Sexta-feira Santa

Por Pe. Fernando José Cardoso

Nesta Sexta Feira Santa, contemplamos Jesus crucificado! Diversas perguntas poderiam aflorar em nossa mente num dia tão significativo como hoje, durante estes últimos tempos dias da quaresma, e primeiros dias da semana santa. Eu me perguntava: porque será, eu e muitos outros, não nos comovemos profundamente diante de Jesus Crucificado? Porque será que tantos cristãos e católicos buscam outras tantas diversões neste dia? Porque será que nunca fomos capazes de derramar uma lágrima sequer, diante do cristo morto? Confesso mais uma vez que esta interrogação me perseguiu durante estes últimos dias, da quaresma, e é a reposta para mim mesmo, que nesta Sexta Feira Santa, compartilho com os meus irmãos na fé, é esta: nós não sabemos aquilatar o mistério de nossa salvação. Nós não sabemos aquilatar neste mundo o que o pecado realiza em cada um de nós. Nós não sabemos aquilatar a tragédia de um descompasso ou um afastamento de Deus. Nós não sabemos a gravidade do mal, também posso continuar a dizer, que nós desconhecemos aquilo que perdemos, como também desconhecemos aquilo para o qual Jesus nos salvou exatamente com sua Paixão, Morte e Ressurreição, em outras palavras, queremos confessar diante do Crucificado, nesta Sexta Feira Santa, a nossa superficialidade, nossa incapacidade de adentrar num mistério de nossa própria redenção. Não sabemos o que é um pecado, um afastamento de Deus, um inferno, não sabemos também o que é uma Vida Eterna, para o qual fomos comprados e resgatados graças ao Sangue hoje derramado de Jesus. Porém, conscientes dessa nossa fragilidade, superficialidade, nós poderíamos ao menos deixar de lado todo mais, todas as outras preocupações e hoje, quem sabe, hoje apenas, passar um bom tempo silenciosamente diante do Crucificado, tentando repetir cada um para si o que São Paulo escrevia na carta aos Gálatas: “Ele me amou, Ele se entregou por mim”. Quem sabe a custa de tanto repetir esta jaculatória diante do Crucificado, Deus nos concederá uma grande graça hoje, a de aquilatarmos o valor da Redenção de Jesus, a graça de aquilatarmos o estrago que fez em nós o pecado e a Vida Eterna para o qual fomos Salvos.

 

Durante a Ceia da Quinta-feira Santa, Jesus demonstrava uma serenidade transcendente, manifestando seu amor por toda a humanidade. O ponto culminante é a instituição da Eucaristia, sacramento de sua real e verdadeira presença no meio de nós, pelo qual Ele atualiza seu sacrifício na Cruz na oblação ao Pai. No Horto das Oliveiras revela-se sua angústia humana diante do que o aguarda. Jesus clama: “Pai se possível afaste de mim este cálice”. É a luta interior presente em seu coração, porém a vitória, ao contrário de Adão, é sua identificação com a vontade do Pai: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”. E nesta Sexta-feira Santa nós contemplamos em sua prisão, paixão e crucifixão. “Fixemos nossos olhos em Jesus e deixemo-nos invadir pela sua misericórdia: ‘Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Ao bom ladrão, Ele diz: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. E que gesto profundo de amor para conosco, ao nos dar como Mãe, sua própria Mãe: Apontando para o discípulo amado diz: “Eis tua Mãe”, e para sua Mãe: “Eis teu filho”. João representa todo verdadeiro discípulo de Jesus, de modo que todo discípulo seu reconhece Maria como sua Mãe e ela intercede por todos, tendo seu olhar maternal sobre cada um de nós. No madeiro da cruz, o Senhor e Mestre revela sua profunda comunhão conosco. Ele assumiu nossa humanidade, tornando-se um de nós. É a humanidade de Jesus, que experimentamos quando clama: “Tenho sede”, ou ainda, no último momento, “Pai. Por que me abandonastes?”. Todos os nossos sofrimentos, nossas dores são assumidos por Jesus e nós nEle participamos do mistério da Redenção. De nossa própria, como também de todos os homens. Jesus é o nosso Salvador, pois nEle experimentamos a salvação. São Gregório de Nazianzo dirá que “uma só gota de seu sangue renova o mundo inteiro”.  Só Deus salva e na Cruz transparece a sua divindade. Abandonado por todos e no vazio de sua humanidade, Ele exclama na gratuidade absoluta, doando-se totalmente ao Pai: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. É a doação que nos salva, que nos redime e se torna o sentido último e mais profundo de nossa vida. Por isto  dá seu último suspiro: “Tudo está consumado”.   Sim, na medida em que vivermos tal doação e nossa vida se colocar toda voltada para Deus e nEle orientada para um serviço despretensioso aos irmãos e irmãs, participamos, como dom gratuito de Deus, da salvação que Jesus nos trouxe”.

 

Evangelho segundo São João 18, 1-40.19, 1-42
Tendo dito estas coisas, Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cédron, onde havia um horto, e ali entrou com os seus discípulos. Judas, aquele que o ia entregar, conhecia bem o sítio, porque Jesus se reunia ali freqüentemente com os discípulos. Judas, então, guiando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumos sacerdotes e dos fariseus, munidos de lanternas, archotes e armas, entrou lá. Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, adiantou-se e disse-lhes: «Quem buscais?» Responderam-lhe: «Jesus, o Nazareno.» Disse-lhes Ele: «Sou Eu!» E Judas, aquele que o ia entregar, também estava junto deles. Logo que Jesus lhes disse: ‘Sou Eu!’, recuaram e caíram por terra. E perguntou-lhes segunda vez: «Quem buscais?» Disseram-lhe: «Jesus, o Nazareno!» Jesus replicou-lhes: «Já vos disse que sou Eu. Se é a mim que buscais, então deixai estes ir embora.» Assim se cumpria o que dissera antes: ‘Dos que me deste, não perdi nenhum.’ Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: «Mete a espada na bainha. Não hei-de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?» Então, o destacamento, o comandante e os guardas das autoridades judaicas prenderam Jesus e manietaram-no. E levaram-no primeiro a Anás, porque era sogro de Caifás, o Sumo Sacerdote naquele ano. Caifás era quem tinha dado aos judeus este conselho: ‘Convém que morra um só homem pelo povo’. Entretanto, Simão Pedro e outro discípulo foram seguindo Jesus. Esse outro discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e pôde entrar no seu palácio ao mesmo tempo que Jesus. Mas Pedro ficou à porta, de fora. Saiu, então, o outro discípulo que era conhecido do Sumo Sacerdote, falou com a porteira e levou Pedro para dentro. Disse-lhe a porteira: «Tu não és um dos discípulos desse homem?» Ele respondeu: «Não sou.» Lá dentro estavam os servos e os guardas, de pé, aquecendo-se à volta de um braseiro que tinham acendido, porque fazia frio. Pedro ficou no meio deles, aquecendo-se também. Então, o Sumo Sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus respondeu-lhe: «Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.» Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?» Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?» Então, Anás mandou-o manietado ao Sumo Sacerdote Caifás. Entretanto, Simão Pedro estava de pé a aquecer-se. Disseram-lhe, então: «Não és tu também um dos seus discípulos?» Ele negou, dizendo: «Não sou.» Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: «Não te vi eu no horto com Ele?» Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo. De Caifás, levaram Jesus à sede do governador romano. Era de manhã cedo e eles não entraram no edifício para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa. Pilatos veio ter com eles cá fora e perguntou-lhes: «Que acusações apresentais contra este homem?» Responderam-lhe: «Se Ele não fosse um malfeitor, não to entregaríamos.» Retorquiu-lhes Pilatos: «Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa Lei.» «Não nos é permitido dar a morte a ninguém», disseram-lhe os judeus, em cumprimento do que Jesus tinha dito, quando explicou de que espécie de morte havia de morrer. Pilatos entrou de novo no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo nele nenhum crime. Mas é costume eu libertar-vos um preso na Páscoa. Quereis que vos solte o rei dos judeus?» Eles puseram-se de novo a gritar, dizendo: «Esse não, mas sim Barrabás!» Ora Barrabás era um salteador. Então, Pilatos mandou levar Jesus e flagelá-lo. Depois, os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos, cravaram-lha na cabeça e cobriram-no com um manto de púrpura; e, aproximando-se dele, diziam-lhe: «Salve! Ó Rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu de novo e disse-lhes: «Vou trazê-lo cá fora para saberdes que eu não vejo nele nenhuma causa de condenação.» Então, saiu Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-lhes Pilatos: «Eis o Homem!» Assim que viram Jesus, os sumos sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.» Os judeus replicaram-lhe: «Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque disse ser Filho de Deus.» Quando Pilatos ouviu estas palavras, mais assustado ficou. Voltou a entrar no edifício da sede e perguntou a Jesus: «Donde és Tu?» Mas Jesus não lhe deu resposta. Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.» A partir daí, Pilatos procurava libertá-lo, mas os judeus clamavam: «Se libertas este homem, não és amigo de César! Todo aquele que se faz rei declara-se contra César.» Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna, no lugar chamado Lajedo, ou Gabatá em hebraico. Era o dia da Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse, então, aos judeus: «Aqui está o vosso Rei!» E eles bradaram: «Fora! Fora! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Então, hei-de crucificar o vosso Rei?» Replicaram os sumos sacerdotes: «Não temos outro rei, senão César.» Então, entregou-o para ser crucificado. E eles tomaram conta de Jesus. Jesus, levando a cruz às costas, saiu para o chamado Lugar da Caveira, que em hebraico se diz Gólgota, onde o crucificaram, e com Ele outros dois, um de cada lado, ficando Jesus no meio. Pilatos redigiu um letreiro e mandou pô-lo sobre a cruz. Dizia: «Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.» Este letreiro foi lido por muitos judeus, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade e o letreiro estava escrito em hebraico, em latim e em grego. Então, os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: «Não escrevas ‘Rei dos Judeus’, mas sim: ‘Este homem afirmou: Eu sou Rei dos Judeus.’» Pilatos respondeu: «O que escrevi, escrevi.» Os soldados, depois de terem crucificado Jesus, pegaram na roupa dele e fizeram quatro partes, uma para cada soldado, exceto a túnica. A túnica, toda tecida de uma só peça de alto a baixo, não tinha costuras. Então, os soldados disseram uns aos outros: «Não a rasguemos; tiremo-la à sorte, para ver a quem tocará.» Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Repartiram entre eles as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes. E foi isto o que fizeram os soldados. Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua. Depois disso, Jesus, sabendo que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!» Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca. Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Como era o dia da Preparação da Páscoa, para evitar que no sábado ficassem os corpos na cruz, porque aquele sábado era um dia muito solene, os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente. Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água. Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também. É que isto aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: Não se lhe quebrará nenhum osso. E também outro passo da Escritura diz: Hão-de olhar para aquele que trespassaram. Depois disto, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. E Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e retirou o corpo. Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés. Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus. No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um horto e, no horto, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.

Diz-nos o evangelista Lucas que quando se aproximaram os dias da paixão, Jesus tomou firmemente a direção de Jerusalém. E o evangelista no-lo mostra através do contraponto da figura de Elias. Elias foi um profeta do século IX, que de acordo com uma tradição popular da Bíblia do Antigo Testamento teria sido levado para o céu num carro de fogo. Quando se aproximaram os dias da paixão um novo Elias toma a direção de Jerusalém e tomara lá também o seu carro de fogo. Sim, hoje nós contemplamos o carro de fogo que conduziu o novo Elias, Jesus deste mundo ao Pai. Este carro de fogo é sua paixão e possui algumas estações: a prisão no horto, os maus tratos diante de Anás e Caifás, a condenação por Pilados, a cena da flagelação e da coroação de espinhos, o caminho do calvário, a crucificação, a agonia monstruosa e a morte na cruz. Este foi o carro de fogo que Jesus tomou para passar deste mundo, qual Elias redivivo para a glória do Pai. Nós também, nesta sexta-feira Santa, faremos bem em buscarmos a companhia de Jesus. Sim, nós gostaríamos de estar perto deste carro de fogo de Cristo, seguindo uma a uma as estações dolorosas que o conduzirão a Páscoa da Ressurreição. Ele mesmo havia dito “quem quiser ser um discípulo tome a sua cruz e siga-me” e a seguir, “quem quiser salvar a sua vida neste mundo a qualquer preço irá perdê-la. Mas quem for capaz de perder a sua vida por mim, este a reencontrará na vida eterna”. Hoje, nós contemplamos Jesus que passa deste mundo ao Pai, num verdadeiro carro de fogo. Mas nós não fomos chamados para sermos meros espectadores de um drama que não nos diz respeito. De uma maneira ou de outra nós já nos envolvemos com o carro de fogo de Jesus. E muitos cristãos e santos antes de nós, já experimentaram o fogo deste carro, tomando parte eles também na paixão, bebendo o cálice amargo do sofrimento para depois participarem da glória da ressurreição. Hoje, queremos estar no calvário com Cristo, hoje queremos participar das suas dores, hoje queremos carregar a sua cruz, hoje queremos deixar nos queimar pelo fogo que de seu coração virá sobre todos, mas não é o fogo destruidor, é o fogo do Espírito Santo. A seguir tomaremos parte no seu triunfo de glória pascal.

 

A CRUZ, ÁRVORE DA VIDA
Severiano de Gabala
(?-c. 408), bispo na Síria
6ª Homilia sobre a criação do mundo, 5-6 (trad. Soeur Isabelle de la Source, Lire la Bible; Médiaspaul 1988, t. 1, p. 31)

Havia uma árvore no meio do paraíso. A serpente serviu-se dela para enganar os nossos primeiros pais. Reparem nesta coisa espantosa: para iludir o homem, a serpente vai recorrer a um sentimento inerente à sua natureza. Com efeito, ao modelar o homem, o Senhor tinha colocado nele, para além de um conhecimento geral do universo, o desejo de Deus. Logo que o demônio descobriu esse desejo ardente, disse ao homem: «Sereis como deuses (Gn 3, 5). Agora sois apenas homens e não podeis estar sempre com Deus; mas, se vos tornardes como deuses, estareis sempre com ele». […] Dessa forma, foi o desejo de ser igual a Deus que seduziu a mulher […], ela comeu e induziu o homem a fazer outro tanto. […] Ora, após a falta, «Adão ouviu a voz do Senhor que se passeava no Paraíso ao cair da tarde» (Gn 3, 8). […] Bendito seja o Deus dos santos por ter visitado Adão ao cair da tarde! E por visitá-lo ainda agora, ao cair da tarde, na cruz. Porque foi precisamente na hora em que Adão acabava de comer que o Senhor sofreu a sua paixão, nessas horas marcadas pelo pecado e pelo julgamento, isto é, entre a sexta e a nona hora. Na hora sexta, Adão comeu, de acordo com a lei da natureza; em seguida, escondeu-se. E ao cair da tarde, Deus veio até ele. Adão tinha desejado tornar-se Deus; tinha desejado uma coisa impossível. Cristo cumulou esse desejo. «Quiseste tornar-te, disse Ele, o que não podias ser; mas Eu desejo tornar-Me homem, e posso-o. Deus faz todo o contrário do que tu fizeste ao deixares-te seduzir. Desejaste o que estava acima de ti; quanto a Mim, agarro o que está abaixo de Mim. Tu desejaste ser igual a Deus; Eu quero ser igual ao homem. […] Desejaste tornar-te Deus e não o pudeste. Eu faço-Me homem, para tornar possível o que era impossível» Sim, foi realmente para isso que Deus veio. Ele dá testemunho aos seus apóstolos: «Desejei tanto comer esta Páscoa convosco!» (Lc 22, 15) […] Desceu ao cair da tarde e disse: «Adão, onde estás?» (Gn 3, 9) […] Aquele que veio para sofrer é o mesmo que desceu ao Paraíso.

 

ASSUMIR JESUS E A SUA IGREJA
Padre José Augusto

Toda essa narração do Evangelho de hoje é de uma história verídica. O Pai nos envolveu através de seu filho, em Sua infinita misericórdia, para que eu e você não morrêssemos. Ele morreu em nosso lugar. A Sagrada Escritura diz que Ele assumiu as nossas dores, assumiu a cruz que era maldição, e foi para o Calvário, para nos envolver em sua infinita misericórdia. A única coisa que podemos fazer hoje olhando para a cruz, é dizer: ‘muito obrigado’. O Senhor não permitiu que a tempestade do pecado nos matasse. Ele nos envolveu com Seu Sangue, com Seu Corpo, para que não morrêssemos. Ele não abriu a boca, foi transpassado por nossos pecados para hoje estarmos aqui. O que dizer? Só nos resta silenciar diante daquele que foi transpassado, nos salvou e deu a vida por nós literalmente. Diante da cruz, não podemos sair daqui sem dar uma resposta. Precisamos dar uma resposta a Jesus. Aqui narra algo magnífico: São João fala de um tal de José, seguidor de Jesus, que tinha medo e vivia escondido. Fala também de um tal Nicodemos, que o procurou à noite, com medo. Mas quando Jesus morre, a única coisa que eles fizeram foi assumir. Foram diante de Pilatos para tirarem o corpo de Jesus, e com essa atitude assumem o Senhor em suas vidas. E você, assume? Para eles não importava o que poderia acontecer. Eles queriam ter um gesto de gratidão. Quando uma pessoa era crucificada, eles a deixavam lá apodrecendo, expostos ao ataque das aves de rapina. Às vezes ficavam lá por 3 dias, e então se não tivesse morrido, quebravam as pernas para morrerem asfixiados, ou a transpassavam com lança. Não havia motivo nenhum para Jesus ser crucificado, mas Ele assumiu. E sabia o que ia acontecer com ele. Mas vai, pega a cruz, a carrega, deita, deixa-se ser crucificado, meramente por amor a mim e a você. Jesus precisa ser assumido na vida de nós cristãos. Ele deve estar em primeiro lugar, ser amado e reconhecidos por nós. Ele precisa ser assumido por nós como Senhor. Ele é o Senhor. E perante o nome dele se dobre todo o joelho no céu, na terra e nos infernos. Ele deve ser assumido em nossa casa, nas universidades. Estão querendo apagá-lo da Igreja, das escolas, das casas, das famílias. Merecíamos o inferno e Ele nos presenteou com o Céu, derramando o Seu sangue. A humanidade hoje celebra mais uma vez o derramamento de sangue de um inocente, pela culpa de uma multidão, na qual estamos incluídos. Mas, uma vez que o reconhecemos, devemos assumi-lo. Assumam Jesus na Igreja, assumam Jesus diante do que o Papa Francisco está falando. Ele sabe muito bem o que está ensinando na Igreja. Em nome daquele que morreu pela cruz, assuma o teu sacerdote, teu bispo e o Papa Francisco. Não podemos nos declarar contra o Papa. Jamais. Por que ele mantem a unidade da Igreja. Não vou simplesmente abandonar Jesus porque Ele não me curou, não me deu emprego, porque Ele não resolveu o meu problema. Independente de recebermos ou não alguma graça de Deus, já recebemos a maior graça, o seu filho. Tendo nos curado ou não, temos que assumir Jesus Cristo. Em qualquer situação que você esteja vivendo, saiba, aquele que foi transpassado na cruz tem o controle de todas as coisas. Saiba esperar. Ele tem o controle de tudo. Assumam Jesus Cristo, assumam a Igreja na pessoa de Francisco. Mesmo que você não tenha entendido nada. Assumam! Tem muitas coisas que não vamos entender. E nem tudo merece uma resposta. Estamos num mundo onde as pessoas querem saber de tudo, querem ter respostas para tudo. Vivemos num mundo muito crítico. O homem se tornou muito orgulhoso e quer saber de tudo e esquece que o Redentor é que sabe de tudo. Quem sou para me colocar diante da Igreja e dizer que sei mais do que ela? A Igreja não vai acabar não. E eu tenho certeza disso porque o próprio Senhor disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. São Mateus 16,18 Se você é cristão e assume em sua vida as dores de Jesus, Sua Paixão e amor, assume a Igreja. Não dá para assumir Jesus sem assumir a Igreja. E assumir a Igreja é assumir Francisco. Ele é a voz máxima da Igreja. Quem assume Jesus Cristo, assume os sacerdotes e reza por eles. Assuma a Igreja com tudo o que ela ensina. Assumindo tudo isso, estará assumindo Aquele que deu a vida por você. Assumam, porque Jesus Cristo é o Senhor!

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