Santo Tomás Moro

A Angústia de Cristo 
Do livro “A angústia de Cristo diante da morte” de Santo Tomás Moro

“E disse aos discípulos: Sentai-vos aqui enquanto eu vou mais ali e faço oração. E levando consigo a Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. E lhes disse então: Minha alma está triste até a morte. Aguardai aqui e velai comigo” (Mt 26, 36-38). Depois de mandar os outros oito Apóstolos que ficassem sentados num lugar, Ele seguiu mais ali, levando consigo a Pedro, a João e ao seu irmão Tiago, aos que sempre distinguiu do resto por uma maior intimidade. Ainda que não tivesse tido outro motivo para fazê-lo que o tê-lo querido assim, ninguém teria razão para a inveja por causa de sua bondade. Mas tinha motivos para comportar-se desta maneira, e os devia de ter presentes. Destacava Pedro pelo zelo de sua fé, e João por sua virgindade, e o irmão deste, Tiago, seria o primeiro entre eles em padecer martírio pelo nome de Cristo. Estes eram, além do mais, os três Apóstolos aos quais se lhes tinha concedido contemplar seu corpo glorioso. Era, portanto, razoável que estivessem muito próximos Dele, na agonia prévia a sua Paixão, os mesmos que tinham sido admitidos a tão maravilhosa visão, e a quem Ele tinha recriado com um raio da claridade eterna porque convinha que fossem fortes e firmes.
Cristo avançou uns passos e, de repente, sentiu em seu corpo um ataque tão amargo e agudo de tristeza e de dor, de medo e pesar, que, ainda que estivessem outros junto a Ele, levou-lhe a exclamar imediatamente palavras que indicam bem a angústia que oprimia seu coração: “Triste está minha alma até a morte”. Um peso excessivo de pesares começou a ocupar o corpo bendito e jovem do Salvador. Sentia que a prova era agora já algo iminente e que estava a ponto de inclinar-se sobre Ele: o infiel e criminoso traidor, os inimigos enfurecidos, as cordas e as cadeias, as calúnias, as blasfêmias, as falsas acusações, os espinhos e os golpes, os cravos e a cruz, as torturas horríveis prolongadas durante horas. Sobretudo isto lhe pesava e doía o espanto dos discípulos, a perdição dos judeus, e inclusive o fim desgraçado do homem que perfidamente lhe traía. Acrescenta, além disso, a inefável dor de sua Mãe queridíssima. Pesares e sofrimentos se revolviam como um redemoinho tempestuoso em seu coração amabilíssimo e o inundavam como as águas do oceano rompem sem piedade através dos diques destroçados.
Alguém poderá quem sabe assombrar-se, e se perguntará como é possível que nosso salvador Jesus Cristo, sendo verdadeiramente Deus, igual ao seu Pai Todo-Poderoso, sentisse tristeza, dor e pesar. Não houvesse podido padecer tudo isto se sendo como era Deus, o houvesse sido de tal maneira que não fosse ao mesmo tempo homem verdadeiro. Assim, como não era menos verdadeiro homem que era verdadeiramente Deus, não vejo razão para surpreender-nos de que, ao ser homem de verdade, participasse dos afetos e paixões naturais dos homens (afetos e paixões, é claro, ausentes em tudo de mal ou de culpa). De igual modo, por ser Deus, fazia portentosos milagres. Si nos assombra que Cristo sentisse medo, cansaço e pena, dado que era Deus, por que não nos surpreende tanto o que sentisse fome, sede e sono? Não era menos verdadeiro Deus por tudo isto?
Talvez, se poderia objetar: “Está bem. Já não me causa estranheza que experimentasse essas emoções e estados de ânimo, mas não posso explicar-me o que desejasse tê-las de fato. Porque Ele mesmo ensinou aos discípulos a não ter medo àqueles que podem matar o corpo e já não podem fazer nada mais. Como é possível que agora tenha tanto medo desses homens e, especialmente, se tiver em conta que nada sofreria seu corpo se Ele não o permitisse? Consta, que seus mártires corriam para a morte prestimosos e alegres, mostrando-se superiores a tiranos e torturadores, e quase insultando-lhes. Se isto foi assim com os mártires de Cristo, como não deve parecer estranho que o mesmo Cristo se enchesse de terror e pavor, e se entristecesse a medida que se aproximava -o sofrimento? Não é acaso Cristo o primeiro e o modelo exemplar dos mártires todos? Já que tanto gostava primeiro fazer e logo ensinar, tivesse sido mais lógico ter alicerçado nesses momentos um bom exemplo para que outros aprendessem Dele a sofrer gozosamente a morte por causa da verdade. E também para que os que mais tarde morreriam pela fé com dúvida e medo não escusassem sua covardia imaginando que seguem a Cristo, quando na realidade sua relutância pode desanimar a outros que vejam seu temor e tristeza, rebaixando assim a glória de sua causa.”
Estes e outros que tais objeções colocam não acertam a ver todos os aspectos da questão, nem se dão conta do que Cristo queria dizer ao proibir a seus discípulos que tivessem medo à morte. Não quis que seus discípulos não rechaçassem nunca a morte, mas, melhor, que nunca tivessem por medo daquela morte “temporal”, que não durará muito, para ir cair, ao renegar da fé, na morte eterna. Queria que os cristãos fossem soldados fortes e prudentes, não tontos e insensatos. O homem forte agüenta e resiste os golpes, o insensato nem os sente sequer. Só um louco não teme as feridas, enquanto que o prudente não permite que o medo ao sofrimento lhe separe jamais de uma conduta nobre e santa. Seria escapar de umas dores de pouca monta para ir a cair em outros muito mais dolorosos e amargos.
Quando um médico se vê obrigado a amputar um membro ou cauterizar una parte do corpo, anima ao enfermo a que suporte a dor, mas nunca tenta persuadir-lhe de que não sentirá nenhuma angústia e medo ante a dor que o corte ou a queimadura causem. Admite que será penoso, mas sabe bem que a dor será superada pelo gozo de recuperar a saúde e evitar dores mais atrozes.
Ainda que Cristo nosso Salvador nos manda tolerar a morte, se não pode ser evitada, antes que separar-nos Dele por medo à morte (e isto ocorre quando negamos publicamente nossa fé), contudo, está tão longe de mandar-nos fazer violência a nossa natureza (como seria o caso se não tivéssemos de temer em absoluto a morte), que inclusive nos deixa a liberdade de escapar se é possível do suplício, sempre que isto não repercuta em prejuízo de sua causa. “Se os perseguem numa cidade -diz-, fugi a outra (Mt 10, 23). Esta indulgência e cauto conselho de prudente mestre foi seguido pelos Apóstolos e por quase todos os grandes mártires nos séculos posteriores. É difícil encontrar um que não usasse esta permissão num momento ou outro para salvar a vida e prolongá-la, com grande proveito para si e para outros muitos, até que se aproximasse o tempo oportuno segundo a oculta providência de Deus. Há também valorosos campeões que tomaram a iniciativa professando publicamente sua fé cristã ainda que ninguém o exigisse; e inclusive chegaram a expor-se e oferecer-se a morrer ainda que tampouco ninguém lhes forçasse. Assim o quer Deus que aumenta sua glória, umas vezes, ocultando as riquezas da fé para que quem trama contra os crentes peguem o anzol; e outras, fazendo ostentação desses tesouros de tal modo que seus cruéis perseguidores se irritem e desesperem ao ver suas esperanças frustradas, e comprovem com raiva que toda sua ferocidade é incapaz de superar e vencer a quem gozosamente avançam para o martírio.
Contudo, Deus misericordioso não nos manda subir o tão empinado e árduo cume da fortaleza; assim que ninguém deve apressar-se precipitadamente até tal ponto que não possa voltar sobre seus passos pouco a pouco, pondo-se em perigo de chocar-se de cabeça no abismo se não pode alcançar o cume. Aqueles que são chamados por Deus para isto, que lutem por conseguir o que Deus quer e reinarão vencedores. Mantém ocultos os tempos e as causas das coisas, e quando chega o momento oportuno tira à luz o arcano tesouro de sua sabedoria que penetra tudo com fortaleza e dispõe tudo com suavidade. Por conseguinte, se alguém é levado até aquele ponto em que deve tomar uma decisão entre sofrer tormento ou renegar de Deus, não deve duvidar que está em meio dessa angústia porque Deus o quer. Tem deste modo o motivo maior para esperar de Deus o melhor: ou bem Deus lhe livrará deste combate, ou bem lhe ajudará na luta, e lhe fará vencer para coroá-lo como triunfador. Porque “fiel é Deus que não permitirá sejais tentados sobre vossas forças, mas que da mesma prova os fará tirar proveito para que possais sustentar-vos” (1Cor 10, 13).
Se enfrentado em luta corpo a corpo com o diabo, príncipe deste mundo, e com seus sequazes, não há modo possível de escapar sem ofender a Deus, tal homem -em minha opinião- deve desprezar todo medo; eu o mandaria descansar tranqüilo cheio de esperança e de confiança, “porque diminuirá a fortaleza de quem desconfie no dia da tribulação” (Prov 24, 10). Mas o medo e a ansiedade antes do combate não são repreensíveis, na medida em que a razão não deixe de lutar contra, e a luta em si mesma não seja criminal nem pecaminosa. Não só não é o medo repreensível, senão, ao contrário, imensa e excelente oportunidade para merecer. Ou acaso imaginas tu que aqueles santos mártires que derramaram seu sangue pela fé não tiveram jamais medo aos suplícios e à morte? Não me faz falta elaborar todo um catálogo de mártires: para mim o exemplo de Paulo vale por mil.
Se na guerra contra os filisteus Davi valia por dez mil, não cabe dúvida de que podemos considerar a Paulo como si valesse por dez mil soldados na batalha pela fé contra os perseguidores infiéis. Paulo, fortíssimo entre os atletas da fé, em quem a esperança e o amor a Cristo tinham crescido tanto que não duvidava em absoluto de seu prêmio no céu, foi quem disse: “Lutei com valor, concluí a corrida, e agora uma coroa de justiça me está reservada” (2Tim 4, 7). Tão ardente era o desejo que lhe levou a escrever: “Meu viver é Cristo, e morrer, um lucro” (Flp 1, 21). E também “Desejo ver-me livre das ataduras do corpo e estar com Cristo” (Flp 1, 23). Contudo, e junto a tudo isto, esse mesmo Paulo não só procurou escapar com grande habilidade, e graças ao tribuno, das insídias dos judeus, mas que também se livrou do cárcere declarando e fazendo valer sua cidadania romana; aludiu a crueldade dos judeus apelando ao César, e escapou das mãos sacrílegas do rei Aretas deixando-se deslizar pela muralha metido numa cesta.
Alguém poderia dizer que Paulo contemplava nessas ocasiões o fruto que mais tarde havia de semear com suas obras, e que, além disso, em tais circunstâncias, jamais lhe assustou o medo à morte. Concedo-lhe amplamente o primeiro ponto, mas não me aventuraria a afirmar estritamente o segundo. Que o valoroso coração do Apóstolo não era impermeável ao medo é algo que ele mesmo admite quando escreve aos coríntios: “Assim que temos chegado a Macedônia, nossa carne não teve descanso algum, senão que sofreu toda sorte de tribulações, lutas por fora, temores por dentro” (2Cor 7, S). E escrevia em outro lugar aos mesmos: “Estive entre vós na debilidade, em muito medo e temor” (1Cor 2, 3). E de novo: “Pois não queremos, irmãos, que ignoreis as tribulações que padecemos na Ásia, já que o peso que tivemos de levar superava toda medida, mais além ` de nossas forças, até tal ponto que o mesmo fato de viver nos era um desgosto” (2Cor 1, 8).
Não escutas nestas passagens, e da boca do mesmo Paulo, seu medo, seu estremecimento, seu cansaço, mais insuportável que a mesma morte, até tal ponto que nos recorda a agonia de Cristo e apresenta uma imagem dela? Nega agora se podes que os mártires santos de Cristo sentiram medo ante uma morte espantosa. Nenhum temor, contudo, por grande que fosse, pode deter a Paulo em seus planos para espalhar a fé; tampouco puderam os conselhos dos discípulos dissuadi-lo para que não viajasse a Jerusalém (viagem a qual se sentia impulsionado pelo Espírito de Deus), inclusive ainda que o profeta Ágabo lhe tinha predito que as cadeias e outros perigos lhe aguardavam ali.
O medo da morte ou dos tormentos nada tem de culpa, mas sim de pena: é uma aflição das que Cristo veio a padecer e não a escapar. Nem se deve chamar covardia ao medo e horror ante os suplícios. Contudo, fugir por medo à tortura ou à mesma morte numa situação na qual é necessário lutar, ou também, abandonar toda esperança de vitória e entregar-se ao inimigo, isto, sem dúvida, é um crime grave na disciplina militar. Pelo demais, não importa quão perturbado e estremecido pelo medo esteja o ânimo de um soldado; se apesar de tudo avança quando manda o capitão, e marcha e luta e vence o inimigo, nenhum motivo tem para temer que aquele seu primeiro medo possa diminuir o prêmio. De fato, deveria receber inclusive maior louvor, sendo que teve de superar não só o exército inimigo, mas também seu próprio temor; e este último, com freqüência, é mais difícil de vencer que o mesmo, inimigo.

 

“Como bom inglês, o mártir Tomás Moro valorizava o senso de humor. Acho que, se o temos para valorizar esta oração, é porque Deus também o tem como fonte de bom ânimo. Eu aprecio muito esta oração!”, disse o Papa Francisco.

Oração do bom humor

Senhor, dai-me uma boa digestão,
mas também algo para digerir.
Dai-me a saúde do corpo, mas também
o bom humor, necessário para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma simples,
que saiba aproveitar tudo o que é bom
e que não se assuste quando o mal chegar,
e sim que encontre a maneira de colocar as coisas no lugar.

Dai-me uma alma que não conheça o tédio
nem os resmungos, suspiros e lamentos,
e não permitais que eu me atormente demais
com essa coisa incômoda demais chamada “eu”.

Dai-me, Senhor, senso de humor!
Amém.

 

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