Solenidade da Anunciação do Senhor – 25 de Março/09 de Abril

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 1, 26-38
Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Hoje, 25 de março (04 de abril), estamos a exatos nove meses do Natal, e neste dia a Igreja celebra a solenidade da Anunciação do anjo Gabriel à virgem Maria e a encarnação do Verbo de Deus em seu Seio.
Nós estamos acostumados a chamar este dia, o dia do “Fiat”, isto é, o dia do faça-se, pois Maria – diz-nos Lucas – no final da visita do anjo, diz a única frase que cada um de nós gostaria encerrasse toda a sua vida cristã: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra”.
Desta maneira Deus pediu o consentimento de Maria, para conduzi-la nas estradas da aventura da salvação do gênero humano. Deus é respeitoso da dignidade humana. Mas não foi só Maria quem disse “Eis a serva, faça-se em mim, estou pronta a me deixar conduzir pelo caminho que Deus tiver designado para mim”, Jesus também teve o seu “Fiat”, Ele disse faça-se.
O autor da Carta aos Hebreus no texto que hoje se lê como segunda leitura, nos faz ouvir o seguinte: “Ao entrar no mundo, Cristo disse sacrifícios e oblações pelos pecados, não foram do vosso agrado, mas vós me preparaste um corpo, eis que venho então Oh Deus, para fazer a Vossa vontade”.
Maria se abre espontaneamente para a vontade de Deus, e Jesus Cristo afirma ao entrar no mundo, que não tem outro desejo, a não ser realizar a vontade de Deus. Quando duas vontades humanas se abriram para a vontade divina, o Pai realizou a maravilha da Salvação do gênero humano. Nós também somos convidados a aceitar, a dar o consentimento àquele plano que Deus tem para com cada um de nós, aquele sonho que Deus tem para cada um de seus eleitos.
Cada um de nós hoje é convidado a dizer, como Jesus e como Maria: “Eis-me aqui, estou pronto para me deixar conduzir, não conheço de forma alguma, não sei o que me acontecerá, mas estou pronto e sou generoso”. Quanto mais cristãos se abrirem a esta generosidade, e quanto maior for o número daqueles cristãos e católicos que disserem o sim a Deus, sem reservas, maiores serão os Dons, maiores serão os prêmios, as graças que Ele derrama agora sobre o gênero humano, sobre as nossas famílias, sobre a sua paróquia, sobre a sua comunidade.
Saiba hoje, como Jesus e Maria, generosamente dizer: “Eis-me aqui, eu também estou pronto Oh Deus, para fazer a vossa vontade”.

 

«PORQUE ME FEZ GRANDES COISAS, O ONIPOTENTE» (Lc 1, 49)
Santo Efrém (c. 306-373), diácono na Síria, Doutor da Igreja
Homilias sobre a Mãe de Deus, 2, 93-145; CSCO 363 e 364, 52-53
(trad. Delhougne, Les Pères commentent, p. 481 rev.)

Contemplai Maria, bem-amados, vede como Gabriel entrou em sua casa e como, à sua objeção, «Como será isso?», o servo do Espírito Santo deu a seguinte resposta: «Nada é impossível a Deus, para Ele tudo é simples.» Considerai como ela acreditou no que ouvira e disse: «Eis a serva do Senhor.» Desde logo o Senhor desceu, de uma forma que só Ele conhece; pôs-Se em movimento e veio como Lhe agradava; entrou nela sem que ela o sentisse e ela acolheu-O sem ter qualquer sofrimento. Ela trazia em si, como uma criança, Aquele de que o mundo está cheio. Ele desceu para ser o modelo que renovaria a imagem antiga  de Adão. É por essa razão que, quando te anunciam o nascimento de Deus, deves manter-te em silêncio. Que a palavra de Gabriel esteja presente no teu espírito, pois nada é impossível a esta gloriosa Majestade que desceu por nós e que nasceu da nossa humanidade. Nesse dia, Maria tornou-se para nós o céu que contém Deus, pois a Divindade sublime desceu e fez dela a Sua morada. Nela, Deus fez-se pequeno – mas sem enfraquecer a Sua natureza – para nos fazer crescer. Nela, Ele teceu-nos uma veste com a qual nos salvaria. Nela cumpriram-se todas as palavras dos profetas e dos justos. Dela se elevou a luz que expulsou as trevas do paganismo. Numerosos são os títulos de Maria […]: ela é o palácio no qual habitou o poderoso Rei dos reis, mas Ele não a deixou como viera, pois foi dela que Ele se fez carne e que nasceu. Ela é o novo céu no qual o Rei dos reis habitou; nela elevou-se Cristo e dela subiu para iluminar a criação, formada e talhada à Sua imagem. Ela é a cepa de vinha que deu uvas; ela gerou um fruto superior à natureza; e Ele, se bem que diferente dela pela Sua natureza, vestiu a sua cor quando nasceu dela. Ela é a fonte da qual brotaram as águas vivas para os sequiosos e aqueles que aí se dessedentam dão frutos a cem por um.

 

NOVENA EM HONRA DA GESTAÇÃO DE MARIA
Convido você a rezá-la junto comigo.
Faremos a oração abaixo todos os dias 25 – iniciando no dia de hoje – durante os noves meses de ‘gestação’ da Virgem Maria.

Oh! Virgem Santa Imaculada, sem mancha, vós preparastes em vosso seio virginal a morada do Filho de Deus. Eu me envergonho de aparecer diante de vós. Desejo que o Filho de Deus, o qual quis nascer de vós, renasça espiritualmente em mim e me conceda esta graça de que tanto necessito (dizer a graça). Prostro-me a vossos pés, oh,  Santa Mãe de Deus, e debaixo do vosso olhar terno, doce e puro, das vossas mãos benditas e de vosso manto sagrado, eu vos louvo e bendigo, e entrego a minha vida. Reverencio-vos por todas as horas dizendo: Bendita seja, oh, Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Santa Mãe de Deus. Amém!
Rezam-se 23 Ave-Marias e 24 jaculatórias como esta:
Bendita seja, oh, a Santa Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Santa Mãe de Deus. Amém!
(Retirada do livro Sofrer e Amar de Luzia Santiago, páginas 66 e 67)

 

NOSSA SENHORA DA MATERNIDADE
Servo de Deus Fulton John Sheen (1895-1979)

Há neste público alguma mãe cujo filho se tenha distinguido nos campos de batalha ou na sua profissão? Se há, nós lhe pedimos faça saber aos outros que o respeito havido para com ela não diminui, de modo algum, a honra ou a dignidade devidas ao seu filho. Por que há de então haver quem pense que todo o ato de reverência praticado para com a Mãe de Jesus diminui o poder dele e a sua divindade? Eu conheço a falsidade… do ignorante que afirma que os católicos adoram Maria ou fazem dela uma deusa; mas tal afirmação é uma mentira e, uma vez que neste público ninguém quererá tornar-se culpado de tamanha estupidez, não farei mais do que ignorar semelhante acusação.
Sabeis vós donde provém, na minha opinião, esta frieza e esquecimento para com a bendita Mãe, Nossa Senhora? Do fato de não advertirem que o seu Filho, Jesus, é o eterno filho de Deus. No momento em que colocam o Nosso Divino Senhor ao mesmo nível de Júlio César ou de Karl Marx, de Buda ou de Darwin, isto é, como simples homem, então o pensamento de especial reverência a sua Mãe como se fosse diferente das nossas mães, torna-se, sem dúvida, repelente.
Toda a pessoa pode dizer: Eu tenho a minha mãe, e a minha vale tanto como a vossa. É por esta razão que se tem escrito pouco sobre as mães dos grandes homens, porque cada mãe é considerada a melhor. Nenhuma mãe dum mortal tem o direito de ser mais amada do que qualquer outra mãe. Por isso mesmo nenhum filho lembraria que se escolhesse a mãe de outrem como a Mãe das mães.
Consideremos o caso de São João Batista. Disse Nosso Senhor: “Ele é o homem maior que jamais foi gerado no seio duma mulher”. Suponde que se iniciava um culto para honrar sua mãe Isabel como superior a todas as outras mães: qual de nós se não revoltaria considerando isto um exagero, pelo fato de João Batista ser um simples homem? Se Nosso Senhor fosse apenas um homem, ou um reformador moral, ou um sociólogo, eu seria o primeiro a partilhar do ressentimento do mais fanático ao ouvir que a mãe de Jesus era diferente de todas as outras mães.
O 4ª Mandamento diz: “Honra teu pai e tua mãe”, mas não diz que se honre a mãe de Gandhi ou o pai de Napoleão. Contudo o Mandamento que nos manda honrar o nosso pai não nos impede de adorarmos o Pai Celeste. Se o Pai Celeste manda o seu Filho a esta terra, então o Mandamento segundo o qual devemos honrar a nossa mãe da terra, não nos proíbe que veneremos a Mãe do Filho de Deus. Se Maria fosse apenas a Mãe de outro homem, Ela não poderia ser também mãe nossa, porque os vínculos da carne são exclusivos demais para permitirem tal coisa. A carne só admite uma mãe. É bastante comprido o passo que separa uma mãe duma madrasta, e bem poucos são os que podem dar esse passo. O Espírito, pelo contrário, admite uma outra mãe.
Como Maria é a Mãe de Deus, Ela pode ser igualmente a Mãe de todo aquele que Cristo remiu. O segredo para compreender Maria é este: o ponto de partida não é Maria, é Cristo, o Filho de Deus! Quanto menos penso nele, menos penso nela; quanto mais penso nele, mais penso nela; quando mais adoro a divindade de Cristo, mais venero a maternidade de Nossa Senhora; quanto menos adoro a divindade de Cristo, menos razão tenho para respeitar Nossa Senhora. Estou certo de que não mais quereria nem sequer ouvir pronunciar o nome dela se me tivesse tornado tão perverso que não acreditasse em Cristo, Filho de Deus!
Jamais encontrareis alguém que, amando verdadeiramente Nosso Senhor como Divino Salvador, não ame Maria. É o seu Filho que torna a sua maternidade diferente.
Recordo-me dum rapazinho numa nossa escola paroquial, que falava de Nossa Senhora a um professor, seu vizinho. O professor, um intelectual, um daqueles em quem há mais instrução do que inteligência, estava zombando do rapazito, dizendo-lhe: “Mas não há diferença alguma entre Ela (Nossa Senhora) e a minha mãe!” “Isso diz o senhor — respondeu o pequeno — olhe que há uma enorme diferença entre os filhos”.
Magnífica resposta! Ela não é uma pessoa “privada, particular”; todas as outras o são. Não fomos nós que a fizemos diferente: encontramo-la diferente. Não fomos nós que escolhemos Maria: foi Ele que a escolheu. Procuremos imaginar Jesus e sua Mãe. Cristo é medianeiro entre Deus e a humanidade; Ela é a medianeira entre Cristo e nós. Em primeiro lugar, Nosso Senhor é o medianeiro entre Deus e o homem.
Um medianeiro é como uma ponte que une as margens dum rio, com a diferença de que aqui a ponte está entre o céu e a terra. Do mesmo modo que vós não podeis tocar no telhado sem o auxílio duma escada, assim o homem pecador não poderá atingir Deus sem o auxílio de um que é ao mesmo tempo Deus e homem. Como homem, Ele poderia intervir em nosso nome, carregar com os nossos pecados; como Deus, todas as suas palavras, milagres e morte teriam um valor infinito, e Ele poderia, por conseguinte recuperar mais do que aquilo que perdemos. Deus tornou-se homem sem deixar de ser nem Deus nem homem, e é, portanto nosso medianeiro, nosso Salvador, nosso Divino Senhor.
E agora falemos de Maria. Ela é a medianeira entre Cristo e nós. Ao estudarmos a vida divina de Cristo, ao vermos que Ele foi o primeiro fugitivo perseguido por um governo cruel, que trabalhou como carpinteiro, ensinou e remiu, nós sabemos que tudo começou quando Ele assumiu a natureza humana e se tornou homem. Se Ele nunca se tivesse tornado homem, jamais teríamos ouvido o seu sermão da Montanha, nem o teríamos nunca ouvido perdoar aos que lhe trespassaram as mãos e os pés, pregando-o na cruz.
Maria deu a Nosso Senhor a natureza humana. Ele pediu-lhe, a Ela, que lhe desse uma vida humana, que lhe desse mãos para abençoar as crianças, pés para ir em busca das ovelhinhas perdidas, olhos para chorar os amigos falecidos, e um corpo com o qual sofresse para poder dar-nos uma ressurreição em liberdade e amor. Através dela, Ele tornou-se a ponte entre o Divino e o humano. Deus não se fez homem sem Ela! Sem Ela, não mais teríamos Nosso Senhor! Se tendes um cofre em que guardais o dinheiro, sabeis que a coisa a que sempre deveis prestar atenção e à chave. Vós não pensais que a chave seja o dinheiro; mas sabeis que sem a chave não podeis ter o dinheiro.
Pois bem, Nossa Senhora é como esta chave. Sem ela, não podíamos ter Nosso Senhor, porque Ele veio-nos por seu intermédio. Ela não deve ser comparada com Nosso Senhor, porque é uma criatura e Ele é o Criador! Mas se a perdêssemos, não podíamos chegar até Ele. Eis a razão pela qual nós lhe prestamos tanta atenção; sem Ela nunca poderíamos compreender como foi construída a ponte entre o céu e a terra! Vós podeis objetar: “O Senhor me basta, não preciso dela” No entanto Ele teve necessidade dela. E, o que mais importa, Nosso Senhor disse que nós tínhamos necessidade dela, porque nos deu sua Mãe como nossa Mãe.
Naquela sexta-feira que os homens chamam Santa, quando Cristo foi içado naquela cruz como estandarte da nossa salvação, Ele baixou o olhar sobre as duas criaturas mais preciosas que tinha na terra: sua Mãe e João, o seu discípulo amado. Na primeira noite, durante a última Ceia, deixou-nos as suas últimas vontades, dando-nos aquilo que nenhum homem ao morrer jamais pôde dar, isto é, a si mesmo na Santa Eucaristia. Desse modo Ele ficaria conosco — como Ele disse — “sempre, até a consumação dos séculos”. Agora, nas escuras sombras do Calvário, Ele acrescenta um codicilo ao seu testamento. Ali, ao pé da cruz, não prostrada mas, como observa o Evangelho, de pé, estava sua Mãe. Como filho, pensou em sua Mãe; como Salvador, em nós. Assim nos deu sua Mãe, dizendo: “Eis aí a tua Mãe”. E dirigindo-se a Ela, tratou-a com o título duma maternidade universal: “Mulher” e recomendou-lhe a cada um de nós: “Eis aí o teu filho”.
Finalmente é clara a descrição do seu nascimento apresentada no Evangelho: Maria “deu à luz o seu primogênito e reclinou-o numa manjedoura”. O seu primogênito. São Paulo chama-lhe “o primogênito de todas as criaturas”. Quererá isto significar que Ela tem outros filhos? Sem dúvida! Mas não carnalmente, porque Jesus era seu Filho único; Ela havia de ter outros espiritualmente, e de entre estes, João é o primeiro aos pés da cruz, Pedro talvez o segundo, Tiago o terceiro e nós o milionésimo dos milhões de filhos.
Ela deu à luz “na alegria” a Cristo que nos remiu; depois deu-nos à luz na dor, a nós a quem Cristo remiu. Não figuradamente, não metaforicamente, mas em virtude de dores de parto, tornamo-nos filhos de Maria, irmãos de Jesus Cristo. Assim como nós não afastamos do pensamento que Deus nos dá o Pai, por forma a podermos rezar “Pai nosso”, assim não recusamos o dom da sua Mãe. Podemos mesmo rezar-lhe e invocá-la: Mãe nossa! Assim a queda do homem é reabilitada por uma outra árvore, a Cruz: por um outro Adão, Cristo; e por uma outra Eva, Maria.
A uma estátua que representa uma mãe segurando um filhinho não se pode tirar a mãe, na persuasão de conservar o filho. Eliminar a Mãe é arruinar o Filho. Todas as religiões do mundo se perdem em mitos e lendas com exceção do Cristianismo. Cristo está separado de todos os deuses do paganismo, porque está ligado à mulher e à história. “Nasceu da Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos”. Conventry Patmore chama justamente a Maria: “a nossa única salvadora com um Cristo abstrato”.
É mais fácil compreender-se Cristo manso e humilde de coração contemplando a sua Mãe. Ela detém todas as grandes verdades do Cristianismo, como um pau que tem ligado a si o papagaio. As crianças enrolam o fio do papagaio em volta dum pau e deixam-no depois desenrolar-se quando o papagaio se ergue nos ares. Maria é como esse pedaço de madeira. À sua volta estão todos os precisos liames das grandes verdades da nossa santa Fé: a Encarnação, a Eucaristia, a Igreja.
Por mais que nos afastemos da terra como o papagaio, temos sempre necessidade de Maria para termos unidas as doutrinas do Credo. Se largarmos o pedacinho de madeira, não mais teremos papagaio; se nos tirarem Maria, não mais teremos Nosso Senhor. Ele perder-se-ia no céu, como o papagaio, e isso seria terrível para nós na terra. Ela não nos impede de honrarmos Nosso Senhor.
Não há nada mais cruel do que dizer: Ela afasta as almas de Cristo. Equivaleria a dizer que Nosso Senhor escolheu uma Mãe egoísta. Ele que é o próprio amor! Eu não duvido afirmar-vos que, se Ela me tivesse afastado de seu Filho, renegá-la-ia. Se eu chegasse a vossa casa e me recusasse a falar a vossa mãe, poderíeis vós acreditar que eu era vosso amigo? E que há de sentir Nosso Senhor por aqueles que nunca honram a sua Mãe? Não é Ela, a Mãe de Jesus, suficientemente boa para vós? Nunca teríamos possuído o nosso Divino Senhor, se Ele a não tivesse escolhido. Se no dia de juízo Nosso Senhor não tivesse outra acusação a fazer-me senão que eu amara demasiadamente sua Mãe, que feliz eu seria!
Assim como o nosso amor não começa com Maria, assim também não termina com Maria. Maria é a janela através da qual a nossa humanidade tem uma primeira visão da divindade sobre a terra. Ela é talvez antes uma lente de aumentar, que intensifica o nosso amor pelo seu Filho e torna as nossas orações mais ardentes e vivas! Deus, que fez o sol, fez também a lua. A lua não tira o esplendor ao sol. A lua seria somente um corpo sem luz, vagueando na imensidade do espaço, se não existisse o sol. Toda a sua luz é refletida do sol.
A bendita Mãe reflete o  seu Divino Filho. Sem Ele, Ela é nada. Nas noites escuras, sentimo-nos gratos para com a lua. Quando a vejo brilhar, sei que deve existir o sol. Também nesta escura noite da vida, quando os homens voltam as costas Àquele que é a luz do mundo, nós olhamos para Maria, a fim de que Ela guie os nossos passos enquanto aguardamos o alvorecer. Pedi-vos que fizésseis esta experiência. Aqui me dirijo em especial a três grupos: os que desesperam, os pecadores e os confundidos; os que esgotaram todos os recursos humanos em busca da paz; os que estão cansados da vida e experimentam um profundo sentimento de vergonha e de culpa; e os que estão sem fé, cansados, céticos e cínicos. Começai a recitar o terço durante trinta dias.
Não respondais: “Mas como posso eu rezar, se não creio?” Se vos tivésseis perdido na floresta e não esperásseis que ali perto houvesse alguém, mesmo assim não deixaríeis, com certeza, de gritar. Pois bem, principiai a orar. Ficareis surpreendidos. Maria responder-vos-á, eu vo-lo prometo. Nas guerras há soldados que morrem nos campos de batalha; muitos deles gritam no seu último desesperado desejo. “Quero a minha mãe”. O maior de todos os soldados, ao morrer no campo de batalha do Calvário, não sentiu o impulso da natureza e deu uma maior prova de amor com o dar-nos sua Mãe: “Eis aí a tua Mãe”.
Possa cada um de nós, nestes dias de guerra e de ódio, quando todos os meios humanos faliram, gritar à nossa Mãe Celeste: “Mãe de Jesus, eu amo-te, eu quero-te. Intercede junto do teu Divino Filho pela paz do mundo”. No amor de Jesus!

 

25 DE MARÇO – ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

Solenidade

– Verdadeiro Deus e perfeito homem.

– A culminância do amor divino.

– Conseqüências da Encarnação na nossa vida.

A Igreja celebra hoje o mistério da Encarnação do Verbo de Deus e, ao mesmo tempo, a vocação de Nossa Senhora, que conhece através do Anjo a vontade de Deus a respeito dela. Com a sua correspondência – o seu fiat, faça-se – tem início a Redenção. Esta solenidade, tanto nos calendários mais antigos como no atual, é uma festa do Senhor. No entanto, os textos referem-se especialmente à Virgem, e durante muitos séculos foi considerada uma festa mariana. A tradição da Igreja reconhece um estreito paralelismo entre Eva, mãe de todos os viventes, cuja desobediência deu entrada ao pecado no mundo, e Maria – a nova Eva –, Mãe da humanidade redimida, por quem chegou a Vida ao mundo: Jesus Cristo Nosso Senhor.

A data de hoje, 25 de março, fixada para esta festa, está relacionada com o Natal; além disso, conforme uma antiga tradição, deviam coincidir no equinócio da primavera a criação do mundo e o início e o fim da Redenção. Nos anos em que coincide com algum dia da Semana Santa, costuma ser transferida para a segunda-feira da segunda semana do Tempo Pascal.

I. CHEGADA A PLENITUDE DOS TEMPOS, Deus enviou o seu Filho ao mundo, nascido de uma mulher1.

Como culminância do seu amor por nós, Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigênito, que se fez homem para nos salvar e nos dar a incomparável dignidade de filhos. Com a sua vinda, podemos afirmar que chegou a plenitude dos tempos.

São Paulo diz literalmente que Jesus nasceu de uma mulher2. Não apareceu na terra como uma visão fulgurante: fez-se realmente homem, como nós, assumindo a natureza humana nas entranhas puríssimas da Virgem Maria. A festa de hoje é propriamente não só de Jesus como de sua Mãe. Por isso, “em primeiro lugar – diz frei Luís de Granada –, é preciso pôr os olhos na pureza e santidade desta Senhora que Deus escolheu ab aeterno para tomar carne dela.

“Porque assim como, quando decidiu criar o primeiro homem, lhe preparou primeiro a casa que deveria habitar, que foi o Paraíso terreal, assim, quando quis enviar ao mundo o segundo, que foi Cristo, primeiro preparou-lhe o lugar em que hospedar-se: que foi o corpo e a alma da Sacratíssima Virgem”3. Deus preparou a morada do seu Filho, Santa Maria, com a maior dignidade criada, com todos os dons possíveis e cumulando-a de graça.

Nesta Solenidade, Jesus aparece mais unido do que nunca a Maria. Quando Nossa Senhora deu o seu consentimento, “o Verbo Divino assumiu a natureza humana: a alma racional e o corpo formado no seio puríssimo de Maria. A natureza divina e a natureza humana uniram-se numa única pessoa: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e, desde então, verdadeiro homem; Unigênito eterno do Pai e, a partir daquele momento, como Homem, filho verdadeiro de Maria. Por isso Nossa Senhora é Mãe do Verbo encarnado, da segunda Pessoa da Santíssima Trindade que uniu a si para sempre – sem confusão – a natureza humana. Podemos dizer bem alto à Virgem Santa, como o melhor dos louvores, estas palavras que expressam a sua mais alta dignidade: Mãe de Deus”4. Quantas vezes não teremos repetido: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…!

II. E O VERBO SE FEZ CARNE e habitou entre nós…5

Ao longo dos séculos, houve santos e teólogos que, para compreenderem melhor o mistério, refletiram sobre as razões que poderiam ter levado Deus a tomar uma decisão tão extraordinária.

De maneira nenhuma era necessário que o Filho de Deus se fizesse homem, nem sequer para redimi-lo, pois Deus – como afirma São Tomás de Aquino – “podia restaurar a natureza humana de muitas maneiras”6. A Encarnação é a manifestação suprema do amor divino pelo homem, e só a imensidão desse amor a pode explicar. Tanto amou Deus o mundo que lhe enviou o seu Filho Unigênito…7, o objeto único do seu Amor. Com esse aniquilamento, Deus tornou mais fácil o diálogo do homem com Ele. Mais ainda: toda a história da salvação é a história da busca deste encontro por parte de Deus, até que culmina na Encarnação. O Emmanuel, o Deus conosco, tem, pois a sua máxima expressão no acontecimento que hoje nos cumula de alegria.

O Filho Unigênito de Deus faz-se homem, como nós, e assim permanece: de modo nenhum a assunção de um corpo nas puríssimas entranhas de Maria foi algo precário e provisório. O Verbo encarnado, Jesus Cristo, permanece para sempre Deus perfeito e homem verdadeiro. Este é o grande mistério que nos deixa abismados: Deus, no seu amor, quis tomar o homem a sério. Em correspondência a esse ato de amor gratuito, quis que o homem se comprometesse seriamente com Cristo, que é da sua mesma raça. “Ao recordarmos que o Verbo de Deus se fez carne, ou seja, que o Filho de Deus se fez homem, devemos tomar consciência da grandeza que atinge todos os homens através deste mistério […]. Efetivamente, Cristo foi concebido no seio de Maria e fez-se homem para revelar o eterno amor do Criador e Pai, bem como para manifestar a dignidade de cada um de nós”8.

A Igreja, ao expor ao longo dos séculos a verdadeira realidade da Encarnação, tinha consciência de que estava defendendo não só a Pessoa de Cristo, mas a si própria, bem como o homem e o mundo. “Aquele que é a imagem do Deus invisível (Col 1, 15) é também homem perfeito que restituiu aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada pelo primeiro pecado. A natureza humana nele assumida, não absorvida, foi elevada também a uma dignidade sem igual. Com efeito, pela sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo o homem. Trabalhou com mãos humanas, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado”9.

Que valor deve ter a criatura humana diante de Deus, “se mereceu ter tão grande Redentor”10! Ao longo do dia de hoje, demos graças a Deus por este bem tão imenso que nunca chegaremos a entender.

III. A ENCARNAÇÃO DEVE TER muitas conseqüências na vida de um cristão. É, na realidade, o fato que decide o seu presente e o seu futuro. Sem Cristo, a vida carece de sentido. Só Cristo “revela plenamente o homem ao próprio homem”11. Só em Cristo conhecemos o nosso ser mais profundo e tudo o que mais nos afeta: o sentido da dor e do trabalho bem acabado, a alegria e a paz verdadeiras – que não dependem dos estados de ânimo e dos acontecimentos da vida –, a serenidade, e mesmo o júbilo perante o pensamento da outra vida, pois Jesus, a quem agora procuramos imitar e servir, nos espera… Foi Cristo quem “devolveu definivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo”12.

Ao assumir todas as coisas humanas nobres (o trabalho, a família, a dor, a alegria), o Filho de Deus indica-nos que todas essas realidades devem ser amadas e elevadas: o humano converte-se em caminho para a união com Deus. A luta interior passa então a ter um caráter eminentemente positivo, pois não se trata de aniquilar o homem para que o divino resplandeça, nem de fugir das realidades correntes para levar uma vida santa. Não é o humano que se choca com o divino, mas o pecado e as marcas que o pecado original e os pecados pessoais deixaram na alma.

O empenho por chegar à semelhança com Cristo implica, pois, uma luta contra tudo aquilo que nos torna menos humanos ou infra-humanos: os egoísmos, as invejas, a sensualidade, a mesquinhez de espírito… Isto é, o verdadeiro empenho do cristão pela santidade traz consigo a purificação e por conseguinte o desabrochar da verdadeira personalidade em todos os sentidos.

Assim como em Cristo o humano não deixou de sê-lo pela sua união com o divino, do mesmo modo as realidades terrenas não deixaram de sê-lo em virtude da Encarnação; mas a partir desse instante podem e devem ser orientadas para o Senhor. Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum13. E Eu, quando for levantado da terra, tudo atrairei a Mim.

“Cristo, com a sua Encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e milagres pelas terras da Judéia e da Galiléia, com a sua morte na Cruz, com a sua Ressurreição, é o centro da Criação, Primogênito e Senhor de todas as criaturas.

“[…] O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da terra. Chama alguns ao deserto, para que se desentendam dos avatares da sociedade dos homens e com o seu testemunho recordem aos demais que Deus existe. Confia a outros o ministério sacerdotal. Mas quer a grande maioria dos homens no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que desenvolvem as suas tarefas humanas: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha”14. Essa é a nossa tarefa.

Terminamos a nossa oração recorrendo à Mãe de Jesus, nossa Mãe. “Ó Maria! Hoje a tua terra fez germinar o Salvador… Ó Maria! Bendita sejas entre as mulheres por todos os séculos… Hoje a Divindade uniu-se e amassou-se com a nossa humanidade com laços tão fortes que jamais poderão ser rompidos, nem pela morte nem pela nossa ingratidão”15. Bendita sejas!

(1) cfr. Gal 4, 4-5; Liturgia das Horas, Antífona 1 do Ofício das leituras; (2) cfr. Sagrada Bíblia, Epístolas de San Pablo a los Romanos y a los Gálatas, vol. VI, nota a Gal 4, 4; (3) Frei Luís de Granada, Vida de Jesus Cristo, 1; (4) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 274; (5) Jo 1, 14; (6) São Tomás, S.Th., III, q. 1, a. 2; (7) Jo 3, 16; (8) João Paulo II, Angelus no Santuário de Jasna Gora, 5-VI-1979; (9) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 22; (10) Hino Exsultet, Missa da Vigília Pascal; (11) idem, Enc. Redemptor hominis, 4-III-1979, 11; (12) ib.; (13) Jo 12, 32; (14) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 105; (15) Santa Catarina de Sena, Elevações, 15.

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