Sábado Santo

Por Pe. Fernando José Cardoso

Em nosso Credo Apostólico, recitamos: “Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos”. O que significa: “Desceu à mansão dos mortos?” Para muitos um artigo de fé inútil, ocioso, ou quem sabe, um resquício de uma mitologia antiga, com a qual não mais se convive na modernidade. No entanto este artigo de fé, bem entendido, é profundo! A nossa sociedade moderna e contemporânea se parece bem à um Sábado Santo. Jesus foi morto! Descido da cruz e sepultado. “Deus morreu!”, gritava o filósofo Nietzsche, nos albores do século XX. A partir de então, a humanidade alegre, divertida e experimentando uma certa maioridade, tenta assumir as rédeas do próprio destino sem Deus. A presença de um sem número de atuantes religiosos, a presença de um sem número de agnósticos e céticos, um sem número de ateus, que recusam completamente Deus, recusam a transcendência, recusam qualquer religião e tenta transformar a sociedade secularizada, Eis o mistério do Sábado Santo. Deus morreu, nós O matamos, O sepultamos e podemos construir agora, tendo atingido a nossa maioridade, uma humanidade, uma sociedade sem Deus, sem os valores tradicionais da Igreja, sem os parâmetros qualquer da moral religiosa. A morte é um mistério para cada um de nós, porque aqueles que por ela transitaram, de lá não voltaram. Nós não a conhecemos, a não ser externamente e superficialmente. No entanto, a morte pode ser definida como a suprema solidão, e de fato, cada um morre completamente abandonado. A morte pode também ser contemplada, como aquela realidade onde não penetra mais nenhum som, voz ou mão amiga, afeto ou amor. Cada um morre a sua própria morte em total solidão, e os outros todos, mesmos os mais chegados ficam no exterior, não podem descer conosco à mansão dos mortos. Mas exatamente lá, onde cada um encontraria de direito o reino da solidão e silêncio total, Jesus, ao descer à mansão dos mortos. Eis o mistério do Sábado Santo: injetou vida no coração da morte. Jesus, ao descer à mansão dos mortos, transformou a morte desde dentro, para que ela pudesse ser Passagem, Páscoa, para uma plenitude de vida que chamamos de Vida Eterna. Ele foi ao âmago da extrema solidão de cada um de nós, para que lá, onde ninguém nos atinge, encontrássemos a Sua mão amiga que nos conduz à Eternidade de Deus.

 

Jesus penetra no mundo da morte, no domínio do mal, onde reinam o pecado, o demônio e todos os males que afligem a humanidade. Ele não só morreu por nossos pecados, mas também, “pela graça de Deus, provou a morte em favor de todos os homens” (Hb 2, 9). E Ele sai vitorioso. Às santas mulheres, que vão ao túmulo para visitá-lo e assim prestar uma homenagem Àquele que morreu na Sexta-feira, não lhes ocorria de modo algum a sua ressurreição. Elas se interrogam: “Quem nos rolará a pedra?”, e o evangelista s. Mateus responde: “O anjo fez rolar a pedra”. O que se salienta é o poder divino todo-poderoso, que vai muito além das impossibilidades humanas. Tudo conduz ao reconhecimento que a Ressurreição é iniciativa do Pai. São Jerônimo declara: “Nosso Senhor que é um só e único Filho de Deus e Filho do homem, segundo suas duas naturezas, a divina e a humana, se revela seja por sinais de sua grandeza, seja por aqueles de sua humildade. O ministério dos anjos, desde sua natividade, demonstra que Ele é Deus (…). Um anjo vem como guardião do sepulcro do Senhor, e suas vestes brancas exprimem a glória do Triunfador”. Os anjos são anunciadores, que desaparecem tão logo surge o Sol do Cristo, em seu nascimento ou em sua ressurreição.    O Sábado torna-se assim a vigília deste grande acontecimento, pois ele se dá ao amanhecer, “isto é, quando o céu já começa a clarear a partir do oriente, escreve Santo Agostinho, o que não acontece a não ser pela proximidade do sol nascente. Seu é o resplendor que costuma denominar-se com o nome de aurora, de modo que na medida em que nasce o sol vão desaparecendo os restos da obscuridade”. Coloquemo-nos nesta vigília e deixemos Jesus entrar mais e mais em nossa vida e então irão desaparecendo em nós os sinais do pecado, do mal e de toda maldade. Nenhum túmulo no mundo pode conter o Senhor Jesus por muito tempo. Sua morte na cruz nos traz nossa redenção e seu triunfo na manhã da Páscoa derrota a morte e comunica a paz ao mundo todo. Que o Sol nascente brilhe sempre, com mais fulgor, em nossa vida! “Senhor Jesus, vós morrestes para que eu pudesse viver para sempre em vosso reino de paz e de justiça. Fortalecei minha fé, para que eu possa conhecer o poder de vossa ressurreição e viver na esperança de ver-Vos face a face por toda a eternidade”.

 

A Igreja se recolhe em oração e contemplação junto ao túmulo do seu Senhor.   Ontem ainda podíamos contemplar o Corpo de Jesus que pendia da cruz. Hoje não é mais possível porque Seu corpo foi de lá retirado e colocado num sepulcro. O mundo, caríssimos irmãos, assume as responsabilidades da própria história sem Deus e sem Cristo.
Hoje, vinte séculos passados não parece que o nosso mundo é um grande Sábado Santo? Onde está Deus? Onde está Jesus Cristo? Onde esta a Comunidade de Cristo ou a Igreja? Não somos cada vez mais relegados à insignificância? Jesus Cristo não é notícia de primeira página; Jesus Cristo não é notícia de televisão o mundo parece bem sem Deus e sem Cristo; o mundo parece suportar tranqüilamente o silêncio de Deus e o silêncio de Cristo.

Sim, este mundo em que nós vivemos, onde a Igreja de Cristo não faz mais História, não domina mais, onde as pessoas assumiram o lugar de Deus e não se espera mais nada de Deus não é verdadeiramente um grande sábado Santo? Não vivemos nós num mundo que se despediu definitivamente de Deus?

Quem não conhece a cada dia que passa mais um que abandona completamente a sua vida cristã e católica? Silêncio de Deus; morte de Deus: eis o mistério do Sábado Santo que prolonga até os nossos dias! Mas isto, caríssimos irmãos, não é motivo para nos inquietarmos tremendamente, menos ainda, perdermos a fé.

Deus se permite estar em silêncio durante este tempo. Deus permite que a história prolongue um longo sábado Santo.

No entanto Jesus, que como diz a nossa profissão de fé: “desceu à mansão dos mortos”, é o mesmo que “ressuscitará ao terceiro dia e transformará inteiramente a historia dos homens e das mulheres”, porque por mais que teimemos em viver uma história sem Cristo e sem Deus, esta história sem Cristo e sem Deus não tem nenhum significado. É conduzida melancolicamente para a morte da qual ninguém escapa e que nos traga a todos, envolvendo-nos na sua noite escura.

Nós que cremos firmemente Naquele que morreu por nós Naquele que desceu a mansão dos mortos, Naquele que foi ao coração da morte e a transformou desde dentro e tem as suas chaves nas suas próprias mãos, nós cremos que este é o Senhor da vida e o senhor da morte também. Senhor de nossa morte, quando tivermos que descer ao sepulcro.

Com estas palavras Jesus Cristo abriu o último livro da revelação o apocalipse: “Sim Eu fui morte, mas eis que estou vivo e tenho as chaves dos Hades nas minhas mãos”. Com estes sentimentos vivamos o nosso Sábado Santo prolongado na história de nossas vidas na esperança sempre mais forte consolidada na vitória de Cristo e na Ressurreição.

 

SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL

Meus irmãos,

Nesta noite santa em que o céu assume a terra e a terra assume o céu, em que o Redentor da Humanidade abandona o vale das trevas e das lágrimas para transpor os umbrais da luz e da alegria, com a bendita e gloriosa Ressurreição, somos convidados a refletir sobre a Reconstituição do Rebanho de Cristo, o Salvador.

A comemoração da Ressurreição do Cristo ocorre, desde a mais remota memória da Tradição Católica, na noite de sábado para domingo, pois na manhã do domingo – primeiro dia da semana – o Senhor já não está no sepulcro. Além disto, não obstante a Páscoa judaica ter uma outra data – seria a mesma data da última Ceia – a tradição cristã associou a noite da Ressurreição à noite da Páscoa descrita em Êxodo 12,42: “uma noite de vigília em honra do Senhor”. É a noite da libertação. E, mais ainda, esta noite ganha o sentido de uma recapitulação do universo, o começo da criação nova e escatológica, pois o Senhor Ressuscitado é as primícias da nova criação. A Ressurreição de Jesus é o penhor da renovação do universo.

A Igreja, rica em sua tradição, diz que esta noite é em honra do Senhor. Os fiéis trazendo na mão – segundo a exortação do Evangelho de Lucas (12,35ss) – a vela acesa, assemelham-se aos que esperam o retorno do Senhor, para, quando ele chegar, encontrá-los ainda vigilantes e os faça sentar-se à sua mesa.

A liturgia desta Vigília Pascal deve falar por si mesma. Com sensibilidade artística, deve-se representar o Mistério da nova luz que surge das trevas: Cristo que venceu a morte e o pecado. Os fiéis se unem a este Mistério, acendendo uma vela no Círio Pascal, quando de sua entrada triunfal na Igreja: é a participação da vida ressuscitada do Senhor.

Como tão bem se expressou certa ocasião o saudoso e magno arcebispo primaz de Minas Gerais, expoente da Companhia de Jesus, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida: “Na noite do Sábado Santo, as comunidades cristãs celebram a Solene vigília Pascal, a liturgia da ressurreição de Cristo, vencedor do pecado e da morte. É muito expressivo o simbolismo das trevas e da Luz. Após as leituras do Antigo e do Novo Testamento, que narram o desígnio divino da Salvação, a comunidade reunida aguarda na escuridão do recinto sagrado a entrada festiva do Círio da Páscoa. A luz de Cristo, com cantos de aleluia, é aclamada com alegria, sinal de vida e esperança para a humanidade” – até aqui, Dom Luciano.

É a Luz que se desponta das trevas, é a salvação que se confirma, é a esperança da eternidade na graça de Deus. Cristo, a vítima perene sobre nossos altares, quebra os grilhões do pecado e introduz à Jerusalém Celeste aqueles que O aguardaram pelos séculos que O antecederam. É, pois, o momento do canto do “Glória a Deus nas alturas”. O hino de louvor que os anjos cantaram no presépio de Belém pelo nascimento do Salvador, canta, agora, a humanidade toda pela sua gloriosa ressurreição, pelo renascimento de todos na vida da graça.

E reza a Igreja na oração que se segue, pedindo a Deus que se digne iluminar “esta noite santa com a glória da ressurreição do Senhor”, despertando na Santa Igreja “o espírito filial, para que, inteiramente renovados, O sirvamos de todo o coração”. É uma alusão ao nosso batismo, que tradicionalmente ocorre nesta noite e em função da qual é concebida também a leitura de São Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11), comparando o batismo como uma descida ao sepulcro, para daí corressuscitar com Cristo: o homem velho é crucificado; revestimo-nos do homem novo; pecado e morte já não reinam sobre a humanidade, sobre cada um de nós.

Esse belo texto do Apóstolo compara-nos a Jesus e diz que, pelo batismo, nós mergulhamos com Ele na morte e somos sepultados. Pela força do batismo, como que pela força divina, com Ele ressuscitamos. São Paulo usou uma expressão que nós entendemos muito bem, porque faz parte de nosso dia a dia: “Solidários na morte, solidários na ressurreição”. Todos, e cada um de nós em particular, fomos beneficiados com a ressurreição de Jesus nessa madrugada da Páscoa, neste momento da passagem do cativeiro do pecado para vida em união com Deus. Por isso, nossa alegria não nasce apenas da vitória de Jesus sobre a morte, mas da certeza de que não morreremos para sempre, tendo, a partir desta noite bendita, a garantida da VIDA ETERNA.

Meus irmãos,

Depois desta leitura a liturgia faz uma pausa.

Como pudemos sentir, chegado o grande momento do “Aleluia”, canta-se solenemente por três vezes, entoando o salmo que fala das glórias desta noite santa.

Estamos no meio da noite, uma noite muito especial e santíssima: noite da ressurreição.

Acendendo o fogo e o Círio Pascal, celebramos a luz.

Luz significa presença amorosa de Deus.

Luz significa a salvação, a morte para o pecado e para as trevas.

As palavras que iluminam esta noite santa são as do próprio ressuscitado: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. É a expressão da divindade de Cristo e a salvação que trazia à humanidade.

Jesus podia ter dito essas palavras nessa madrugada da Páscoa, ao sair da sepultura. Porque em sua ressurreição, o Senhor, quis compartilhar conosco tanto a divindade quanto a salvação, ou seja, a comunhão com Deus.

O Evangelho (Mc 16,1-7) nos apresenta uma recomendação que deve ser dada às três Marias, de irem à Galiléia transmitir aos apóstolos o que viram. A famosa conclusão breve de Marcos parece, inicialmente, pouco apta para a pregação. Termina aparentemente de maneira pouco pascal, pelo silêncio das mulheres – por medo – a respeito do sepulcro vazio e a mensagem do anjo. Mas, quem sabe, para Marcos, Jerusalém é o lugar da incredulidade e a Galiléia o lugar da fé do pequeno rebanho? Ele entende que o anúncio da ressurreição não foi feito logo em Jerusalém, mas primeiro se devia reconstituir o rebanho na Galiléia, precedendo o Bom Pastor, que deve reunir o rebanho escatológico: Jesus Cristo ressuscitado. Agora já não somos mais ovelhas sem pastor. Somos ovelhas reunidas perante o grande e único pastor: o Redentor que ressuscitou para salvar nossos pecados.

Vivemos a Páscoa que significa passagem, que significa vida da graça em Deus.

Que a água consagrada para ao batismo e a renovação das promessas solenes, bem como a Ladainha de todos os Santos, enfim, todo o contexto em que se desenvolve esta liturgia nos faça mais fiéis ao projeto de Deus Pai que nos criou; o Deus Filho que nos redimiu com o sangue na cruz e conquistou para nós na ressurreição, a vida plena e eterna; a Deus Espírito Santo que Jesus nos dá, para que nos tornemos filhos em plenitude da verdade e possamos, o quanto à criatura humana for capaz, “compreender a largura, o cumprimento, a altura e a profundidade” do amor do Senhor morto e ressuscitado para conosco.

Meus queridos irmãos,

Nesta noite santa celebramos a vitória da vida, da vida em abundância, que vem da vitória da graça sobre o pecado.

Páscoa bendita da libertação. Não uma libertação política, mas uma libertação escatológica.

Cristo, com a ressurreição, é o Senhor da História, como eleição gratuita de Deus. Por esta morte bendita e, ainda mais, pela sua ressurreição, todos nós, sem exceção, devemos dar testemunho de seu Evangelho diante do mundo. Devemos ser uma comunidade que testemunha e vive a Ressurreição.

Um costume da Igreja Antiga, como certa vez nos indicou o papa Bento XVI, deve ainda ser um sinal para nossos tempos. Relata-nos o Vigário de Cristo que, em priscas eras, era hábito o bispo ou sacerdote, após a homilia, conclamar os fiéis “Conversi ad Dominum”, ou seja “Voltai-vos para o Senhor”. Nesse instante, todos se viravam para o Oriente, ou para a imagem do Cristo, numa expressão de retornarem ao Senhor. “Com efeito, em última análise era deste fato interior que se tratava: da ‘conversio’, de voltar a nossa alma para Jesus Cristo e, n’Ele, para o Deus vivo, para a luz verdadeira”, nos explica o Papa (Vigília Pascal de 2008).

Essa exortação que nos chama a conversão inspira-nos a uma outra, comum em nossas celebrações: “Sursum corda” – “Corações ao alto”. Devemos sempre buscar as coisas do alto, as coisas de Deus, com a sua graça, sob a inspiração do Espírito Santo. Ambas exclamações nos inspiram a busca de reforma de vida, de um renascer, a partir dos méritos da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, para vivermos a plenitude da Ressurreição.

Meus irmãos,

Páscoa não é apenas um dia no calendário litúrgico, não é apenas uma celebração bonita, rica de simbolismos, mas uma constante renovação da vida, que nesta noite santa nos libertou do império do pecado que ameaça a dignidade dos homens.

Celebrando esta Páscoa do Senhor, cantamos antecipadamente a vitória de todos os que lutam pela vida, inclusive dando a sua própria vida em benefício da implantação do Reino de Deus neste mundo.

Aleluia!

Que esta noite sacramento, sacramento de vida eterna, nos faça cada vez mais buscar enxergar no pobre e no excluído o rosto do Senhor Ressuscitado. Amém! aleluia!

Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

 

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II – VIGÍLIA PASCAL
Sábado Santo, 30 de Março de 2002
www.vatican.va

1. “Disse Deus: «Haja Luz». E houve luz” (Gn 1, 3) Uma explosão de luz, que a palavra de Deus fez surgir do nada, rasgou a primeira noite, a noite da criação. O apóstolo João escreverá: “Deus é luz e n’Ele não há trevas” (1Jo 1, 5). Deus não criou as trevas, mas a luz! E o Livro da Sabedoria, revelando claramente que a obra de Deus obedece desde sempre a uma finalidade positiva, assim se exprime: “Ele criou tudo para a existência; / e todas as criaturas têm em si a salvação. / Não há nelas nenhum princípio de morte, / nem o domínio da morte impera sobre a terra” (Sab 1, 14). Naquela primeira noite, a noite da criação, tem as suas raízes o mistério pascal que, após o drama do pecado, constitui a restauração e a coroação daquele instante inicial. A Palavra divina trouxe à existência todas as coisas e, em Jesus, fez-se carne para nos salvar. E, se o destino do primeiro Adão foi retornar à terra donde viera (cf. Gn 3, 19), o último Adão desceu do céu para lá subir de novo vencedor, primícia da nova humanidade (cf. Jo 3, 23; 1Cor 15, 47).
2. Uma outra noite constitui o evento fundamental da história de Israel: é o êxodo prodigioso do Egito, cuja narração se lê em cada ano na solene Vigília pascal. “O Senhor fustigou o mar com um impetuoso vento do oriente, que soprou durante toda a noite. Secou o mar, e as águas dividiram-se. Os filhos de Israel desceram a pé enxuto para o meio do mar, e as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda deles” (Ex 14, 21-22). O povo de Deus nasceu deste “batismo” no Mar Vermelho, quando experimentou a mão forte do Senhor que o arrancava da escravidão, para conduzi-lo à suspirada terra da liberdade, da justiça e da paz. Esta é a segunda noite, a noite do êxodo. A profecia do Livro do Êxodo cumpre-se hoje também para nós, que somos israelitas segundo o Espírito, descendência de Abraão graças à fé (cf. Rm 4, 16). Na sua Páscoa, como novo Moisés, Cristo faz-nos passar da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Mortos com Jesus, com Ele ressuscitamos para a vida nova, pelo poder do seu Espírito. O seu Batismo veio a ser o nosso.
3. Recebereis este Batismo, que gera o homem para a vida nova, também vós, caríssimos Irmãos e Irmãs catecúmenos, provindos de diversos Países: da Albânia, da China, do Japão, da Itália, da Polônia, da República Democrática do Congo. Dois dentre vós, uma mãe japonesa e uma chinesa, trazem consigo também o filho, de modo que, na mesma celebração, serão batizadas as mães junto com as suas crianças. “Nesta santíssima noite” em que Cristo ressuscitou dos mortos, cumpre-se para vós um “êxodo” espiritual: deixais para trás a velha existência e entrais na “terra dos vivos”. Esta é a terceira noite, a noite da ressurreição.
4. “Oh noite ditosa, única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro”. Assim cantamos no Precônio Pascal, no início desta solene Vigília, mãe de todas as Vigílias. Após a trágica noite de Sexta-feira Santa, quando «o domínio das trevas» (Lc 22, 53) parecia levar a melhor sobre Aquele que é «a luz do mundo» (Jo 8, 12), após o grande silêncio de Sábado Santo, em que Cristo, cumprida a sua obra na terra, encontrou descanso no mistério do Pai e levou a sua mensagem de vida aos abismos da morte, eis finalmente a noite que precede “o terceiro dia”, no qual, segundo as Sagradas Escrituras, o Messias havia de ressuscitar, como Ele mesmo tinha repetidamente preanunciado aos seus discípulos. “Oh noite ditosa, em que o Céu se une à terra, em que o homem se encontra com Deus!” (Precônio Pascal).
5. Esta é a noite por excelência da fé e da esperança. Enquanto tudo está mergulhado na escuridão, Deus – a Luz – vigia. Com Ele, vigiam todos que confiam e esperam n’Ele. Ó Maria, esta é por vossa excelência a vossa noite! Enquanto se apagam as últimas luzes do sábado, e o fruto do vosso ventre descansa na terra, vosso coração também vigia! A vossa fé e a vossa esperança projetam-se para diante. Para além da pesada lápide, vislumbram já o túmulo vazio; para além do espesso véu das trevas, entrevêem a aurora da ressurreição. Fazei, ó Mãe, que também nós vigiemos no silêncio da noite, crendo e esperando na palavra do Senhor. Encontraremos assim, na plenitude da luz e da vida, Cristo, primícia dos ressuscitados, que reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Aleluia!

 

HOMILIA DO PAPA NA VIGÍLIA PASCAL
A mão salvadora do Senhor nos sustenta

CIDADE DO VATICANO, domingo, 12 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou na solene vigília da Noite Santa de Páscoa, que presidiu na Basílica de São Pedro do Vaticano. * * *
Amados irmãos e irmãs! Narra São Marcos no seu Evangelho que os discípulos, ao descer do monte da Transfiguração, discutiam entre si o que queria dizer «ressuscitar dos mortos» (cf. Mc 9, 10). Antes, o Senhor tinha-lhes anunciado a sua paixão e a ressurreição três dias depois. Pedro tinha protestado contra o anúncio da morte. Mas agora interrogavam-se acerca do que se poderia entender pelo termo «ressurreição». Porventura não acontece o mesmo também a nós? O Natal, o nascimento do Deus Menino de certo modo é-nos imediatamente compreensível. Podemos amar o Menino, podemos imaginar a noite de Belém, a alegria de Maria, a alegria de São José e dos pastores e o júbilo dos Anjos. Mas, a ressurreição: o que é? Não entra no âmbito das nossas experiências, e assim a mensagem freqüentemente acaba, em qualquer medida, incompreendida, algo do passado. A Igreja procura levar-nos à sua compreensão, traduzindo este acontecimento misterioso na linguagem dos símbolos pelos quais nos seja possível de algum modo contemplar este fato impressionante. Na Vigília Pascal, indica-nos o significado deste dia sobretudo através de três símbolos: a luz, a água e o cântico novo do aleluia. Temos, em primeiro lugar, a luz. A criação por obra de Deus – acabamos de ouvir a sua narração bíblica – começa com as palavras: «Haja luz!» (Gen 1, 3). Onde há luz, nasce a vida, o caos pode transformar-se em cosmos. Na mensagem bíblica, a luz é a imagem mais imediata de Deus: Ele é todo Resplendor, Vida, Verdade, Luz. Na Vigília Pascal, a Igreja lê a narração da criação como profecia. Na ressurreição, verifica-se de modo mais sublime aquilo que este texto descreve como o início de todas as coisas. Deus diz de novo: «Haja luz». A ressurreição de Jesus é uma irrupção de luz. A morte fica superada, o sepulcro escancarado. O próprio Ressuscitado é Luz, a Luz do mundo. Com a ressurreição, o dia de Deus entra nas noites da história. A partir da ressurreição, a luz de Deus difunde-se pelo mundo e pela história. Faz-se dia. Somente esta Luz – Jesus Cristo – é a luz verdadeira, mais verdadeira que o fenômeno físico da luz. Ele é a Luz pura: é o próprio Deus, que faz nascer uma nova criação no meio da antiga, transforma o caos em cosmos. Procuremos compreender isto um pouco melhor ainda. Porque é que Cristo é Luz? No Antigo Testamento, a Torah era considerada como a luz vinda de Deus para o mundo e para os homens. Aquela separa, na criação, a luz das trevas, isto é, o bem do mal. Aponta ao homem o caminho justo para viver de modo autêntico. Indica-lhe o bem, mostra-lhe a verdade e conduz-lo para o amor, que é o seu conteúdo mais profundo. Aquela é «lâmpada» para os passos, e «luz» no caminho (cf. Sal 119/118, 105). Ora, os cristãos sabiam que, em Cristo está presente a Torah: a Palavra de Deus está presente n’Ele como Pessoa. A Palavra de Deus é a verdadeira Luz de que o homem necessita. Esta Palavra está presente n’Ele, no Filho. O Salmo 19 comparara a Torah ao sol, que, nascendo, manifesta a glória de Deus visivelmente em todo o mundo. Os cristãos compreendem: sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz sobre o mundo. Cristo é a grande Luz, da qual provém toda a vida. Ele faz-nos reconhecer a glória de Deus de um extremo ao outro da terra. Indica-nos a estrada. Ele é o dia de Deus que agora, crescendo, se difunde por toda a terra. Agora, vivendo com Ele e por Ele, podemos viver na luz. Na Vigília Pascal, a Igreja representa o mistério da luz de Cristo no sinal do círio pascal, cuja chama é simultaneamente luz e calor. O simbolismo da luz está ligado com o do fogo: resplendor e calor, resplendor e energia de transformação contida no fogo. Verdade e amor andam juntos. O círio pascal arde e deste modo se consuma: cruz e ressurreição são inseparáveis. Da cruz, da autodoação do Filho nasce a luz, provém o verdadeiro resplendor sobre o mundo. No círio pascal, todos acendemos as nossas velas, sobretudo as dos neo-batizados, aos quais, neste sacramento, a luz de Cristo é colocada no fundo do coração. A Igreja Antiga designou o Batismo como fotismos, como sacramento da iluminação, como uma comunicação de luz e ligou-o inseparavelmente com a ressurreição de Cristo. No Batismo, Deus diz ao batizando: «Haja luz». O batizando é introduzido dentro da luz de Cristo. Cristo divide agora a luz das trevas. N’Ele reconhecemos o que é verdadeiro e o que é falso, o que é o resplendor e o que é a escuridão. Com Ele, surge em nós a luz da verdade e começamos a compreender. Uma vez quando Cristo viu a gente que se congregara para O escutar e esperava d’Ele uma orientação, sentiu compaixão por ela, porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34). No meio das correntes contrastantes do seu tempo, não sabiam a quem dirigir-se. Quanta compaixão deve Ele sentir também do nosso tempo, por causa de todos os grandes discursos por trás dos quais, na realidade, se esconde uma grande desorientação! Para onde devemos ir? Quais são os valores, segundo os quais podemos regular-nos? Os valores segundo os quais podemos educar os jovens, sem lhes dar normas que talvez não subsistam nem exigir coisas que talvez não lhes devam ser impostas? Ele é a Luz. A vela batismal é o símbolo da iluminação que nos é concedida no Batismo. Assim, nesta hora, também São Paulo nos fala de modo muito imediato. Na Carta aos Filipenses, diz que, no meio de uma geração má e perversa, os cristãos deveriam brilhar como astros no mundo (cf. Fil 2, 15). Peçamos ao Senhor que a pequena chama da vela, que Ele acendeu em nós, a luz delicada da sua palavra e do seu amor no meio das confusões deste tempo não se apague em nós, mas torne-se cada vez mais forte e mais resplendorosa. Para que sejamos com Ele pessoas do dia, astros para o nosso tempo. O segundo símbolo da Vigília Pascal – a noite do Batismo – é a água. Esta aparece, na Sagrada Escritura e conseqüentemente também na estrutura íntima do sacramento do Batismo, com dois significados opostos. De um lado, temos o mar que se apresenta como o poder antagonista da vida sobre a terra, como a sua contínua ameaça, à qual, porém, Deus colocou um limite. Por isso o Apocalipse, ao falar do mundo novo de Deus, diz que lá o mar já não existirá (cf. 21, 1). É o elemento da morte. E assim torna-se a representação simbólica da morte de Jesus na cruz: Cristo desceu aos abismos do mar, às águas da morte, como Israel penetrou no Mar Vermelho. Ressuscitado da morte, Ele dá-nos a vida. Isto significa que o Batismo não é apenas um banho, mas um novo nascimento: com Cristo, como que descemos ao mar da morte para dele subirmos como criaturas novas. O outro significado com que encontramos a água é como nascente fresca, que dá a vida, ou também como o grande rio donde provém a vida. Segundo o ordenamento primitivo da Igreja, o Batismo devia ser administrado com água fresca de nascente. Sem água, não há vida. Impressiona a grande importância que têm na Sagrada Escritura os poços. São lugares donde brota a vida. Junto do poço de Jacob, Cristo anuncia à Samaritana o poço novo, a água da vida verdadeira. Manifesta-Se a ela como o novo e definitivo Jacob, que abre à humanidade o poço que esta aguarda: aquela água que dá a vida que jamais se esgota (cf. Jo 4, 5-15). São João narra-nos que um soldado feriu com uma lança o lado de Jesus e que, do lado aberto – do seu coração trespassado –, saiu sangue e água (cf. Jo 19, 34). Nisto, a Igreja Antiga viu um símbolo do Batismo e da Eucaristia, que brotam do coração trespassado de Jesus. Na morte, Jesus mesmo Se tornou a nascente. Numa visão, o profeta Ezequiel tinha visto o Templo novo, do qual jorra uma nascente que se torna um grande rio que dá a vida (cf. Ez 47, 1-12); para uma Terra que sempre sofria com a seca e a falta de água, esta era uma grande visão de esperança. A cristandade dos primórdios compreendeu: em Cristo, realizou-se esta visão. Ele é o Templo verdadeiro, o Templo vivo de Deus. E é também a nascente de água viva. D’Ele brota o grande rio que, no Batismo, faz frutificar e renova o mundo; o grande rio de água viva é o seu Evangelho que torna fecunda a terra. Mas, num discurso durante a Festa das Tendas, Jesus profetizou uma coisa ainda maior: «Do seio daquele que acreditar em Mim, correrão rios de água viva» (Jo 7, 38). No Batismo, o Senhor faz de nós não só pessoas de luz, mas também nascentes das quais brota água viva. Todos nós conhecemos tais pessoas que nos deixam de algum modo restaurados e renovados; pessoas que são como que uma fonte de água fresca borbotante. Não devemos necessariamente pensar a pessoas grandes como Agostinho, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Madre Teresa de Calcutá e assim por diante, pessoas através das quais verdadeiramente rios de água viva penetraram na história. Graças a Deus, encontramo-las continuamente mesmo no nosso dia a dia: pessoas que são uma nascente. Com certeza, conhecemos também o contrário: pessoas das quais emana um odor parecido com o dum charco com água estagnada ou mesmo envenenada. Peçamos ao Senhor, que nos concedeu a graça do Batismo, para podermos ser sempre nascentes de água pura, fresca, saltitante da fonte da sua verdade e do seu amor. O terceiro grande símbolo da Vigília Pascal é de natureza muito particular; envolve o próprio homem. É a entoação do cântico novo: o aleluia. Quando uma pessoa experimenta uma grande alegria, não pode guardá-la para si. Deve manifestá-la, transmiti-la. Mas que sucede quando a pessoa é tocada pela luz da ressurreição, entrando assim em contacto com a própria Vida, com a Verdade e com o Amor? Disto, não pode limitar-se simplesmente a falar; o falar já não basta. Ela tem de cantar. Na Bíblia, a primeira menção do ato de cantar encontra-se depois da travessia do Mar Vermelho. Israel libertou-se da escravidão. Subiu das profundezas ameaçadoras do mar. É como se tivesse renascido. Vive e é livre. A Bíblia descreve a reação do povo a este grande acontecimento da salvação com a frase: «O povo acreditou no Senhor e em Moisés, seu servo» (Ex 14, 31). Segue-se depois a segunda reação que nasce, por uma espécie de necessidade interior, da primeira: «Então Moisés e os filhos de Israel cantaram este cântico ao Senhor…». Na Vigília Pascal, ano após ano, nós, cristãos, depois da terceira leitura entoamos este cântico, cantamo-lo como o nosso cântico, porque também nós, pelo poder de Deus, fomos tirados para fora da água e libertos para a vida verdadeira. Para a história do cântico de Moisés depois da libertação de Israel do Egito e depois da subida do Mar Vermelho, há um paralelismo surpreendente no Apocalipse de São João. Antes de iniciarem os últimos sete flagelos impostos à terra, aparece ao vidente «uma espécie de mar de cristal misturado com fogo. Sobre o mar de cristal, estavam de pé os vencedores do Monstro, da sua imagem e do número do seu nome. Tinham na mão harpas divinas e cantavam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do Cordeiro…» (Ap 15, 2s). Com esta imagem, é descrita a situação dos discípulos de Jesus em todos os tempos, a situação da Igreja na história deste mundo. Considerada humanamente, tal situação é contraditória em si mesma. Por um lado, a comunidade encontra-se no Êxodo, no meio do Mar Vermelho. Num mar que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo gelo e fogo. E não deve porventura a Igreja caminhar sempre sobre o mar através do fogo e do frio? Humanamente falando, deveria afundar. Mas não, e enquanto caminha ainda no meio deste Mar Vermelho, ela canta – entoa o cântico de louvor dos justos: o cântico de Moisés e do Cordeiro, no qual concordam a Antiga e a Nova Aliança. Enquanto, na realidade deveria afundar, a Igreja entoa o cântico de agradecimento dos redimidos. Está sobre as águas de morte da história e todavia já está ressuscitada. Cantando, ela agarra-se à mão do Senhor, que a sustenta por cima das águas. E sabe que deste modo é guindada fora da força de gravidade da morte e do mal – uma força da qual, sem tal intervenção, não haveria caminho algum de fuga – guindada e atraída para dentro da nova força de gravidade de Deus, da verdade e do amor. De momento, ela encontra-se ainda entre os dois campos gravitacionais. Mas desde que Jesus ressuscitou, a gravitação do amor é mais forte que a do ódio; a força de gravidade da vida é mais forte que a da morte. Porventura não é esta a situação da Igreja de todos os tempos? Sempre dá a impressão que ela deva afundar, e todavia já está salva. São Paulo ilustrou esta situação com as palavras: «Somos considerados (…) como agonizantes, embora estejamos com vida» (2Cor 6, 9). A mão salvadora do Senhor nos sustenta e assim podemos cantar já agora o cântico dos redimidos, o cântico novo dos ressuscitados: Aleluia! Amém.
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