Histórias sobre Sinos

Por Mons. Inácio José Schuster
Vigário Geral da Diocese de Novo Hamburgo

Os sinos de nossas igrejas sempre despertam curiosidade de muitas pessoas, mesmo aquelas que não professam a nossa fé. Enquanto as torres das igrejas em geral se sobrelevam ao casario e às demais construções circundantes identificam a presença de um templo por sua mensagem visual, os sinos as complementam, com sua mensagem sonora.

Esses nossos mensageiros apareceram na mais remota antigüidade, na China, e foram usados nos mosteiros budistas, como também foram encontrados no antigo Egito. Suas formas e pesos variaram muito durante os séculos, mas são considerados instrumentos musicais aptos para alertar e convidar os fiéis para as celebrações comunitárias e mesmo para as orações diárias.

Eles são um sinal (daí a origem do nome em latim “signum” e são feitos de bronze – uma liga de 4 partes de cobre e uma de estanho, adicionando também uma dosagem de ouro ou de prata e outros componentes, para otimizar sua sonoridade, segundo fórmulas secretas guardadas sob sete chaves e passadas de geração a geração pelas famílias construtoras, em geral italianas ,alemãs e portuguesas.

Parece que os primeiros a utilizá-los foram os mosteiros beneditinos para convocar os monges às orações das horas, na Itália, nas Gálias e Inglaterra, ou mesmo um santo, São Paolino de Nola que anteriormente já os tinha usado em sua catedral, em meados do século quinto, ou seja, em 431. No século VIII, o Papa Estevão II fez construir uma torre na antiga Basílica de São Pedro, nela colocando três sinos.

No século IX apareceram em todas as catedrais e nas igrejas paroquiais. Os sinos como “res sacrae”, instrumentos diretamente ligados ao culto costumam ser “batizados”, como se diz, ou melhor, recebem uma benção própria, reservada ao Bispo. Costumam homenagear determinados santos cujos nomes são gravados em alto relevo em sua forma cônica.

Vejamos algumas inscrições existentes em velhos e venerados sinos, testemunhas da história, de acontecimentos felizes, de desgraças e calamidades de suas comunidades ou aldeias. Ouçamos em latim, na língua que convém aos sinos evidentemente:

“Vox mea, vox vitae, voco vos ad sacra, venite.” “A minha é a voz da vida que vos convida ao culto divino”, ou, outra mais completa: “Laudo Deum verum” – Louvo o Deus verdadeiro
“Plebem voco” – Convido o povo
“Congrego clerum” – Reúno o clero
“Defunctos ploro” – Choro os mortos
“Nimbum fugo” – Afugento os temporais
“Festa decoro” – Solenizo as festas

Há outra inscrição muito bela: “Funera plango” – Choro os funerais
“Fulmina franfo” – Elimino os raios
“Sabbata pango” – Alegro os feriados
“Excito lentos” – Acordo os preguiçosos
“Dissipo ventos” – Afasto os vendavais
“Paco cruentos” – Pacifico os violentos

Os sinos gozavam de grande prestígio em outras épocas, eram queridos do povo e exerciam até mesmo funções sociais importantíssimas para as suas comunidades.

De acordo com o seu toque, conhecido de antemão pelo povo, os sinos alertavam para os incêndios, a proximidade dos vendavais, ou então a morte e o sepultamento de pessoa da comunidade, (comum toque lento e espaçoso), ou mesmo, o nascimento de uma criança, diferenciando o dobre se essa fosse do sexo masculino ou feminino. Os sinos eram, portanto uma forma perfeita de comunicação em tempos passados e o relógio comunitário.

Durante o dia, às 6 horas, ao meio dia e às 18 horas, recordavam ao povo a hora da oração do “angelus”, ou das ave-marias. Ecoando pelos vales, pelas planícies e colinas traziam sempre mensagem de fé e de serenidade. Durante o tempo do advento e particularmente na quaresma os sinos emudeciam, e o povo sentia a sua falta.

No Natal, à Missa da meia-noite e na solene Vigília da Páscoa, porém, eles se libertavam do longo silêncio penitencial, atingiam o máximo de esplendor e de brilho com o bimbalhar festivo que inundava de alegria os corações de todos.

Hoje parece que os sinos não têm mais voz e vez. Nas grandes cidades as torres que são seu habitat natural vivem asfixiadas entre gigantescos arranha-céus e a sua voz suplantada pela parafernália dos motores e buzinas. Entretanto, eles continuam vivos no imaginário coletivo.

A maioria das pessoas não consegue identificar uma igreja sem a torre e sua presença ilustrativa é constante nos cartões de Páscoa e Natal. Os psicólogos infantis afirmam que as crianças costumam identificar os sinos com a própria igreja.

Em países onde a religião era tolerada ou perseguida, sempre que possível, talvez em sinal de protesto e de auto-afirmação, os campanários se elevavam aos céus e havia até uma sã rivalidade entre as comunidades para ver quem construísse a torre mais alta e mais artística de toda a região.

Em todo o Brasil – do Oiapoque ao Chuí – os sinos belos e históricos estão também presentes no seu cenário.  A tecnologia moderna subiu até as torres e aboliu todo esforço humano na arte de tocar sinos.

Os sinos hoje são eletrônicos e ainda mais, programados. Mesmo com as igrejas fechadas e sem presença humana, eles tocam como se mãos invisíveis de anjos os acionassem docemente, enquanto os homens modernos, sempre estressados, se agitam… Amemos os nossos sinos. Eles são os amigos que nos convidam a caminhar em nossa fé.

Mensageiros celestes que nos convocam à oração, nos alertam para o horário, nos comovem, nos alegram e nos enternecem. O Senhor Jesus afirmou: meus discípulos ouvem a minha voz. Não será também a Sua a voz dos sinos?

 

O TOQUE DOS SINOS

Hoje, com mais freqüência, ouvem-se os sinos de nossas igrejas. Eles lembram o sagrado em meio a uma cidade secularizada. Parece ter caído em desuso, em muitas paróquias, o toque dos sinos, que são utilizados para chamar os fiéis às sagradas funções, bem como para alertar os cristãos.

Que repiquem os sinos, pois eles nos falam de Deus a chamar seus filhos para a oração e o recolhimento. Outra função importante que pode e deve ser salientada é a humanização deste imenso aglomerado urbano, onde o toque dos sinos tem também outra finalidade, às vezes de interesse da administração civil. Sem haver um ato formal, tenho, em diversas oportunidades, falado sobre as vantagens desses instrumentos valiosos para recordar a importância do sagrado e o conforto que propiciam a quem se acha envolvido pela solidão das grandes cidades.

Os sinos continuam voltando às torres da casa de Deus e este som nos traz alegria e paz. Não se trata de um instrumento criado pela Igreja para evangelizar, embora ela o utilize também com esse objetivo. Na China, séculos antes do Nascimento de Cristo, ele já existia. O mesmo se diga dos monumentos pagãos no Egito e em Roma.

No Antigo Testamento, sinetas nas vestimentas sacerdotais são mencionadas em diversos livros da Bíblia. O Êxodo (28, 33-35), ao tratar dos ornamentos litúrgicos, inclui as campainhas de ouro. Elas deviam recordar a aliança entre Javé e o Povo eleito. À medida que, cessada a perseguição, os cristãos construíram as basílicas, surgiram grandes edifícios para o culto, dotados, a partir do século V, de campanários.

Na era cristã, a primeira referência ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. No século VIII, o Papa Estêvão II fez edificar, na basílica de São Pedro, anterior à atual, também um campanário. A utilização generalizada na Igreja, a serviço da Fé, vem do primeiro milênio de sua história.

O Código de Direito Canônico de 1917 (cân. 1169 § 1º) sintetizava bem sua posição no campo pastoral: “É conveniente que todas as igrejas tenham seus sinos, com os quais se convidam todos os fiéis para os diversos ofícios e demais atos religiosos”. A Liturgia se faz presente. A partir do século VII se tem notícias do denominado “batismo dos sinos”.

Em nossos dias, a expansão do secularismo diminuiu o seu emprego, principalmente nas grandes cidades. Dois fatores contribuíram para essa redução: a fraqueza dos clérigos em não resistir aos obstáculos postos às manifestações do sagrado, como a torre e o som dos sinos e o anúncio que eles nos transmitem sobre a existência da realidade divina, um convite à reflexão.

A linguagem do campanário é uma fala de Deus, recorda-nos sua presença, o valor da manifestação orante, em certas horas do dia, uma pausa benéfica em meio à efervescência da vida moderna; um apelo ao cumprimento do dever da Missa dominical. Quando somos assediados por uma quantidade de anúncios em favor de uma vida distanciada do Evangelho, a voz do sino se antepõe ao que nos separa de Deus.

Trata-se, portanto, de válido instrumento de evangelização, também em nossos dias. E não somente nas pequenas cidades, simples aglomerados humanos. Embora em outro nível, importante é sua ajuda para a humanização de nosso ambiente.

Quanto maior for a agitação de um grande centro urbano, mais necessária será essa contribuição, que nos ajuda a superar o cansaço, resultado de atividades absorventes. A sensação de paz e tranqüilidade que nos transmite, compensa o esforço em fazê-lo presente em nosso meio. O mundo moderno valoriza a importância dos sinais. E aí está um que indica uma realidade que nos enriquece. Fala do Bem, da Concórdia, da Fraternidade.

Recorda-nos a presença de Deus. Utiliza uma linguagem que vence distâncias e é ouvida por multidões. Evidentemente, o respeito ao direito de não ser alguém incomodado em suas convicções esbarra na liberdade da manifestação legítima do culto. A observância da legislação sobre o silêncio e o respeito às práticas religiosas do próximo têm, no diálogo, um válido recurso para uma pacífica convivência.

O Concílio Ecumênico Vaticano II determinou a revisão das celebrações de bênçãos. Em conseqüência, a então Congregação para o Culto Divino, por mandato especial do Romano Pontífice, publicou, com data de 31 de maio de 1984, o Ritual de Bênçãos e nele se inclui a do sino.

No texto há passagens bem elucidativas: “Os sinos estão, de certo modo, ligados à vida do Povo de Deus. Seu som marca os tempos da oração, reúne o povo para realizar ações litúrgicas, avisa os fiéis sobre acontecimentos mais sérios que podem significar aflição ou alegria”.

O texto do Evangelho lido nessa oportunidade (Mc 16, 14-16.20), se refere à evangelização: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”. O Cerimonial dos Bispos, publicado por ordem do Sumo Pontífice o Papa São João Paulo II com data de 14 de setembro de 1984, estabelece: “Na Igreja latina tem prevalecido o costume, que é bom conservar, de benzer os sinos antes de se colocarem no campanário” (nº 1.023).

O canto dos anjos que anunciou o Nascimento de Cristo e, com ele, uma nova humanidade, repete no som de nossos sinos, no Novo Ano de 2015, a alvissareira notícia: veio ao mundo nosso Redentor.

 

O sino: simbolismo e efeitos benéficos. A oração do Ângelus

A oração do Ângelus compõe-se de duas partes essenciais: a oração e o som do sino.

O sino dá ao Ângelus uma solenidade excepcional.

Por que o sino toca o Ângelus de manhã, ao meio-dia e à tarde?

Por ordem da Igreja Católica, cumpre a palavra do rei profeta: “À tarde, de manhã e ao meio-dia, cantarei os louvores de Deus, e Deus ouvirá a minha voz”.

À tarde, canta o princípio da Paixão do Redentor no Jardim das Oliveiras.

De manhã, a sua Ressurreição, e ao meio-dia a sua Ascensão.

De manhã, dá o sinal do despertar, da oração e do trabalho.

Ao meio-dia, adverte o homem de que a metade do dia é passada, e que a sua vida não é mais que um dia.

À tarde, toca ao recolhimento e ao repouso.

Diz ao homem: faze tuas contas com Deus, pois esta noite talvez Ele exigirá a tua alma.

Fazendo ouvir a sua voz três vezes por dia, recorda aos cristãos as lembranças de um glorioso passado, essas belicosas expedições, a honra eterna dos Papas, que salvaram o Ocidente da barbárie muçulmana.

Toca três vezes, para recordar as três Pessoas da Trindade, às quais o mundo é devedor da Encarnação.

Toca nove vezes, em honra dos nove coros de anjos, para convidar os habitantes da Terra a abençoar com eles o seu comum benfeitor.

Entre cada tinido – ou melhor, entre cada suspiro – deixa um intervalo, para que sua voz desça mais suavemente ao coração e desperte com mais segurança o espírito de oração.

Por que, depois do tinido do Ângelus, o sino faz ribombar sua voz? Canta uma dupla redenção: a redenção dos vivos, pelo mistério da Redenção, e a redenção dos finados, pela indulgência ligada ao Ângelus.

Ao Purgatório toca uma felicidade, e a Maria a saudação de uma alma que entra no céu. Assim opera a Igreja da terra, cheia de ternura por sua irmã padecente.

Por que chora o sino na agonia? Se reflete as alegrias deve refletir também as dores.

Para sustentar o jovem cristão nos combates da vida, o sino pede as nossas orações.

Como não solicitá-las nas lutas da morte? Entre todas, estas lutas não são as mais terríveis e as mais decisivas.

No toque da agonia, o sino diz: “Miseremini mei saltem vos amici” – Tende piedade de mim, pelo menos vós que fostes meus amigos!

Vinde orar por mim, vinde sepultar o meu corpo, vinde acompanhá-lo à igreja, depois ao dormitório, onde ele deve repousar até a ressurreição dos mortos.

O sino, nesse momento, assemelha-se a uma mãe que, na sua terna solicitude, não se permite nem paz nem trégua, para clamar em socorro de seus filhos desgraçados e obter a sua libertação.

Também o sino deve tornar o cristão invencível na sua guerra contra os demônios.

Ao estridor dos sinos – acrescenta um de nossos antigos liturgistas – os espíritos das trevas são penetrados de terror, da mesma forma que um tirano se espanta quando ouve ressoar nas suas terras as trombetas guerreiras de um monarca seu inimigo.

Toque de recolher: no inverno, nos países montanhosos, pelas nove horas da noite, o sino faz ouvir a sua voz mais forte.

Chama o viajante desencaminhado, e indica-lhe a estrada que deve seguir para chegar ao lugar onde achará a hospitalidade.

Uma imagem do que também acontece com as almas perdidas no pecado.

Eram inteiramente outros os sentimentos de nossos religiosos antepassados.

Testemunhas inteligentes das bênçãos e das consagrações praticadas pela Igreja no batismo dos sinos, devotavam-lhe um profundo respeito e santo pavor.

Daí vem que temiam infinitamente mais jurar sobre um sino consagrado do que sobre os próprios Evangelhos.

Fonte: Mons. Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”

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