Homem se realiza no amor e no trabalho

Segunda-feira, 23 de julho de 2012, Nicole Melhado / Da Redação

Dom Petrini é presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família  

O amor é a dimensão mais profunda do ser humano na qual a imagem de Deus se concretiza, pois Deus é Amor. O homem e a mulher se realizam na vivência de um amor que é capaz de doar-se. Mas, além do amor, o homem se realiza no trabalho, como explica o presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, da CNBB, e Bispo de Camaçari, Dom João Carlos Petrini.

“É também característica de Deus o trabalho. Jesus diz ‘Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho’ (Jo 5,17-18). O trabalho é como uma complementação à obra divina e o trabalho é condição indispensável para sustenta-se e sustentar a própria família”, salienta.

A relação do trabalho e a dignidade humana no projeto de Deus foi um tema amplamente desenvolvido pelo Papa João Paulo II na Encíclica “Laborem exercens”.

“Ele diz que o trabalho é fundamental para a afirmação da dignidade do homem, isso está explicitado no início da Sagrada Escritura, no livro do Gênese, quando Deus confia ao homem a tarefa de dominar a terra, não no sentido de destruí-la, mas no sentido de colocá-la a serviço do homem, melhorando as condições da natureza através do trabalho”, esclarece Dom Petrini.

O Papa Bento XVI, por sua vez, pede, como intenção geral de oração para o mês de julho, “para que todos tenham trabalho e o possam realizar em condições de estabilidade e segurança”. Esse pedido, para Dom Petrini, demonstra que o Santo Padre está preocupado com a crise econômica que atinge particularmente a Europa e a situação de desemprego em outros continentes.

“Há países na Europa que a taxa de desemprego chega a 20%. Mesmo que o governo dê subsídios para que as famílias não passem fome e para que o desempregado seja amparado, o fato de não ter um trabalho coloca em questão a utilidade, o significado da própria vida”, destaca o Bispo de Camaçari.

O trabalho é uma benção

A compreensão do trabalho como uma benção começa na infância. Dom Petrini salienta que as crianças aprendem mais observando seus pais do que nos sermões que escutam.

“Quando o pai volta para casa, fala de seu trabalho e mesmo cansado traz no rosto a satisfação, a criança acaba entendendo o valor do trabalho e sua beleza. Mas se o pai chega em casa resmungando e blasfemando, ela entende que o trabalho é um sacrifício que deve ser evitado e, quem sabe, quando adolescente busque outros meios para conseguir dinheiro”, ressalva o bispo.

Os jovens e o trabalho

Ainda uma situação que preocupa a Igreja Católica é o desemprego entre os jovens. Dom Petrini salienta que muitas vezes as escolas são de baixa qualidade e o que os jovens aprenderam até o 2º grau não é suficiente para enfrentar o mercado de trabalho e assumir tarefas que exigem melhor qualificação.

“Os jovens vivem uma situação de grande risco, pois sem trabalhar, eles não veem a possibilidade de ter uma casa, uma família, filhos. Eles ficam expostos a situações de risco, às vezes, recebem propostas criminosas que podem ser sedutoras quando a pessoa se vê sem saída”, ressalta o presidente da Comissão Vida e Família.

A relação entre a família e o trabalho deve ser equilibrada

Trabalho, riqueza e poder

No trabalho, a pessoa pode expressar toda sua criatividade e capacidade e pode estabelecer relacionamentos com outros. Mas todos devem estar atentos para não fazerem do trabalho uma idolatria, vendo-o somente como forma de conseguir poder e riqueza e deixando de lado outros aspectos importantes da vida.

“Tem gente que sai de casa às 7h da manhã e chega em casa no fim da noite. Às vezes o trabalho é vivido de maneira desequilibrada. Isso acontece quando o trabalho se torna uma idolatria; então se sacrifica a saúde, o bem estar, os relacionamentos de amizade e o mais grave, se sacrifica a família”, alerta o bispo.

Equilíbrio entre família e trabalho

O relacionamento entre o casal e relacionamento entre pais e filhos são os mais prejudicados com este desequilíbrio. O casal se distancia e os pais acabam tercerizando a educação dos filhos, perdendo momentos preciosos com eles.

“Numa situação que a criança nunca vê o pai por causa do trabalho, ela vai detestar o trabalho, porque ela entende que o trabalho entra em disputa com ela para ter a atenção do pai”, lembra ainda Dom Petrini.

“A família, o trabalho e festa” foi o tema do 7º Encontro Mundial das Famílias, realizado em Milão, na Itália, entre os dias 30 de maio e 3 de junho deste ano.

“A relação do trabalho com a família é muito forte. A família precisa do trabalho para sobreviver, mas ao mesmo tempo necessita que o trabalho seja vivido de maneira equilibrada. Para conseguir esse equilíbrio é preciso não perder de vista esta relação com Deus. O que torna equilibrada a vida de um homem e de uma mulher é ter a consciência que, em todas as atividades, eles vivem uma relação com Deus”, salienta Dom Petrini.

Ao cultivar uma relação com Deus e procurar intuir e compreender Seu designo na própria vida e em toda realidade, certamente o fiel encontra o equilíbrio. E essa realização, explica o bispo, é concreta a partir da Encarnação de Cristo, é o relacionamento com Jesus que se concretiza na vida fraterna, na escuta e meditação da Palavra e na vivência dos sacramentos.

“A vida sai de equilíbrio quando ignora a Deus. Quando cultivamos esse relacionamento com Deus, o equilíbrio se torna espontâneo, essa luz de Cristo ilumina todas as coisas”, conclui Dom Petrini.

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