XI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Marcos 4, 26-34

Dizia ainda: «O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro o caule, depois a espiga e, finalmente, o trigo perfeito na espiga. E, quando o fruto amadurece, logo ele lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa.» Dizia também: «Com que havemos de comparar o Reino de Deus? Ou com qual parábola o representaremos? É como um grão de mostarda que, ao ser deitado à terra, é a mais pequena de todas as sementes que existem; mas, uma vez semeado, cresce, transforma-se na maior de todas as plantas do horto e estende tanto os ramos, que as aves do céu se podem abrigar à sua sombra.» Com muitas parábolas como estas, pregava-lhes a Palavra, conforme eram capazes de compreender. Não lhes falava senão em parábolas; mas explicava tudo aos discípulos, em particular.

Neste XI Domingo do Tempo Comum, em sua segunda parte o Evangelista Marcos nos oferece uma coleção de pequenas parábolas de Jesus a respeito do Reino de Deus. Este Reino de Deus deve ser cuidadosamente distinguido da Igreja, a Igreja não é o Reino de Deus, porém as duas realidades não são antagônicas. A Igreja precede o Reino de Deus, é a reunião de todos aqueles que se tornam mediante a fé e o Batismo, candidatos a entrarem um dia no Reino de Deus, porém de alguma maneira ainda que imperfeita, o Reino já se inicia neste mundo. A última parábola de hoje a compara a menor de todas as sementes. Na Palestina o grão de mostarda, quase invisível a olho nu, mas uma vez lançado na terra, ele possui uma força que lhe é própria e independe do agricultor, este uma vez feita a semeadura, pode descansar, dormir, acordar, comer e beber, que a semente se encarrega por si mesma de produzir a germinação e a planta. Esta planta quando cresce se torna o maior de todos os arbustos que podem ser observados às margens do lago da Galiléia, onde Jesus anunciava o Reino de Deus de tal maneira que as aves do céu poderiam fazer lá o seu ninho. O que Jesus queria dizer com um grão insignificante, que se transforma no maior de todos os arbustos? Quer dar-nos a seguinte lição: Deus é discreto em tudo aquilo que faz, e se utiliza de meios humildes, pequenos, insignificantes e não considerados pelos seres humanos. Quem era Jesus no conjunto da Judéia, numa província dependente do Imperador de Roma, diante do Imperador? Um nada, um judeu insignificante e, no entanto ali estava o início de uma grande obra de Deus. Os Imperadores se passaram, a Igreja que antecede ao Reino se impõe sempre mais, apesar de mil dificuldades nos quatro cantos do mundo. Deus é diferente do ser humano. Quando os homens querem fazer grandes coisas, usam a mídia, as televisões, conclamam a imprensa nacional e internacional. Todos se lembram dos espetáculos maravilhosos com os quais se iniciaram as últimas Olimpíadas internacionais. Deus toma a liberdade de ser diferente de todos nós. Tudo que faz é absolutamente singelo humilde e quase não vistoso, no entanto as coisas de Deus possuem uma força tal, que infalivelmente chegam ao escopo que Ele se propôs, ao passo que tanta gritaria, algazarra e estardalhaço por parte dos homens, tanta efervescência, termina muitas vezes em nada. Creia na sua Igreja que cresce em direção ao Reino, apesar das dificuldades que sofre neste mundo.

 

Semeados pela terra
A carta a Diogneto (c. 200) / VI

Aquilo que a alma é no corpo, são-no os cristão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo como os cristãos pelas cidades do mundo. A alma mora no corpo e contudo não é do corpo, como os cristãos moram no mundo mas não são do mundo (Jo 17, 16). Invisível, a alma está aprisionada num corpo visível. Assim também os cristãos: vê-se bem que estão no mundo, mas o culto que rendem a Deus permanece invisível. A carne detesta a alma e faz-lhe guerra, sem razão, porque ela lhe impede a fruição de prazeres; de igual modo, o mundo detesta os cristãos sem qualquer razão, porque eles se opõem aos seus prazeres. A alma ama essa carne que a detesta, e os seus membros, tal como os cristãos amam aqueles que os detestam. A alma está encerrada no corpo; é contudo ela que mantém o corpo. Os cristãos estão como que detidos na prisão do mundo; são contudo eles que mantêm o mundo. Imortal, a alma habita uma tenda mortal; assim os cristãos acampam no corruptível, esperando o incorruptível celeste (1Cor 15,50)… Tão nobre é o posto que Deus lhes confiou, que não lhes é permitido desertar.

 

Décimo Primeiro Domingo Comum
Mc 4, 26-34 “Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”

O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos Evangelhos – “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos. Existe um consenso entre estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, que existem dois termos nos textos evangélicos que provém do próprio Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades, ou seja, “Reino” e Abbá”. Estamos tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da pregação que esquecemos que Ele não pregou a si mesmo mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus como o Reino dos Céus, para evitar o uso do nome de Deus). Toda a vida de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que ele nunca define, pois é uma realidade dinâmica, mas que ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes, e que os leva a tirar as suas próprias conclusões (de fato, várias vezes temos a explicação de uma parábola nos evangelhos, mas, essa nasceu da catequese da comunidade e não teria feito parte da parábola original). O Capítulo 13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a natureza do Reino – ou Reinado – de Deus. No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam apressar a sua chegada – os fariseus através da observância da Lei, os essênios através da pureza ritual, os zelotas, através de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível nem preciso tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele possui uma dinâmica interna de crescimento própria. Como a semente semeada cresce, independente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade. Assim, o texto nos ensina o que Paulo vai ensinar de uma maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros/as missionários/as; ele afirma “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (1Cor 3, 6). Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que a gente relembre que é importante começar com ações pequenas e singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes. Esta parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa. A nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade de semear o Reinado de Deus – ou seja, criar situações onde realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não através do nosso esforço, mas da graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que abriga muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas, confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita!

 

As Leituras do 11º Domingo Comum chamam a nossa atenção para o modo maravilhoso como o Reino de Deus se difunde no mundo.
Tanto Ezequiel como São Marcos utilizam imagens que nos mostram que os seus destinatários eram pessoas ligadas à vida do campo, capazes de facilmente compreenderem o alcance do seu anúncio. A 1ª Leitura situa-nos no tempo de Joaquim (597), rei de Judá, que foi levado para o cativeiro com o povo do seu reino. A árvore frondosa, símbolo da vida de Israel como povo livre, perdera a sua pujança real pelas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, que tinha conquistado Jerusalém. Ezequiel chora com o seu povo a decapitação dessa “árvore elevada”. As esperanças do povo, perante o cumprimento das promessas de Deus feitas aos seus antepassados, ficaram, de certo modo, abaladas. Ezequiel responde às preocupações dos seus compatriotas com a imagem do “ramo de cedro”. E anuncia-lhes que será o próprio Deus a tomar a iniciativa de transplantar uma árvore do monte Sião, a partir de um rebento ou “ramo novo”, tirado do antigo cedro apodrecido. Este ramo ganhará vida, desenvolver-se-á e estenderá o seu império sobre o mundo. Este “ramo novo”, símbolo do pequeno “resto” do povo que se manteve fiel a Deus, transformar-se-á numa grande árvore, sinal do povo messiânico dos últimos tempos. Esta profecia realizou-se na pessoa de Jesus e na Sua Igreja. Jesus, “ramo” da família de David, foi o “rebento novo” que Deus fez brotar da árvore já caduca de Israel. Com Ele surgiu a grande árvore do Reino de Deus, a Igreja. É sob esta árvore que todos os homens podem encontrar abrigo. No Evangelho, Marcos diz-nos que o Reino, anunciado por Jesus, não aparece de um momento para o outro. O evangelista emprega um conjunto de narrativas similares, orientadas para justificar a atitude do Messias face ao aparente fracasso da Sua pregação ao serviço do Reino. Na parábola do lavrador paciente, o Reino de Deus é comparável ao lento crescimento de uma semente, que, “sem ele saber como”, vai germinando e amadurecendo até a colheita. É interessante notar que, dos quatro versículos que compõem a parábola, três deles destinam-se a descrever o processo misterioso do crescimento: a semente cresce, desenvolve-se sem que o homem intervenha. Quer durma ou vigie, o resultado é o mesmo. Com esta parábola, Jesus pretende dizer aos Seus ouvintes que a construção do Reino é, fundamentalmente, obra de Deus. Ao homem compete semear, ser instrumento apto nas mãos do Senhor. O tempo da colheita virá no momento oportuno. É preciso esperar, com paciência e serenidade, a manifestação da vida da fé como ação de Deus. Por mais que a nossa pregação seja eloquente e incisiva, o crescimento da fé e o seu frutificar no coração de cada homem depende da ação de Deus. A comunidade primitiva teve muito a peito esta catequese de Marcos, na sua pregação missionária. As dificuldades, e até os insucessos, deveriam ser aceites com serenidade e confiança, tendo presente que é Deus que dá o incremento. A aproximação do Reino de Deus impelia a comunidade a anunciar o Evangelho com alegria e constância. Aquilo que importa, não é a contagem matemática do tempo, mas a presença de Deus, que atua no silêncio e conhece o dia e a hora da colheita. A parábola exige de cada membro da Igreja um comportamento semelhante: abandonar-se confiadamente nas mãos de Deus e deixar-se conduzir por Ele. Deus atua silenciosamente e faz amadurecer a Sua semente, numa serenidade de espírito, que constrói a paz e fortalece a consciência do crente. A 2ª Leitura só se poderá compreender, se tivermos presentes os primeiros versículos do capítulo 5 da 2ª Carta aos Coríntios. No versículo 6, São Paulo recorre a novas imagens. Para ele, viver significa estar no exílio, longe de Cristo Senhor. Morrer significa encontrar o Senhor na pátria celeste. Cristo Ressuscitado foi elevado ao céu. Como Senhor glorificado, Ele encontra-se num modo de existência diferente, para o qual o cristão vai caminhando. Mas a terminologia com que Paulo procura descrever, nesta passagem, o destino de glória que nos espera, é pouco precisa, uma vez que não tem experiência dela. Contudo, isto é um bem, porque permite encarar a vida presente como uma caminhada “na fé” para essa glória. O importante é estar e viver em Cristo no tempo presente. A vivência cristã, nesta perspectiva Paulina, não é uma fantasia. Ela informa a vida no seu conjunto e nos seus pormenores. Viver cristãmente é estar determinado e comprometido “em agradar ao Senhor”, em “estar com o Senhor”. Para São Paulo, o mais importante é o modo como nos comportamos enquanto vivemos na fé, pois disto depende a sentença no juízo “perante o tribunal de Cristo”. “Enquanto habitarmos neste corpo” não podemos cruzar os braços. A graça não dispensa o nosso empenhamento numa vida ativa e digna.

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