Ascensão do Senhor – Ano B

Por Pe. Fernando José Cardoso

Atos 1, 11-11; Efésios 1, 17-23; Marcos 16, 15-20

A solenidade da Ascensão de Jesus «ao céu» é uma ocasião para que esclareçamos de uma vez por todas as idéias sobre o que entendemos por «céu». Em quase todos os povos, o céu identifica-se com a morada da divindade. Também a Bíblia utiliza esta linguagem espacial. «Glória a Deus no alto do céu e paz na terra aos homens». Com a chegada da era científica, este significado religioso da palavra «céu» entrou em crise. Para o homem moderno, o céu é o espaço no qual se move nosso planeta e todo o sistema solar, e nada mais. Conhecemos a fala atribuída a um astronauta soviético, de volta de sua viagem pelos cosmos: «Percorri muito o espaço e não encontrei Deus por nenhuma parte!». Deste modo, é importante esclarecer o que entendemos nós, os cristãos, quando dizemos «Pai nosso que estás nos céus», ou quando dizemos de alguém que «foi ao céu». A Bíblia adapta-se, nestes casos, ao modo de falar popular; mas ela bem sabe e ensina que Deus «está no céu, na terra e em todo lugar», que é Ele quem «criou os céus», e se os criou não pode estar «fechado» neles. Que Deus esteja «nos céus» significa que «vive em uma luz inacessível»; que dista de nós «quanto o céu eleva-se sobre a terra». Em outras palavras, que é infinitamente diferente de nós. O céu, em sentido religioso, é mais um estado que um lugar. Deus está fora do espaço e do tempo e assim é seu paraíso. À luz do que dissemos, o que significa proclamar que Jesus «subiu ao céu»? Encontramos a resposta no Credo: «Subiu ao céu e está sentado à direita do Pai». Que Cristo tenha subido ao céu significa que «está sentado à direita do Pai, isto é, que, também como homem, entrou no mundo de Deus; que foi constituído, como diz São Paulo na segunda leitura, Senhor e cabeça de todas as coisas. Jesus subiu ao céu, mas sem deixar a terra. Só saiu de nosso campo visual. Ele mesmo nos assegura: «Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo» (Mateus 28, 16-20. Ndt). As palavras do anjo –«Galileus, o que fazeis olhando para o céu?»– contêm, portanto, uma advertência, se não uma velada rejeição: não devem ficar olhando para cima, ao céu, como para descobrir aonde vai estar Cristo, mas sim viver na espera de sua volta, prosseguir sua missão, levar seu Evangelho até os confins da terra, melhorar a qualidade da vida na terra. Quando se trata de nós, «ir ao céu» ou «ao paraíso» significa estar «com Cristo» (Flp 1, 23). «Vou preparar para vós um lugar… para que onde eu esteja, estejais também vós» (João 14, 2-3). O «céu», entendido como lugar de descanso, da recompensa eterna dos bons, forma-se no momento em que Cristo ressuscita e sobe ao céu. Nosso verdadeiro céu é Cristo ressuscitado, com quem iremos nos reunir e formar «corpo» depois de nossa ressurreição, e de maneira provisória e imperfeita imediatamente após a morte. Portanto, Jesus não ascendeu a um céu já existente que o esperava, mas foi formar e inaugurar o céu para nós. Há quem se pergunta: mas o que faremos «no céu» com Cristo toda a eternidade? Não nos aborreceremos? Respondo: aborrece talvez estar bem e com ótima saúde? Perguntai aos enamorados se se aborrecem de estar juntos. Quando acontece que se vive um momento de intensa e pura alegria, não nasce em nós o desejo de que dure para sempre, de que não acabe jamais? Aqui embaixo tais estados não duram para sempre, porque não existe objeto que possa satisfazer indefinidamente. Com Deus é diferente. Nossa mente encontrará nele a Verdade e a Beleza que nunca acabará de contemplar, e nosso coração o Bem do qual jamais se cansará de desfrutar.

 

Evangelho segundo São Marcos 16, 15-20

E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demônios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão-de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.» Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.

Hoje, domingo, em todo Brasil celebramos a Ascensão do Nosso Senhor Jesus Cristo. “Povos todos batei palmas – nos convida o Salmista – aclamai a Deus com hinos de alegria. Na verdade a Ascensão, num primeiro momento, pode ter deixado os Apóstolos desconcertados. Isto se pode notar claramente na primeira leitura, retirada dos atos de Lucas. Estão estupefatos, surpresos, todos olhando para o céu, até não poderem mais divisar Jesus, porque uma nuvem O encobriu de seus olhos. Estavam acostumados a presença de Jesus, agora Ele está ausente. Para onde foi? Aonde é o Céu? Como está e o que faz Jesus no Céu?  Podemos nós aqui na Terra olhar para Jesus no Céu? Podemos nós aqui na terra, conversar com Jesus no Céu? No entanto, apesar de uma aparente tristeza, os discípulos estavam felizes. Na verdade Jesus havia realizado uma longa peregrinação. Da Galiléia a Jerusalém, a paixão e morte. Agora do alto do Calvário sobe ao mais alto dos Céus. Jesus é Glorificado diante de Deus. Ele deixa uma presença física, para inaugurar uma outra presença, não física. Jesus abandona para sempre, com Sua morte e ressurreição, uma presença ligada ao tempo e espaço, para inaugurar uma outra, não mais relacionada e sujeita ao tempo e o espaço. Antes da Páscoa, se Jesus estivesse aqui, não poderia estar ali. Se Jesus falasse com esse, não poderia falar com aquele. Quando, com sua humanidade, penetra em Deus, possui uma presença difusa; Ele não está mais ligado nem ao tempo, nem ao espaço. Ele pode estar presente, para nós que acreditamos, em qualquer lugar e a qualquer momento. Jesus não está presente na sua Igreja e cada um de nós, apenas externamente, mas interiormente presente. Esta presença é superior à presença externa. Agora, a partir da Ascensão, é hora da Igreja peregrinar, e ela o fará longamente, até o final dos tempos, pelos quatros cantos da Terra, divulgando a boa mensagem e o bom odor de Cristo, para todo homem e toda mulher de boa vontade. Se Deus encurtasse o tempo e imediatamente viesse o fim do mundo, não haveria tempo para que nascêssemos, mas o número dos eleitos de Deus não está completo ainda. O Evangelho deve ser difundido. E esse é o tempo da Igreja, que vai da Ascensão, até a Sua segunda volta. A Igreja tem consciência de ser abandonada por Ele. Não é um barco abandonado ao furor das ondas. Apesar de todos os contratempos, a Igreja é sempre igual a si mesma, e caminha em direção à Pátria definitiva. Nós agradecemos a Deus por fazer parte desta barca e desta Igreja.

 

«Eles não são deste mundo como Eu não sou deste mundo»
Cardeal John Henry Newman (1801-1890), sacerdote, fundador de comunidade religiosa, teólogo
PPS, vol. 6, n° 15 «Rising with Christ»

Começai desde já, neste tempo santo de Páscoa, a vossa ressurreição com Cristo. Vede como Ele vos estende a mão! Ele ressuscita; ressuscitai com Ele! Saí do túmulo do velho Adão, abandonai as vossas preocupações, as invejas, as inquietações, as ambições mundanas, a escravatura do hábito, o tumulto das paixões, os fascínios da carne, o espírito frio, terra a terra e calculista, a ligeireza, o egoísmo, a preguiça, a vaidade e as manias de grandeza. Esforçai-vos doravante por fazer o que vos parece difícil, mas que não deveria, e não deve, ser negligenciado: velai, rezai e meditai. […] Mostrai que o vosso coração, as vossas aspirações e toda a vossa vida estão com o vosso Deus. Reservai em cada dia algum tempo para ir ao Seu encontro. […] Não vos peço que abandoneis o mundo nem que abandoneis os vossos deveres nesta terra, mas sim que retomeis a posse do vosso tempo. Que não consagreis horas inteiras ao lazer ou à vida em sociedade enquanto apenas consagrais alguns instantes a Cristo. Que não rezeis unicamente quando estais cansados e à beira de adormecer; que não vos esqueçais por completo de O louvar ou de interceder pelo mundo e pela Igreja. Comportai-vos segundo as palavras da Sagrada Escritura: «Procurai as realidades lá de cima». Mostrai a vossa pertença a Cristo, pois o vosso coração «ressuscitou com Ele» e «a vossa vida está oculta n’Ele» (Col 3,1-3).

 

ASCENDER HOJE COM CRISTO
Padre Fábio de Melo

É providencial o tema de hoje a partir da festa da ascensão. Toda festa cristã, não é outra coisa senão um convite a celebrar o humano que no Cristo se esconde. O meu destino como homem, está escondido inteiro no destino de Cristo. ‘Cristo é a terra prometida, aquilo que nós precisamos almejar’ Nosso destino não é Adão, somos filhos de Adão, mas somos convidados a ser o Cristo. Cristo é a terra prometida, aquilo que nós precisamos almejar. Quanto mais eu saio da minha condição de Adão, mais leve vou ficando e alcançando minha condição Crística, o que compreendemos como salvação mas também como condenação; Eu não espero Cristo de braços cruzados, eu luto para o que futuro seja antecipado agora em minha vida, o que Cristo viveu eu sou convidado a viver agora, o que me deixa mais puro, mais santo, com isso ficamos mais leve. São Paulo faz a distinção das obras da carne e das obras do espírito, o que ele faz é a dimensão ‘adâmica e Crística’. Pegue aquilo que é humano e revista de luz em você. Deus nos dá a graça de iluminarmos nossa vida. Quantas vezes reduzimos o nosso cristianismo a uma experiência pequena. A pior coisa da religião é quando nós a transformamos numa coisa mundana, quando nos esquecemos da transcendência que ela precisa sugerir. O cristianismo me convida ao equilíbrio de ser um homem na terra, mas ter a cabeça no céu, é para o alto que preciso viver. Será que estou mais próximo de Deus ou de Adão? Eu caminho olhando para Deus ou olhando para Adão, para aquilo que é medo na minha vida? Vivam para promover as coisas do alto, as transformações que o mundo precisa, a começar pela mudança de mentalidade, eu começo a ser mais elevado, não vejo as coisas de maneira tão simplória, tão rasteira, tão reduzida, mas o meu olhar se amplia para ver o todo. A Igreja carrega a missão de antecipar o que é eterno, por isso nós não anunciamos o pecado de Adão, mas a ressurreição de Jesus. Olhar para o pecado de Adão sem olhar a Ressurreição de Jesus, é viver em desespero. O que você anda escolhendo para sua vida? Em termos de amizades, relacionamentos, de cultura, isso te eleva ou te puxa para baixo? Tem pessoas que chegam todas conflituadas, sofrendo horrores, por que namora pessoas que só as puxam para baixo, que tem amizades que é causa de queda o tempo todo. A prova que você dará da ressurreição de Jesus é voltando mais humano para casa, amando mais do que já ama. Se não somos capazes de elevarmos o nosso amigo, em vão é nosso trabalho. Precisamos nos decidir a ser hoje mais elevado, a pensar mais alto. Ser cristão é não estar preso no Adão, mas estar disposto a estar sempre sendo elevado, até que Jesus volte. Você não pode esquecer que Ele volta toda vez que você se decide a ser bom, que tem disposição a ser melhor. É para cima que precisamos ir, para o céu, para o alto. Pode ser que você preste atenção demais no Adão. Não! Seu destino é outro! Adão já foi superado. Eu carrego ele dentro de mim, você dentro de você, agora dê um jeito de amarrar essa criatura e se configurar a Cristo, se tornando mais leve, de ir se livrando daquilo que não presta. Para que ficar perdendo tempo com infidelidades, se você pode ser fiel. Para que ficar perdendo tempo com infidelidades, se você pode ser fiel. Porque perder tempo com vícios, se você pode ter uma vida saudável. O destino de cristo é o destino de todos nós, nosso destino é ascensão. Se aquele programa está te fazendo mal, corta. Às vezes o programa que a gente vê, vai jogando a gente para baixo, vai nos lembrando que somos Eva e o pior, vai fazendo você ser Eva. Não! Somos ‘cristos’! Não permita, corta na raiz. Hoje você está sendo convidado a se elevar. Ser cristão é isso, é ser Jesus novamente. ‘Somos Senhor sua Igreja que aguarda e apressa tua vinda gloriosa’. Hoje eu quero neutralizar tudo o que em mim possa me deprimir, tudo que me puxa para baixo, eu quero apressar a vinda de Jesus. O rosto que você acorda, o formato que você resolve dar a ele, se é sorriso que acolhe, ou a cara que você quer jogar fora, isso apressa ou não a vinda de Cristo. Jesus passa pelo nosso rosto, pelo nosso abraço, passa pelo nosso corpo. Onde existe um o corpo preguiçoso, nele o diabo descansa, mas se o diabo descansa num corpo preguiçoso, Deus trabalha no corpo que trabalha, Deus sorri no seu sorriso. Se você lutar por aquilo que é bom, você nunca estará no erro. Deus é bom, nós não somos ainda, mas podemos ser. Antecipe a vinda de Deus. Deus voltará no momento que nós decidirmos que Ele seja vivo em nós. Precisamos deixar que Ele volte hoje em nós. É para o alto que precisamos ir, olhar para o alto. Não tenha olhar de galinha, tenha olhar de águia, é para cima que o cristão tem olhar.

 

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR     

A Solenidade da Ascensão de Jesus que hoje celebramos sugere que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está à vida definitiva, a comunhão com Deus. Sugere também que Jesus nos deixou o testemunho e que somos nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projeto libertador de Deus para os homens e para o mundo.

No Evangelho, Jesus ressuscitado aparece aos discípulos, ajuda-os a vencer a desilusão e o comodismo e envia-os em missão, como testemunhas do projeto de salvação de Deus. De junto do Pai, Jesus continuará a acompanhar os discípulos e, através deles, a oferecer aos homens a vida nova e definitiva.

Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo “caminho” que Jesus percorreu. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante; mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projeto de Jesus.

A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa “esperança” de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside no seu “corpo” que é a Igreja; e é nela que se torna hoje presente no meio dos homens.

Comentário:

A primeira leitura começa com um prólogo (v. 1-2) que relaciona o Ato dos Apóstolos com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são também apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, vinculados com Jesus.

da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (v. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentadas no próprio dia de Páscoa – cf. Lc 24). O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.

As palavras de despedida de Jesus (v. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos resumida aqui a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.

O último tema é o da ascensão (v. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.

Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (v. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.

Temos, depois, a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, simultaneamente esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.

Temos ainda os discípulos a olhar para o céu (v. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projeto de libertação do homem e do mundo.

Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (v. 10b). O branco sugere o mundo de Deus, o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.

O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.

À ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus, na segunda leitura, para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os até acima de Cristo – cf. Cl 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”.

O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A idéia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas “grandes cartas”, acentuando-se, sobretudo, a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1 Cor 6,12-20; 10,16-17; 12,12-27; Rom 12,3-8); mas, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para refletir sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.

Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).

Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa também que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual o “corpo” cresce se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa ainda que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.

Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação, onde Cristo se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside, que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).

A questão central abordada no Evangelho é a do papel dos discípulos no mundo, após a partida de Jesus ao encontro do Pai. O texto consta de três cenas: Jesus ressuscitado define a missão dos discípulos; Jesus parte ao encontro do Pai; os discípulos partem ao encontro do mundo, a fim de concretizar a missão que Jesus lhes confiou.

Na primeira cena (v. 15-18), Jesus ressuscitado aparece aos discípulos, acorda-os da letargia em que se tinham instalado e define a missão que, doravante, eles serão chamados a desempenhar no mundo…

A primeira nota do envio e do mandato que Jesus dá aos discípulos é a da universalidade… A missão dos discípulos destina-se a “todo o mundo” e não deverá deter-se diante de barreiras raciais, geográficas ou culturais. A proposta de salvação que Jesus fez e que os discípulos devem testemunhar destina-se a toda a terra.

Depois, Jesus define o conteúdo do anúncio: o “Evangelho”. O que é o “Evangelho”? No Antigo Testamento (sobretudo no Deutero-Isaías e no Trito-Isaías), a palavra “evangelho” está ligada à “boa notícia” da chegada da salvação para o Povo de Deus. Depois, na boca de Jesus, a palavra “Evangelho” designa o anúncio de que o “Reino de Deus” chegou à vida dos homens, trazendo-lhes a paz, a libertação, a felicidade. Para os catequistas das primeiras comunidades cristãs, o “Evangelho” é o anúncio de um acontecimento único, capital, fundamental: em Jesus Cristo, Deus veio ao encontro dos homens, manifestou-lhes o seu amor, inseriu-os na sua família, convidou-os a integrar a comunidade do Reino, ofereceu-lhes a vida definitiva. Tal é o único e exclusivo “evangelho”, a “boa notícia” que muda o curso da história e que transforma o sentido e os horizontes da existência humana.

O anúncio do “Evangelho” obriga os homens a uma opção. Quem aderir à proposta que Jesus faz, chegará à vida plena e definitiva (“quem acreditar e for batizado será salvo”); mas quem recusar essa proposta, ficará à margem da salvação (“quem não acreditar será condenado” – v. 16).

O anúncio do Evangelho que os discípulos são chamados a fazer vai atingir não só os homens, mas “toda a criatura”. Muitas vezes o homem, guiado por critérios de egoísmo, de cobiça e de lucro, explora a criação, destrói esse mundo “bom” e harmonioso que Deus criou… Mas a proposta de salvação que Deus apresenta destina-se a transformar o coração do homem, eliminando o egoísmo e a maldade. Ao transformar o coração do homem, o “Evangelho” apresentado por Jesus e anunciado pelos discípulos vai propor uma nova relação do homem com todas as outras criaturas – uma relação não mais marcada pelo egoísmo e pela exploração, mas pelo respeito e pelo amor. Dessa forma, nascerá uma nova humanidade e uma nova natureza.

A presença da salvação de Deus no mundo tornar-se-á uma realidade através dos gestos dos discípulos de Jesus… Comprometidos com Jesus, os discípulos vencerão a injustiça e a opressão (“expulsarão os demônios em meu nome”), serão arautos da paz e do entendimento dos homens (“falarão novas línguas”), levarão a esperança e a vida nova a todos os que sofrem e que são prisioneiros da doença e do sofrimento (“quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”); e, em todos os momentos, Jesus estará com eles, ajudando-os a vencer as contrariedades e as oposições.

Na segunda cena (v. 19), Jesus sobe ao céu e senta-Se à direita de Deus. A elevação de Jesus ao céu (ascensão) é uma forma de sugerir que, após o cumprimento da sua missão no meio dos homens, Jesus foi ao encontro do Pai e reentrou na comunhão do Pai.

A entronização de Jesus “à direita de Deus” mostra, por sua vez, a veracidade da proposta de Jesus. Na concepção dos povos antigos, aquele que se sentava à direita de Deus era um personagem distinto, que o rei queria honrar de forma especial… Jesus, porque cumpriu com total fidelidade o projeto de Deus para os homens, é honrado pelo Pai e sentado à sua direita. A proposta que Jesus apresentou, que os discípulos acolheram e que vão ser chamados a testemunhar no mundo, não é uma aventura sem sentido e sem saída, mas é o projeto de salvação que Deus quer oferecer aos homens.

Na terceira cena (v. 20), descreve-se resumidamente a ação missionária dos discípulos: eles partiram (quer dizer, deixaram para trás as seguranças e afetos humanos por causa da missão) a pregar (quer dizer, a anunciar com palavras e com gestos concretos essa vida nova que Deus ofereceu aos homens através de Jesus) por toda a parte (propondo a todos os homens, sem exceção, a proposta salvadora de Deus).

O autor desta catequese assegura aos discípulos que não estão sozinhos ao longo durante a missão… Jesus, vivo e ressuscitado, está com eles, coopera com eles e manifesta-se ao mundo nas palavras e nos gestos dos discípulos.

A festa da Ascensão de Jesus é, sobretudo, o momento em que os discípulos tomam consciência da sua missão e do seu papel no mundo. A Igreja (a comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus, animada pelo Espírito) é, essencialmente, uma comunidade missionária, cuja missão é testemunhar no mundo a proposta de salvação e de libertação que Jesus veio trazer aos homens.

Fonte: Agência Ecclesia

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