Como explicar? Casa mal-assombrada

Em síntese: A imprensa deu notícia de casa mal-assombrada no Rio Grande do Sul; os moradores abandonaram a residência, julgando haver aí um demônio ou uma alma do outro mundo. – Na verdade, o fenômeno se explica pela presença, na casa, de uma pessoa que sofra de uma “tempestade (trauma) interior” e projete esse tumulto psicológico para fora de si mediante a telergia.
O jornal ZERO HORA, de Porto Alegre, edição de 13/5/2003 publicou a notícia de uma casa mal-assombrada que provocou grande tumulto na região de Novo Hamburgo (RS). Tal caso, do qual existem similares periodicamente, será analisado nas páginas seguintes.

1. A notícia
Eis o que se lê no jornal ZERO HORA de Porto Alegre, edição de 13/5/2003, p. 30: Família foge de casa com medo de supostos fenômenos paranormais
Uma série de acontecimentos paranormais em uma casa de Novo Hamburgo, no Vale dos Sinos, obrigou uma família de seis pessoas a abandonar o local ao entardecer de ontem e atraiu a atenção de dezenas de pessoas. Crucifixos quebrados, facas voando, armários despencando no chão e sobre pessoas são listados como o saldo de fatos que estariam ocorrendo dentro de uma moradia de madeira na Rua Quarai, bairro Boa Vista. A desempregada Rosali Delly, 37 anos, deixou a casa às 18h levando algumas roupas, o bebê de oito meses e outros dois filhos, genro e nora. Nas duas últimas semanas, conforme relata, objetos estariam voando pelas peças da casa e se chocando contra as paredes. Alguns desses possíveis fenômenos teriam ocorrido na tarde de ontem, na presença de vizinhos de Rosali. À noite, em frente à casa, havia pedaços de móveis quebrados. – Quando tudo isso começou, pensamos que fosse brincadeira de algum dos meus filhos. Nem dei muita atenção – conta Rosali, sem conter as lágrimas. No sábado passado, uma faca teria se movido sozinha contra a adolescente Jaqueline Clarice Pereira, 17 anos, nora de Rosali. O mesmo jornal apresenta casos semelhantes:
1987 – Leonice Fitz, à época com 13 anos, assombrou os moradores de Santa Rosa. Durante quatro meses, na casa onde vivia, paredes eram arranhadas, batidas eram ouvidas sem que houvesse ninguém do outro lado, objetos voavam porta afora e se espatifavam no chão e lâmpadas estouravam sozinhas, entre outros fenômenos. A jovem chegou a ser analisada por especialistas, e os fenômenos deixaram de acontecer pouco tempo depois.
1993 – Clair Lopes, então com 17 anos, despertou a atenção da comunidade de Anchieta (SC). Na presença dela, objetos se moviam sozinhos e aparelhos eletrodomésticos ligavam e desligavam.

2. Como explicar?
Muitos casos semelhantes aos que transcrevemos têm sido analisados pelos estudiosos, que chegaram à seguinte conclusão: A “assombração” não se deve a espíritos do além, mas tão somente ao aquém, isto é, a uma pessoa adolescente ou jovem (muitas vezes, do sexo feminino) que traz em seu íntimo um conflito psíquico. Este conflito interior, em não poucos casos, se traduz em conflito exterior, isto é, em choques físicos, que atingem móveis, quadros, lâmpadas; a desordem exterior, física, visível que assim se origina, não é senão a imagem da desordem que existe no íntimo do paciente. Os golpes físicos na casa são causados diretamente pela chamada telergia da pessoa conflitada. Com efeito, verifica-se que certas pessoas emitem uma energia dirigida pelo seu inconsciente… energia que agride o ambiente no qual elas se acham; tal energia se chama telergia (tele = longe; ergon = trabalho, em grego). A telergia realiza aportes, ou seja, o transporte de certos objetos através de paredes ou outros objetos sólidos. Mediante a telergia, uma pessoa muito dotada, do ponto de vista parapsicológico, pode efetuar o transporte (aporte) de objetos situados num raio de 50m ao redor. A telergia pode também produzir pancadas – fenômeno este que se chama “tiptologia” (typto = bater, em grego). Mais ainda: conforme muitos estudiosos, a telergia pode transformar-se em energia luminosa (é o caso dos insetos chamados “vagalumes” ou “pirilampos”), em energia elétrica (como no peixe “raia”), em energia térmica, mecânica, etc. Verifica-se que, retirando-se da “casa mal-assombrada” a pessoa que sofra de conflitos psicológicos, deixam de ocorrer as “assombrações” e o ambiente volta à paz. Por conseguinte, torna-se desnecessária ou ilusória a explicação do fenômeno mediante espíritos do além. Examinemos agora mais atentamente o que são a telergia e o aporte.

3. Telergia e aporte
3.1. Telergia
A telergia já era conhecida no século passado pelo nome de “magnetismo animal”. A fundamentação científica da teoria da telergia é a seguinte: Hoje em dia julga-se que as nossas atividades nervosas e musculares, assim como a concepção de idéias e as emoções, são acompanhadas por atividades elétricas; há mais de trinta anos, diz-se que o organismo produz correntes elétricas. Ora pela Física sabe-se que toda corrente elétrica produz um campo magnético. É lógico pensar que, numa pessoa normal, esse magnetismo seja imperceptível, mas que, em estado de transe, certas pessoas dotadas do ponto de vista parapsicológico manifestem esse magnetismo e a correspondente telergia. Em 1947, o paciente (dotado parapsicologicamente) Angelo Achille foi estudado pela Società Italiana di Metapsichica sob a direção do Dr. Maurogordato; comprovou-se então, por meio de um eletrodo posto em cada mão do paciente com um medidor, que Angelo Achille, ao realizar fenômenos parapsicológicos, manifestava um potencial elétrico de 200 mil volts, ao passo que este nas pessoas normais oscila entre vinte e quarenta. Ao contrário, experiências realizadas com a mão de um cadáver não deram efeito algum de ordem telergética. Alguns estudiosos admitem que se poderia fazer a psicanálise do sujeito que emite telergia e produz os respectivos aportes (locomoção de corpos); sim, julgam que tais fenômenos podem significar o desejo de chamar a atenção, o de vingança, o de comunicar uma notícia desagradável ou um perigo iminente; podem também exprimir carência efetiva (como, talvez, tenha sido no caso de Rosali citado atrás).

3.2. Aporte
O fenômeno do aporte parece mais difícil de ser explicado, pois consiste no transporte de corpos sólidos através de paredes, o que implica na interpenetração de corpos. O problema assim levantado é esclarecido à luz da Física moderna. Com efeito; a Física atômica afirma não existirem corpos totalmente opacos – o que significa que a matéria não é toda compacta nem impermeável. Observa-se, aliás, que as ondas do rádio e da televisão, tanto em preto e branco como em cores, atravessam as paredes, embora sejam ondas físicas. Eis uma tentativa de explicação do fenômeno do aporte:
1) Trata-se de um fenômeno físico, pois supõe um corpo quantitativo posto em movimento no espaço e no tempo e através de obstáculos físicos.
2) A extensão dos corpos visíveis é devida à velocidade do movimento oscilatório das partículas que os constituem (em função de três variáveis: massa, energia e vetor velocidade).
3) Pela maior ou menor velocidade das suas partículas os objetos são mais ou menos extensos e nos dão a ilusão da continuidade.
4) Na sua realidade profunda, porém, os corpos são como redes de partículas microscópicas (massa-energia).
5) A massa é mínima em relação à energia e à velocidade.
6) Ora todo corpo é permeável a qualquer forma de energia e velocidade superiores à sua. Por exemplo, no magnetismo a energia que se desprende do campo eletromagnético atravessa qualquer campo, porque tem a velocidade da luz (300.000 km/s), que é superior à velocidade molecular (27.000 km/s) dos corpos atravessados. Além disto, devemos notar:
7) A massa dos corpos em movimento varia com a velocidade, segundo a teoria da relatividade de Einstein.
8) Também está demonstrado por experiência de laboratório que a massa se pode transformar-se em energia.
9) Se a velocidade de um objeto supera a velocidade molecular, esse objeto se desintegra, porque vence a força de atração das partículas que o constituem.

Na base destes princípios, podem-se formular três hipóteses para explicar como uma pessoa parapsicologicamente dotada pode exercer o fenômeno do aporte:
a) O sujeito dotado imprime ao objeto do aporte velocidade superior à das partículas que constituem determinada área do obstáculo; em consequência, o objeto atravessa tal área do obstáculo.
b) O sujeito transforma a massa do objeto em energia; tal energia atravessa então qualquer obstáculo.
c) O sujeito exerce o influxo em determinada área do obstáculo, diminuindo ou neutralizando (durante um décimo de segundo) a velocidade molecular; essa área do objeto ficaria praticamente sem massa ou permeável. Qualquer destas hipóteses deixa dúvidas ao estudioso. Pergunta-se, além do mais: como é que o homem consegue emitir a telergia? Como é que a telergia consegue imprimir e neutralizar a velocidade?

As perguntas resultam do próprio fato de que um corpo sólido atravessa outro sólido. Elas persistem mesmo para quem admita a irrisória e absurda hipótese de que um espírito do além mova os corpos conflitantes nas “casas mal-assombradas”. Vê-se quão profunda é a realidade do ser humano. Possam os futuros estudos penetrar um pouco mais dentro desse mistério, a fim de explicar as suas manifestações mais raras e surpreendentes!

4. Como resolver o problema de assombração?
Se você algum dia tiver notícia de uma casa mal-assombrada, não tenha medo, mas vá visitá-la com tranquilidade para tentar solucionar o problema. Que fazer ao chegar lá?
1)  Procure reunir todos os moradores e frequentadores da casa (sem faltar ninguém) e peça que lhe contem minuciosamente tudo o que está acontecendo nesse lar.
2)  Pergunte: quem esteve sempre presente por ocasião dos fenômenos de assombração? Talvez um adolescente ou uma jovem na faixa dos onze aos vinte anos. Raramente poderá vir ao caso uma pessoa de mais idade. Observe bem a fisionomia dessa(s) pessoa(s) sempre presente(s) aos acontecimentos: é gente magra, pálida, nervosa, subnutrida?
3)  Anote bem as características da pessoa que finalmente pareça ser suspeita de sofrer de um conflito interior: nome, endereço, idade, religião (se é espírita ou médium, ainda mais facilmente se explica o fenômeno); grau de cultura e instrução…
4)  Indague se essa pessoa sofre de algum problema sério em casa: ódio, raiva, ciúme… com os pais, irmãos, namorado, esposo ou esposa…
5)  Pergunte se os pais trataram com rigor ou descaso tal pessoa…, se sofre de disritmia, trauma ou outro mal semelhante.
6)  Peça aos pais que criem um ambiente familiar favorável, marcado por amor e carinho, a fim de que os filhos, para o futuro, não padeçam novos traumas psíquicos (se os houver).
7)  Oriente cientificamente a família, fazendo-lhe ver que não há intervenção do além (demônio, exu, espírito desencarnado…), mas que se trata de fenômeno explicável pela Parapsicologia: num dos moradores ou visitantes da casa existe um conflito interior…; como essa pessoa é parapsicologicamente dotada, tal conflito se traduz em batalha exterior de móveis, quadros, lâmpadas que apavoram os presentes.
8)  Por conseguinte, a solução é possível, desde que a família perca o medo, recupere a calma e procure colocar amor e carinho onde faltam, ou seja, no relacionamento com o indivíduo suspeito de estar sofrendo um trauma íntimo. Muitas vezes será necessário afastar, por algum tempo, tal pessoa ou o adolescente conflitado, levando-o para a casa de tios ou amigos a fim de que se recupere do seu estado nervoso desequilibrado. O afastamento fará cessar a assombração e proporcionará a cura ao enfermo. Este em alguns casos poderá precisar de exame médico e tratamento mais prolongado.
9)  Mostre-se firme ao ministrar essas orientações. Apele para a absoluta confiança em Deus, que permite provações para o nosso bem, mas “nunca permitiria o mal, se não tivesse recursos para tirar do mal bens ainda maiores” (S. Agostinho).
10) Se necessário, veja se pode contribuir para a reconciliação de ânimos melindrados, dissolução de ciúmes, inveja, desconfiança, ressentimento…, coisas que podem ser a causa dos assustadores fenômenos. Seja “o bem-aventurado artesão da paz” de que fala o Evangelho (Mt5, 9).
11) Mostre muito interesse, caridade, bom senso, a fim de conquistar a confiança dos moradores das casas mal-assombradas… Se conveniente, volte à mesma casa uma segunda, uma terceira vez… Não tenha pressa em suas visitas. As pessoas assustadas têm que ser reconduzidas ao seu normal com muita paciência e bondade.
12) Encerre suas visitas com uma oração a Deus Pai, pedindo-lhe a solução do problema em foco e entregando-lhe confiantemente o futuro da família atribulada. Assim você poderá ajudar grandemente os seus semelhantes, fazendo-os passar de estados emocionais um tanto irracionais para um comportamento lógico e sereno, inspirado pela fé.

Ver Edvino A. Friederichs S. J., Casas mal-assombradas. Ed. Loyola, São Paulo, 1980.
Estêvão Bettencourt O.S.B

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