O Coração de Jesus e a Eucaristia

“Quem poderá descrever dignamente as pulsações do Coração divino do Salvador, indícios de seu amor infinito, naqueles momentos em que oferecia à humanidade seus dons mais preciosos, a si mesmo no sacramento da eucaristia, sua Mãe santíssima e o sacerdócio? Ainda antes de celebrar a última ceia com seus discípulos, ao pensar que iria instituir o sacramento de seu corpo e de seu sangue, cuja efusão iria confirmar a nova aliança, o Coração de Jesus manifestara intensa comoção, revelada por ele aos apóstolos com estas palavras: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” (Lc 22,15). Mas sua emoção atingiria o ápice quando tomou o pão, rendeu graças, partiu-o e ofereceu-lhes, dizendo: “Este é o meu corpo, dado por vós. Fazei isto em minha memória. Do mesmo modo, depois da ceia, deu o cálice dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que por vós será derramado” (Lc 22,19-20)” (Pio XII, Encíclica Haurietis Aquas, 33-34).

Essas observações do Papa Pio XII, na encíclica que se tornou ponto de referência quando se estuda a espiritualidade do Coração de Jesus, motiva-nos a apresentar a fundamentação bíblica dessa devoção (O coração na Bíblia e O Coração Traspassado) e a analisar o dom mais precioso do Coração de Jesus – aquele que nasceu de um desejo ardente e num momento especialíssimo de sua vida e missão: a Eucaristia (“Desejei ardentemente”, Memorial da morte e ressurreição e O que mais poderia Jesus ter feito por nós?). O coração na Bíblia Na introdução de um livro que escreveu sobre o Coração de Jesus, o teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) afirmou que “no futuro do mundo e da Igreja, o homem e a mulher serão místicos, isto é, pessoas com profunda experiência religiosa, ou não serão mais cristãos”. Os místicos, segundo ele, serão capazes de compreender de maneira nova e radical o sentido da expressão Coração de Jesus. Coração de Jesus, Sagrado Coração de Jesus: terá ainda sentido essa devoção? Não será uma forma ultrapassada de expressão religiosa, própria de outras épocas e culturas? Afinal, ao longo dos séculos, homens e mulheres relacionaram-se com Deus utilizando-se de palavras, expressões e gestos tirados de seu mundo, de seu tempo e de sua realidade. Por isso mesmo, muitas devoções e manifestações religiosas, largamente difundidas em determinadas épocas ou lugares, aos poucos caíram em desuso. Todos admitem que tiveram seu valor mas, hoje, ninguém mais lhes dá importância. Não teria acontecido o mesmo com a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, tão difundida nos séculos dezoito e dezenove? A história da Igreja nos ensina que as expressões de fé que têm base bíblica conseguem ultrapassar culturas, épocas e costumes e permanecem sempre. Ora, a base da espiritualidade do Coração de Jesus está na Bíblia. Nela encontramos, somente no Antigo Testamento, 853 vezes a palavra “coração” – por exemplo, na promessa: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26). No Novo Testamento, essa palavra aparece 159 vezes. Na maioria delas, mais do que se referir ao órgão físico, sintetiza a interioridade da pessoa, sua intimidade e o mais profundo do seu ser. É o que percebemos no convite de Jesus: “Vinde a mim vós todos que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,28-29). Quem penetra nesse Coração manso e humilde passa a compreender a razão de sua predileção pelos pecadores, pobres e aflitos; partilha de seu ardente amor pelo Pai; descobre as dimensões de seu amor e sente-se motivado a se jogar com confiança nele. É o caso do apóstolo S. Paulo, que fez tão profunda experiência da intimidade de Cristo que passou a insistir: “Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,17-19). Um biblista belga, Ignace de la Potterie[1], escrevendo sobre a intimidade de Cristo, isto é, sobre seu “coração”, insiste que Jesus tinha consciência de ser ele mesmo “o Reino de Deus”. Converter-se e crer no Evangelho quer dizer converter-se a Jesus, penetrar na intimidade de seu Coração e viver dele e por ele. É isso que entendemos, por exemplo, com a invocação: “Coração de Jesus, rei e centro de todos os corações”. Entramos em seu reino, isto é, penetramos em sua interioridade, quando começamos a reconhecê-lo como Rei e Senhor, quando aceitamos que seja ele a reinar em nossos corações. Damos outro passo no conhecimento de sua intimidade quando descobrimos as razões e os modos de sua obediência ao Pai. Jesus foi obediente não só para nos deixar um exemplo, mas porque tinha clara consciência de ser, acima de tudo, Filho. Tendo uma profunda intimidade com o Pai e, sabendo-se infinitamente amado por ele, como não lhe obedecer? A obediência era-lhe, pois, natural, e até mais do que isso: uma agradável obrigação de todo o seu ser. Obedecendo, vivia, mais do que em qualquer outra circunstância, a condição de Filho. Deus é seu “Abbá”, seu Pai querido. O Coração Traspassado Também o apóstolo e evangelista João refere-se à intimidade de Cristo, ao seu “coração”, mas de outra maneira. Presente no Calvário quando Jesus consumava sua obra, o evangelista relata com pormenores o que testemunhou: “Era o dia de preparação do sábado, e esse seria solene. Para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas, primeiro a um dos crucificados com ele e depois ao outro. Chegando a Jesus viram que já estava morto. Por isso, não lhe quebraram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. (Aquele que viu dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; ele sabe que fala a verdade, para que vós, também, acrediteis.) Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: “Não quebrarão nenhum dos seus ossos”. E um outro texto da Escritura diz: “Olharão para aquele que traspassaram” (Jo 19,31-37). “Olharão para aquele que traspassaram”. S. João vê no Coração traspassado de Jesus um sinal escolhido por Deus para testemunhar seu amor. Vê nesse sinal o maior prodígio da História da Salvação; a maior epifania do amor de Deus; o ponto mais alto e a síntese de todo o mistério pascal. Não vê esse fato como casual, mas como um acontecimento projetado por Deus e até anunciado no Antigo Testamento (Ex 12,46; Zc 12,10). O sangue que sai do lado de Cristo é sinal de libertação (Ex 12,7,13); por ele concretiza-se a nova aliança (Ex 24,8): “Este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados” (Mt 26,28). Assim, no Coração aberto de seu Filho, Deus marca um encontro conosco, mostra-nos sua misericórdia e nos dá seu abraço de Pai. A água que sai do lado de Cristo é a “água viva”, prometida por Jesus à Samaritana (cf. Jo 4,10-14): quem dela beber, “nunca mais terá sede”. É, também, a água prometida a todos “no último e mais importante dia da festa” das Tendas[2]: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim” – conforme diz a Escritura: “Do seu interior correrão rios de água viva” (Jo 7,37-38). Ao evangelista João não interessa somente o que sai – sangue e água –, mas de onde sai: do lado aberto do Coração de Cristo, de seu Coração traspassado. Sagrado Coração de Jesus, portanto, é um outro nome que a Igreja dá ao Traspassado na Cruz. Desde os primeiros tempos de sua história, a Igreja elevou seu olhar para o Coração de Cristo, ferido pela lança do soldado na Cruz. Olhando para aquele que foi traspassado, queria penetrar na intimidade de seu Senhor. Desse olhar nasceu uma descoberta, que o Concílio Vaticano II (1962-1965) assim resumiria: ele nos “amou com um coração humano” (GS, 22). “Desejei ardentemente” O Papa Pio XII destacou que, ao instituir a Eucaristia, seu dom mais precioso, o Coração de Jesus deixou que seus sentimentos se manifestassem abertamente: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” (Lc 22,15). A instituição da Eucaristia aconteceu, pois, por premeditação de Jesus e não por mera iniciativa dos apóstolos. Diante da proximidade da festa da Páscoa, eles perguntaram ao Mestre: “Onde queres que preparemos a ceia pascal?” (Mt 26,17). Os apóstolos eram judeus e deviam participar anualmente dessa celebração. Tinham aprendido a fazer memória[3] da ação libertadora operada por Javé, no Egito. Em resposta à pergunta, Jesus lhes deu as devidas orientações (“Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a ceia pascal em tua casa, junto com meus discípulos’” – Mt 26,18) e eles procuraram executá-las (“Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a ceia pascal” – Mt 26,19). Ao anoitecer daquela quinta-feira – ou, para usar uma expressão do evangelista Lucas: “quando chegou a hora” (Lc 22,14) –, reunido com os apóstolos, Jesus lhes abriu seu coração. Em nenhuma outra oportunidade havia expressado tão claramente seus sentimentos; em nenhum outro momento falara tão abertamente do que ia no mais profundo de seu ser: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” (Lc 22,15). Depois de antecipar que não mais comeria a páscoa com eles, “até que ela se realize no Reino de Deus” (Lc 22,16), fez uma série de gestos que os apóstolos só entenderiam mais tarde, em Pentecostes: “Tomou o pão, deu graças, partiu-o e lhes deu, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim’. Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós’” (Lc 22,17-20). “Desejei ardentemente…” Jesus deixou claro que aquele momento e aquele acontecimento não estavam sendo improvisados. Foram preparados e desejados por ele. Se para ele era um momento importante, emocionante até, o que foi para os apóstolos? Pouco ou nada entenderam do que Jesus fez e falou. É o que se conclui pelo que aconteceu em seguida: “Ora, houve uma discussão entre eles sobre qual deles devia ser considerado o maior” (Lc 22,24). Certamente, Jesus não se surpreendeu com tal discussão: havia antecipado que só com a vinda do Espírito Santo eles entenderiam suas palavras e obras. Realmente, “quando chegou o dia de Pentecostes” (At 2,1), os apóstolos compreenderam a extensão do “Desejei ardentemente…” e da ordem: “Fazei isso em memória de mim!” (Lc 22,19) – ordem que os primeiros cristãos levaram muito a sério, a ponto de serem “assíduos… à fração do pão” (At 2,42). Memorial da morte e ressurreição “Quando a igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, esse acontecimento central da salvação torna-se realmente presente e com ele se realiza também a obra de nossa redenção. Esse sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos, como se a ele tivéssemos estado presentes. Assim, cada fiel pode tomar parte na obra da redenção, alimentando-se de seus frutos inexauríveis.” (EE, 11). Essa verdade de fé, esse mistério – “mistério grande, mistério de misericórdia” –, fez nascer uma pergunta no coração de João Paulo II: “O que mais poderia Jesus ter feito por nós?” O próprio Papa, maravilhado com a grandeza desse mistério, exclamou: “Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até o fim (cf. Jo 13,1), um amor sem medida” (id.). Estamos convictos de que: (1º) o memorial da morte e ressurreição do Senhor encontra-se à nossa disposição e podemos participar da obra de nossa redenção “como se tivéssemos estado presentes”; 2º) de diversas maneiras Jesus cumpre, na Igreja, a promessa que fez: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20), sendo que, na Eucaristia, essa presença é especial (cf. EE 1); (3º) a Igreja vive da Eucaristia; nutre-se desse pão vivo (cf. EE 7); (4º) a Eucaristia é o que a Igreja tem de mais precioso para oferecer ao mundo (cf. EE 9). Diante dessas certezas, só nos resta perguntar: que impacto tem a Eucaristia em nosso dia-a dia? A participação nesse “mistério da fé” é, realmente, o momento mais importante de nossa vida? “Desejei ardentemente comer esta Páscoa antes de sofrer”. Somos convidados a ver a Eucaristia a partir da perspectiva do Coração de Jesus. Reunido com os apóstolos, na noite daquela memorável quinta-feira, ele procurou dizer-lhes que não nos estava deixando apenas uma série de ensinamentos e de lembranças. Era sua própria pessoa que nos oferecia em testamento. Concretizava, dessa maneira, a nova aliança com o Pai. Ele se oferecia pela salvação do mundo. Na Eucaristia aplica, aos homens e às mulheres de hoje, a reconciliação obtida, de uma vez para sempre, para a humanidade de todos os tempos (cf. EE 12), já que torna presente o sacrifício da Cruz. Não é mais um sacrifício, nem se multiplica. O que se repete é a celebração memorial (cf. EE 12). Participando da Eucaristia, aprendemos com Jesus a “lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14), num serviço fraterno que se expressará sob mil formas e em inúmeras circunstâncias, numa extensão da Eucaristia. O que mais poderia Jesus ter feito por nós? Depois da consagração, o Presidente da celebração eucarística aclama: Eis o mistério da fé! Realmente, a Eucaristia não é um dos tantos mistérios, mas é “o” mistério da fé. É fonte da vida da Igreja, pois dela é que nasce a graça; é, também, seu ponto mais alto, pois é para a Eucaristia que tende sua ação, suas orações e seus trabalhos pastorais. Por ela se obtém a santificação dos homens e a glorificação de Deus. Como deve ocupar o lugar central na vida cristã, toda a atividade cristã deve ser organizada em vista da Eucaristia. À aclamação do Presidente da celebração, o povo responde: Anunciamos, Senhor, a vossa morte; proclamamos a vossa ressurreição; vinde, Senhor Jesus! Anunciar a morte do Senhor até que ele venha inclui transformar a vida, que se deve tornar eucarística (cf. EE 20). Somos chamados a unir-nos a Cristo, sacerdote e vítima, associando-nos à oferta que faz de si mesmo pela salvação da humanidade. É com Cristo Eucarístico que aprendemos a viver a identidade entre ministro e vítima. Também nós devemos desejar ardentemente celebrar a Páscoa, pois em nenhum momento somos tão fortes, tão úteis e eficazes como nesse, em que nos oferecemos a Cristo; com Cristo nos oferecemos ao Pai; e oferecemos ao Pai, “por Cristo, com Cristo, em Cristo”, toda a humanidade. Cada vez que formos para o altar deveremos levar a realidade que nos envolve – realidade feita de esperanças e alegrias, mas também de sofrimentos e insucessos. Damos, assim, nossa contribuição pessoal ao sacrifício redentor de Cristo. Com ele, aprendemos a ser pão partido e repartido para vida do mundo – isto é, descobrimos que não se pode comer o corpo do Senhor e beber seu sangue, e permanecer insensível diante da situação dos irmãos. A Eucaristia é também comunhão: não só cada um de nós recebe Cristo, mas Cristo recebe cada um de nós (cf. EE 22). Unindo-nos a ele, que possui a vida divina em plenitude, participamos de sua vida divina: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, possui a vida eterna” (Jo 6,54). Quem recebe a Eucaristia, recebe, pois, o germe da ressurreição: “Quem come deste pão viverá eternamente” (Jo 6,58). Celebrar a Eucaristia é esperar a vinda gloriosa de Jesus Cristo; é unir-se à liturgia celeste, associando-se àquela multidão imensa que grita: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro” (Ap 7,10). “A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar nosso caminho” (EE, 19). “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” . Precisamos alimentar em nosso coração os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5). Quando nossos sentimentos forem os dele, não só poderemos dizer: “Eu vivo, mas não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim!” (Gl 2,20), como também concluiremos que “o divino Redentor foi crucificado mais pela força do amor do que pela violência de seus algozes; e seu voluntário holocausto é o dom supremo que seu Coração fez a cada um dos homens” (HA, 37). Ou, como o apóstolo São Paulo, proclamaremos com convicção: “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). O que mais poderia o Coração de Jesus ter feito por nós?…

[1] DE LA POTTERIE, I. Il mistero del Cuore trafitt -. Fondamenti biblici della spiritualità del Cuore di Gesù. Bolonha – Itália, Dehoniane, 1988.
[2] Festa das Tendas (ou: do Tabernáculo; ou: da Dedicação): Festa do fim da colheita, especialmente da uva, no início do outono da Palestina (set/out), a mais festiva das festas de romaria (Páscoa, Pentecostes e Tendas). Originalmente pernoitava-se nas cabanas de folhagens nos vinhedos, mais tarde, interpretadas como lembrança das tendas no deserto, quando do êxodo do Egito. Tanto o templo de Salomão como o de Zorobabel (2º templo) foram inaugurados nesta festa, motivo pelo qual ela é também chamada de Festa da Dedicação do Templo. Foi em uma delas que Esdras fez a grande leitura da Lei (fundação do judaísmo: Ne 8-9). (Cf. Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, Glossário).
[3] Memória: o fato recordado é o evento salvífico de Deus, que se renova na história, atualizando-se. Nesse sentido, a eucaristia não é só recordação, mas o sacrifício de Cristo em ação, no hoje da Igreja, a tensão para a realidade gloriosa de Cristo ressuscitado. (Dicionário Enciclopédico das Religiões, Vozes).

 

Eucaristia no Direito Canônico 
Do Código de Direito Canônico da Igreja Católica
www.cleofas.com.br

Face à importância da Santíssima Eucaristia na vida da Igreja, transcrevemos aqui os cânones (artigos) mais importantes sobre as normas que regem este augusto Sacramento. Como são poucas as pessoas leigas que têm acesso ao Código de Direito Canônico da Igreja, achamos oportuno mostrar este assunto.

Cân. 897 – Augustíssimo sacramento é a santíssima Eucaristia, na qual se contém, se oferece e se recebe o próprio Cristo Senhor e pela qual continuamente vive e cresce a Igreja. O Sacrifício eucarístico, memorial da morte e ressurreição do Senhor, em que se perpetua pelos séculos o Sacrifício da cruz, é o ápice e a fonte de todo o culto e da vida cristã, por ele é significada e se realiza a unidade do povo de Deus, e se completa a construção do Corpo de Cristo. Os outros sacramentos e todas as obras de apostolado da Igreja se relacionam intimamente com a santíssima Eucaristia e a ela se ordenam.

Cân. 899 § 1. A celebração da Eucaristia é ação do próprio Cristo e da Igreja, na qual, pelo mistério do sacerdote, o Cristo Senhor, presente sob as espécies de pão e de vinho, se oferece a Deus Pai e se dá como alimento espiritual aos fiéis unidos à sua oblação.

Cân. 900 § 1. Somente o sacerdote validamente ordenado é o ministro que, fazendo as vezes de Cristo, é capaz de realizar o sacramento da Eucaristia.

Cân. 904 – Lembrando-se sempre que no mistério do Sacrifício eucarístico se exerce continuamente a obra da salvação, os sacerdotes celebrem freqüentemente; e mais, recomenda-se com insistência a celebração cotidiana, a qual, mesmo não se podendo ter presença de fiéis, é um ato de Cristo e da Igreja, em cuja realização os sacerdotes desempenham seu múnus principal.

Cân. 907 – Na celebração eucarística, não é lícito aos diáconos e leigos proferir as orações, especialmente a oração eucarística, ou executar as ações próprias do sacerdote celebrante.

Cân. 908 – É proibido aos sacerdotes católicos concelebrar a Eucaristia junto com sacerdotes ou ministros de Igrejas ou comunidades que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica.

Cân. 913 § 1. Para que a santíssima Eucaristia possa ser ministrada às crianças, requer-se que elas tenham suficiente conhecimento e cuidadosa preparação, de modo que, de acordo com sua capacidade, percebam o mistério de Cristo e possam receber o Corpo do Senhor com fé e devoção. § 2. Contudo, pode-se administrar a santíssima Eucaristia às crianças que estiverem em perigo de morte, se puderem discernir o Corpo de Cristo do alimento comum e receber a comunhão com reverência.

Cân. 916 – Quem está consciente de pecado grave não celebre a missa nem comungue o Corpo do Senhor, sem fazer antes a confissão sacramental, a não ser que exista causa grave e não haja oportunidade para se confessar; nesse caso, porém, lembre-se que é obrigado a fazer um ato de contrição perfeita, que inclui o propósito de se confessar quanto antes.

Cân. 917 – Quem já recebeu a santíssima Eucaristia pode recebê-la no mesmo dia, somente dentro da celebração eucarística em que participa, salva a prescrição do cânon 921 §2 (perigo de morte).

Cân. 918 – Recomenda-se sumamente que os fiéis recebam a sagrada comunhão na própria celebração eucarística; seja-lhes, contudo, administrada fora da missa quando a pedem por causa justa, observando-se os ritos litúrgicos.

Cân. 919 § 1. Quem vai receber a sagrada Eucaristia abstenha-se de qualquer comida ou bebida, excetuando-se somente água e remédio, no espaço de ao menos uma hora antes da sagrada comunhão (exceção para pessoas idosas e enfermas e quem cuida delas, §3).

Cân. 920 § 1. Todo fiel, depois que recebeu a sagrada Eucaristia pela primeira vez, tem a obrigação de receber a sagrada comunhão ao menos uma vez por ano. §2. Esse preceito deve ser cumprido no período pascal, a não ser que, por justa causa, sejam confortados com a sagrada comunhão como viático.

Cân. 921 § 1. Os fiéis em perigo de morte, proveniente de qualquer causa, sejam confortados com a sagrada comunhão como viático. § 2. Mesmo que já tenham comungado nesse dia, recomenda-se vivamente que comunguem de novo aqueles que vierem a ficar em perigo de morte. § 3. Persistindo o perigo de morte, recomenda-se que seja administrada a eles a sagrada comunhão mais vezes em dias diferentes.

Cân. 844 §2. Sempre que a necessidade o exigir ou verdadeira utilidade espiritual o aconselhar, e contanto que se evite o perigo de erro ou indiferentismo, é lícito aos fiéis, a quem for física ou moralmente impossível dirigir-se a um ministro católico, receber os sacramentos da penitência, Eucaristia e unção dos enfermos de ministros não-católicos, em cuja Igreja ditos sacramentos existem validamente.

Cân. 924 §1. O sacrossanto Sacrifício eucarístico deve ser oferecido com pão e vinho, e a este se deve misturar um pouco de água. §2. O pão deve ser só de trigo e feito recentemente, de modo que não haja perigo algum de deterioração. §3. O vinho deve ser natural, do fruto da videira e não deteriorado.

Cân. 925 – Distribua-se a sagrada comunhão só sob a espécie de pão ou, de acordo com as leis litúrgicas, sob ambas as espécies; mas, em caso de necessidade, também apenas sob a espécie de vinho.

Cân. 927 – Não é lícito, nem mesmo urgindo extrema necessidade, consagrar uma matéria sem a outra, ou mesmo consagrá-las a ambas fora da celebração eucarística.

Cân. 929 – Sacerdotes e diáconos, para celebrarem ou administrarem a Eucaristia, se revistam dos paramentos sagrados prescritos pelas rubricas.

Cân. 931 §1. A celebração eucarística deve realizar-se em lugar sagrado, a não ser que, em caso particular, a necessidade exija outra coisa; nesse caso, deve-se fazer a celebração em lugar decente. §2. O sacrifício eucarístico deve realizar-se sobre altar dedicado ou benzido; fora do lugar sagrado, pode ser utilizada uma mesa conveniente, mas sempre com toalha e corporal.

Cân. 934 §2. Nos lugares em que se conserva a santíssima Eucaristia deve sempre haver alguém que cuide dela e, na medida do possível, um sacerdote celebre missa aí, pelo menos duas vezes por mês.

Cân. 935 – A ninguém é licito conservar a Eucaristia na própria casa ou levá-la consigo em viagens, a não ser urgindo uma necessidade pastoral e observando-se as prescrições do Bispo diocesano.

Cân. 937 – A não ser que obste motivo grave, a igreja em que se conserva a santíssima Eucaristia seja aberta todos os dias aos fiéis, ao menos durante algumas horas, a fim de que eles possam dedicar-se à oração diante do santíssimo Sacramento.

Cân. 938 §1. Conserve-se a santíssima Eucaristia habitualmente em um só tabernáculo da igreja ou oratório. §2. O tabernáculo em que se encontra a santíssima Eucaristia esteja colocado em alguma parte da igreja ou oratório que seja insigne, visível, ornada com dignidade e própria para a oração. §3. O tabernáculo em que habitualmente se conserva a santíssima Eucaristia seja inamovível, construído de madeira sólida e não transparente, e de tal modo fechado, que se evite o mais possível o perigo de profanação. §4. Por motivo grave, é lícito conservar a santíssima Eucaristia, principalmente à noite, em algum lugar mais seguro e digno. §5. Quem tem o cuidado da igreja ou oratório providencie que seja guardada com o máximo cuidado a chave do tabernáculo onde se conserva a santíssima Eucaristia.

Cân. 939 – Conservem-se na píxide ou âmbula hóstias consagradas em quantidade suficiente para as necessidades dos fiéis; renovem-se com freqüência, consumindo-se devidamente as antigas.

Cân 940 – Diante do tabernáculo em que se conserva a santíssima Eucaristia, brilhe continuamente uma lâmpada especial, com a qual se indique e se reverencie a presença de Cristo.

Cân. 943 – Ministro da exposição do santíssimo Sacramento e da bênção eucarística é o sacerdote ou diácono; em circunstâncias especiais, apenas da exposição e remoção, mas não da bênção, é o acólito, um ministro extraordinário da comunhão eucarística, ou outra pessoa delegada pelo Ordinário local, observando-se as prescrições do Bispo diocesano. Estas normas são completadas com as disposições definidas pela Sagrada Congregação Para o Sacramento e o Culto Divino, da Cúria Romana, sempre aprovadas pelo Papa, antes de entrar em vigor na vida da Igreja.

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda