O trabalho hoje

Hoje comemoramos o dia do trabalho. Há quem comente, com certa ironia, que é uma incoerência não trabalharmos precisamente nessa data. Não creio que seja justa essa crítica. Quando nos afastamos da nossa tarefa profissional, isso pode ser uma boa ocasião para meditarmos sobre ela, buscando o seu verdadeiro sentido em nossas vidas. Além disso, é possível fazer propósitos pequenos, mas concretos, que nos movam a exercê-la de uma maneira mais edificante. E isso por certo trará benefícios para nós mesmos, para as pessoas com quem convivemos e a todos os que dependem do nosso ofício ou profissão.

Nesse intento, talvez um ponto de partida seja nos indagarmos sobre o sentido que tem o trabalho para nós. Será um mal necessário? Talvez um simples meio de ganhar a vida? Será um tempo em que simplesmente suportamos o exercício de uma atividade penosa para obter os recursos de que necessitamos, sempre à espera de alguns minutos de diversão, quando somente então verdadeiramente “viveremos”?

Passamos parte considerável de nossas vidas trabalhando. Também por isso, encarar o trabalho como algo que simplesmente se há de suportar seria, no mínimo, condenar uma grande parte dos nossos dias a ser vividos sem um sentido autêntico, que verdadeiramente valha a pena. A nossa felicidade depende, em não pequena medida, da nossa realização profissional. Bem por isso precisamos construí-la sobre bases sólidas.

É inegável que necessitamos trabalhar para obtermos os recursos econômicos para mantermos a família, educarmos os nossos filhos etc. Porém, além de ganhar dinheiro, pode haver um sentido bem mais profundo: quando nos esforçamos por trabalhar bem tornamos mais digna a nossa própria profissão ou ofício. O operário que se esmera cada dia em exercer melhor a sua função, de certo modo, faz crescer em dignidade o próprio trabalho.

Além disso, o esforço renovado por trabalhar bem constitui um meio para desenvolvemos a nossa própria personalidade. Quem já procurou desempenhar cada dia melhor a mesma atividade sabe, por experiência, que isso nem sempre é fácil. São inúmeros os desafios que encontra, todos os dias, para fazer com uma melhor qualidade técnica, num tempo menor e com mais eficiência. No entanto, quando sabermos superar com valentia e perseverança esses obstáculos, crescemos enquanto pessoas.

E não é apenas a qualidade técnica, a eficiência ou o lucro que importam. Todo trabalho visa, direta ou indiretamente, proporcionar bens ou serviços aos demais. Nesse sentido, importa saber enxergar cada dia mais e melhor que há pessoas que dependem do nosso trabalho. São homens e mulheres a quem nos cabe, por vocação profissional, servir e ser úteis. E é precisamente nesse esforço que conseguiremos forjar em nós uma personalidade madura e equilibrada.

O trabalho é, muito especialmente, um meio para construirmos um mundo melhor. Através do nosso trabalho podemos contribuir para que as pessoas que estão a nossa volta encontrem um sentido para as suas vidas e, por consequência, a própria felicidade.

As nossas boas ou más ações nunca se encerram em nós mesmos. Um profissional negligente e desleixado, ainda que cause um grande dano a si próprio, também o faz em relação àqueles com quem convive e que dependem do seu trabalho.

De igual modo, talvez já tivemos a experiência de conviver com um bom colega: cumpre com responsabilidade suas obrigações, é cordial e educado, esforça-se por ouvir e ajudar. Enfim, contagia positivamente com a sua alegria e o seu espírito de serviço. É bom trabalhar com pessoas assim. Parece que, com o tempo, vai se construindo um bom ambiente de trabalho. Mais ainda, a qualidade técnica cresce na mesma medida das relações humanas que se estabelecem.

Talvez seja esse o grande desafio que podemos nos propor nesse dia do trabalho: fazermos com que a nossa profissão seja exercida cada vez com mais qualidade e eficiência, sem nos esquecermos, porém, que na origem e no fim de qualquer atividade nobre, há sempre seres humanos, ávidos de um sentido para suas vidas, o que não alcançarão em propósitos mesquinhos e egoístas. Bem ao contrário, o encontraremos quando nos decidiremos de verdade a trabalhar seriamente pela construção de um mundo melhor, a começar pelo nosso próprio local de trabalho.

Autor: Fábio Henrique Prado de Toledo é Juiz de Direito em Campinas e Especialista em Matrimônio e Educação Familiar pela Universitat Internacional de Catalunya – UIC. [email protected]

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