dois em dois era habitual naqueles tempos, mas com Jesus assume um significativo novo, já não só prático. Jesus os envia de dois em dois — explicava São Gregório Magno — para inculcar a caridade, porque com menos de duas pessoas não pode haver caridade. O primeiro testemunho a dar de Jesus é o do amor recíproco: «Nisso conhecerão todos que sois meus discípulo: se vos amardes uns aos outros» (João 13, 35). É preciso estar atentos para não interpretar mal a frase de Jesus sobre ir sacudindo também o pó dos pés quando não são recebidos. Este, na intenção de Cristo, devia ser um testemunho «para» eles, não contra eles. Devia servir para fazê-los entender que os missionários não haviam ido por interesse, para tirar-lhes dinheiro ou outras coisas; que, mais ainda, não queriam levar nem sequer seu pó. Haviam ido por sua salvação e, rejeitando-a, eles privavam a si mesmos do maior bem do mundo. É algo que também é preciso afirmar hoje. A Igreja não anuncia o Evangelho para aumentar seu poder ou o número de seus membros. Se atuasse assim, trairia primeiramente o Evangelho. Ela o faz porque quer compartilhar o dom recebido, porque recebeu de Cristo o mandato: «de graça o recebestes, de graça deveis dar».

 

São Marcos relata-nos neste domingo a primeira missão dos Doze. “Jesus chamou os Doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois”. Eles assumem e pregam a primeira mensagem de Jesus: “o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15). A missão da Igreja e de cada um dos cristãos é anunciar o mistério de Deus que ama a humanidade e que lhe concede a vida, a esperança, o amor, a paz. Jesus Cristo é o centro desta mensagem, porque Ele é a presença amorosa e salvadora de Deus, e porque Ele é o primeiro que viveu (e vive) com o Pai e encontrou a plenitude da vida humana. São Paulo contemplou o mistério salvador de Deus. Como conseqüência dessa contemplação, deixou-nos um precioso hino na Carta aos Efésios: “nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo… Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo… segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência, deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade… “(2ª Leitura). Toda a espiritualidade e teologia da Igreja são abordagens ao mistério inefável de Deus que vem “instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra”. São Marcos diz isto de uma forma mais simples: “O Reino de Deus está próximo; convertei-vos”. O dom de Deus concede à humanidade a vida nova e eterna. Enumeremos os pontos-chave do Evangelho: o amor, a paz, o perdão, a pobreza, a liberdade, a perseverança nas provações, a confiança absoluta em Deus. E enumeremos, agora, os pontos-chave da Igreja atual: a luta pela paz e pela justiça, o diálogo entre povos e culturas, a atenção aos mais necessitados, o esforço por ultrapassar os injustos desequilíbrios mundiais, o respeito à dignidade de cada pessoa e de cada povo, especialmente dos que são mais fracos, sem recursos e sem benefícios políticos. A sensibilidade cristã sabe que a palavra de Jesus “Ide” põe em marcha a promoção da verdadeira vida para todos segundo o Evangelho. Os Doze são a primeira realização da Igreja, das comunidades cristãs, de todos os discípulos de Jesus. A primeira missão dentro e fora da Igreja é promover o Espírito de Deus. É a missão de todos os cristãos. O anúncio do Evangelho tem momentos fortes e solenes: a proclamação da Palavra na liturgia, os documentos do Magistério. Estes momentos incentivam-nos a anunciar o espírito evangélico. Isto se concretiza no quotidiano da vida. Cada momento, cada encontro em casa, no trabalho ou em algumas circunstâncias de lazer, são ocasiões para promover a paz e não a discórdia, a atenção aos outros e não o desprezo, a ajuda e não o alheamento, o perdão e não o ressentimento, ou seja, não há vidas neutras. Ou anunciamos e testemunhamos o Espírito do Evangelho ou não. “Nada levassem a não ser o bastão”. As circunstâncias da vida mudaram, mas permanece uma convicção: “não leveis nada”. A verdadeira força é a força da verdade que somos convidados a anunciar: amar, perdoar, promover a paz, estar desprendido das coisas, ajudar os mais necessitados e marginalizados, confiar em Deus. É a força e a fraqueza da Palavra. Proclamá-la supõe ajudar a refletir, a entender, a valorizar o evangelho, a pensar com justiça e respeito. A Palavra chega ao coração e cada pessoa pode abri-lo ou fechá-lo. “E se não fordes recebidos…”. Isto pode acontecer na nossa casa e com os outros membros da Igreja. A Palavra tem um apoio forte: o testemunho de vida. Perdoar, viver em paz, saber ser livre, confiar em Deus, é a verdadeira arma que acompanha a Palavra até ao coração das pessoas que amamos. “Segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência, deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade” (2ª Leitura). O Espírito Santo transforma-nos em pessoas novas e anunciadores do Evangelho. Anunciar o Espírito de paz, de diálogo, de generosidade, o Espírito de Jesus Cristo, não é um encargo nem um trabalho profissional. É uma maneira de estar no mundo, fruto da experiência vivida da verdadeira vida. Só assim se abre o caminho entre os homens para o Espírito do Senhor. A obra de Deus não consiste em grandes espetáculos ou sinais surpreendentes, mas na ação escondida do Espírito que nos leva ao amor, à paz e à esperança. A obra de Deus abre caminho, através de uma simples palavra ou de um gesto acolhedor. Cada momento que vivemos é um mistério que nos interpela e que jamais se repetirá. Anunciar o espírito de verdade e de paz é fazer o que for possível entre os homens, acrescentando a presença salvadora de Deus.

 

Evangelho segundo São Marcos 6, 7-13
Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» Eles partiram e pregavam o arrependimento, expulsavam numerosos demônios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.

Afirma-nos Marcos, neste décimo quinto domingo do tempo comum, que Jesus escolheu os doze com algumas finalidades. Primeiro porque tinha uma consciência messiânica e queria restaurar as antigas doze tribos do Israel de Deus. Em segundo lugar porque desejava que estes doze fizessem uma experiência igual a sua, de absoluto despojamento e destaque de todos os bens terrestres. Em terceiro lugar para enviá-los em missão, antes mesmo de sua paixão morte e ressurreição. É o texto que hoje se proclama, mas o interessante neste envio em missão para reunir as doze tribos do novo Israel de Deus, uma missão que não terminou com a paixão e morte, mas conseguiu avançar através da Igreja até os confins do mundo. Uma missão que tem as suas características; a mais importante delas, e que me leva neste momento a explicar, é o desapego de todos os bens terrestres. Sim, o mensageiro do Evangelho, o pregador do Evangelho deve ser pobre, ele deve confiar única e exclusivamente em Deus, a riqueza que ele distribui não é riqueza deste mundo e, portanto ele não pode misturar as riquezas deste mundo, o mamonismo, isto é, o amor e o apego pelo dinheiro, com o reino de Deus de que ele é portador e mensageiro. Infelizmente existem pregadores por aí, avulsos e soltos, que fazem exatamente o contrário. Certa vez ouvia eu, um deles pela televisão; Deus é riquíssimo e qual é o pai que não deseja ver seu filho rico também, mas daí tirava as conclusões: Deus é rico em dinheiro, Deus é rico em saúde e tudo isto deve passar para os seus filhos, o dinheiro a saúde, a vida despreocupada, o mundanismo. Que vergonha! Isto é uma paródia do Evangelho, uma perversão, o anti- evangelho. Jesus, o Filho de Deus, não foi um homem rico, não foi apegado ao dinheiro, não distribuiu bens materiais para quem quer que fosse. Certa vez chamado a resolver uma altercação a respeito de herança material se recusou: “Quem me constituiu juiz entre vós?”, e a seguir uma parábola: “Guardai-vos, acautelai-vos da ganância, porque é possível ganhar o mundo inteiro e vir a sofrer a perda da própria Vida Eterna”. Deus quer que os seus mensageiros autênticos sejam desapegados, pobres, humildes, modestos, vivam a vida do povo normal para os quais transmitem a Palavra de Deus. Quanto maior for o desapego, maior a credibilidade, quanto maior for o desapego, maior também será a sua aceitação. Os grandes pregadores santos, nunca foram apegados a bens deste mundo, e nós louvamos e bendizemos a Deus, porque na Igreja Católica nós temos pregadores deste nível e incansáveis mensageiros da Palavra Divina.

 

«Pela primeira vez, Ele envia-os dois a dois»
São Gregório Magno (c. 540-604), papa e Doutor da Igreja
Homilias sobre o Evangelho, 17,1-3; PL 76,1139 (a partir da trad. bréviaire)

O nosso Senhor e Salvador, caros irmãos, ensina-nos tanto pelas Suas palavras como pelas Suas ações. Em si mesmas, as Suas ações são ordens porque, quando Ele faz qualquer coisa sem dizer nada, mostra-nos como devemos agir. Eis que Ele envia os Seus discípulos a pregar dois a dois, porque os mandamentos da caridade são dois: o amor de Deus e do próximo. O Senhor envia os Seus discípulos a pregar dois a dois para nos sugerir, sem o dizer, que aquele que não tem caridade para com outrem não deve de modo nenhum dedicar-se ao ministério da pregação. Diz-se, e muito bem, que «Ele os enviou dois a dois à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir» (Lc 10, 1). Com efeito, o Senhor vem após os Seus pregadores, porque a pregação é um preliminar; o Senhor vem habitar a nossa alma depois de as palavras de exortação terem vindo e terem feito acolher a verdade na alma. É por isso que Isaías dizia aos pregadores: «Preparai o caminho do Senhor, aplainai uma estrada para o nosso Deus» (40, 3). E o autor dos salmos também lhes diz: «Abri caminho Ao que cavalga ao pôr-do-sol» (Sl 67, 5 Vulg). O Senhor cavalga ao pôr-do-sol porque, tendo adormecido pela Sua Paixão, manifestou-Se com maior glória na Sua Ressurreição. Ele cavalgou ao pôr-do-sol porque, ao ressuscitar, esmagou aos Seus pés a morte que sofrera. Nós abrimos caminho Àquele que cavalga ao pôr-do-sol quando pregamos a Sua glória às vossas almas para que, ao chegar em seguida, Ele as ilumine pela presença do Seu amor.

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