Biografia de Santo Ireneu – 28 de Junho

Por Helcion Ribeiro
Fonte: Coleção Patrística, Volume 4, Ed. Paulus.

Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No XVII ano do imperador romano Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas (seguidores de Montano), pregando um iminente retorno de Cristo; eles logo passaram a gozar de grande fama por causa das “maravilhas” de seus múltiplos carismas e falsas profecias. Contudo, tais profetas passaram a inquietar a Igreja espalhada por todo o império. Os cristãos prisioneiros em Lião, dissentindo de tais profetas, escreveram cartas aos irmãos da Ásia e da Frígia, e a Eleutério, o bispo de Roma, visando especificamente pacificar a Igreja. “Estes mártires recomendaram Ireneu ao bispo de Roma e o elogiaram dizendo: “Novamente te desejamos toda felicidade em Deus e que ela permaneça sempre contigo, pai Eleutério. Demos esta missão a Ireneu, irmão nosso e companheiro, de levar-te estas cartas; digna-te de recebê-lo como um zeloso observador do Testamento de Cristo. Se pensássemos que a posição de alguém é aquela que o torna justo, imediatamente queremos te apresentá-lo como sacerdote da Igreja, como de fato ele o é” (cit. por Eusébio, HE, V, 4, 1-2). Tal missão é o único fato datável de sua vida. Todos os outros são os mais possíveis. Costuma-se localizar seu nascimento em torno do ano 140, em Esmirna, na Ásia (atual Turquia). Ainda criança, em Esmirna, freqüentou o velho bispo Policarpo (martirizado em 156), que por sua vez fora discípulo do apóstolo João- o que confere a Ireneu o título de “vir apostolicus”. Na Ásia Menor, Ireneu conheceu são Policarpo. “Eu te poderia dizer-escreve ele a Florino, um ex-condiscípulo de Policarpo, que apostatara tornando-se valentiniano – o lugar onde o beato Policarpo costumava sentar-se para falar-nos, e como entrava nos argumentos; que tipo de vida tinha, qual o aspecto de sua pessoa, os discursos que fazia ao povo, como nos discorria sobre os íntimos colóquios que tinha com João e com os outros que haviam visto o Senhor, seus milagres e sua doutrina. Tudo isto Policarpo aprendeu com testemunhas oculares do Verbo da Vida e o anunciava em plena harmonia com as Sagradas Escrituras” (cit. por Eusébio, HE, V, 20, 5-60) Tendo voltado de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lião, sucedendo a são Potino, que morrera por maus tratos na prisão aos 90 anos de idade. Entre os anos de 180 e 198 escreveu suas duas obras, atualmente conhecidas. Interveio decisivamente em diversas controvérsias eclesiásticas, cuja mais célebre foi a grande polêmica sobre a data da Páscoa, que opôs as Igrejas da Ásia Menor às outras Igrejas do Ocidente, lideradas pelo papa Vítor (189-199). Diziam os bispos da Ásia – sob a liderança de Policrates, de Éfeso – conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por São João; para as Igrejas ocidentais e algumas do oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim uma calorosa cisão na Igreja. Ireneu escreveu ao papa e aos bispos da Ásia, em nome das Igrejas da Gália; exortava respeitosamente o papa a uma prudência maior e a não tomar medidas radicais. Certamente havia inconvenientes quanto aos costumes inculturados sobre a questão (duração do jejum, tradições quaresmais e pascais, e a própria data); certamente o bispo de Roma tinha direito de pronunciar-se e indicar o caminho da obediência. Entretanto, Ireneu convidava-o a não quebrar a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos. Pacificados os ânimos, Ireneu – segundo o dizer de Eusébio – fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical (irene) significa “paz”. Segundo Gregório de Tours, na clássica História dos Francos, Ireneu como bispo conseguiu reanimar sua Igreja saída da perseguição, tornando-a um foco missionário para toda a Gália. Todavia seu mérito histórico maior foi ter identifica- do, estudado e refutado radicalmente o gnosticismo, e com isto estabeleceram-se bases e princípios gerais para combater todas as heresias na Igreja. Nada se sabe – com certeza – sobre sua morte. Uma tradição tardia – que remonta a são Jerônimo e ao Pseudo-Justino – afirma ter sido ele martirizado por heréticos, depois do ano 200, com uns 70 anos de idade; outra tradição afirma ter ele morrido num massacre geral de cristãos lionenses sob Sétimo Severo (pelo ano 202?). A Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho. Algumas notas -Este asiático, expatriado na Gália, conheceu Roma. Foi ele a unir a tradição da Ásia Menor à tradição romana, que transplantou para Lião. E aí adquire um valor excepcional seu testemunho situado na confluência do Oriente e do Ocidente.
-É impressionante a cultura bíblica de Ireneu – que usava a versão dos Setenta – citando praticamente todos os livros bíblicos, com exceção apenas de Ester, Crônicas, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Jó, Abdias e Macabeus (do AT), e Filemon e 2Jo (do NT).
-Apesar de não ser o seu forte argumentar com textos neo-testamentários, cita ele muito particularmente os Atos dos Apóstolos e a carta de Paulo aos Romanos (da qual mantém constantemente também o espírito). Usa alguns textos apócrifos (por exemplo: I Enoque, Ascensão de Isaías, proto-evangelho de Tiago), além de citar alguns textos atribuídos por ele a Jeremias e a Davi, não encontrados no cânon veterotestamentário.
-Na formação teológica de santo Ireneu estão presentes, não apenas como citação, mas como influência teológica, contributos da tradição apostólica, especialmente – através de São Policarpo – de São João e da escola joanina – sobretudo Pápias –, também Clemente Roma- no, Barnabé, Hermas e o autor da Didaqué. O bispo de Lião é ainda devedor a Teófilo de Antioquia, Melitão de Sardes, Aristão de Pella; conhecia bem Taciano e, provavelmente, Clemente Alexandrino jovem e Atenágoras.
-É inegável sua preparação clássica, podemos citar Homero e Hesíodo, Píndaro e Estesicoro; conhecia as fábulas de Esopo e os dramas de Édipo. Nas teorias gnósticas encontrou paralelos com a doutrina de Tales, Anaximandro, Anaxágoras, mas, sobretudo de Platão e Aristóteles. Leu profundamente Justino. Ao estudar os gnósticos em seus textos originais, aprofundou- se em Valentim, Ptolomeu (valentiniano), Marcos, Marcião, Simão, o Mago, e outros menores como Menandro, Saturnino, Basílides, Carpocrates, Cerinto, os ebionitas, os nicolaítas, Cerdão, Taciano, os ofitas, os setitas, os cainitas.
-Apesar de ser um marco e uma ponte entre o cristianismo das origens e o que se desenvolve a partir do século III (com crescente peso político e organização hierárquica), Ireneu foi aos poucos sendo esquecido a ponto de o bispo de Lião Etério ter escrito ao papa Gregório Magno (590-604) para obter informações sobre a vida e obras de seu ilustre predecessor – do qual conhecia por ouvir dizer provavelmente só o nome e a fama ou uma série de lendas inaceitáveis.
-Ignorado na Idade Média, Ireneu foi redescoberto no século XVI, quando Erasmo publicou uma edição com os textos principais de Adversus haereses (1526). Demonstração só foi encontrada em 1904, pelo arquimandrita Ter- Mekerttschian.
-Homem de tradição apostólica, Ireneu tornou-se o primeiro teólogo como guardião fiel dos “cânones imutáveis da verdade” (Ad. haer. I, 9.4). Sem especulações, nem inovações, ele -mestre da tradição -legou um ensino essencialmente tradicional, cujo caráter permanece na teologia ocidental; ao contrário, por exemplo, do legado de Orígenes (também excelente teólogo, bem mais especulativo e criativo e autor de grandioso estudo científico, apesar de algumas vezes prematuro e nem sempre seguro), ou de Tertuliano (de quem procede especialmente a linguagem técnica da teologia).

SANTO IRENEU – O ADVERSÁRIO DA GNOSE
Ireneu é considerado o maior teólogo do século II. Nascido na Ásia Menor (entre 140 e 160), chegou a conhecer São Policarpo de Esmirna, discípulo do apóstolo São João. Era presbítero na cidade de Lyon durante a perseguição de Marco Aurélio. Após o martírio de Potino, foi eleito bispo daquela cidade. Não temos nada de exato sobre sua morte. Segundo uma tradição antiga, ele teria sido martirizado por hereges depois do ano 200, com aproximadamente 70 anos de idade. Outros, porém, afirmam que ele morreu em um massacre de cristãos em Lyon, no reinado de Sétimo Severo (202?). A Igreja o venera como mártir, no dia 28 de junho. A sua maior obra, “Adversus haereses”, “Contra as heresias”, foi escrita entre os anos 180 e 185. Trata-se de um ataque demolidor ao sistema gnóstico. Depois de expor e refutar detalhadamente as doutrinas da gnose (que conhecia muito bem), Ireneu revela a verdadeira doutrina: o cristianismo. Testemunha de grande autoridade, Ireneu fala, entre outras coisas:
-Do valor da Tradição como regra de fé.
-Do primado da Igreja de Roma: “Com esta Igreja, por causa de sua autoridade principal, faz-se mister concordarem as demais Igrejas, a saber, os fiéis do universo, na qual se manteve incólume sempre, esses fiéis de toda a parte, a tradição apostólica”
-“…onde está a Igreja está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus está a Igreja e toda graça”.
-Da estada e do martírio de São Pedro e de São Paulo em Roma.
-Que Cristo é a encarnação de Deus. Nele Deus se faz homem para divinizar a humanidade.
-Que A Virgem Maria, por sua obediência, consertou a desobediência de Eva. Maria é a “advogada de Eva” e “causa de salvação” para o gênero humano.
-Da doutrina do pecado original.
-Do costume de se batizar também as crianças;
-Que a eucaristia é a carne e o sangue de Jesus. “Compõe-se de dois elementos, um terreno e outro celeste”. É o sacrifício novo, anunciado por Malaquias (Ml 1,10s), celebrado pela Igreja no mundo inteiro. Acompanhando muitos de sua época, Ireneu era milenarista. Como, porém, o milenarismo não tinha sido condenado pelo Magistério, não faz o menor sentido dizer que Ireneu é culpado de heresia. Não se pode falar de culpa sem conhecimento de causa.
Fonte: http://www.bibliacatolica.com.br/historia_igreja/19.php

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias, III, 11, 8-9
SÃO MATEUS, UM DOS QUATRO EVANGELISTAS
Não pode haver um número superior nem um número inferior de evangelhos. Com efeito, uma vez que são quatro as regiões do mundo no qual nos encontramos, e quatro os ventos principais, e uma vez que, por outro lado, a Igreja está espalhada por toda a terra e tem por “coluna e sustentáculo” (1Tm 3, 15) o Evangelho e o Espírito da vida, é natural que haja quatro colunas que sopram a imortalidade de todos os lados e dão vida aos homens. Quando o Verbo, o artesão do universo, que tem o trono sobre os querubins e que sustenta todas as coisas (Sl 79, 2; Hb 1, 3), se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho com quatro formas, embora mantido por um único Espírito. Implorando a sua vinda, David dizia: “Manifestai-Vos, Vós que tendes o Vosso trono sobre os querubins” (Sl, 79, 2). Porque os querubins têm quatro figuras (Ez 1, 6), que são as imagens da atividade do Filho de Deus. “O primeiro [destes seres vivos] era semelhante a um leão” (Ap 4, 7), e caracteriza o poder, a preeminência e a realeza do Filho de Deus; “o segundo, a um touro”, manifestando a sua função de sacrificador e de sacerdote; “o terceiro tinha um rosto como que de homem”, evocando claramente a sua face humana; “o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo”, indicando o dom do Espírito que paira sobre a Igreja. Os evangelhos segundo João, Lucas, Mateus e Marcos estarão, pois, também eles, de acordo com estes seres vivos sobre os quais Cristo Jesus tem o seu trono. […] Encontramos estes mesmos traços no próprio Verbo de Deus; aos patriarcas que existiram antes de Moisés, falava Ele segundo a sua divindade e a sua glória; aos homens que viveram sob a Lei, atribuiu Ele uma função sacerdotal e ministerial; em seguida, fez-Se homem por nós; por fim, enviou o dom do Espírito a toda a terra, escondendo-os à sombra das Suas asas (Sl 16, 8). […] São, pois, fúteis, ignorantes e presunçosos os que rejeitam a forma sob a qual se apresenta o evangelho, ou introduzem no evangelho um número de figuras maior ou menor do que as que referimos.

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias, III, 22, 3; 23, 1
“FILHO DE ADÃO”
Lucas apresenta uma genealogia que remonta do nascimento de Nosso Senhor até Adão e comporta setenta e duas gerações; deste modo, como que liga o fim ao principio, dando a entender que o Senhor foi Aquele que recapitulou em Si todas as nações dispersas desde Adão, todas as línguas e as gerações dos homens, incluindo o próprio Adão. É também por isso que Paulo chama a Adão “figura daquele que havia de vir” (Rm 5, 14), porque o Verbo, Artesão do universo, tinha esboçado em Adão a futura história da humanidade de que se revestiria o Filho de Deus. […] Ao tornar-se o Primogênito dos mortos (Cl 1, 18), e ao receber no seu seio os antigos pais, o Senhor fê-los renascer para a vida de Deus; tornou-se o primeiro, o príncipe dos vivos, porque Adão se tinha tornado o príncipe dos mortos. […] Ao começar a sua genealogia no Senhor, fazendo-a remontar a Adão, Lucas indica que não foram os pais que deram a vida ao Senhor, mas foi Ele que os fez renascer no Evangelho da vida. Da mesma maneira, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, porque a Virgem Maria desatou pela fé aquilo que a Virgem Eva tinha atado pela sua incredulidade. Era, pois, indispensável que, vindo ter com a ovelha pedida (Mt 18, 12), recapitulando uma tão longa história, vindo à procura da sua obra, por Ele mesmo modelada (Lc, 19, 10; Gn 2, 8), o Senhor salvasse o homem que tinha sido feito à Sua imagem e semelhança (Gn 1, 26), isto é, Adão.

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias, IV, 20, 7
O FILHO REVELA O PAI
“Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (Jo 1, 18). Desde o começo, é o Filho quem revela o Pai, porque Ele está junto do Pai desde o começo. No tempo fixado, foi Ele quem deu a conhecer aos homens, para proveito destes, as visões proféticas, a diversidade das graças, os ministérios e a glorificação do Pai, tudo como uma melodia bem composta e harmoniosa. Com efeito, onde há composição, há melodia; onde há melodia, há tempo fixado; onde há tempo fixado, há proveito. Foi por isso que, para proveito dos homens, o Verbo Se fez dispensador da graça do Pai, segundo os Seus desígnios. Ele mostra Deus aos homens e apresenta o homem a Deus, preservando a invisibilidade do Pai, com receio de que os homens venham a desprezar a Deus e para que eles tenham sempre progressos a fazer, ao mesmo tempo que torna Deus visível aos homens de numerosas formas, com receio de que, totalmente privados de Deus, eles acabem por se esquecer da Sua existência. Porque a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus. Se a revelação de Deus pela criação já dá a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que vêem a Deus!

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias
“TU REVELASTE-AS AOS PEQUENINOS”
Aquilo que o Senhor nos ensina é que ninguém pode conhecer a Deus a menos que Deus Se mostre; dito de outra maneira, não podermos conhecer a Deus sem o auxílio de Deus. Mas o Pai quer ser conhecido: conhecê-Lo-ão aqueles a quem o Filho O revelar. […] Este “revelar” não designa apenas o futuro, como se o Verbo só tivesse começado a revelar o Pai depois de ter nascido de Maria; aplica-se à totalidade do tempo. Desde o começo que o Filho, presente na criação que Ele próprio modelou, revela o Pai a todos quantos o Pai deseja ser revelado, quando Ele deseja sê-lo, como Ele deseja sê-lo. Em todas as coisas, e através de todas as coisas, não há senão um Deus-Pai, um único Verbo, um único Espírito e uma única salvação para todos quantos crêem nele. Com efeito, ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, se o Filho não O revelar, nem conhecer o Filho sem “o agrado” do Pai (Mt 11, 26). Ora, aquilo que, na Sua bondade, o Pai quer, cumpre-o o Filho: o Pai envia, o Filho é enviado, e vem. E este Pai infinito, que para nós é invisível, é conhecido pelo Seu próprio Verbo, que dá a conhecer Aquele que é inexprimível (Jo 1, 18).

Santo Ireneu de Lião (c. 130 – c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as Heresias, IV, 13,3
A LEI ENRAIZADA NOS NOSSOS CORAÇÕES
Há preceitos da lei natural que, só por si, nos dão a justiça; mesmo antes do dom da Lei a Moisés, havia homens que observavam esses preceitos e eram justificados pela sua fé e agradavam a Deus. Esses preceitos, o Senhor não os aboliu, mas alargou-os e levou-os à perfeição. É isso que provam estas palavras: “Foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher e a cobiçar já cometeu adultério com ela no seu coração”. E também: “Foi dito: Não matarás. Mas eu digo-vos: Todo aquele que se encolerizar contra o seu irmão sem motivo, responderá por isso em tribunal” (Mt 5, 21ss)… E assim sucessivamente. Todos estes preceitos não implicam nem contradição nem abolição dos precedentes, mas o seu cumprimento e a sua extensão. Como o próprio Senhor diz: “Se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e dos Fariseus, não entrareis no reino dos Céus” (Mt 5, 20). Em que consistia essa ultrapassagem? Primeiro, em acreditar não só no Pai, mas também no Filho agora manifestado, porque é Ele quem conduz o homem à comunhão e à união com Deus. Em seguida, em não dizer apenas, mas em fazer – porque “eles dizem, mas não fazem (Mt 23, 3) – e em guardar-se não só dos atos maus mas até do desejo deles. Ao ensinar isto, Ele não contradizia a Lei, mas cumpria a Lei e enraizava em nós as prescrições da Lei… Prescrever abster-se não só dos atos proibidos pela Lei mas mesmo do seu desejo, não é obra de quem contradiz e abole a Lei; é obra de quem a cumpre e alarga.
Fonte: www.evangelhoquotidiano.org

SANTO IRENEU DE LIÃO
Papa Bento XVI
Queridos irmãos e irmãs! Nas catequeses sobre as grandes figuras da Igreja dos primeiros séculos chegamos hoje à personalidade eminente de Santo Ireneu de Lião. As notícias biográficas sobre ele provêm do seu próprio testemunho, que nos foi transmitido por Eusébio no quinto livro da História Eclesiástica. Ireneu nasceu com toda a probabilidade em Esmirna (hoje Izmir, na Turquia) por volta do ano 135-140, onde ainda jovem freqüentou a escola do Bispo Policarpo, por sua vez discípulo do apóstolo João. Não sabemos quando se transferiu da Ásia Menor para a Gália, mas a transferência certamente coincidiu com os primeiros desenvolvimentos da comunidade cristã de Lião: aqui, no ano 117, encontramos Ireneu incluído no colégio dos presbíteros. Precisamente naquele ano ele foi enviado para Roma, portador de uma carta da comunidade de Lião ao Papa Eleutério. A missão romana subtraiu Ireneu à perseguição de Marco Aurélio, que causou pelo menos quarenta e oito mártires, entre os quais o próprio Bispo de Lião, Potino que, com noventa anos, faleceu por maus-tratos no cárcere. Assim, com o seu regresso, Ireneu foi eleito Bispo da cidade. O novo Pastor dedicou-se totalmente ao ministério episcopal, que se concluiu por volta de 202-203, talvez com o martírio. Ireneu é antes de tudo um homem de fé e Pastor. Do bom Pastor tem o sentido da medida, a riqueza da doutrina, o fervor missionário. Como escritor, busca uma dupla finalidade: defender a verdadeira doutrina contra os ataques heréticos, e expor com clareza a verdade da fé. Correspondem exatamente a estas finalidades as duas obras que dele permanecem: os cinco livros Contra as Heresias, e a Exposição da pregação apostólica (que se pode também chamar o mais antigo “catecismo da doutrina cristã”). Em suma, Ireneu é o campeão da luta contra as heresias. A Igreja do século II estava ameaçada pela chamada gnose, uma doutrina que afirmava que a fé ensinada na Igreja seria apenas um simbolismo para os simples, que não são capazes de compreender coisas difíceis; ao contrário, os idosos, os intelectuais chamavam-se gnósticos teriam compreendido o que está por detrás destes símbolos, e assim teriam formado um cristianismo elitista, intelectualista. Obviamente este cristianismo intelectualista fragmentava-se cada vez mais em diversas correntes com pensamentos muitas vezes estranhos e extravagantes, mas para muitos era atraente. Um elemento comum destas diversas correntes era o dualismo, isto é, negava-se a fé no único Deus Pai de todos, Criador e Salvador do homem e do mundo. Para explicar o mal no mundo, eles afirmavam a existência, em paralelo com o Deus bom, de um princípio negativo. Este princípio negativo teria produzido as coisas materiais, a matéria. Radicando-se firmemente na doutrina bíblica da criação, Ireneu contesta o dualismo e o pessimismo gnóstico que diminuíam as realidades corpóreas. Ele reivindicava decididamente a santidade originária da matéria, do corpo, da carne, não menos que a do espírito. Mas a sua obra vai muito mais além da confutação da heresia: pode-se dizer de fato que ele se apresenta como o primeiro grande teólogo da Igreja, que criou a teologia sistemática; ele mesmo fala do sistema da teologia, isto é, da coerência interna de toda a fé. No centro da sua doutrina situa-se a questão da “regra da fé” e da sua transmissão. Para Ireneu a “regra da fé” coincide na prática com o Credo dos Apóstolos, e dá-nos a chave para interpretar o Evangelho, para interpretar o Credo à luz do Evangelho. O símbolo apostólico, que é uma espécie de síntese do Evangelho, ajuda-nos a compreender o que significa, como devemos ler o próprio Evangelho. De fato o Evangelho pregado por Ireneu é o mesmo que recebeu de Policarpo, Bispo de Esmirna, e o Evangelho de Policarpo remonta ao apóstolo João, do qual Policarpo era discípulo. E assim o verdadeiro ensinamento não é o que foi inventado pelos intelectuais além da fé simples da Igreja. O verdadeiro Evangelho é o que foi transmitido pelos Bispos que o receberam numa sucessão ininterrupta dos Apóstolos. Eles outra coisa não ensinaram senão precisamente esta fé simples, que é também a verdadeira profundidade da revelação de Deus. Assim diz-nos Ireneu não há uma doutrina secreta por detrás do Credo comum da Igreja. Não existe um cristianismo superior para intelectuais. A fé publicamente confessada pela Igreja é a fé comum de todos. Só esta fé é apostólica, vem dos Apóstolos, isto é, de Jesus e de Deus. Aderindo a esta fé transmitida publicamente pelos Apóstolos aos seus sucessores, os cristãos devem observar o que os Bispos dizem, devem considerar especialmente o ensinamento da Igreja de Roma, preeminente e antiqüíssima. Esta Igreja, devido à sua antiguidade, tem a maior apostolicidade, de fato haure origem das colunas do Colégio apostólico, Pedro e Paulo. Com a Igreja de Roma devem harmonizar-se todas as Igrejas, reconhecendo nela a medida da verdadeira tradição apostólica, da única fé comum da Igreja. Com estas argumentações, aqui resumidas muito brevemente, Ireneu contesta desde os fundamentos as pretensões destes gnósticos, destes intelectuais: antes de tudo eles não possuem uma verdade que seria superior à da fé comum, porque o que dizem não é de origem apostólica, é por eles inventado; em segundo lugar, a verdade e a salvação não são privilégio nem monopólio de poucos, mas todos as podem alcançar através da pregação dos sucessores dos Apóstolos, e sobretudo do Bispo de Roma. Em particular sempre polemizando com o caráter “secreto” da tradição gnóstica, e observando os seus numerosos êxitos entre si contraditórios Ireneu preocupa-se por ilustrar o conceito genuíno de Tradição apostólica, que podemos resumir em três pontos. a) A Tradição apostólica é “pública”, não privada ou secreta. Ireneu não duvida minimamente de que o conteúdo da fé transmitida pela Igreja é o que recebeu dos Apóstolos e de Jesus, do Filho de Deus. Não existe outro ensinamento além deste. Portanto quem quiser conhecer a verdadeira doutrina é suficiente que conheça “a Tradição que vem dos Apóstolos e a fé anunciada aos homens”: tradição e fé que “chegaram até nós através da sucessão dos Bispos” (Adv. Haer.3, 3, 3-4). Assim, sucessão dos Bispos, princípio pessoal; e Tradição apostólica, princípio doutrinal coincidem. b) A Tradição apostólica é “única”. De fato, enquanto o gnosticismo se subdivide em numerosas seitas, a Tradição da Igreja é única nos seus conteúdos fundamentais, a que como vimos Ireneu chama precisamente regula fidei ou veritatis: e isto porque é única, gera unidade através dos povos, através das culturas diversas, através dos povos diversos; é um conteúdo comum como a verdade, apesar da diversidade das línguas e das culturas. Há uma frase muito preciosa de Santo Ireneu no livro Contra as heresias: “A Igreja, apesar de estar espalhada por todo o mundo, conserva com solicitude [a fé dos Apóstolos], como se habitasse numa só casa; ao mesmo tempo crê nestas verdades, como se tivesse uma só alma e um só coração; em plena sintonia com estas verdades proclama, ensina e transmite, como se tivesse uma só boca. As línguas do mundo são diversas, mas o poder da tradição é único e é o mesmo: as Igrejas fundadas nas Alemanhas não receberam nem transmitiram uma fé diversa, nem as que foram fundadas nas Espanhas ou entre os Celtas ou nas regiões orientais ou no Egito ou na Líbia ou no centro do mundo” (1, 10, 1-2). Já se vê neste momento, estamos no ano 200, a universalidade da Igreja, a sua catolicidade e a força unificadora da verdade, que une estas realidades tão diversas, da Alemanha à Espanha, à Itália, ao Egito, à Líbia, na comum verdade que nos foi revelada por Cristo. c) Por fim, a Tradição apostólica é como ele diz na língua grega na qual escreveu o seu livro, “pneumática”, isto é, espiritual, guiada pelo Espírito Santo: em grego espírito diz-se pneuma. De fato, não se trata de uma transmissão confiada à habilidade de homens mais ou menos doutos, mas ao Espírito de Deus, que garante a fidelidade da transmissão da fé. Esta é a “vida” da Igreja, o que torna a Igreja sempre vigorosa e jovem, isto é, fecunda de numerosos carismas. Igreja e Espírito para Ireneu são inseparáveis: “Esta fé”, lemos ainda no terceiro livro Contra as heresias, “recebemo-la da Igreja e conservamo-la: a fé, por obra do Espírito de Deus, como um depósito precioso guardado num vaso de valor rejuvenesce sempre e faz rejuvenescer também o vaso que a contém. Onde estiver a Igreja, ali está o Espírito de Deus; e onde estiver o Espírito de Deus, ali está a Igreja com todas as graças” (3, 24, 1). Como se vê, Ireneu não se limita a definir o conceito de Tradição. A sua tradição, a Tradição ininterrupta, não é tradicionalismo, porque esta Tradição é sempre internamente vivificada pelo Espírito Santo, que a faz de novo viver, a faz ser interpretada e compreendida na vitalidade da Igreja. Segundo o seu ensinamento, a fé da Igreja deve ser transmitida de modo que apareça como deve ser, isto é, “pública”, “única”, “pneumática”, “espiritual”. A partir de cada uma destas características podemos realizar um frutuoso discernimento sobre a autêntica transmissão da fé no hoje da Igreja. Mais em geral, na doutrina de Ireneu a dignidade do homem, corpo e alma, está firmemente ancorada na criação divina, na imagem de Cristo e na obra permanente de santificação do Espírito. Esta doutrina é como uma “via-mestra” para esclarecer juntamente com todas as pessoas de boa vontade o objeto e os confins do diálogo sobre os valores, e para dar impulso sempre renovado à ação missionária da Igreja, à força da verdade que é a fonte de todos os valores verdadeiros do mundo.

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