Sobre missa de cura, exorcismos e libertações

Pe. Marcélo Tenorio
http://www.perfeitadevocao.org/site/TradicaoCatolica.php?id=267

I – Apresentação

Têm sido disseminadas nos meios católicos as famosas orações e Missas de “Cura e Libertação”.

Essa prática, estranha à teologia do Aquinate, quer no âmbito privado ou na da Sagrada Liturgia da Missa, tem gerado confusão, perplexidade e, em muitos casos, escândalos entre os fiéis que não reconhecem nesta forma “nova” de culto, a sua identidade católica.

O presente artigo já estava pronto quando chegou em minhas mãos um católico, lúcido, oportuno e eficaz pronunciamento episcopal dos bispos de Medellim e Puebla condenando essas missas ditas de Cura e Libertação, porque “apresentam  aspectos e procedimentos que não estão de acordo com a doutrina, a liturgia e a prática pastoral da Igreja.”[i]

Continua o documento episcopal:

“Com o ambíguo nome de ‘Missa de Cura’ (pois em todas as missas a Palavra e o Corpo de Cristo podem nos curar) se designa uma certa maneira de manipular a celebração desse Sacramento, com interesses diversos que vão desde as melhores intenções até a simonia [n.d.r.: venda de bens espirituais]. É necessário evitar que este tipo de celebração se preste à exploração da emotividade, da necessidade de cura e da visão fantasiosa que algumas pessoas podem ter. Acima de tudo, nunca se pode aceitar que se faça negócio com o sofrimento das pessoas.”[ii]

“[…] Junto com as erroneamente chamadas “Missa de cura” também são promovidos exorcismos, unções, orações de libertação e outras práticas que alteram gravemente o sentido da vida sacramental da Igreja. Na realidade, através da catequese e de celebrações dignas, devemos procurar que tanto a Eucaristia como os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos, instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo, ajudem com a graça de Deus às pessoas que precisam de auxílio espiritual.”[iii]

As Missas e Orações de Cura e Libertação, quase sempre têm inclusos outros “fenômenos” carismáticos, tais como oração em línguas estranhas, revelações e o mais que estranho repouso no espírito.

Quanto à “oração em línguas” e a catolicidade da RCC, já nos detivemos aqui em nosso blog.[iv] Agora queremos discorrer sobre a missa e oração de cura e Libertação: sua origem, teologia, como também sobre os demais carismas que “auxiliam” e aparecem presentes nessa prática.

II – Pronunciamento da Sagrada Congregação para Doutrina da Fé

Antes de tudo é importante relembrar o que a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé ensinou e legislou sobre o assunto, pela  pena do então Cardeal Ratzinger, hoje Sua Santidade, o Papa, no documento intitulado “Instrução sobre as Orações para alcançar de Deus a Cura.”[v]   Fala o ex Santo Ofício:

“O anseio de felicidade, profundamente radicado no coração humano, esteve sempre associado ao desejo de se libertar da doença e de compreender o seu sentido, quando se a experimenta. Trata-se de um fenômeno humano que, interessando de uma maneira ou de outra todas as pessoas, encontra na Igreja particular ressonância. Esta, de facto, vê a doença como meio de união com Cristo e de purificação espiritual e, para os que lidam com a pessoa doente, como uma ocasião de praticar a caridade. Não é só isso porém; como os demais sofrimentos humanos, a doença constitui um momento privilegiado de oração, seja para pedir a graça de a receber com espírito de fé e de aceitação da vontade de Deus, seja também para implorar a cura.”

Fica claro que a Santa Igreja ensina ser o momento de enfermidade como rico e propício ao crescimento da alma levando-a a uma maior união com Deus e favorecendo a compreensão em relação à vida e à existência nesse mundo.

A Graça de Deus tanto está para os que sofrem, como para aqueles que cuidam com generosidade dos enfermos, e também para aqueles que se edificam com o testemunho de resignação de tantos que, no momento da dor, unem-se à paixão de Nosso Senhor e, por ela, conseguem a sua própria salvação.

Também são católicas as intercessões para se pedir a cura, segundo a vontade de Deus, dos que sofrem. Assim fundamentou-se a Igreja e sustentou a devoção aos santos, recorrendo à sua valiosa ajuda.

É importante perceber que se por um lado a Sagrada Congregação atesta a catolicidade e, portanto, legitimidade das orações que suplicam a Deus pela cura física, de outro mostra-se preocupada com essa forma “diferente” de se rogar  a cura, justamente por  ela conter maneiras estranhas à doutrina de sempre da Igreja, como atestaram os bispos mexicanos, acima.

Vejamos o que nos diz o documento da “Doutrina da Fé”:

“A oração que implora o restabelecimento da saúde é, pois, uma experiência presente em todas as épocas da Igreja e naturalmente nos dias de hoje.”

Entretanto, em seguida, pondera:

“Mas o que constitui um fenômeno sob certos aspectos novo é o multiplicar-se de reuniões de oração, por vezes associadas a celebrações litúrgicas, com o fim de alcançar de Deus a cura. Em certos casos, que não são poucos, apregoa-se a existência de curas alcançadas, criando assim a expectativa que o fenômeno se repita noutras reuniões do gênero. Em tal contexto, faz-se por vezes apelo a um suposto carisma de cura.”

Logo de início o presente documento nos traz luzes importantes para a compreensão do problema. Expomo-las aqui de maneira simples e pontual.

1. Nada é pacífico, nem conhecido, pois se assim o fosse a Sagrada Congregação não emitiria um documento de tamanha importância sobre o assunto, nem tampouco analisaria a questão, visto que sendo católica a prática, bastaria uma nota desta mesma Congregação autenticando a forma e fundamentando-se no Magistério Perene da Igreja.

2. O assunto é tratado como “fenômeno” e como “novo”. É claríssimo que por “fenômeno” não se compreende uma intervenção sobrenatural de Deus, já que o termo é bem usado em várias ciências, sobretudo na sociologia e antropologia hodiernas. Quanto ao “novo”, quer indicar justamente algo desconhecido à Igreja (o que já deveria ser motivo, mais que suficiente, às indagações e suspeitas de um fiel atento à doutrina apostólica). Algo “desconhecido” quanto prática religiosa eclesial, mas não quanto à forma protestante pentecostal, já conhecidas por seu subjetivismo nocivo à fé.

III – A condenação das novidades e o afastamento da Teologia de Santo Tomás  

Vários Papas condenaram as “novidades” que muitos tentaram introduzir no seio da Igreja. Assim o grande Papa Pio XII, logo após a II Guerra Mundial expressa-se preocupado:

“[…] Nós assinalamos, não sem preocupação nem sem temor, que alguns são excessivamente ávidos de novidade e se transviam fora dos caminhos da sã doutrina e da prudência. Porque, querendo e desejando renovar a santa Liturgia, eles promovem, muitas vezes, a intervenção de princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta santa causa e, às vezes até as mancham com erros que afetam a fé católica e a doutrina ascética. A pureza da fé e da moral deve ser a regra principal desta ciência sagrada que é preciso conformar em todos os pontos aos mais sábios ensinamentos da Igreja. É, portanto, Nosso dever louvar e aprovar tudo aquilo que é bom e conter ou censurar tudo aquilo que se desvia do caminho justo e verdadeiro…” [vi]

E ainda:

“[…] Existem hoje alguns [entre os doutores católicos], assim como nos tempos apostólicos, que se apegam mais do que convém às “novidades” no temor de passar por ignorantes de tudo o que arrasta um século de progressos científicos: constata-se, então, que eles, na sua pretensão de se subtrair da direção do Magistério sagrado, se vêm em grande perigo de se afastar pouco a pouco da verdade divinamente revelada e de induzir outros a irem com eles ao erro. – As “novas opiniões”, quer se inspirem elas em desejo condenável de “novidades”, quer em qualquer louvável razão […]”[vii]   Aqui o Papa constata o centro e a causa da crise: o abandono da teologia oficial da Igreja, isto é, a teologia de Santo Tomás!

“De fato, ó dor, os “amadores de novidades” passam naturalmente do desdém pela teologia escolástica à falta de atenção, até ao desprezo pelo próprio Magistério da Igreja que, com toda a sua autoridade, aprova inteiramente essa teologia”.[viii]

Se na época de Pio XII já se via claramente uma fumaça sombria a se aproximar da Igreja, conclui-se que, à  época do Concílio Vaticano II e ao que se seguiu depois dele, a barca de Pedro tenha imergido em nuvens densas, por vezes escuras de uma desorientação quase geral que levou o próprio Papa Paulo VI a declarar, após o encerramento do Concílio: “esperávamos uma primavera e eis que veio uma tempestade!”

Aqui as “novidades” das mais variadas entraram pela porta da frente. E foram tantas!

Todavia, se hoje nos encontramos diante dessa novidade carismática e neo-pentecostal (e aqui está o motivo pelo que se separa da Sã Doutrina) é devido, sobretudo, ao abandono da teologia escolástica, como muito bem reconheceu o Santo Padre Pio XII.

IV – O Fenômeno “Carismático”

O fenômeno “carismático” teve seu início em meios católicos logo após o encerramento do Vaticano II. A origem de tudo encontra-se no protestantismo pentecostal. Sua fonte é a heresia luterana da supremacia do subjetivismo sobre a razão teológica. Para Lutero o conceito de fé deveria ser mudado, visto que para ele tratava-se de algo “experiencial”, empírico, livre de qualquer autoridade religiosa, pois que Deus revelar-se-ia no mais íntimo do coração do homem.

Nesse espírito, nada católico, aconteceu o início daquilo que mais tarde viria a ser chamada de “renovação carismática”, noutros países “renovação no espírito”.

Aliás, quanto à origem da RCC, temos duas: a mais conhecida e difundida nos livros e formações do movimento, é a chamada “Experiência de Duquesne”, onde fica clara a adesão de dois professores universitários à heresia protestante. A versão nova (talvez numa tentativa de deixar mais “católica” sua origem) é a inclusão da Beata Helena Guerra na história, já que, sendo devota do Espírito Santo, teria influenciado o Papa Leão XIII a pedir sobre a Igreja um “novo pentecostes”. Como não houve eco nos demais graus da hierarquia, o Espírito Santo teria passado direto, indo derramar-se sobre os protestantes… Aqui se vê claramente uma loucura sem medida, para não dizer uma grossa heresia, como se Deus pudesse derramar suas graças sobre o erro, na divisão e na apostasia.

Ora, vamos aos fatos: Em agosto de 1966 esses dois professores encontraram-se com Ralph Martin e Steve Clark na Convenção Nacional dos Cursilhos e receberam destes cópias dos livros “A cruz e o punhal” e “Eles falam em outras línguas”, que tratam da experiência pentecostal. Impressionados com tudo aquilo, procuraram um ministro da igreja episcopal que os conduziu a uma paroquiana sua chamada de Flo Dodge. Esta paroquiana, com seu grupo carismático fez com que eles recebessem o “batismo no Espírito Santo”.

Aqui vale uma rápida reflexão: o que levou dois católicos e cursilhistas a procurarem práticas estranhas às suas, comungando de doutrinas protestantes?  Por que se dirigiram a um “ministro” herético? Considero aqui duas coisas importantes: a busca do experiencial e a leitura de livros que não expressam a nossa fé. Novamente volta à pauta o desejo pelas “novidades” e agora, num mundo aberto às novas práticas, onde o homem é colocado ao centro, nada melhor que uma doutrina que valorize o sentir, o perceber e o viver do homem. E a isso se encaixam, como uma luva, o sentimentalismo e subjetivismo protestantes.

O resto da história já é conhecido. Animados pelo espírito protestante com sua teologia, misturados com neo-pentecostalismos e, maravilhados com os “carismas” que eram “derramados”, num primeiro momento, já em Duquesne, num retiro, rejeitada a programação já pronta, resolvem pregar essas novidades aos demais e, pela “imposição de mãos”, receberam o chamado “batismo no Espírito Santo”. Em pouco tempo isso cresceu. Muitos aderiram e, desgraçadamente, já se viam padres envolvidos…

V – A apostasia passa pela curiosidade – S. Pio X  

A curiosidade não freada, diz o Papa São Pio X, é suficiente para entender e explicar todos os erros, pois para ele a curiosidade é a mesma coisa que o espírito de novidade. Em nome da novidade muitos católicos mergulharam no erro por darem-se às leituras protestantes e a teólogos modernistas, além dos filósofos modernos. A apostasia passa pela curiosidade.

Já o mesmo papa, percebendo as manobras modernistas e como estavam presentes na Igreja, no início do século XX, escreveu a importante encíclica Pascendi Dominici Gregis, condenando explicitamente os erros do modernismo:

“[…] Por força desta doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração dos fenômenos, isto é,  só das coisas perceptíveis e pelo modo como são perceptíveis; nem tem ela direito nem aptidão para transpor estes limites…” [ix]

Sendo verdade que a RCC difundira na Igreja tais formas protestantes através de suas práticas, seminários e livros, também é verdade que hoje são largamente usadas com ou sem o aval do mesmo movimento, que de certa forma, perdeu o controle sobre isso por motivos diversos. Não é difícil encontrar leigos, religiosos e até sacerdotes que, usando o “jeito carismático” em suas práticas, não o fazem em nome do movimento, mas em seu próprio, de forma que músicas, maneiras, aeróbicas, estilos que antes pertenciam somente à RCC, hoje são disseminados  em todos os ambientes que valorizam o sentimento e buscam a primazia dos afetos, em sua grande maioria. Na verdade é a aplicação da filosofia fenomenológica que teve como patriarca Kant (com seu sistema anti-intelectual), e depois Husserl e Max Scheller.

O objeto da metafísica clássica é o ser. Já a fenomenologia centraliza-se na manifestação dos fenômenos, nas vivências e nas experiências.

VI – As orações de cura e libertação: uma análise

É nítida a diferença entre a oração que roga a Deus a cura e as formas carismáticas encontradas hoje. O próprio documento da Sagrada Congregação para Doutrina da Fé nos aponta diferenciais.

Não se nega a eficácia da oração:

“As curas ligadas aos lugares de oração (nos santuários, junto de relíquias de mártires ou de outros santos, etc.) são abundantemente testemunhadas ao longo da história da Igreja. Na antiguidade e na idade média, contribuíram para concentrar as peregrinações em determinados santuários, que se tornaram famosos também por essa razão, como o de São Martinho de Tours ou a catedral de Santiago de Compostela e tantos outros. O mesmo acontece na atualidade, como, por exemplo, há mais de um século com Lourdes. Estas curas não comportam um «carisma de cura», porque não estão ligadas a um eventual detentor de tal carisma, mas há que tê-las em conta ao procurar ajuizar, sob o ponto de vista doutrinal, as referidas reuniões de oração.”

Primeiro ponto: Não há alguém, ou pessoas legitimadas com o carisma das curas, diferente dos ambientes “carismáticos” nos quais há sempre alguém que possui esse “poder” (que impõe as mãos, que reza, que intercede). Nas missas ditas “de cura e libertação”, sempre é o padre o protagonista, aquele “detêm” tal carisma, pode até ser auxiliado, mas é ele quem o possui. Assim também é no grupo de oração: há pessoas -ou pessoa- especificamente com esse “dom”. Tanto é verdade que é comum uma multidão acorrer a certas igrejas, abandonando sua paróquia, por causa da presença de certas pessoas (sacerdote ou não) consideradas pelos fiéis como “ungidas”. Logo, a eficácia da cura não se encontra na Missa e nos sacramentos por si mesmos, como ensina a teologia católica, mas no condutor ou pretenso “detentor” do pseudo poder.

Não é estranho que nesses ambientes surja um clima de fanatismo e supervalorização do mediador. Nas procissões com o Santíssimo Sacramento (dentro ou fora da missa), quem já não presenciou o padre com uma mão no ostensório e a outra no fiel, como se não bastasse Jesus mesmo ali presente? Num famoso programa de televisão, num desses momentos de “cura”, o sacerdote com uma mão no Santíssimo, a outra no microfone, despreocupava-se com o ostensório para procurar a posição melhor da câmera. Sobre o uso da exposição do Santíssimo Sacramento, ou procissão sem o fim para o qual reza a norma, que é a adoração, a Santa Igreja considera ilegítimo, como está abaixo, no Documento do Cardeal Ratzinger:

“[…]Também estas celebrações são legítimas, uma vez que não se altere o seu significado autêntico. Por exemplo, não se deveria pôr em primeiro plano o desejo de alcançar a cura dos doentes, fazendo com que a exposição da Santíssima Eucaristia venha a perder a sua finalidade; esta, de facto, «leva a reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida à íntima união com Ele, união que atinge o auge na comunhão sacramental”».   Nesses encontros o mediador é preponderante. Ele “realiza” curas e também as proclama com o anúncio solene do que ali está sendo realizado ao seu comando:

“Nesse momento Jesus está curando alguém que se encontrava…” “O Senhor me mostra, me revela, uma mãe aqui…”

É bem verdade que muitos santos tiveram o dom da ciência,  e sabiam  o que se encontrava no interior das almas. Padre Pio, por exemplo, era capaz de perceber toda a vida das pessoas que o procuravam. Entretanto numa vida profundamente humilde, sempre se deu por nada e jamais pediu a Deus as tantas graças nele derramadas, pelo contrário, tinha em conta o que fala a Imitação de Cristo:” Aquele que bem se conhece tem-se por vil e não se compraz nos louvores humanos.” ( I C, Cap. II,1).

É comum na RCC acontecerem os seminários de dons, onde, após rápida explicação sobre os carismas, todos são levados a pedir a Deus os dons carismáticos de revelações, curas, libertação  milagres e outros. Os que “sentem, no coração”, que foram agraciados, já podem servir à comunidade e, se forem bons em pregação e muitos confirmarem os “toques de Deus” através deles, então a fama se espalha, todos os procuram e, assim nascem os “novos ungidos”.

Sobre esta questão a Sagrada Congregação reprova e considera arbitrária a ideia de que o carisma de cura pertence a um grupo ou a pessoa. “Por conseguinte, nas reuniões de oração organizadas com o intuito de implorar curas, seria completamente arbitrário atribuir um «carisma de cura» a uma categoria de participantes, por exemplo, aos dirigentes do grupo. Dever-se-ia confiar apenas na vontade totalmente livre do Espírito Santo, que dá a alguns um especial carisma de cura para manifestar a força da graça do Ressuscitado. Há que recordar, por outro lado, que nem as orações mais intensas alcançam a cura de todas as doenças. Assim São Paulo tem de aprender do Senhor que «basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder» (2 Cor 12,9) e que os sofrimentos que se têm de suportar podem ter o mesmo sentido do «completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja» (Col 1,24)”.   Na conclusão do presente documento encontramos as disposições disciplinares, que valem a pena ser lidas para o nosso conhecimento e também para perceber a distância daquilo que a Igreja ensina com aquilo que se faz hoje “ao Deus-dará!”

Art. 3  – § 1. As orações de cura litúrgicas celebram-se segundo o rito prescrito e com as vestes sagradas indicadas no Ordo benedictionis infirmorum do Rituale Romanum.(27).

Aqui verificamos que há orações prescritas e que se encontram no ritual da Igreja Romana, excluindo-se a possibilidade de improvisos e a mistura com outras orações e formas, ou seja, a criatividade…

§ 2. Os que estão encarregados de preparar ditas celebrações litúrgicas, deverão ater-se a essas normas na realização das mesmas.
§ 3. A licença de realizar ditas celebrações tem de ser explícita, mesmo quando organizadas por Bispos ou Cardeais ou estes nelas participem. O Bispo diocesano tem o direito de negar tal licença a qualquer Bispo, sempre que houver uma razão justa e proporcionada (grifo do original).
§ 3. É necessário, além disso, que na sua execução não se chegue, sobretudo por parte de quem as orienta, a formas parecidas com o histerismo, a artificialidade, a teatralidade ou o sensacionalismo (grifo nosso).

Art. 7  – § 1. Mantendo-se em vigor quanto acima disposto no art. 3 e salvas as funções para os doentes previstas nos livros litúrgicos, não devem inserir-se orações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas, na celebração da Santíssima Eucaristia, dos Sacramentos e da Liturgia das Horas” (grifo nosso).

Logo, não pode existir uma “Missa de Cura e Libertação”, com elementos estranhos à sagrada liturgia, mas sim a “Missa pelos Enfermos”, já prescrita no missal, sem alterações, nem criatividades.

Art. 8  – § 1. O ministério do exorcismo deve ser exercido na estreita dependência do Bispo diocesano e, em conformidade com o can. 1172, com a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé de 29 de Setembro de 1985(31) e com o Rituale Romanum.(32) § 2. As orações de exorcismo, contidas no Rituale Romanum, devem manter-se distintas das celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas. § 3. É absolutamente proibido inserir tais orações na celebração da Santa Missa, dos Sacramentos e da Liturgia das Horas.

Art. 10  – A intervenção da autoridade do Bispo diocesano é obrigatória e necessária, quando se verificarem abusos nas celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas, em caso de evidente escândalo para a comunidade dos fiéis ou quando houver grave inobservância das normas litúrgicas e disciplinares.

Como vemos, essas normas estão longe de serem cumpridas  pela RCC e a desobediência à voz da Igreja continua na ordem do dia. Mas, se não há obediência, como pode haver “intervenções sobrenaturais de Deus” em tais momentos? O principal critério para se discernir as ações do bom ou mau espírito, como ensina Sto. Inácio , é justamente a obediência que permeia toda a ação.

Não são poucas as pessoas que me procuram extremamente confusas pelo que foi por elas visto nesses momentos de oração, sobretudo perplexas com o que lá assistiram e tendo sua fé abalada até às bases.

Músicas emotivas que se repetem, gerando um clima propício ao sentimentalismo, embaladas por cantorias em línguas estranhas, enquanto pseudo exorcismos vão sendo realizados, numerosas pseudo curas e, o mais esperado é justamente, o “passeio com o Santíssimo Sacramento”. Aquele que dirige a oração convida a todos para colocarem fotos de entes queridos, já trazidas para esse fim, para tocarem no ostensório. Assim começa o “esfrega-esfrega” na custódia (como se Jesus não fosse onipresente), desrespeitando blasfemando o Santíssimo Sacramento. Mas não fica só nisso! Ainda com o Santíssimo, as pessoas são convidadas a se aproximarem e, ao simples toque no ostensório, puft! Repousam no “espírito”! Caem no chão! Ficam lá em “êxtase”. E a palavra é mesmo essa: “Êxtase”.

No livro chamado “O Repouso no Espírito”, o padre jesuíta Robert DeGrandis, compara esse “fenômeno” ao êxtase dos santos, como Santa Teresa d´Avila e outros místicos.

Ora, ensina a teologia mística que são três as vias de elevação da alma a Deus e que é somente na última via, a “unitiva”, que a alma começa a gozar dos enlaces do Amado.

Aqui se dão os êxtases e das revelações à alma dos segredos de Deus. Todavia nem todas as almas santas que atingiram o cume das virtudes e da santidade (próprias desta última via) passavam por tais experiências. A própria Teresinha do Menino Jesus, no auge de sua santidade, encontrava-se em profunda aridez, a ponto de dizer: “Amo-te, mesmo que me seja negado o paraíso”.

Conheço pessoas que “repousaram no espírito” nessas orações e missas e que dizem ter “experimentado” uma alegria profunda, mas vivem privadas da graça santificante por se encontrarem em pecado mortal por ato, ou por situação assumida, como adultério (segunda união), vida íntima no namoro, etc. Não é pequeno o número de pessoas que dizem ter passado por essas “experiências”, mas que ou jamais se aproximaram do sacramento da confissão (penhor de toda cura) ou que já estão distante dele por anos e anos.

Um padre carismático escrevia que o que acontece é simples: pela experiência “pessoal com Deus”, a pessoa é elevada já, pelo o que se chama de “batismo no Espírito” à última via do caminho espiritual, à via unitiva! Isso é tão absurdo: de uma gravidade e heresia sem tamanho, que nem vale a pena discorrer!

Os carismas como são aplicados nessas orações ou missas, ou ensinados pela RCC, sobretudo o chamado “repouso no Espírito”, não possuem nenhum respaldo no magistério da Igreja, quer ordinário ou extraordinário. Não existe nenhum documento da Santa Sé que autentique ou endosse como católicas essas estranhas práticas que nunca fizeram parte do comum da Santa Igreja. Todos os carismas, inclusive o dom das línguas, foram objetivamente ensinados e explicados pelos padres e doutores, sobretudo Sto. Tomás de Aquino, a quem devemos dar total e pronto acatamento.

 

A Santa Sé se pronuncia:
DANÇAS, MÚSICAS E APLAUSOS NA MISSA
Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

Cidade do Vaticano – O clero, em todos os níveis, deve obedecer ao Papa: é a parte central da mensagem do Mons. Albert Malcolm Ranjith Patabendige, Secretário da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, entrevistado exclusivamente pelo site “Petrus”.

Mons. Albert Ranjith Patabendige, Indiano, é o Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Foi entrevistado pelo repórter Bruno Volpe, que publicou o teor da entrevista no site Petrus (http//www.papanews.it). Dessa entrevista vão, a seguir, publicados alguns dos tópicos mais salientes:

Excelência, que acolhida teve o Motu Proprio de Bento XVI que liberou a Santa Missa conforme o rito tridentino? Alguns, no seio da própria Igreja, viraram o nariz…

Mons. Ranjith: “Houve reações positivas e, é inútil negar, criticas e oposições também de parte de teólogos, liturgicistas, sacerdotes, Bispos e até de Cardeais. Francamente, não compreendo estas formas de afastamento e – por que não? – de rebelião contra o Papa. Convido a todos, particularmente os Pastores, a obedecer ao Papa, que é o sucessor de Pedro. Os bispos, em especial, juraram fidelidade ao Pontífice: sejam coerentes e fiéis ao seu compromisso”.

Segundo o senhor, a que se devem estas manifestações contrárias ao Motu Proprio?

Mons. Ranjith: “Como o senhor sabe, em algumas dioceses foram publicados documentos interpretativos que visam inexplicavelmente limitar o Motu Proprio do Papa. Por trás destas ações se escondem, por um lado, preconceitos do tipo ideológico e, por outro lado, o orgulho, um dos pecados mais graves. Repito: convido a todos a obedecer ao Papa. Se o Santo Padre julgou como seu dever promulgar o Motu Proprio, é porque ele teve os seus motivos com os quais eu concordo plenamente”.

A liberação do rito tridentino determinada por Bento XVI surgiu como um justo remédio a tantos abusos litúrgicos tristemente registrados depois do Concilio Vaticano II com o ‘Novus Ordo” (1)…

(1) …Novus Ordo é o rito posterior ao Concilio do Vaticano II

Mons. Ranjith: “Veja, eu não quero criticar o ‘Novo Ordo’. Mas, me vem de rir quando ouço dizer, até por amigos, que numa paróquia um sacerdote é Santo pela sua homilia, ou como fala. A Santa Missa é sacrifício, dom, mistério, independentemente do sacerdote que a celebra. É importante, melhor, fundamental, que o sacerdote se coloque de lado: o protagonista da Missa é Cristo. Não entendo, portanto, celebrações eucarísticas transformadas em espetáculo com danças, músicas ou aplausos, como muito frequentemente ocorre com o Novo Ordo”.

Monsenhor Patabendige, a Sua Congregação muitas vezes já denunciou estes abusos litúrgicos…

Mons. Ranjith: “Verdade. Há muitos documentos nessa linha que, infelizmente, ficaram letra morta, terminando em gavetas poeirentas, ou, pior ainda, no cesto de lixo”.

Um outro ponto: muitas vezes se ouvem homílias longuíssimas…

Mons. Ranjith: “Também isto é um abuso. Sou contra danças e aplausos no decorrer das missas, que não são um circo nem um estádio. Em relação às homílias, estas devem se referir, como salientou o Papa, exclusivamente ao aspecto catequético, evitando sociologismos e falatórios inúteis. Por exemplo, é comum sacerdotes tocarem na política porque não prepararam bem a homilia que, pelo contrário, deve ser escrupulosamente estudada. Uma homilia excessivamente longa é sinônimo de pouca preparação: o tempo ideal de uma pregação deve ser de 10 minutos, no máximo 15. Deve-se lembrar que o momento culminante da celebração é o mistério Eucarístico, sem com isto querer diminuir a liturgia da Palavra, mas salientar como deve ser aplicada uma correta liturgia”.

Voltando ao Motu Proprio, alguns criticam o emprego do latim durante a Missa…

Mons. Ranjith: “O rito tridentino faz parte da tradição da Igreja. O Papa oportunamente já explicou as razões deste seu ato, um ato de liberdade e de justiça com os tradicionalistas. Quanto ao latim, gostaria de salientar que nunca foi abolido, e é mais uma garantia da universalidade da Igreja. Mas eu repito: convido os sacerdotes, Bispos e Cardeais à obediência, deixando de lado todo tipo de orgulho ou preconceito”.

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