XIV Domingo do tempo comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Saiu dali e viu sua pátria
Ezequiel 1, 13-15-2, 23-25; 2 Coríntios 12, 7-10; Marcos 6, 1-6

Quando já se havia tornado popular e famoso por seus milagres e seu ensinamento, Jesus voltou um dia ao seu lugar de origem, Nazaré e, como de costume, se pôs a ensinar na sinagoga. Mas dessa vez não suscitou nenhum entusiasmo, nenhum hosana! Mais do que escutar o que dizia e julgá-lo segundo isso, as pessoas se puseram a fazer considerações alheias: «De onde tirou esta sabedoria? Não estudou; nós o conhecemos bem; é o carpinteiro, o filho de Maria!». «E se escandalizavam dEle», ou seja, encontravam um obstáculo para acreditar nEle no fato de que o conheciam bem. Jesus comentou amargamente: «Um profeta só em sua pátria, entre seus parentes e em sua casa carece de prestígio». Esta frase se converteu em provérbio na forma abreviada: Nemo propheta in pátria, ninguém é profeta em sua terra. Mas isso é só uma curiosidade. A passagem evangélica nos lança também uma advertência implícita que podemos resumir assim: cuidado para não cometer o mesmo erro que cometeram os nazarenos! Em certo sentido, Jesus volta a sua pátria cada vez que seu Evangelho é anunciado nos países que foram, em um tempo, o berço do cristianismo. Hoje correm o mesmo risco que os nazarenos: não reconhecer Jesus: As cartas constitucionais de nossos países não são o único lugar do qual Ele é atualmente «expulso»… O episódio do Evangelho nos ensina algo importante. Jesus nos deixa livres, propõe, não impõe seus dons. Aquele dia, ante a rejeição de seus conterrâneos, Jesus não se abandonou a ameaças e invectivas. Não disse, indignado, como se conta que fez Publio Escipión, o africano, deixando Roma: «Ingrata pátria, não terás meus ossos!». Simplesmente foi para outro lugar. Uma vez não foi recebido em certo povoado; os discípulos lhe propuseram fazer baixar fogo do céu, mas Jesus se virou e os repreendeu (Lc 9, 54). Assim também hoje. «Deus é tímido». Tem muito mais respeito pela nossa liberdade do que temos nós mesmos uns dos outros. Isso cria uma grande responsabilidade. Santo Agostinho dizia: «Tenho medo de Jesus que passa» (Timeo Jesum transeuntem). Poderia, com efeito, passar sem que eu percebesse, passar sem que eu esteja disposto a acolhê-lo. Sua passagem é sempre uma passagem de graça. Marcos disse sinteticamente que, tendo chegado a Nazaré no sábado, Jesus «se pôs a ensinar na sinagoga». Mas o Evangelho de Lucas especifica também o que ensinou e o que disse naquele sábado. Disse que havia vindo «para anunciar aos pobres a Boa Nova, para proclamar a liberdade aos cativos e a vista aos cegos; para dar a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor» (Lucas 4, 18-19). O que Jesus proclama na sinagoga de Nazaré era, portanto, o primeiro jubileu cristão da história, o primeiro grande «ano de graça», do qual todos os jubileus e «anos santos» são uma comemoração.

 

Evangelho segundo São Marcos 6, 1-6
E partiu dali. Foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar.

Por Pe. Fernando José Cardoso
Neste décimo quarto domingo do tempo comum, mostra-nos o Evangelista Marcos, uma viagem que Jesus realizou em Nazaré, sua cidade Natal, a meio tempo do ministério público. Foi uma falência, foi uma frustração. Que desastre! Em primeiro lugar um espanto geral. O que é isto que estamos vendo? A seguir uma pergunta cética, quase que incrédula, a respeito de sua ciência, dos sinais e milagres que realizava, para finalmente concluírem: “Não é este o filho daquela Maria, que mora na última casa no final da estrada?” Não podiam crer nele. O Evangelista tem o cuidado de dizer que Jesus lá foi acompanhado de seus discípulos, porque a frustração de que foi objeto, deve ser elucidativa para os discípulos também: “Quando tiver que ir de cidade em cidade anunciando o Reino de Deus, muitos aceitarão, mas alguns rejeitarão”. Na verdade o que impedia os Nazaretanos de crerem, é algo que pode ser detectado com certa facilidade, afinal Jesus crescia com eles. Jesus, eles o conheciam, era um garotinho, de calça curta, podemos dizer. Se pertencesse a modernidade, andava com eles, passeava com eles, trepava em árvores, apanhava frutos, corria, ria, ia a sinagoga, aprendia. Mais tarde, mais jovenzinho começou a aprender o oficio do pai. José era um carpinteiro, trabalhava com as suas mãos, fazia cadeiras, arados para serem utilizados no campo pelos agricultores. “Construía janelas, mesas e cadeiras, mas este é um profeta? Este é um representante de Deus? Não! É muito semelhante aos nossos!” Eu conheço poucos sacerdotes que não tenham passado por esta mesma situação. Ele não tem muita ciência, não fala nenhuma língua. Nós conhecemos bem a sua família, ele possui tais e tais defeitos, ou tais e tais limites, Não! Definitivamente não pode ser um enviado de Deus. Os enviados de Deus são sempre homens esquisitos, sempre homens distantes, homens mais admiráveis do que propriamente imitáveis. São homens que se colocam a uma altura tal, que não podem ser atingidos por ninguém. Mas os caminhos de Deus seguem outra direção. Já tive ocasião de dizer que Deus tem uma lógica diferente da nossa. Os caminhos de Deus são sempre os caminhos da encarnação, através de um sacerdote mal equipado, mal preparado, não muito inteligente, pode estar presente e verdadeiramente está presente o Cristo Pastor. Saibamos deixar de lado o que é humano, demasiadamente humano, e olhemos com fé os sinais simples que Deus coloca na nossa presença. Os grandes Santos do passado, são grandes Santos considerados hoje. No passado muitos deles sofreram as mesmas dificuldades.

 

Crer em Jesus atualmente
São Simeão, o Novo Teólogo (c. 949-1022), monge grego
Catequeses, n° 29 (trad. Delhougne, Les Pères commentent, p. 264 rev.; cf SC 113, pp. 165ss.)

Muitos não se cansam de dizer: «Se nós tivéssemos vivido na época dos apóstolos e se tivéssemos sido considerados dignos de ver Cristo como eles, também nos teríamos tornado santos como eles». Ignoram que Ele é o mesmo, Aquele que fala, agora como nesse tempo, em todo o universo. […] A situação atual não é certamente a mesma que se vivia então, mas é a situação de hoje, de agora, que é muito mais feliz. Ela conduz-nos mais facilmente a uma fé e convicção mais profundas do que o fato de O ter visto e ouvido fisicamente. Naquela época, com efeito, era um homem que aparecia àqueles que não tinham inteligência, um homem de condição humilde; mas atualmente é um Deus que nos é pregado, um Deus verdadeiro. Naquele tempo, Ele freqüentava fisicamente os publicanos e os pecadores e comia com eles; mas agora está sentado à direita de Deus Pai, nunca tendo estado separado d’Ele de maneira nenhuma. […] Na altura, até as pessoas sem valor o desprezavam dizendo: «Não é o filho de Maria e de José, o carpinteiro?» (Mc 6, 3; Jo 6, 42) Mas agora os reis e os príncipes adoram-n’O como Filho do verdadeiro Deus e o próprio Deus verdadeiro. […] Então, era tido por um homem perecível e mortal entre todos os outros. Ele que é Deus sem forma e invisível recebeu, sem alteração nem mudança, uma forma num corpo humano; mostrou-Se totalmente homem, sem oferecer ao olhar nada mais do que os outros homens. Comeu, bebeu, dormiu, transpirou e cansou-Se; fez tudo o que os homens fazem, exceto o pecado. Não era fácil reconhecer e crer que um homem daqueles era Deus, Aquele que fez o céu, a terra, e tudo o que eles contêm. […] Deste modo, quem hoje escuta diariamente Jesus proclamar e anunciar através dos santos Evangelhos a vontade do Seu Pai abençoado sem Lhe obedecer com temor e estremecimento e sem cumprir os mandamentos também não teria aceitado acreditar n’Ele naquela época.

 

É na fraqueza que a força se manifesta
Padre Paulo Ricardo

Meus queridos irmãos e irmãs, a liturgia deste domingo quer nos ensinar a reconhecer a presença de Deus onde quer que estejamos. Jesus vai até a sua terra, Nazaré, e ali, aqueles homens que viram Jesus pequenino, que viram Ele brincando como seus filhos, tiveram grande dificuldade de aceitar Jesus como sendo o Filho de Deus, o Messias. Nós que olhamos, ficamos surpresos com isto, aquele pessoal era cego, será que eles não enxergavam a sua sabedoria? Eles enxergavam tudo isto, mas não enxergavam que Deus fosse capaz de tamanha humildade. Jesus não é o Messias esperado, é o Messias inesperado, Ele veio de maneira que ninguém esperasse que viesse, quando falamos que esperamos o Messias, esperamos que venha todo poderoso, e Ele não vem, Ele vem pequeno, frágil. A maior parte das pessoas se escandalizavam de Jesus, porque Jesus é escandaloso, por não ser do jeito que esperavam que Ele fosse. Nós precisamos ser ateus dos deuses falsos, antes de você encontrar Jesus o Deus verdadeiro, é preciso que você abandone todas as idéias de um deus falso, da imaginação de como Deus deveria ser. Jesus não é como o Deus que nós gostaríamos que fosse, Ele que criou todas as coisas, o criador do universo trabalhou na carpintaria, os habitantes de Nazaré viam Jesus fazendo os milagres, e se interrogavam como a mão do carpinteiro poderia fazer isso? Como uma mão que fazia uma cadeira, podia ser a mão que cura? As pessoas ficavam escandalizadas com isto. É assim que Deus se manifesta, de forma imprevista, você precisa se dar conta disso, senão você fará loucuras na sua vida. A criação de Deus é lógica, mas não é tão lógica, é racional, mas não é tão racional, porque Deus é livre para desconsertar você. Existe a liberdade de Deus, quando dizemos liberdade, significa que não é possível deduzir. O que as pessoas não entendem é que Deus é profundamente livre e Ele faz como Ele quer, se fossemos salvar o mundo, salvaríamos de muitas formas, mas eu tenho certeza de que ninguém iria querer salvar o mundo pela cruz.
“Adore a liberdade de Deus quando você tiver que carregar a cruz”
Deus não quer a doença e a morte, Deus pode curar todas as doenças, logo Deus vai curar. Esta é a lógica, este raciocínio é perfeito, isto é herético, isto é heresia. Deus ama do jeito que Ele quer, Deus irá curar todas as doenças na ressurreição dos mortos. Os habitantes de Nazaré viram que não tinha lógica, uma mão que soava, fazia cadeira, curasse doentes. O que devemos fazer a respeito de Deus? Antes de afirmar as coisas a respeito de Deus, precisamos esvaziar nossas lógicas, nossos raciocínios. Adore a liberdade de Deus quando você tiver que carregar a cruz. Porque se você não fizer isso o demônio colocará dúvidas sobre o poder de Deus na sua vida. Não creia em deuses falsos, creia em Jesus Cristo verdadeiro, que nos desconcerta. A Igreja Católica vive isso com muita naturalidade, é difícil ser católico e muito fácil ser herege. Para ser herege precisa apenas conhecer dois versículos, isto é heresia. No livro do Êxodo capítulo 20 está proibindo fazer imagens, e no capítulo 25 Deus manda fazer imagens de querubins. Porque Deus é Deus, é você que tem que fazer força para compreendê-lo e não querer enjaulá-lo na sua mente. O católico abraça a Bíblia toda e não naquele versículo que interessa para ele, e se Deus parece que se contradiz, quem tem que inclinar a cabeça e adorar a Deus, sou eu. Não creia em Deus que cabe na jaula de um raciocínio, creia em um Deus que é verdadeiro. Eu quero que você saia desse PHN, entendendo uma coisa, se você quer saber como Deus é, olhe para Jesus, é um Deus que se fez carne, não olhe para idéias, pois você olha para suas idéias e faz bobagem. Você não pode ser revolucionário do jeito que quer destruir as coisas, que quer ir contra a Igreja, a Deus, ao mundo. É a sua cabecinha “oca”, que tem que mudar, é você que precisa mudar a cabeça, e dizer que se eu não estou entendendo Deus, quem está errado sou eu. É na fraqueza que a força se manifesta, Deus escolheu este caminho, não gostaríamos que fosse assim, queríamos um caminho de glória, mas não é assim que Deus faz, quando Ele quer vencer, Ele nos leva ao ponto mais baixo para que Ele possa nos erguer. Nós não dizemos que somos salvos pela ressurreição, pois a ressurreição é a salvação, nós somos salvos pela cruz, Ele não disse quem quiser triunfar pegue a ressurreição e faça festa, Ele disse pegue a sua cruz e me siga. Você quer me seguir renuncie a si mesmo, renuncie a sua cabecinha, as suas idéias. Deus não vai ficar aprisionado na sua cabecinha, Ele usa da traição de Judas, Ele usa das fraquezas, então abaixe sua cabeça e adore a Deus. Deus age das formas mais estranhas, sei que você é jovem, é ser humano e também sofre, eu sei que jovem não gosta de falar que sofre, ele sai faz festa e quando volta para casa fecha a cara. Aquele que é simpático com todo mundo, em casa é um “jumento” que só sabe dar “coice”. Agora você sabe o porquê disso, porque embora jovem, você também sofre a pressão da vida, porque todo mundo espera que sua vida dê certo e você sofre um pouco esmagado. Eu não sei qual é o seu sofrimento, se você está sofrendo eu tenho a solução: abrace a cruz. Se existe solução para o problema que está vivendo, resolva, mas se não tem solução, abraça a cruz. Você tem duas opções, abrace a cruz ou morra esmagado por ela, só tem essas duas opções, não tem outra, até queríamos que tivesse outra, mas não existe. Jovem, sê forte e corajoso, abrace a sua cruz, essa não é verdade que gostaríamos de ouvir, mas é a verdade verdadeira. Aqui na terra nós não enxergamos a vontade de Deus, Deus poderia ter dado uma resposta do porquê sofremos, mas Ele não veio, Ele preferiu vir sofrer conosco. Você que crê na ressurreição de Cristo, que nos amou até morte de cruz, creia que Ele nos salva.

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