Jurar a Deus – A promessa e…

… o poder dos Sacramentos

Por Pe. Inácio José Schuster

Os Sacramentos da Igreja são as maiores fontes de poder, de vida e de possessão. São os juramentos da aliança que introduzem a gente na família de Deus. É o meio ordinário pelo qual Deus dirige o curso de cada vida humana, e também da história do mundo. São os Sacramentos na Igreja, o que são em minha vida, e o que pretendeu originalmente Jesus que fossem. Os Sacramentos da iniciação cristã são o Batismo, a Eucaristia e a Confirmação. Os sacramentos de cura são a Penitência e a Unção dos enfermos. Os sacramentos do serviço, da vocação são o Matrimônio e as sagradas Ordens (diaconado, presbiterado e episcopado). No Oriente, a Confirmação muitas vezes se chama “Crismação”. No Ocidente, a Penitência às vezes se chama “Confissão” ou “Reconciliação”.

O que é um Sacramento
Os velhos catecismos o definiram como “sinal externo instituído por Cristo para dar a graça”, e tal definição ainda é válida. Mas Cristo mesmo estava construindo sobre algo quando estabeleceu os Sacramentos. Estava construindo sobre os rituais da aliança do antigo Israel. Os atos essenciais do povo escolhido eram a adoração, e também os atos de pertença à família de Deus. Os rituais da aliança estabeleciam tanto a incorporação a essa família (pense-se na circuncisão) ou a restauração quando a união se quebrava (pense-se nas oferendas pelo pecado no Antigo Testamento). As alianças implicam quase sempre um juramento, pelo menos implícito. Incluíam muitas vezes um sacrifício, e também uma comida sagrada. A palavra sacramento fez originalmente a conexão para os cristãos. Vem da palavra latina sacramentum, que significa “juramento”.

Diferenças entre uma aliança e um contrato
Um contrato intercambia mercadorias e serviços; uma aliança intercambia pessoas. Um contrato diz “isto é teu, e isso é meu”; uma aliança diz “sou teu, e tu és meu”. Uma aliança forma uma família. O matrimônio e a adoção são relações de aliança. A intenção de Jesus era construir sobre a idéia do Antigo Testamento da aliança. De fato, Ele indicou isto explicitamente quando estabeleceu o sacramento da Eucaristia na Última Ceia. Quando abençoou o cálice, chamou a seu conteúdo “o sangue da aliança.” Mais adiante no Novo Testamento, a Carta aos Hebreus utiliza o termo “nova aliança” para descrever a Redenção conseguida por Jesus Cristo. A Carta aos Hebreus tem grande interesse em demonstrar a relação entre os rituais da antiga Aliança e os sacramentos da nova Aliança. A diferença é grande. Os Sacramentos são rituais da aliança. Significa que nossa salvação não é simplesmente um decreto da sala do tribunal de um juiz. É o princípio da vida numa família. Agora somos filhos de Deus. Incorporados a Cristo pelo Batismo, nós já – agora – participamos na vida eterna da Trindade, uma vida que esperamos conhecer com maior plenitude no céu. Todas as alianças do antigo testamento se referiam à pertença à família de Deus e gozar da vida que acompanha a essa herança: viver na paz, em meio da abundância, na terra prometida. Jesus veio não para abolir essa aliança senão para construí-lo nela e aperfeiçoá-la. Sabemos agora que nossa terra prometida é maior que qualquer parcela da terra. É o céu.

O papel que desempenharam os juramentos nos rituais antigos da Aliança 
Os velhos rituais da Aliança incluíram quase sempre juramentos, explícita o implicitamente. Quando alguém faz um juramento, invoca o nome de Deus, e assim é como acede ao poder de Deus. Mas também se submete a seu juízo: há bênçãos sobre o cumprimento do juramento, e maldições se ela rompe o juramento. Quando uma testemunha num julgamento põe sua mão na Bíblia, está assumindo sobre si todas as bênçãos que se encontram nesse livro se diz a verdade, e todos os castigos que se encontram nesse livro se mente. É por isso que termina o juramento dizendo “assim me ajude Deus”.

Relação dos juramentos com os Sacramentos
Quando fazemos um juramento, realmente necessitamos a ajuda de Deus. Às vezes os juramentos da antiga aliança eram tácitos, ou atuados melhor que falados. Abraão partiu os corpos dos animais do sacrifício e caminhou entre suas entranhas divididas. Com efeito, ele estava dizendo: “se não sou fiel à aliança, posso sofrer o mesmo destino que estes animais”. Às vezes, entretanto, os termos da aliança eram explícitos, como quando Deus disse aos israelitas: “chamo ao céu e a terra para que testemunhem contra vós hoje, te coloco diante vida e morte, bênção e maldição; portanto escolhe a vida, para que vivas tu e tua descendência… para que possas morar na terra que o Senhor prometeu a teus pais” (Deuteronômio 30, 19-20). Isto é um juramento formal clássico, chamando ao céu para atestar, e invocando bênçãos e maldições. Estas idéias continuam na Igreja de Jesus Cristo. Os primeiros cristãos entendiam os sacramentos como ações da Aliança, e inclusive como juramentos da Aliança. São Paulo entendia certamente assim os Sacramentos. Ele advertiu aos Coríntios que “quem come e bebe o corpo sem discernir, come e bebe seu próprio juízo. Esta é a causa de que muitos de vós sois débeis e enfermos, e alguns morreram” (1Cor 11, 29-30). É preciso recordar que cada juramento invocava maldições que só se poderiam fazer cumprir mediante atos de Deus. Quem não cumpria suas promessas poderia esperar que Deus os visitasse com os severos juízos que eles mesmos haviam invocado. A enfermidade e a morte são exemplos clássicos dos castigos divinos invocados nos convênios antigos.

Mas quando os católicos fazem juramentos na Missa ou noutros Sacramentos…
A maioria das vezes aparece de modo implícito. Igual que os juramentos antigos, nossos juramentos são muitas vezes gestos não verbais. Recorda a Abraão caminhando entre os animais separados? Enquanto sinal ou símbolo há pouca diferença com o sacerdote que levanta o pão e o vinho eucarístico em vasos separados. Essa ação simboliza a separação do corpo e do sangue de Cristo no ato que traçamos em nossos próprios corpos ao princípio da Missa, o sinal da cruz. Esse sinal, como a palavra “amém”, é uma fórmula antiga de juramento. Quando celebramos os Sacramentos, somos selo e renovação de nossa aliança com Jesus Cristo. E essa ação tem consequências. As consequências são impressionantes. Os cristãos não podem retratar-se dos Sacramentos. As consequências disso são muito piores, e eternas. Jesus mesmo nos adverte disto. Do Batismo, Ele disse, “a menos que um nasça da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3, 5). Da Eucaristia, disse, “a menos que comais da carne do Filho do homem e bebais seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 53). Essa expressão ao menos que aparece clara e alta para nós. Estas idéias eram tão importantes para a gente antiga. Hoje, muitos cristãos que se julgam “modernos” não são conscientes delas, porque vivemos numa sociedade que pensa pouco em que os juramentos podem ser rompidos. Não faz muitos anos que acusaram crivelmente a um presidente de uma grande nação de perjúrio, de que mentiu estando baixo juramento. Quantos homens e mulheres violaram escandalosamente seus juramentos no trabalho ou seus compromissos matrimoniais? Esta situação ocorre desde faz muito pouco na história. É uma amostra da carência de uma cultura de fé no poder de Deus de atuar através de nossos juramentos. George Washington disse que uma nação fica ligada por seus juramentos. Não muito antes disso, Miguel de Cervantes considerava que os juramentos tinham tão grande alcance que duvidou em colocá-los em lábios de seus personagens de ficção. O filósofo John Locke disse que os ateus não deveriam ser funcionários, porque seus juramentos são feitos sem sentido. Necessitamos recuperar-nos – e não me refiro só aos católicos – mas, sobretudo temos necessidade de recuperar o sentido da sacralidade dos juramentos. Uma forma de fazer isto é a recuperação do sentido dos juramentos mais sagrados, os Sacramentos. Uma restauração geral dos juramentos seculares conduzirá também aos não católicos a um apreço dos Sacramentos. A Eucaristia é definida pela maioria dos Padres da Igreja, dos Papas e dos estudiosos como o Sacramento mais importante de todos. O segundo Sacramento é o Batismo, porque faz possível o resto de Sacramentos. O Batismo é o ritual da Aliança pela qual nascemos na família de Deus. Os demais Sacramentos renovam, restauram e intensificam a união da Aliança. Em jurar a Deus, por exemplo, no Sacramento do Matrimônio, vemos também que a união é, ao longo da Bíblia, sempre o sinal favorito do Deus da Aliança. A idéia no coração de jurar a Deus é uma idéia bíblica, e a Bíblia é o patrimônio comum de todos os cristãos.

“O que é um juramento? Palavras ditas a Deus! Quando um homem faz um juramento, está consigo mesmo nas mãos como água. Se abrir os dedos, não se encontrará mais”.
Santo Tomás Moro

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