Quem é Jesus

Padre Inácio José do Vale, OSBM

“Jesus Cristo é o centro e o objeto de todas as coisas; aquele que não o conhece ignora a natureza e a si mesmo”. Blaise Pascal (1623-1662), Físico e Filósofo Francês

Já passaram mais de dois mil anos, a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo ainda continua cercada de mistérios e controvérsias, apesar de inúmeros estudiosos, abissais pesquisadores que prosseguem se debruçando sobre a sua figura e a sua obra e dos bilhões de seguidores que Nele depositam a sua vida e sua fé em seus ensinamentos. No entanto, em pleno século XXI, vivemos uma vergonhosa realidade: poucos conhecem Jesus Cristo.
Para o ilustre escritor de biografia bíblica o pastor americano Charles R. Swindoll essa situação ficou ainda mais chocante depois de assistir um vídeo em sua igreja, no qual cristãos entrevistados em um shopping center local não sabiam responder a pergunta: Quem é Jesus? Por causa disso, ele tomou a iniciativa muito sábia de escrever o maravilhoso livro: “Jesus – O Maior de Todos”.
Swindoll em seu livro deixa muito claro que não só devemos conhecer Jesus, mas termos uma experiência profunda com Ele.
O autor americano Bill Mckibben disse que “os Estados Unidos são o país que mais se declara cristão e menos age como cristão” (Folha de São Paulo, 31/5/2007, p. 2).
É muito fácil falar, escrever e encenar sobre Jesus, difícil é viver Jesus e sua doutrina.
O grande pintor italiano Fra Angélico dizia: “Para pintar o Cristo, é preciso viver com Cristo”.
Sabendo da ignorância e de uma verdadeira relação com Jesus Cristo, o Papa Bento XVI lançou o livro: “Jesus de Nazaré”.
“Porque me pareceu, sobretudo urgente apresentar a figura e a mensagem de Jesus no seu ministério e, assim, ajudar no crescimento de uma relação viva com Ele”, afirma Bento XVI (Jesus de Nazaré: Primeira Parte: do Batismo no Jordão à Transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 19).

PROVAS DOCUMENTAIS
Jesus dentro do judaísmo resgata o Jesus histórico a partir de documentos como os pseudo-epígrafos do Velho Testamento; os códices do Nag Hammadi, encontrados no Alto Egito em 1945; os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947; um manuscrito árabe com a versão do célebre historiador Flávio Josefo (37-100) sobre Jesus; e recentes escavações arqueológicas na Palestina.
“Essas tradições permitem conhecer mais sobre Jesus do que qualquer judeu do primeiro século, com a possível exceção de Filo, Paulo e Josefo”, afirma o renomado pesquisador James H. Charlesworth, professor de língua e literatura do Novo Testamento da Universidade de Princeton nos Estados Unidos (Jornal do Brasil, 13/2/1993, p. 4).
“Por essa época apareceu Jesus, homem sábio (…) Ele realizou coisas maravilhosas, foi o mestre daqueles que recebem com júbilo a verdade (…) Por denúncia dos príncipes da nossa nação, Pilatos condenou-o ao suplício da Cruz, mas os seus fiéis não renunciaram ao amor por Ele (…) Ainda hoje subsiste o grupo que, por sua causa, recebeu o nome de cristãos”, Em Antiguidades Judaicas de Flávio Josefo, que era fariseu escritor insigne e cidadão romano.
Outro exemplo de uma descoberta que confirma a historicidade de alguém mencionado na Bíblia é fornecido por Michael J. Howard, que trabalhou junto com a expedição a Cesaréia, em Israel, em 1979. “Por 1.900 anos”, escreveu, “Pilatos só existia nas páginas dos Evangelhos e nas vagas lembranças dos historiadores romanos e judeus. Quase nada se sabia sobre a vida dele. Alguns afirmavam que sequer existira. Mas, em 1961, uma expedição arqueológica italiana trabalhava nas ruínas de antigo teatro romano em Cesaréia. Um operário revirou uma pedra que tinha sido usada em uma das escadarias. No reverso havia a seguinte inscrição, parcialmente obscurecida em latim: ‘Caesariensibus Tiberium Pontius Pilatus Praefectus Iudaeae’ (Ao povo de Cesaréia, Tibério Pôncio Pilatos, Prefeito da Judéia.) Foi um golpe fatal nas dúvidas sobre a existência de Pilatos… Pela primeira vez havia evidência epigráfica contemporânea da vida do homem que ordenara a crucificação de Cristo” (João 19, 13-16; Atos 4, 27).

JESUS: O MAIOR DE TODOS
O que as pessoas famosas disseram sobre o maior homem da história: Jesus Cristo.
“Com todos os meus exércitos e generais, por um quarto de século não consegui subjugar nem um único continente. E esse Jesus, sem a força das armas, vence povos, e culturas por dois mil anos”. Napoleão Bonaparte, Imperador Francês
“Cristo é a maior força espiritual que o homem até hoje conheceu. Ele é o exemplo mais nobre de quem deseja dar tudo sem nada pedir. Vejo em Cristo o supremo modelo: manifestou, como nenhum espírito, a vontade de Deus. Ele pertence aos homens de todas as raças que conservam a fé dos antepassados. Ele é todo amor. O amor, seu supremo mandamento, é dirigido antes de tudo aos mais fracos, aos abandonados”. Mahatma Gandhi, Estadista e Líder Espiritual da Índia
“Devemos supor que a história da vida de Jesus é mera ficção? Realmente, meu amigo, ela não parece ficção. Pelo contrário, a história de Sócrates, que ninguém ousa duvidar, não é tão bem documentada como é a de Jesus Cristo”. Jean-Jacques Rousseau, Filósofo Francês
“Por trinta e cinco anos eu fui, no pleno sentido da palavra, niilista, um homem que não acreditava em nada. Comecei a ter fé cinco anos atrás. Acreditei na doutrina de Jesus Cristo e toda minha vida passou por uma transformação repentina”. Conde Leo Tolstoi, Romancista e Filósofo Russo
“Jesus de Nazaré… é sem dúvida o personagem que mais se destacou na história”. H. G. Wells, Historiador Inglês
“Cristo se destaca como… único e exclusivo entre todos os heróis da história”. Philip Schaff, Teólogo e Historiador Suíço
“É preciso ter uma imaginação bastante fértil para dizer que a figura mais influente, não apenas nestes dois milênios, mas em toda a história humana, não tenha sido Jesus de Nazaré”. Reynolds Price, Escritor e Erudito Bíblico Americano
O grande cientista alemão Albert Einstein disse: “Fico fascinado pela personalidade brilhante de Jesus de Nazaré”.
Realmente, Jesus Cristo é a pessoa mais influente que já viveu entre nós. É a personalidade mais colossal, genial e magnífica de todos os tempos. Ele é ínclito pela sua pessoa, magistral no ensino e eterna é a sua santa doutrina.
Jesus Cristo é o personagem mais poderoso, mais lido, mais encenado, mais retratado, mais citado em obras, suas obras de arte são as mais caras, é o que mais seguidores têm mais amado e adorado na história da humanidade.
Tudo relacionado à sua pessoa torna-se notável e erudito. As Sagradas Escrituras, a música, a arte, jóias, paramentos, são alguns exemplos.
Monumentais são os templos onde Ele é louvado e cultuado. Opulência decorativa, artística e litúrgica para sua honra e adoração.
Tudo fica suntuoso conectado a sua pessoa e a sua obra. Ele é chamado de Mestre, Príncipe e Rei. Como pode tudo isso se Ele nasceu numa manjedoura, de família pobre, era carpinteiro, não era doutor, os poderosos e intelectuais não os viam com bons olhos e por fim, foi crucificado como malfeitor no meio de dois malfeitores?
“Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição” (Lc 2, 34).

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Quem é este a quem até os ventos e o mar obedece? (Mt 8, 27).
Realmente, quem é Jesus?
Jesus é o Cristo, o Filho do Deus Vivo (Mt 16, 16). É Deus (Mt 1, 23; Jo 10, 30). É o único Salvador do gênero humano (Lc 19, 10; Jo 3, 16; 18; At 4, 12).
Jesus Cristo foi o único gerado por obra e graça do Divino Espírito Santo no ventre de uma virgem. O único que derramou sangue imaculado numa cruz para redimir a humanidade dos seus pecados. O único ressuscitado gloriosamente e vive reinando presente em nosso meio.
Jesus Cristo é único no amor incondicional ao miserável pecador.
Jesus Cristo é único na paz, no amor, na justiça e na perfeição completa de seu projeto.
Seu projeto é o Reino de Deus, reino de vida e da salvação eterna. Tudo em sua vida parte do fundamento da verdade que liberta o ser humano de todo esquema e sistema de escravidão.
Conhecer Jesus é conhecer a sua obra em prol da nossa vida. Tal conhecimento está acima de tudo e de todos. Este é o conhecimento único de salvação eterna (cf. Jo 17, 3; 2Pd 3, 18).
Por esse conhecimento podemos dizer: que tudo em nós pertence a Jesus Cristo. “Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém” (Rm 11, 36).
“Somos justificados pela fé e pelo seu precioso sangue” (Rm 5, 1.9). “A nossa fé esta confirmada e apoiada em sua pessoa” (Cl 2, 6.7). “Sem Jesus, nada podemos fazer” (Jo 15, 5).
São Paulo Apóstolo expressa o seu tudo para Cristo desta forma: “Mas o que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo a justiça da Lei, mas a justiça que vem de Deus, apoiada na fé, para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformado-me com ele na sua morte” (Fl 3, 7-10).
Colossal foi o amor de Santa Teresinha do Menino Jesus ao seu Senhor e Mestre.
Santa Teresinha com seu amor profundo a Jesus, provoca, incentiva, exorta e passa para nós o amor indelével de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Podemos ver a beleza do amor de Cristo estampado na linda e terna face de Santa Teresinha.
Podemos dizer que Santa Teresinha é a missionária do amor, pela sua missão, muitos encontram o amor de Cristo Salvador.
Seu lema era: “Amar a Jesus e fazer com que Ele seja amado por todos”.
Vejamos sua expressão de amor a Jesus de forma monumental que vale mais do que todos os diamantes do mundo:
“Minha vocação é o amor. Que Jesus me dê um amor sem limites. A ciência do amor! Não quero senão esta ciência, porque eu não tenho nenhum outro desejo, senão este: Amar Jesus até a loucura!”.

CONCLUSÃO
Quem procura conhecer de tudo e não a Jesus, de tudo torna-se ignorante.
Tempo perdido, ouro jogado ao léu, vida desperdiçada, alma perturbada, vida sem futuro e sem paraíso, tudo isso é o resultado da boçalidade racional e materialista daqueles que vivem sem o saber e sem o viver em Cristo.
A vida só tem sentido e só é laureada quando o centro da nossa formação total é Jesus de Nazaré.
Laureal e lauto sempre será a nossa vida, quando ela se dispuser a caminhar na dimensão do amor de Cristo.
Tenhamos muito cuidado com o tempo: “O tempo escolhe você ou você escolhe o tempo”.
Excelente é você escolher o tempo ao lado de Jesus Cristo e não deixar o tempo escolher você para banalidade.
O ser humano deseja possuir muita coisa, e pouca coisa termina o possuindo como: o vício, o egoísmo, a ganância, a mentira e o ódio.
Aconselhável é a pessoa ser possuída pelo conhecimento da graça, do perdão, da caridade e da esperança de Jesus Salvador.
Tem gente que só aprende do pior jeito, e isso não é legal. Bom é aprender do melhor jeito na escola do Mestre Jesus.
A minha vida está alicerçada na doutrina de Jesus Cristo. A minha fé em Jesus é a minha felicidade e a minha certeza de vida eterna.
Aceito incondicionalmente Jesus como o maior Presente do amor de Deus.
Eu sei o que é a vida, o amor e porque Deus é amor, por causa do sacrifício do Cordeiro Imaculado.
Viver para o bom Deus e no Seu maior Presente, e na caridade do meu semelhante isso é saber quem é Jesus.

Pe. Inácio José do Vale, Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja, Faculdade de Teologia de Volta Redonda
E-mail: [email protected]

BIBLIOGRAFIA
ROHDEN, Huberto. Organização Mahatma Gandhi- O Apóstolo da Não Violência, São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.
LIETH, Norbert. Conheça Jesus: Único, Incomparável, Maravilhoso, Porto Alegre: Atual, 2000.
SANTA TERESINHA do Menino Jesus, História de Uma Alma, Manuscritos Autobiográficos, São Paulo: Paulus, 1996.
STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática, São Paulo: Teológica, 2002.
CHARLESWORTH, James H. Jesus no Judaísmo, São Paulo: Imago.

Quem és tu, Jesus?
Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M.

A fé do cristão católico hoje sabe quem é ou foi o Senhor Jesus. Não obstante, pode procurar as razões mais profundas de sua adesão ao divino Redentor. Dizendo-nos cristãos, palavra que vem de “cristo” (“ungido”), é natural que nossa primeira pergunta se dirija humildemente ao próprio Jesus de Nazaré. Afirmamos que ele é nosso Cristo (Messias) e Senhor. Mas como podemos ter suficiente certeza sobre a vida, a atividade e as verdadeiras intenções de Jesus de Nazaré?
Segundo os relatos evangélicos, Jesus de Nazaré nasceu “nos dias do rei Herodes” (Mt 2,1; Lc 1,5.26). Sabemos hoje que este rei, por causa de suas construções também conhecido como “o grande”, morreu no ano 750 da fundação de Roma, isto é: uns quatro ou cinco anos antes da era comum, que toma o ano do nascimento de Jesus como ano primeiro. Se veio ao mundo “nos dias do rei Herodes”, Jesus deve ter nascido ao menos uns seis ou sete anos antes da era cristã. Mas os quatro Evangelhos, todos eles documentos históricos do primeiro século, são apenas biografias fragmentárias de Jesus com uma finalidade pastoral. Pois os Apóstolos não pretendiam em sua pregação satisfazer meras curiosidades históricas, mas expor os fatos e as doutrinas fundamentais do Mestre de Nazaré. Marcos e João em falam do nascimento de Jesus.
Mas sua figura não é um fantasma projetado numa época incontrolável da história. Ele aparece num dos momentos mais lúcidos da história antiga, numa encruzilhada geográfica bem conhecida pelos historiadores. O evangelista Lucas precisa os contornos históricos dos tempos em que se inicia a pregação do divino Mestre: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, sue irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilene, enquanto Anás e Caifás eram sumos sacerdotes…” (Lc 3,1-2).
O historiador judeu Flávio Josefo, de 1º século, na obra Antigüidades Judaicas, vol. VIII, p.772, escreveu: “Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o Cristo. Os mais ilustres de nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele o fez crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandoaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome”.

Como provar que Jesus é Deus?
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Os homens de nosso tempo, embora aceitem Jesus Cristo como um grande líder religioso, estão cada vez menos dispostos a reconhecê-lo como Deus. A Sua divindade, no entanto, é a coluna vertebral da religião cristã, sem a qual todo o edifício da fé rui inevitavelmente. Afinal, se Jesus é Deus, tudo o que disse é verdadeiro – e a Ele devemos, pela fé, “plena adesão do intelecto e da vontade”, já que Deus “não pode enganar-se nem enganar” ninguém [1] –, mas, se é apenas uma pessoa “iluminada”, a religião que fundou pode muito bem ser remodelada ao gosto dos tempos.
Para provar que Jesus é Deus, o autor C. S. Lewis serviu-se de um argumento que já era apresentado desde o início da Igreja e apresentou-o no livro Mere Christianity [“Cristianismo puro e simples”, no Brasil]. Ele chamou o argumento de “the shocking alternative – a alternativa estarrecedora”:
“Entre os judeus surge, de repente, um homem que começa a falar como se ele próprio fosse Deus. Afirma categoricamente perdoar os pecados. Afirma existir desde sempre e diz que voltará para julgar o mundo no fim dos tempos. Devemos aqui esclarecer uma coisa: entre os panteístas, como os indianos, qualquer um pode dizer que é uma parte de Deus, ou é uno com Deus, e não há nada de muito estranho nisso. Esse homem, porém, sendo um judeu, não estava se referindo a esse tipo de divindade. Deus, na sua língua, significava um ser que está fora do mundo, que criou o mundo e é infinitamente diferente de tudo o que criou. Quando você entende esse fato, percebe que as coisas ditas por esse homem foram, simplesmente, as mais chocantes já pronunciadas por lábios humanos.”
“Há um elemento do que ele afirmava que tende a passar despercebido, pois o ouvimos tantas vezes que já não percebemos o que ele de fato significa. Refiro-me ao perdão dos pecados. De todos os pecados. Ora, a menos que seja Deus quem o afirme, isso soa tão absurdo que chega a ser cômico. Compreendemos que um homem perdoe as ofensas cometidas contra ele mesmo. Você pisa no meu pé, ou rouba meu dinheiro, e eu o perdôo. O que diríamos, no entanto, de um homem que, sem ter sido pisado ou roubado, anunciasse o perdão dos pisões e dos roubos cometidos contra os outros? Presunção asinina é a descrição mais gentil que podemos dar da sua conduta. Entretanto, foi isso o que Jesus fez. Anunciou ao povo que os pecados cometidos estavam perdoados, e fez isso sem consultar os que, sem dúvida alguma, haviam sido lesados por esses pecados. Sem hesitar, comportou-se como se fosse ele a parte interessada, como se fosse o principal ofendido. Isso só tem sentido se ele for realmente Deus, cujas leis são transgredidas e cujo amor é ferido a cada pecado cometido. Nos lábios de qualquer pessoa que não Deus, essas palavras implicam algo que só posso chamar de uma imbecilidade e uma vaidade não superadas por nenhum outro personagem da história.”
“No entanto (e isto é estranho e, ao mesmo tempo, significativo), nem mesmo seus inimigos, quando lêem os evangelhos, costumam ter essa impressão de imbecilidade ou vaidade. Quanto menos os leitores sem preconceitos. Cristo afirma ser ‘humilde e manso’, e acreditamos nele, sem nos dar conta de que, se ele fosse somente um homem, a humildade e a mansidão seriam as últimas qualidades que poderíamos atribuir a alguns de seus ditos.”
“Estou tentando impedir que alguém repita a rematada tolice dita por muitos a seu respeito: ‘Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus.’ Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático – no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.” [2]
Não é possível que Cristo tenha sido simplesmente “bom”, já que Ele mesmo manifestava, em seus discursos, a consciência de ser Deus encarnado. Não só o disse explicitamente, por exemplo, aos fariseus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” [3], como os próprios judeus tinham entendido aonde Ele queria chegar: “Não queremos te apedrejar por causa de uma obra boa, mas por causa da blasfêmia. Tu, sendo apenas um homem, pretendes ser Deus!” [4].
Diante disso, ou se admite que Jesus é Deus ou, então, trata-se de uma pessoa má, seja moral – não sendo Deus, Ele teria mentido –, seja intelectualmente – se Se enganou, não sabendo de Sua própria identidade, é alguém evidentemente louco. O apologista protestante norte-americano Josh McDowell chama isso de “trilema dos três L’s”: se Jesus não é Lord (Senhor), ou é um lier (mentiroso) ou um lunatic (lunático).
Mas, Ele não pode ser um mentiroso perverso. Um homem que amou tanto, a ponto de entregar a própria vida, que transformou inúmeras pessoas com o Seu olhar bondoso e misericordioso, não pode ser um farsante. Ao mesmo tempo, descarta-se que Ele seja um lunático. Se não tinha consciência de quem Ele próprio era, como possuía uma consciência tão aguda do que é a pessoa humana, a ponto de lermos nas páginas do Evangelho como que uma “radiografia” de nossas vidas?
Assim, não resta às pessoas outra alternativa senão crer na divindade de Nosso Senhor.
Os teólogos liberais, no entanto, tentam escapar desse ótimo argumento por duas vias. Primeiro, acusando as Sagradas Escrituras de mentirosas: para fugir de Deus feito homem, eles dizem que o Novo Testamento não é nada mais que uma invenção da comunidade primitiva, que criou um “Jesus da fé” em total oposição ao “Jesus histórico”. Como explicar que esses cristãos aparentemente mentirosos tenham sido os mesmos a darem a vida por aquilo em que acreditavam, é um mistério que esses teólogos se recusam a responder. Homens de fibra, que derramaram o próprio sangue pelo Evangelho, não se identificam com uma comunidade de aproveitadores e charlatães, que teriam forjado uma história só para enganar os outros. Afinal, ninguém dá a vida por uma mentira. As pessoas mentem para salvar a vida, não para perdê-la, como fizeram os primeiros mártires da fé cristã.
Esses mesmos teólogos também recorrem a uma “orientalização” de Cristo: após uma visita à Índia, Jesus teria saído de lá pregando o panteísmo hinduísta, o qual foi o motivo de Sua morte. Mas, qualquer pessoa com um pouco de conhecimento sobre religiões sabe que os ensinamentos do Evangelho são absolutamente incompatíveis com as crenças orientais [5].
Ainda que toda essa explicação seja convincente, não é suficiente para dar a uma pessoa a fé, que “a Igreja a professa como virtude sobrenatural, pela qual, sob a inspiração de Deus e com a ajuda da graça, cremos ser verdade o que ele revela, não devido à verdade intrínseca das coisas conhecida pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus revelante” [6]. Uma vez diante dos preambula fidei, é preciso bater às portas de Deus e pedir-Lhe, humildemente, o tesouro da fé.

Referências
1. Concílio Vaticano I, Constituição dogmática Dei Filius, 24 de abril de 1870: DS 3008
2. Cristianismo puro e simples, II, 3
3. Jo 8, 58
4. Jo 10, 33
5. No livro “O Diálogo” (Mundo Cristão, 1986), o filósofo Peter Kreeft se aproveita de uma coincidência histórica – a morte de John F. Kennedy, Aldous Huxley e C. S. Lewis no mesmo dia 22 de novembro de 1963 – para criar uma discussão interessante sobre a identidade de Jesus Cristo.
6. Concílio Vaticano I, Constituição dogmática Dei Filius, 24 de abril de 1870: DS 3008

Ou Jesus é Deus ou não é nada
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Jesus não foi um homem que “pretendeu” ser Deus, mas o Verbo que se fez carne e veio morar entre nós

Os cristãos confessam, desde sempre, que Jesus Cristo é Deus. São João escreve que a Palavra, que “estava junto de Deus” e “era Deus” (Jo 1, 1), “se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1, 14). São numerosos os discursos de Cristo em que Ele deixa claro ser muito mais que um simples homem – todo o Evangelho de São João está permeado de declarações desse teor –, sendo este o motivo alegado pelos judeus para condená-Lo à morte: “Não queremos te apedrejar por causa de uma obra boa, mas por causa da blasfêmia. Tu, sendo apenas um homem, pretendes ser Deus” (Jo 10, 33).
Se, naquela época, até quem não seguia Nosso Senhor tinha clara consciência da grandeza do que Ele anunciava, hoje, muitos – atribuindo a si o apelido de “cristãos” – têm advogado, covardemente, uma “terceira opção”: ao invés de rejeitar ou aceitar de vez a mensagem do Evangelho, recorrem a uma leitura distorcida das Escrituras, reduzindo a figura de Jesus à de “um grande profeta, um mestre de sabedoria, um modelo de justiça” [1], cujas máximas valeriam, no máximo, como “guias motivacionais”. Para essas pessoas, a Bíblia não é o livro que traz a revelação de Deus, mas tão somente um “manual de autoajuda”; e a Igreja não é um edifício espiritual, mas uma construção puramente material, voltada apenas aos cuidados e necessidades deste mundo.
Antes de tudo, importa denunciar o grave equívoco desse ponto de vista, que não pode ser aceito sem se cometer um grande e grave atentado à razão. Se Jesus não é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), nem “o pão que desceu do céu” e que dá a vida eterna (Jo 6, 41), nem “a porta das ovelhas” (Jo 10, 7) – realidades que ninguém usaria senão para se referir à divindade –, então, ou é um mentiroso, que queria enganar os outros, ou um louco, que não sabia sequer quem ele mesmo era. Ora, que grandeza pode haver na mentira e na loucura? Ou Jesus é Deus, ou não é nada. Et tertium non datur [2].
É preciso reconhecer, porém, como é cômodo relegar Nosso Senhor à posição de “apenas um homem”. Se é assim, as suas palavras realmente não vinculam, nem obrigam ninguém a nada; são apenas reflexões morais e sociais, como as de qualquer pensador antigo. Daria no mesmo, então, citar Confúcio, Dalai Lama, Buda, Chico Xavier ou Jesus Cristo. Afinal, se são todos homens, com igual tratamento deveriam ser acolhidas suas mensagens: como palavras humanas.
A prática da Igreja primitiva, no entanto, atesta: os discípulos sempre creram que pregavam uma doutrina autenticamente divina. Em carta a Tessalônica, por exemplo, o Apóstolo agradece a Deus “sem cessar, porque, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a recebestes não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais” (1Ts 2, 13). Tanto ontem, como hoje, a fé católica não mudou. Diante das vozes enganadoras que pretendem reduzir a imagem de Cristo à de um chefe religioso qualquer, urge dizer “não”: a boa-nova do Evangelho não é “palavra humana”, mas, verdadeiramente, “palavra de Deus”.
Foi o que disse o Cardeal Joseph Ratzinger – depois, Papa Bento XVI –, na virada do novo milênio, quando publicou a declaração Dominus Iesus, “sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja”. Em 2000 – ou, “em pleno século XXI”, diriam os mais escandalizados –, a Igreja recordava que “os homens (…) só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo” [3]. À época, os meios de comunicação “rasgaram as vestes”, acusando São João Paulo II e o Vaticano de arrogância e intolerância religiosa. É que, com a Dominus Iesus, a Igreja denunciava taxativamente as opiniões mundanas a respeito de Jesus, das quais a mídia moderna se faz porta-voz tão ardorosa:
“Na reflexão teológica contemporânea é frequente fazer-se uma aproximação de Jesus de Nazaré, considerando-o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas.” [4]
Nesse sentido, a fé católica é profundamente intolerante, sobretudo, porque é fiel à palavra de Cristo, que não temeu apontar a si mesmo como “o caminho, a verdade e a vida”, fora do qual ninguém pode ir ao Pai (Jo 14, 6). Essa expressão – dita pelo mesmo Jesus que perdoou os pecadores arrependidos, curou os doentes e saciou os pobres – mostra como a misericórdia divina está profundamente unida à verdade da Sua mensagem, que repele todo erro, toda mentira… e toda falsa religião.
Ao argumento dos judeus de que Jesus, sendo apenas um homem, se fazia Deus, a Igreja responde, em consonância com dois mil anos de Tradição e Magistério: Jesus não foi um homem que pretendeu ser Deus. Ao contrário, Ele foi Deus, que, não se apegando ciosamente à natureza divina, “despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano” (Fl 2, 7). Eis o que creem os cristãos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
1. Papa Francisco, Angelus, 24 de agosto de 2014
2. Sobre isso, cf. RC 221: Como provar que Jesus é Deus?
3. Dominus Iesus, 12
4. Ibidem, 9

Lembre-se que Jesus é verdadeiro homem
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Em Jesus de Nazaré, Deus Se fez homem. Não deixe que essa verdade o assuste. Permita que ela transforme você.
Pode Deus ser representado em uma imagem?
Nos séculos VIII e IX, durante a grande controvérsia iconoclasta, uma questão dividiu o mundo cristão oriental. À parte se o uso de ícones no cristianismo violava ou não a proibição do Antigo Testamento sobre a confecção e o uso de esculturas (cf. Ex 20, 4), a pergunta era se Cristo poderia ser realmente retratado em uma imagem. Afinal, qualquer imagem real de Cristo deve apontar tanto para a Sua humanidade quanto para a Sua divindade. Como, porém, representar o infinito? Como descrever o indescritível? Alguns vão mais longe, a ponto de dizer que o próprio Cristo, sendo Deus, não teria possuído quaisquer características finitas. Jesus teria tido todas as cores possíveis de cabelo, todas as formas possíveis de nariz, todos os tamanhos possíveis de pés.
O absurdo disso deveria ser evidente por si mesmo. Essa ideia é sintomática de uma doença muito antiga dentro do cristianismo: a negação – de alguma forma e em determinado grau – da verdadeira humanidade de Cristo. A Igreja gastou os seus primeiros séculos de existência trabalhando com o testemunho das Escrituras e da pregação apostólica, os quais deixaram claro que Jesus, ao mesmo tempo em que era humano – comendo, chorando, sofrendo e morrendo –, era Deus – afirmando ser um só com o Pai, chamando a Si mesmo de “Eu sou” (YHWH) e perdoando pecados. Reconciliar as duas realidades nem sempre foi fácil e a solução de muitos no meio do caminho foi tender ora para um lado, ora para outro – negando que Ele tivesse alma, vontade, inteligência ou aparência humanas. Faziam de tudo para evitar que se dissessem aquelas palavras aparentemente sem sentido: “Deus Se fez homem”.
Não se pode culpar todos os que pensam assim, necessariamente [1]. Não se trata de uma dose fácil de digerir. Alguma coisa em nós parece recuar diante da ideia de que o Todo-Poderoso, o Onipresente, o Onisciente, o Sumo Bem, o único ente necessário, a causa de todas as coisas, possa ser limitado, contido e circunscrito em um bebezinho, em uma criança, em um homem – e não apenas em um homem, mas em um homem pobre, um carpinteiro rústico, nascido em um canto escondido do Império Romano, falando um idioma que poucos podiam compreender. Como pôde ser assim? Como pôde Deus assumir uma forma humana? Como pôde o Deus todo perfeito e autossuficiente sentir fome, crescer, aprender coisas e chorar? Parece haver algo de errado em tudo isso.
Ainda assim, pode existir algo mais indigno do que ser publicamente envergonhado e executado como um criminoso, flagelado em praça pública e ser estendido nu no alto de um monte? Certamente não e, no entanto, não seríamos capazes de negar isso de Jesus, ou seríamos? Assim, se Ele pode sofrer e morrer, por que não pode rezar e comer, chorar e nascer?
Há o outro lado de tudo isso, a visão que nega a divindade de Jesus e vê nele tão somente “um cara legal que nos ensinou algumas coisas boas, deu-nos um grande exemplo e mostrou o quanto nos amou recusando-se a agir violentamente contra os seus assassinos”. Muitas vezes, a ideia de que “Jesus é o Todo-Poderoso Rei do Universo vestindo uma roupa humana por um curto período de tempo” pode não ser nada mais que uma reação ao Jesus “paz e amor”, a outra extremidade do movimento do pêndulo. Mesmo assim, mais do que uma cristologia “fraca” ou “forte”, o que precisamos é de uma cristologia verdadeira – ou, ainda melhor – uma cristologia fiel. Porque nós nunca compreenderemos completamente o mistério da Encarnação, mas podemos apreender um pouco dele, assim que começarmos a deixar que transforme as nossas vidas.
É precisamente este o ponto: Jesus toma a nossa humanidade (toda ela) e a redime, elevando-a à perfeição, apertando o botão reset, por assim dizer. São Paulo diz em sua Carta aos Romanos que pelo pecado de Adão a humanidade se perdeu, mas pela obediência de Cristo, ela foi salva. “Como a falta de um só acarretou condenação para todos os seres humanos, assim a justiça de um só trouxe para todos a justificação que dá a vida” (Rm 5, 18). Isso é o que Santo Irineu de Lião chama a “recapitulação” de Cristo [2], o fato de Ele tornar-Se a cabeça da raça humana, por Sua obediência e sacrifício. Por isso, pela graça merecida por Sua Cruz e dada a nós nos Sacramentos, Ele permite que nos tornemos aquilo para o qual sempre fomos chamados: ser filhos de Deus.
Em Jesus de Nazaré, Deus Se fez homem. Não deixe que essa verdade o assuste. Permita que ela transforme você.

Por Nicholas Senz | Tradução: Equipe CNP
Referências
1. Nesta Resposta Católica, Padre Paulo Ricardo explica que “o pecado da heresia só pode ser consumado quando há uma obstinação do indivíduo pelo erro”.
2. Cf. Adversus Haereses, III, 22, 3 (PG 7, 957-958).

O que é a união hipostática?
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O termo técnico “união hipostática” é usado em teologia para se referir à forma como Deus e a humanidade estão unidos em Jesus Cristo. Não é possível, porém, entender o mistério dessa união sem antes entender um outro mistério: o da Encarnação.
Existem duas naturezas: humana e divina. Entre uma e outra há um abismo, uma distância intransponível entre o homem e Deus. Tal distância já existia antes do pecado original, e este somente a aumentou. A distância entre Criador e criatura faz parte da natureza das coisas.
Não é errado dizer que sozinho o ser humano jamais chegará até Deus, ainda que empreenda os maiores esforços. É impossível e qualquer esforço humano nesse sentido é semelhante à Torre de Babel. Ao homem, portanto, só resta clamar misericórdia e pedir a Deus que venha. Ele veio.
Deus veio ao encontro do homem. No entanto, pelo fato de Deus ser uma realidade tão portentosa, magnífica e poderosa não poderia simplesmente “aparecer”, pois isso seria insuportável para a humanidade. A Sua glória é tamanha que se ela se manifestasse plenamente as criaturas se diluiriam em Deus. Não seria possível ao homem suportar tão grande majestade.
Deus resolveu esse problema se encarnando no seio de Maria. Uma das pessoas da Santíssima Trindade (o Filho) se fez homem, de tal forma que em Jesus Cristo a humanidade e a divindade estão unidas numa espécie de casamento. A analogia é perfeita, pois naquele, os dois se tornam uma só carne, mas as duas realidades continuam distintas.
É possível dizer também que Ele é o próprio casamento, não somente o Esposo. Ele é o casamento entre Deus e o homem. Os que estavam infinitamente separados, em Jesus, agora estão unidos, mas não de modo que a humanidade desapareça. Ela permanece.
A palavra “hipóstases” em grego é usada para designar “pessoa”; porém, é mais forte que o termo latino “persona”, pois recorda que se trata de uma relação substancial. Assim, a união entre Deus e o homem não se dá de forma acidental, como se Deus assumisse a humanidade como uma pessoa coloca acidentalmente brincos, peruca, chapéu, cachecol… Não. A humanidade de Cristo tem como substrato a pessoa do Verbo Eterno. Não se trata de uma união acidental, portanto, mas substancial.
Desse modo, existe um só Filho: Deus e homem ao mesmo tempo. Conforme afirmado pela Igreja desde o Concílio de Calcedônia:
Se bem que, desde aquele início no qual o Verbo se fez carne no útero da Virgem, jamais tenha existido entre as duas formas divisão alguma e durante todas as etapas do crescimento do corpo as ações sempre tenham sido de uma única pessoa, todavia não confundimos, por mistura alguma, o que foi feito de maneira inseparável, mas percebemos pela qualidade das obras que cada coisa seja própria de cada forma… Embora, de fato, seja um só o Senhor Jesus Cristo e, nele, uma única e a mesma seja a pessoa da verdadeira divindade e da verdadeira humanidade, compreendemos, todavia que a exaltação com a qual, como diz o Doutor dos gentios, Deus o exaltou e lhe deu um nome que supera todo nome, se refere àquela forma que devia ser enriquecida com o aumento de tão grande glorificação (DH 317 e 318).
A união entre as duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo é substancial. O mistério da união hipostática se reverte em graça santificante para a humanidade, pois, pela humanidade de Cristo pôde ser também ela unida à divindade, mesmo que de modo acidental. Trata-se de uma graça incomensurável de Deus para com sua criatura que jamais seria capaz de transpor o abismo que a separa de seu Criador de quem tudo brota e de onde vem a salvação.

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