A Comunhão Espiritual

Prof. Felipe Aquino

As pessoas que não podem Comungar sacramentalmente o Corpo de Cristo, seja por qual motivo for, podem, no entanto recebê-Lo na alma, espiritualmente, basta ter esse desejo. Os santos comungavam espiritualmente muitas vezes durante o dia. Para isso basta parar um instante, e desejar profundamente receber Jesus em sua alma; e ali ficar conversando com Ele um instante. Assim, se aprende a cultivar Jesus na alma. Podemos também nos encontrar com Nosso Senhor fazendo uma comunhão espiritual, que poderá ter tanto ou até maior fruto que a mesma comunhão eucarística, dependendo do fervor com que a pessoa se empenhe nesse encontro com Jesus. Visitar ao Santíssimo no Sacrário, ou participar de uma adoração ao Santíssimo no Ostensório, são ótimas oportunidades para se Comungar espiritualmente. Podemos receber a comunhão sacramental mais de uma vez ao dia, se a segunda vez a pessoa participa novamente da Missa como determina o Código de Direito Canônico (cânon 917). A comunhão espiritual, entretanto, pode ser feita em qualquer momento, em qualquer lugar, quantas vezes a pessoa desejar. É algo que poucos católicos sabem e fazem. Santo Afonso Maria de Ligório, o bispo e doutor da Igreja que fundou a Congregação dos Padres Redentoristas, explica bem o que é a comunhão espiritual: “Consiste no desejo de receber a Jesus Sacramentado e em dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido”. Esta devoção é muito mais proveitosa do que se pensa e muito fácil de realizar. Há orações que nos ajudam a fazê-la como, por exemplo, esta de Santo Afonso: “Oh Jesus meu, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento, Te amo sobre todas as coisas e desejo receber-Te em minha alma. Já que agora não posso fazê-lo sacramentalmente, venha ao menos espiritualmente a meu coração. Como se já tivesse recebido, Te abraço e me uno todo a Ti, não permitais, Senhor, que volte jamais a abandonar-Te. Amém”. Cada um pode meditar e realizar a comunhão espiritual do seu jeito, com suas próprias orações e necessidades, sem se limitar a uma oração específica. Para que seja bem feita, recomenda-se que se faça um ato de Fé na Eucaristia (Creio Jesus, que estais presente na Eucaristia); um ato de amor (Te amo sobre todas as coisas); um ato de desejo (desejo receber-Te em minha alma); e o pedido de que Jesus venha espiritualmente a seu coração, permanece em ti e faça que nunca te abandone. Durante o dia muitas vezes temos desejo de muitas coisas que queremos ou que gostamos. Da mesma forma vamos ter o desejo de Jesus em nossa alma durante o dia. Sem dúvida que não há melhor companhia a nos proteger, guiar e iluminar a nossa caminhada a cada instante. Na verdade, a comunhão espiritual é uma medida de nossa fé e de nosso amor a Eucaristia. Disse Jesus no Evangelho que é preciso “orar em todo tempo e não desfalecer” (Lc 18, 1). A comunhão espiritual é uma forma excelente de oração que está sempre ao nosso alcance. Um pagão como o centurião romano (Mt 8, 5-17) viveu a experiência da comunhão espiritual quando disse: “Senhor, eu não sou digno de que entrei em minha casa mas dizei uma só palavra e meu servo será curado”. Este servo é hoje a nossa alma.

Meu Deus, creio firmemente em Vossa Presença na Eucaristia. Gostaria de receber-Vos agora realmente, mas como não posso, vinde, ao menos espiritualmente ao meu coração. Inflamai-me de Vosso ardor e fazei com que eu lute seriamente pela expansão de Vosso Reino. Amém.  

 

NOSSA MÃE MARIA NOS DÁ A COMUNHÃO ESPIRITUAL

A Presença de Jesus Cristo em nosso mundo se dá de muitas formas, Ele está naqueles que seguem seus ensinamentos, nos que fazem a Vontade do Pai, naqueles que estão sendo nutridos em Nossa Mãe Maria, na Presença Real na Eucaristia… Para receber Jesus Eucarístico há obrigações e condições exigidas pela Igreja Católica, mas para estar em Jesus por meio de Nossa Mãe Maria não há exigências dogmáticas, o que se pede simplesmente é a verdadeira intenção da Alma para esta união. Maria gera o Cristo em cada um de seus filhos, e se gera Cristo estamos em comunhão espiritual. “Quem come minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56-57). Se Cristo está sendo gerado em nós por meio de Maria nós “comemos a carne e bebemos o sangue” de Cristo. Portanto, aqueles que foram excluídos da Comunhão Eucarística pelas exigências da Igreja Católica não devem sentir-se excluídos, pois, com Maria, estão em Comunhão com seu Filho, Jesus. A comunhão espiritual é muito fácil de se fazer muitas vezes ao dia. Como não exige o jejum, nem o ministério do sacerdote, nem muito tempo, pode-se repetir, cada dia, quantas vezes se queira. É o que fazia dizer a venerável Joana da Cruz: “Ó meu Deus, que bela maneira de comungar! Sem ser vista, nem notada, sem falar ao meu padre espiritual, e sem depender de nenhum outro senão de vós, que, na solidão, me nutris a alma e lhe falais ao coração!”. Eis aqui um dos conselhos que o Pe. Pio de Pietrelcina dava a uma sua filha espiritual: “Durante o dia, quando não podes fazer alguma outra coisa, chama por Jesus, mesmo até no meio de todas as outras ocupações, com um gemido resignado da alma, e Ele virá e ficará sempre unido com tua alma por meio de sua Graça e do Seu Santo Amor. Voa com o teu espírito para diante do Sacrário, quando lá não podes ir com teu corpo, e lá desafoga os teus ardentes desejos e abraça o Amado das Almas, melhor ainda do que se tivesses podido recebê-Lo sacramentalmente!”

Ó Santíssima Mãe de Deus, no momento em que me preparo para a Comunhão Espiritual, imploro Vosso auxílio. Tenho em mente, de modo especial, o período santo e glorioso em que Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em Vosso claustro virginal, estava convosco, noite e dia. E Vos peço que, pelos méritos de tal fase de Vossa vida, me obtenhais um desejo ardente de receber, em meu pobre coração, o Santíssimo Sacramento. Também tenho em mente, ó Mãe Santíssima, a Vossa Primeira Comunhão, quando da instituição da Santíssima Eucaristia no Cenáculo. Com que atos inefáveis de Adoração, de Ação de Graças, de Reparação e de Petição recebestes então em Vosso peito o Santíssimo Sacramento! E pondero com enlevo que, segundo é licito crer, daí por diante a Presença Eucarística se conservou em Vós ininterruptamente até o último instante de Vossa vida terrena! Quantos atos de piedade perfeitíssimos fizestes então a Vosso Divino Filho, ó Mãe! Creio com toda a alma na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. E me recordo, neste momento, das numerosas Comunhões que tive a honra e o gáudio espiritual de receber ao longo de minha vida. Recordo-as com amor, gratidão e saudade, pois, para atender aos meus deveres de estado, estou privado dessa graça inefável, nas circunstâncias em que ora me encontro. A idéia de que, neste instante, eu poderia estar recebendo Nosso Senhor Jesus Cristo realmente presente na Sagrada Eucaristia, me transporta de amor. Não podendo comungar sacramentalmente neste momento, apresento-me, entretanto a Ele, na qualidade de escravo de amor. Faço-o por Vosso intermédio, ó Santíssima Mãe de Deus e minha; e peço que me obtenhais um ardente desejo de receber a Comunhão Sacramental agora mesmo, se tal fosse possível. E assim espero que esta Comunhão Espiritual seja bem acolhida pelo meu Divino Salvador. Pelos rogos de Maria, os quais jamais deixais de atender, eu Vos peço, ó Senhor, que me obtenhais todas as graças necessárias para a minha pronta santificação. Amém. Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, rogai por nós.

 

O VALOR DA COMUNHÃO ESPIRITUAL SEGUNDO OS EXEMPLOS DOS SANTOS

A Comunhão Espiritual é a reserva de vida e de Amor Eucarístico sempre ao alcance da mão para os enamorados de Jesus Hóstia. Por meio da Comunhão Espiritual, de fato, ficam satisfeitos os desejos de amor da alma que quer unir-se a Jesus seu Amado Esposo. A Comunhão Espiritual é união de amor entre a alma e Jesus Hóstia. União toda Espiritual, mas real, até mais real do que a própria união em nós da alma com o corpo, “porque a alma vive mais onde ama, do que onde vive”, diz São João da Cruz.

Fé, amor, desejo

A Comunhão Espiritual supõe, é evidente, a fé na Presença Real de Jesus nos Sacrários. Ela compreende o desejo da Comunhão Sacramental e exige a Ação de Graças pelo Dom recebido de Jesus. Tudo isso está expresso com simplicidade na fórmula de Santo Afonso de Ligório: “Meu Jesus, eu creio que Vós estais no Santíssimo Sacramento. Eu Vos amo sobre todas as coisas. Eu Vos desejo em minha alma. E, já que agora não posso receber-Vos Sacramentalmente, vinde pelo menos espiritualmente ao meu coração. (pausa) Como já tendo vindo, eu Vos abraço e me uno a Vós. Não permitais que eu me separe mais de Vós”. A Comunhão Espiritual produz os mesmos efeitos que a Comunhão Sacramental, conforme as disposições de quem a faz, conforme maior ou menor carga de afeto com que se deseja receber a Jesus e o amor mais ou menos intenso com que se recebe Jesus e com que nos entretemos com Ele. Privilégio exclusivo da Comunhão Espiritual é o de poder ser feita quantas vezes quisermos (e até mesmo centenas de vezes por dia), quando quisermos (mesmo em plena noite), onde quisermos (até num deserto… ou num avião em pleno vôo). É conveniente fazer a Comunhão espiritualmente quando se assiste a Santa Missa e não se pode fazer a Comunhão Sacramental no momento em que o sacerdote comunga. A alma comunga também, chamando a Jesus em seu coração. Desse modo, toda Missa que se tiver ouvido estará completa: Oferta, Imolação e Comunhão. Seria deveras uma Graça Suprema, a ser invocada com todas as forças, se na Igreja se chegasse a realizar logo aquele voto do Concílio de Trento, “que todos os cristãos comunguem em todas as Missas que ouvem”: desse modo, quem puder participar de mais Missas cada dia, poderá também fazer comunhões Sacramentais cada dia.

Os dois Cálices

Quão preciosa seja a Comunhão Espiritual, Jesus o disse a Santa Catarina de Sena em uma visão. A Santa temia que a Comunhão Espiritual não tivesse nenhum valor, se comparada com a Comunhão Sacramental. Jesus lhe apareceu em visão, com dois Cálices na mão, e lhe disse: “Neste Cálice de ouro ponho as tuas Comunhões Sacramentais e neste Cálice de prata ponho as tuas Comunhões Espirituais. Estes dois Cálices Me são muito agradáveis”. E à Santa Margarida Maria Alacoque, que com muita diligência costumava enviar os seus inflamados desejos, clamando por Jesus no Sacrário, uma vez Jesus disse: “Para Mim é de tal modo querido o desejo que uma alma tem de Me receber, que Eu Me precipito nela, cada vez que ela Me chama com os seus desejos”. Quanto tenha sido amada pelos Santos a Comunhão Espiritual, não nos é difícil entrever. A Comunhão Espiritual satisfaz, pelo menos em parte, àquela ânsia ardente de ser sempre: “um” com quem ama. O próprio Jesus disse: “Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós” (Jo 15, 4). E a Comunhão Espiritual ajuda-nos a ficarmos unidos a Jesus, ainda que estejamos longe de Sua Morada. Outro meio não há para aplacar os anelos de amor que consomem os corações dos Santos. “Como a corça anela pelos cursos das águas, assim minha alma anela por ti, ó Deus” (Sl 41, 2). E assim é o gemido dos Santos: “Ó meu esposo querido – exclama a Santa Catarina de Gênova – eu desejo de tal modo a alegria de estar contigo, que me parece, que se eu estivesse morta, ressuscitaria para receber-Te na Comunhão”. E a Beata Ágata da Cruz sentia tão agudo o desejo de viver sempre unida a Jesus Eucarístico, que chegou a dizer: “Se o Confessor não me tivesse ensinado a fazer a Comunhão Espiritual, eu não teria podido viver”. Para Santa Maria Francisca das Cinco Chagas era, igualmente, a Comunhão Espiritual o único alívio para a dor aguda que sentia, quando ficava fechada em casa, longe do seu Amor, especialmente quando não lhe era permitido fazer a Comunhão Sacramental. Então, ela subia ao terraço da casa e, olhando para a Igreja, suspirava entre lágrimas: “Felizes aqueles que hoje Te puderam receber no Sacramento, ó Jesus! Felizes os Sacerdotes que estão sempre perto do Amabilíssimo Jesus!” E assim só a Comunhão Espiritual podia tranquilizá-la um pouco.

Durante o dia

Eis aqui um dos conselhos que o beato Pe. Pio de Pietrelcina dava a uma sua filha espiritual: “Durante o dia, quando não podes fazer alguma outra coisa, chama por Jesus, mesmo até no meio de todas as outras ocupações, com um gemido resignado da alma, e Ele virá e ficará sempre unido com tua alma por meio de sua Graça e do Seu Santo Amor. Voa com o teu espírito para diante do Sacrário, quando lá não podes ir com teu corpo, e lá desafoga os teus ardentes desejos e abraça o Amado das Almas, melhor ainda do que se tivesses podido recebê-Lo sacramentalmente!” Aproveitemos, nós também, deste grande Dom. Especialmente nos momentos de provação ou de abandono, que pode haver de mais precioso do que a união com Jesus Hóstia, por meio da Comunhão Espiritual? Este Santo exercício pode encher os nossos dias de amor e de encanto, pode fazer-nos viver com Jesus em um amplexo de amor, e só depende de nós que o renovemos frequentemente e que não interrompamos quase nunca. Santa Ângela Merici tinha uma especial predileção pela Comunhão Espiritual. Não somente a fazia muitas vezes e exortava os outros a fazê-la, mas chegou a deixá-la como “herança” às suas filhas, a fim de que a praticassem sempre. A vida de São Francisco de Sales não deve ter sido talvez toda ela uma corrente de Comunhões Espirituais? Era propósito de o Santo fazer uma Comunhão Espiritual pelo menos cada quarto de hora. Este mesmo propósito foi o que tinha tomado São Maximiliano Maria Kolbe, desde jovem. E o servo de Deus André Beltrami deixou-nos uma breve página de seu diário íntimo que é um pequeno programa de uma vida vivida em uma Comunhão Espiritual contínua com Jesus Eucarístico. Estas são as suas palavras: “Onde quer que eu me ache, pensarei amiúde em Jesus Sacramento. Fixarei meu pensamento no Santo Sacrário, até mesmo quando eu acordar de noite, adorando-O de onde eu estiver, chamando por Jesus no Sacramento, oferecendo-Lhe o trabalho que eu estiver fazendo. Vou instalar um fio telegráfico da sala de estudo até a Igreja, um outro a partir do meu quarto e um terceiro do refeitório. Depois, vou enviar despachos, no maior número possível, a Jesus no Sacramento”. Que contínua corrente de amor Divino não deve ter passado por aqueles queridos… fios telegráficos!

Até durante a noite

Destas e de outras semelhantes santas indústrias os Santos têm sido muito prontos a servir-se para desabafarem seus corações que nunca se saciavam de amar. “Quanto mais eu Te amo, parece-me que menos Te amo – exclama Santa Francisca Xavier Cabrini – porque eu quereria mais. Mas não posso mais… dilata, dilata o meu coração…”. Nos períodos em que não acordava de noite, Santa Bernadette chegou a pedir a uma sua coirmã que a despertasse. E para quê? “Porque eu gostaria de fazer a Comunhão Espiritual!” Quando São Roque de Montpellier passou cinco anos encarcerado, por ter sido considerado um vagabundo perigoso, no cárcere ficava sempre com os olhos fitos na janelinha, rezando. O carcereiro lhe perguntou: Que é que ficas daí olhando? “Fico olhando para a torre dos sinos da Paróquia”. Era a necessidade que o Santo sentia de uma Igreja, de um Sacrário, de Jesus Eucarístico, seu grande amor. Também o Santo Cura d’Ars dizia aos fiéis: “À vista de um campanário, podeis dizer: Lá está Jesus, porque lá um Sacerdote celebrou a Missa”. E o Beato Luiz Guanella, quando ia de trem acompanhar os peregrinos até os Santuários, recomendava sempre a eles que volvessem seus pensamentos e corações para Jesus cada vez que, das janelas do trem, vissem algum campanário. “Cada campanário – dizia ele – nos faz pensar numa Igreja, na qual existe um Sacrário, na qual se celebra a Missa e onde está Jesus”. Aprendamos com os Santos, nós também. Que eles queiram comunicar-nos um pouco do incêndio de amor que consumia os seus corações. E, então, também em nós bem cedo se levantará um incêndio de amor, pois é muito consolador o que nos assegura São Leonardo de Porto Maurício: “Se praticardes muitas vezes por dia o Santo Exercício da Comunhão Espiritual, eu vos dou um mês de tempo para terdes o vosso coração completamente mudado”. Só um mês: Vocês entenderam?

 

COMUNHÃO ESPIRITUAL: PARA QUANDO NÃO FOR POSSÍVEL PARTICIPAR DA COMUNHÃO EUCARÍSTICA SACRAMENTAL

Não há na terra o que mais vivamente acenda o Fogo do Amor Divino nos corações de uma pessoa do que o Santíssimo Sacramento do Altar. É o que o Senhor fez conhecer a Santa Catarina de Sena, quando se deixou ver no Santíssimo Sacramento sob a forma de uma Fornalha de Amor, da qual saiam torrentes de Chamas Divinas, que se espalhavam por toda a Terra. Em vista disso, a santa, maravilhada, não sabia explicar como poderiam os homens viver sem se consumirem nas chamas do Amor Divino. Além da Comunhão da Sagrada Eucaristia, porém, há uma outra maneira de receber o Senhor Jesus Cristo, por aquelas pessoas que, por algum motivo, não podem receber o Pão Consagrado: trata-se da Comunhão Espiritual. É uma prática de piedade pouco divulgada e pouco conhecida, mas valorizada por inúmeros santos. A doutrina do santo Concílio de Trento ensina que se pode receber o Santíssimo Sacramento de três modos: sacramentalmente, espiritualmente, ou sacramentalmente e espiritualmente ao mesmo tempo. Não se fala aqui do primeiro modo, que se verifica também nos que comungam em estado de pecado mortal, como fez Judas. Nem do terceiro, como fazem os que comungam em estado de graça. Mas trata-se aqui é do segundo modo (espiritualmente), adequado àqueles que impossibilitados de receber sacramentalmente o Corpo de Nosso Senhor, “o recebem em espírito, fazendo, atos de fé viva e ardente caridade, e com um grande desejo de se unirem ao soberano bem, e, por este meio, se põem em estado de obter os frutos do Divino Sacramento”. Qualquer pessoa pode fazer a Comunhão Espiritual, portanto. O que requer é o profundo desejo da pessoa em usufruir da Misericórdia de Deus, infinitamente maior do que todos os nossos pecados e do que todos os empecilhos. Deus vê o nosso coração, o nosso interior, e nos julga pelo amor que temos por Ele. Como realizar a Comunhão Espiritual? Santo Afonso de Ligório nos ensina: “Creio, meu Jesus, que estais Presente no Santíssimo Sacramento do Altar. Amo-vos sobre todas as coisas e minha alma suspira por vós. Mas como agora não posso receber-vos sacramentalmente, vinde espiritualmente ao meu coração. E, como se vos tivesse recebido, uno-me inteiramente a Vós; não consintais, Senhor, que de Vós jamais me separe. Ó Jesus, Sumo Bem, tocai-me o coração e inflama-me no vosso divino amor, e que nele permaneça abrasado para sempre. Amém”. Faça esta oração com toda a devoção e entrega alma ao Senhor Jesus Cristo, e estará comungando espiritualmente. Não vos admireis desta condescendência tão terna, pois a comunhão espiritual abrasa a alma no amor a DEUS, une-a Ele, e dispõe-na a receber as graças mais insignes. A Comunhão Espiritual é o caminho para as pessoas que por algum motivo não podem recebê-Lo sacramentalmente na Missa, ou quando estiverem em casa, no trabalho ou nas situações de dificuldade por que se passa na vida.

A Vossos pés me prostro, oh meu Jesus!, e Vos ofereço o arrependimento do meu coração contrito que mergulha no nada diante da Vossa Santa Presença. Adoro-vos no Sacramento do Vosso amor, a inefável Eucaristia, e desejo receber-Vos na pobre morada que Vos oferece minha alma. Esperando a felicidade da Comunhão Sacramental, quero possuir-vos em espírito. Vinde a mim, já que eu venho a Vós, oh meu Jesus!, e que Vosso amor inflame todo o meu ser na vida e na morte. Creio em Vós e espero em Vós. Assim seja.
Cardeal Merry del Val

 

COMUNHÃO FREQUENTE-COMUNHÃO ESPIRITUAL

Como Comunhão frequente entende-se a Comunhão que se faz todas as vezes que é possível e de harmonia com os desejos e possibilidades de cada um. Primitivamente a Comunhão recebia-se muito raramente, muito poucas vezes ao ano e, quando se pensou que seria possível e bom recebê-la mais vezes, vieram os Jansenistas com as suas heresias, a dizerem que ninguém era digno de comungar, e poucas pessoas o poderiam fazer mais que uma ou duas vezes por ano. Esta heresia afetou profundamente os católicos de toda a Europa e até das Américas. A Igreja então pregou aos católicos de todo o mundo que a Comunhão nos dá um alimento que fortalece a nossa vida nesta peregrinação até à vida eterna. A Comunhão não é apenas um prêmio para uma vida de santidade, mas uma força contra o pecado e uma garantia de vida de santidade. Nos nossos tempos, a par de uma maior possibilidade de Comunhão frequente, graças às facilidades da Igreja e à fé e amor do Povo de Deus, estamos a cair no risco de uma heresia oposta à dos Jansenistas, segundo a qual toda a gente se julga digna e capaz de comungar sem um mínimo de conhecimento, de preparação e de fé, talvez por uma grande falta de pregação da Igreja acompanhada de estímulo Eucarístico. Há cerca de meio século, havia frequentes Congressos Eucarísticos, a nível mundial e outros a nível nacional e diocesano, com ótimas oportunidades de pregação insistente e prática de vida íntima Eucarística. Talvez fosse bom retomar estas práticas, a nível diocesano ou nacional, pela sua necessidade e utilidade e, sobretudo, como contra força para a corrente de leviandade e de corrupção dos costumes dos nossos jovens, a quem falta, sobretudo o bom exemplo e as boas ocasiões para uma mentalização espiritual e Eucarística. Mas, numa linha de Comunhão frequente vem a propósito lembrar que, ordinariamente, a Comunhão frequente só é permitida uma vez por dia, segundo a tradicional lei da Igreja. Todavia, pode haver circunstâncias em que se pode comungar uma segunda vez no mesmo dia. Sem contar o caso dos sacerdotes que têm que celebrar mais que uma missa e, portanto, comungar mais que uma vez, também os fiéis podem comungar uma segunda vez nas seguintes circunstâncias: – Em Missas com um rito especial, como é a Missa de casamento, de batizado ou dos doentes com especial cerimônia de unções, e Missa Vespertina. Assim, quem tomar parte numa destas missas num sábado de manhã, poderá voltar a comungar nesse mesmo dia na Missa Vespertina. E quem comungou de manhã pode voltar a comungar de novo numa missa de casamento à tarde. – Se alguém for desempenhar qualquer papel ministerial, como por exemplo, o de Leitor, ou Ministro da Eucaristia numa segunda Missa, também pode comungar uma segunda vez. E o Direito Canônico diz apenas que aquele que recebeu a Comunhão, só pode recebê-la outra vez no mesmo dia, dentro da celebração eucarística (Cân. 917). Em 1984 a Comissão do Vaticano para a interpretação do Direito Canônico, estabeleceu que mesmo a Comunhão na Missa, não pode ser recebida mais de duas vezes por dia. Portanto, os Católicos devem entender que a Comunhão faz parte integral da Celebração Eucarística. Se isto é verdade para toda a gente, torna-se mais importante para todos aqueles que têm algum papel na liturgia ministerial. A Igreja, todavia, está muito alerta para que este privilégio da Comunhão frequente não se converta numa superstição de colecionar Comunhões. Comungar frequentemente deve gerar naqueles que o fazem, um maior amor e maior intimidade com Deus e, consequentemente, uma reforma na sua vida e um grande amor ao próximo. Os confessores e diretores espirituais têm a seu cargo, a formação das pessoas, especialmente nesta linha de Comunhão Frequente.

 

COMUNHÃO ESPIRITUAL

A Comunhão Espiritual é um ato interior, consciencioso e sério, de desejar receber a Sagrada Comunhão, ou, mais especificamente, de se unir ao Senhor, e que normalmente deve acompanhar a própria Comunhão Sacramental. Todavia a Comunhão Espiritual pode ser feita sem a Comunhão sacramental, apenas por palavras, ou pensamentos interiores de uma íntima união com Cristo, em qualquer momento, que não deixará de conceder as Suas bênçãos. A Comunhão Espiritual, não é tão divulgada hoje, em virtude da facilidade e frequência da Comunhão Sacramental. Mas, em tempos passados, há 800 ou 900 anos atrás, era mais comum. E ainda não vai muito longe o tempo em que a Comunhão Sacramental, para algumas pessoas, era recebida algumas vezes na vida, para outras, apenas no tempo da Páscoa. Nesses tempos, uma Comunhão Espiritual tinha muito mais sentido. Todavia, nos nossos tempos de hoje ainda se pode fazer com frequência a Comunhão Espiritual como desejo de maior união e intimidade com Deus, ao longo dos dias da nossa vida. Noutras circunstâncias, até a Comunhão Espiritual é o único meio de união e intimidade com Deus, por exemplo, para quem não guardou uma hora de jejum eucarístico, para quem vive numa situação de irregularidade perante a Igreja, que o mesmo é dizer para com alguns dos Sacramentos, ou até para quem pratica outra religião. Mas uma coisa não substitui a outra, isto é, a Comunhão Espiritual não substitui ou dispensa a Comunhão sacramental, sempre que esta é possível. Uma visita ao Santíssimo Sacramento é uma boa oportunidade para se fazer uma Comunhão Espiritual.

Eu quisera Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe com o espírito e o fervor de todos os santos. Amém.
São Josemaría Escrivá

 

COMUNHÕES ESPIRITUAIS
– O nosso encontro com Cristo na Eucaristia.
– As comunhões espirituais. Desejo de receber a Cristo.
– A Comunhão sacramental. Preparação e ação de graças.

I. SENHOR, OUVI A MINHA ORAÇÃO e chegue até Vós o meu clamor. Não oculteis de mim a vossa face no dia da minha angústia. Inclinai para mim o vosso ouvido e, quando Vos invocar, socorrei-me prontamente1. O Evangelho da Missa2 relata os milagres que Jesus realizou certa vez, depois de ter voltado à outra margem do lago, provavelmente a Cafarnaum. São Lucas diz-nos que todos estavam à sua espera3; agora mostram-se contentes por tê-lo de novo com eles. E o Senhor toma imediatamente o caminho para a cidade, seguido dos seus discípulos e da multidão que o rodeia por todos os lados. No meio de tantos que caminham num círculo apertado à sua volta, uma mulher vacilante ora consegue aproximar-se Dele, ora se vê atirada para longe, enquanto não cessa de repetir para si mesma: Se eu tocar nem que seja a orla do seu manto, ficarei curada. Estava doente havia doze anos e já tinha recorrido sem nenhum sucesso a todos os remédios humanos ao seu alcance: Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo o que possuía, sem achar nenhum alívio. Mas naquele dia compreendeu que Jesus era o seu único remédio: não só para uma doença que a tornava impura perante a lei, mas para toda a sua vida. A certa altura, conseguiu esticar a mão e tocar a orla do manto do Senhor. E nesse exato momento Jesus deteve-se e ela sentiu-se curada. Quem tocou as minhas vestes?, perguntou Jesus, dirigindo-se aos que o cercavam. Eu sei que uma força saiu de mim4. Naquele instante, a mulher viu fixarem-se nela aqueles olhos que chegavam até o fundo do coração. Atemorizada, trêmula e cheia de alegria, tudo ao mesmo tempo, lançou-se aos seus pés. Nós também necessitamos do contacto com Cristo, porque são muitas as nossas doenças e grande a nossa fraqueza. E chegamos a ter esse encontro com Ele sempre que o recebemos na Comunhão, oculto nas espécies sacramentais. E são tantos os bens que então recebemos que o Senhor nos fita e nos pode dizer: Eu sei que uma força saiu de mim. É uma torrente de graças que nos inunda de alegria, que nos dá a firmeza necessária para continuarmos a caminhar e que causa assombro aos anjos. Quando a nossa amizade com Cristo cresce sempre mais, passamos a desejar que chegue o momento de cada Comunhão. Procuramos o Senhor com a mesma persistência daquela mulher doente, servindo-nos para isso de todos os meios ao nosso alcance, tanto humanos como sobrenaturais. Se, em alguma ocasião, devido a uma viagem, a um contratempo na família, a uma época de exames ou de trabalho mais intenso, etc., se torna mais difícil comungar, fazemos um esforço maior, somos mais engenhosos em vencer os obstáculos, pomos mais amor. Procuramos então o Senhor com o mesmo empenho com que Maria Madalena foi ao sepulcro ao raiar do terceiro dia, sem se importar com os soldados que estavam de guarda, nem com a pedra que lhe impedia a passagem… Santa Catarina de Sena explica com um exemplo a importância de se desejar vivamente a Comunhão. Suponhamos – diz-nos – que várias pessoas têm uma vela de peso e tamanho diferentes. A primeira tem uma vela de cem gramas, a segunda de duzentos, a terceira de trezentos, e outra de um quilo. Cada uma acende a sua vela. A que tem a vela de cem gramas tem menos capacidade de iluminar do que a que possui a vela de um quilo. Assim acontece com os que vão comungar. Cada um leva um círio, que são os santos desejos com que recebe este sacramento5. Esses “santos desejos” são a condição de uma Comunhão fervorosa.

II. PARA QUEM ESTÁ EM GRAÇA, todas as condições para receber sempre com fruto a Comunhão sacramental podem resumir-se numa: ter fome da Sagrada Eucaristia6. Esta fome e esta sede de Cristo não podem ser substituídas por nada. O vivo desejo de comungar, sinal de fé e de amor, há de levar-nos a muitas comunhões espirituais antes de recebermos o Senhor sacramentalmente, e isso durante o dia, no meio da rua ou do trabalho. “A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Sacramentado e num abraço amoroso como se já o tivéssemos recebido”7. Prolonga de certa maneira os frutos da Comunhão anterior, prepara para a seguinte e ajuda-nos a desagravar o Senhor pelas vezes em que talvez não nos tenhamos preparado para recebê-lo com a delicadeza e o amor que Ele esperava, e também por todos aqueles que comungam com pecados graves na consciência ou que, de um modo ou de outro, se esqueceram de que Cristo ficou neste sacramento. “A comunhão espiritual pode ser feita sem que ninguém nos veja, sem que se esteja em jejum, e a qualquer hora, porque consiste num ato de amor; basta dizer de todo o coração: […] Creio, ó meu Jesus, que estais no Santíssimo Sacramento; eu Vos amo e desejo muito receber-Vos, vinde ao meu coração; eu Vos abraço; não Vos ausenteis de mim”8. Ou, como muitos outros cristãos, que o aprenderam talvez por ocasião da sua Primeira Comunhão: Eu quisera, Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a vossa Santíssima Mãe, com o espírito e o fervor dos santos9. Devemos praticar especialmente as comunhões espirituais nas horas que antecedem a Missa e a Comunhão: à noite, quando chega a hora do descanso; de manhã, a partir do momento em que nos levantamos. Se pusermos um pouco de esforço e pedirmos ajuda ao nosso Anjo da Guarda, a Eucaristia presidirá à nossa vida e será “o centro e o cume”10 para o qual se dirigem todos os nossos atos do dia que começa. Recorramos hoje ao nosso Anjo da Guarda para que nos recorde frequentemente a proximidade de Cristo nos sacrários da cidade onde vivemos ou onde nos encontramos, e nos consiga abundantes graças para que cada dia seja maior o nosso desejo de receber Jesus, e maior o nosso amor, particularmente nesses minutos em que o temos sacramentalmente em nosso coração.

III. DEVEMOS PÔR O MAIOR empenho em abeirar-nos de Cristo com a fé daquela mulher, com a sua humildade, com o seu grande desejo de ficar curada. “Quem somos nós, para estarmos tão perto Dele? Tal como àquela pobre mulher no meio da multidão, o Senhor ofereceu-nos uma oportunidade. E não só para tocar uma ponta da sua túnica, ou, num breve momento, o extremo do seu manto, a orla. Temo-lo inteiro. Entrega-se totalmente a cada um de nós, com o seu Corpo, com o seu Sangue, com a sua Alma e com a sua Divindade. Comemo-lo todos os dias, falamos intimamente com Ele, como se fala com o pai, como se fala com o Amor”11. É uma realidade, tanto quanto o é a nossa existência ou o mundo e as pessoas que encontramos todos os dias. A Comunhão não é um prêmio à virtude, mas alimento para os fracos e necessitados: para nós. E a nossa Mãe a Igreja exorta-nos a comungar com frequência, se possível diariamente, e ao mesmo tempo insiste em que nos esforcemos a fundo por afastar a rotina, a tibieza, a falta de amor, em que purifiquemos a alma dos pecados veniais através de atos de contrição e da confissão frequente e, antes de mais nada, em que nunca comunguemos com a menor sombra de pecado grave, isto é, sem termos recebido previamente o sacramento do perdão12. Quanto às faltas leves, o Senhor pede-nos o que está ao nosso alcance: arrependimento e desejo de evitar que se repitam. O amor a Jesus presente na Sagrada Eucaristia manifesta-se também no modo de lhe mostrarmos o nosso agradecimento depois da Comunhão; o amor é inventivo e sabe encontrar modos próprios para expressar a sua gratidão, mesmo que a alma se ache mergulhada na aridez mais completa. A aridez não é tibieza, mas amor com ausência de sentimento, que impele, no entanto, a pôr mais esforço e a pedir ajuda aos intercessores do Céu, como o nosso Anjo da Guarda, que nos prestará grandes serviços numa ocasião como esta, tal como o faz em tantas outras. As próprias distrações devem ajudar-nos a alcançar um maior fervor à hora de darmos graças a Deus pelo bem incomparável de nos ter visitado. Tudo nos deve servir para que, nesses minutos em que temos o próprio Deus conosco, nos encontremos nas melhores disposições possíveis dentro das nossas limitações. “Quando o receberes, diz-lhe: – Senhor, espero em Ti; adoro-te, amo-te, aumenta-me a fé. Sê o apoio da minha debilidade, Tu, que ficaste na Eucaristia, inerme, para remediar a fraqueza das criaturas”13. A Virgem Nossa Senhora ajudar-nos-á a preparar a nossa alma com aquela pureza, humildade e devoção com que Ela o recebeu depois da mensagem do Anjo.

(1) Sl 101; (2) Mc 5, 21-43; (3) cfr. Lc 8, 41-56; (4) cfr. Lc 8, 46; (5) Santa Catarina de Sena, O Diálogo, pág. 385; (6) cfr. R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, vol. I, pág. 484; (7) Santo Afonso Maria de Ligório, Visitas ao Santíssimo Sacramento, Rialp, Madrid, 1965, pág. 40; (8) ib., pág. 41; (9) Orações do cristão, Quadrante, São Paulo, pág. 16; (10) cfr. Conc. Vat. II, Decr. Ad gentes, 9; (11) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 199; (12) cfr. 1 Cor 11, 27-28; Paulo VI, Instr.Eucharisticum Mysterium, 37; (13) Josemaría Escrivá, Forja, n. 832.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.

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