3º Domingo da Páscoa – Ano B

Evangelho segundo São Lucas 24, 35-48
E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito. Disse-lhes, então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.» Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como, na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?» Deram-lhe um bocado de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles. Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas.

 

Por Pe. Fernando José Cardoso

Neste terceiro domingo da Páscoa, Lucas tem duas mensagens importantíssimas a transmitir ao povo de Deus, que você faz parte também. Em primeiro lugar, Lucas mais que outros Evangelistas, insiste na corporeidade de Jesus Ressuscitado: “Tocai-me, vede, um fantasma não tem carne nem ossos como estais vendo que Eu tenho e tendes algo a comer?”. E come um peixe assado na frente de todos eles. O corpo de Jesus possui certas semelhanças ao corpo terrestre, é o mesmo Jesus, porém num outro estado, ao mesmo tempo o corpo possui propriedades novas, ele pode aparecer e desaparecer, ele pode tornar-se visível e também as mais das vezes nas nossas comunidades e diante de cada um de nós presente, porém invisível. Lucas tocava os limites da linguagem, como Paulo também ao falar de um corpo espiritual. Parece uma contradição, como pode um corpo ser espiritual, ou como poderia um espírito ser corpo, Paulo está no limite da linguagem. O nosso linguajar é um linguajar deste mundo, deste universo e nós não sabemos nos exprimir a respeito de realidades que fogem este universo; realidades que o superam, realidades que o transcendem como é o corpo de Jesus ressuscitado. Porém, Lucas falando a um auditório grego e escrevendo a pessoas que poderiam possuir uma cultura grega, platônica, para quem o que vale é a alma e não o corpo insiste na corporeidade. Jesus ressuscitado não é uma simples alma que sobrevive após a morte. A ressurreição é mais do que a imortalidade da alma, esta é a sua primeira mensagem. A segunda mensagem que o Jesus Lucano nos transmite neste terceiro domingo da Páscoa é esta: “Abriu-lhes então o entendimento para que compreendessem as escrituras, o que d’Ele estava escrito na Torá, isto é na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos”. Os primeiros cristãos buscaram logo uma antologia de textos, escolhidos do Antigo Testamento, que pudessem fazê-los compreender melhor o que se passava na plenitude dos tempos com Jesus morto e ressuscitado. Sem o auxilio das Escrituras, sem o auxilio do Antigo Testamento, a ressurreição de Jesus seria um simples prodígio, um simples milagre de Deus, mas sem nenhuma conexão, sem nenhuma preparação remota na história da salvação. É exatamente esta antologia de textos que de maneira velada, mas suficiente, já os antecipavam, que possibilitou a primeira geração cristã, e nós também conhecermos o plano de Deus e inserir a ressurreição de Jesus dentro deste plano na plenitude da história. Hoje você tem os dois Testamentos. E como diz Santo Agostinho: o Novo se esconde no Antigo, o Antigo se aclara no Novo. Leve a sério a Palavra de Deus, leve a sério a Sagrada e Escritura, a Antiga e o Novo Testamento, e repita a experiência da primeira comunidade cristã, lá buscando os traços antecipados de Jesus.

 

«Sou Eu mesmo. Tocai-me»
São Gregório Magno (c. 540-604), papa e Doutor da Igreja
Homilias sobre os Evangelhos, n°26; PL 76,1197 (trad. Barroux rev.; cf. Delhougne, p. 204).

Como é que o corpo do Senhor, uma vez ressuscitado, continuou a ser um corpo verdadeiro, podendo, ao mesmo tempo, entrar no local onde os discípulos se encontravam, apesar de as portas estarem fechadas? Devemos estar cientes de que a ação divina não teria nada de admirável se a razão humana a pudesse compreender e que a fé não teria mérito se o intelecto lhe fornecesse provas experimentais. Sendo, por si mesmas, incompreensíveis, tais obras do nosso Redentor devem ser meditadas à luz das outras ações do Senhor, de tal forma que sejamos levados a acreditar nestes Seus feitos maravilhosos por força daqueles que ainda o são mais. Porque o corpo do Senhor, que se juntou aos discípulos não obstante estarem as portas fechadas, é o mesmo que a Natividade tornou visível aos homens, ao sair do seio fechado da Virgem. Por isso, não vale a pena ficarmos admirados de que o nosso Redentor, após ressuscitado para a vida eterna, tenha entrado, estando embora as portas fechadas, porque, tendo vindo ao mundo para morrer, saiu do seio da Virgem, sem o abrir. E, como a fé daqueles que O viam permanecia hesitante, o Senhor fê-los tocar essa carne que Ele fizera atravessar portas fechadas […]. Ora, aquilo que podemos tocar é necessariamente corruptível, e o que não é corruptível é intocável. Porém, após a Sua ressurreição, o nosso Redentor deu-nos a possibilidade de ver, de uma forma maravilhosa e incompreensível, um corpo, a um tempo, incorruptível e palpável. Mostrando-o incorruptível, convidava-nos à recompensa; dando-o a tocar, confirmava-nos na fé. Assim, fez com que O víssemos tão incorruptível como palpável, para manifestar, firmemente, que o Seu corpo ressuscitado continuava a ter a mesma natureza mas tinha sido elevado a uma glória absolutamente diferente.

 

III Domingo de Páscoa – B
Atos 3, 13-15. 17-19; I João 2, 1-5a; Lucas 24, 35-48
Em verdade ressuscitou!

O Evangelho permite-nos assistir a uma das muitas aparições do Ressuscitado. Os discípulos de Emaús acabam de chegar cansados a Jerusalém e estão relatando o que lhes ocorreu no caminho, quando Jesus em pessoa aparece no meio deles: «A paz esteja convosco». Em um primeiro momento, medo, como se vissem um fantasma; depois, estupor, incredulidade, finalmente alegria. E mais, incredulidade e alegria por sua vez: «Por causa da alegria, não podiam acreditar ainda, assustados». A deles é uma incredulidade de todo especial. É a atitude de quem já crê (senão não haveria alegria), mas não se sabe dar conta. Como quem diz: muito belo para ser certo! Podemos chamá-la, paradoxalmente, de uma fé incrédula. Para convencer-lhes, Jesus lhes pede algo de comer, porque não há nada como comer algo juntos que conforte e crie comunhão. Tudo isto nos diz algo importante sobre a ressurreição. Este não é só um grande milagre, um argumento ou uma prova a favor da verdade de Cristo. É mais. É um mundo novo no qual se entra com a fé acompanhada de estupor e alegria. A ressurreição de Cristo é a «nova criação». Não se trata só de crer que Jesus ressuscitou, trata-se de conhecer e experimentar «o poder da ressurreição» (Filipenses 3, 10). Esta dimensão mais profunda da Páscoa é particularmente sentida por nossos irmãos ortodoxos. Para eles, a ressurreição de Cristo é tudo. No tempo pascal, quando encontram alguém, saúdam-no, dizendo: «Cristo ressuscitou!», e o outro responde: «Em verdade ressuscitou!». Este costume está tão enraizado no povo que se conta esta anedota ocorrida no começo da revolução bolchevique. Havia-se organizado um debate público sobre a ressurreição de Cristo. Primeiro havia falado o ateu, demolindo para sempre, em sua opinião, a fé dos cristãos na ressurreição. Ao baixar, subiu ao palanque o sacerdote ortodoxo, que devia falar em defesa. O humilde padre olhou a multidão e disse simplesmente: «Cristo ressuscitou!». Todos responderam em coro, antes ainda de pensar: «Em verdade ressuscitou!». E o sacerdote desceu em silêncio do palanque. Conhecemos bem como é representada a ressurreição na tradição ocidental, por exemplo, em Piero della Francesca. Jesus que sai do sepulcro erguendo a cruz como um estandarte de vitória. O rosto inspira uma extraordinária confiança e segurança. Mas sua vitória é sobre seus inimigos exteriores, terrenos. As autoridades haviam posto selos em seu sepulcro e guardas para vigiar, e eis aqui as trancas rompem-se e os guardas dormem. Os homens estão presentes a sós como testemunhas inertes e passivas; não tomam parte verdadeiramente na ressurreição. Na imagem oriental, a cena é totalmente diferente. Não se desenvolve a céu aberto, mas sob a terra. Jesus, na ressurreição, não sai, mas desce. Com extraordinária energia toma da mão a Adão e Eva, que esperam no reino dos mortos, e os arrasta consigo para a vida e a ressurreição. Detrás dos dois pais, uma multidão incontável de homens e mulheres que esperam a redenção. Jesus pisoteia as portas dos infernos que acaba de desencaixar e quebrar Ele mesmo. A vitória de Cristo não é tanto sobre os inimigos visíveis, mas sobre os invisíveis, que são os mais tremendos: a morte, as trevas, a angústia, o demônio. Nós estamos envolvidos nesta representação. A ressurreição de Cristo é também nossa ressurreição. Cada homem que olha é convidado a identificar-se com Adão, cada mulher com Eva, e a estender sua mão para deixar-se aferrar e arrastar por Cristo fora do sepulcro. É este o novo e universal êxodo pascal. Deus veio «com braço poderoso e mão estendida» para libertar seu povo de uma escravidão muito mais dura e universal que a do Egito.

 

O terceiro domingo da Páscoa é ainda um domingo de aparições. No ciclo B, neste domingo, toma-se como perícope evangélica a narração de São Lucas sobre a aparição aos Apóstolos. É o único texto que não é de São João em toda Cinquentena Pascal, com exceção do dia da Ascensão. A semelhança da narração de São Lucas com a narração de São João (proclamada no domingo passado) pode originar o perigo da repetição. Então, seria melhor destacar na homilia aquilo que não se fez referência com o texto de São João. Para tal, ajudar-nos-ão as outras leituras. A 1ª Leitura é um fragmento do discurso de Pedro depois de um paralítico ter sido curado. Neste texto, encontramos três afirmações relacionadas com a morte e a ressurreição de Jesus: a) os Apóstolos são testemunhas do que anunciam; b) com as ações dos perseguidores, foram cumpridas as Escrituras; c) toda a humanidade é convidada ao arrependimento e à conversão. A 2ª Leitura apresenta-nos Jesus Cristo Ressuscitado como o “Defensor” dos pecadores junto do Pai. Isto não é motivo para continuar a pecar, mas para corresponder com amor e fidelidade à Palavra de Jesus Cristo. Tendo em conta as leituras, a “temática” da homilia poderia recair na segunda parte da narração: a) o cumprimento das Escrituras no mistério pascal de Cristo; b) a missão da Igreja de pregar em todo o mundo a conversão e o perdão dos pecados; c) a missão dos Apóstolos, como testemunhas da ressurreição. Este domingo é uma boa ocasião para salientar a força da assembléia dominical como experiência e ponto de partida para a missão da Igreja. A Liturgia da Palavra fala-nos sempre do mistério de Cristo. E a pregação deverá ser feita de tal modo que faça ver como as Escrituras nos orientam sempre para Cristo. O mistério de Cristo é “para nós, homens, e para a nossa salvação”. Por isso, o arrependimento e o perdão dos pecados são elementos intrínsecos à mensagem evangélica. Aos membros da assembléia dominical pede-se uma atitude de conversão, de confissão e de arrependimento dos pecados (um retorno batismal). Os Apóstolos são enviados como testemunhas desta realidade. É isto que tem feito a Igreja, através dos tempos com a pregação e a celebração dos sacramentos. O perdão dos pecados (no batismo e na penitência) é o fruto da Páscoa de Cristo. É interessante salientar as referências que se fazem nas orações eucológicas (orações do Missal Romano) do tempo pascal a esta ação da Igreja no mundo. O texto litúrgico é uma pauta para modelar as nossas ações e para fazer surgir uma participação que esteja em harmonia com o que se diz na liturgia: “Mens concordet voci”, “que o nosso interior e o nosso espírito estejam em sintonia com o que dizemos”. Nas orações deste domingo, pedimos: “Exulte sempre o vosso povo, Senhor, com a renovada juventude da alma, de modo que, alegrando-se agora por se ver restituído à glória da adoção divina, aguarde o dia da ressurreição na esperança da felicidade eterna” (Coleta); na Oração sobre as Oferendas, rezamos: “Aceitai, Senhor, os dons da vossa Igreja em festa. Vós que lhe destes tão grande felicidade, fazei-a tomar parte na alegria eterna. Na Oração Depois da Comunhão, pede-se para que o povo fiel, como fruto da comunhão eucarística, alcance também “a gloriosa ressurreição da carne”. Também podemos aqui fazer referência à frase que se repete nos Prefácios Pascais: “na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra”. Não se trata de uma alegria “fabricada”, mas de pedir ao Senhor a alegria (contemplação e gratidão) dos Apóstolos. Os primeiros cristãos de Jerusalém também sentiam esta alegria, quando “celebravam a fração do pão”. Procuremos celebrar assim também.

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