Quarta-feira Santa

Por Pe. Fernando José Cardoso

Judas, um dos doze, vai em direção aos Sumos Sacerdotes: “Quanto me dareis se eu Vo-lo entregar?”. Todos nós condenamos este gesto insano. Antes de nós, muitos artistas, pintores, escultores, pessoas dedicadas à literatura o condenaram. Judas recebeu uma desaprovação absoluta pelo mal que praticou com Jesus; mas muitas vezes ao condenar Judas nós nos esquecemos de olhar para nós. Nós conhecemos muito mais Jesus, do que conhecia ele. Judas sabia que Jesus era Deus? Que Jesus era o Salvador do mundo? Sabia que com Sua Paixão e morte, seguida de ressurreição, Ele sairia vitorioso do mal do pecado e da própria morte? Judas conhecia a teologia cristã e Católica que nós conhecemos? Quando nós pecamos e, sobretudo quando pecamos gravemente, diz o autor da carta aos hebreus: “Nós desprezamos o Sangue de Jesus que já foi derramado por nós”. Cada um se ponha a pensar no pecador. Cada um se ponha a pensar no tempo em que viveu no pecado, então nas faltas graves que terá cometido. Cada um então, de uma maneira muito mais consciente, quem sabe, de uma maneira muito mais livre do que Judas terá também, a seu modo, entregue Jesus. Na desgraça nossa, na profunda humilhação, um gesto inconsiderado, desumano, de Judas, vem repetido por cada um de nós, todas as vezes que, deliberadamente, conscientemente, voltamos as costas pra Cristo, nos tornamos inimigos de Deus e preferimos o pecado a Sua Pessoa. É possível que um ou outro tenha sido libertado do pecado grave. Mas o pecado grave, repete esta ação: nós condenamos Judas,  mas muitas vezes agimos como ele. Hoje estamos cientes das nossas responsabilidades, mas num único ato não o imitaremos, nós não desesperaremos. Judas, desesperado foi enforcar-se! Nesta Semana Santa, confiados na Misericórdia Infinita de Jesus, batamos no peito, peçamos que arrebente Ele o nosso coração de pedra e nos transforme desde dentro capazes de O amar e, sobretudo, ao próximo como a nós mesmos.

 

O maior objetivo nesta vida é conhecer a Deus. Tal conhecimento é o que há de melhor na vida, trazendo alegria, vida e felicidade. Qual seria então o motivo que levou Judas a trair seu divino Mestre? Avareza, amargo desapontamento diante dos anúncios de Jesus sobre sua paixão e morte? Desilusão face à idéia do Messias rei? Por outro lado, será que Judas não queria forçar para que Jesus tomasse medidas que o levassem a estabelecer o Reino messiânico? A iniciativa, porém, é do próprio Judá, que espera o momento propício, o horto das Oliveiras, para beijando entregar Jesus. Já na ceia Jesus se refere a esta traição. Aliás, os laços profundos e quase sacramentais entre a Ceia e a Páscoa tornam-se como que palpáveis, e a ceia do adeus, toda intimidade, penetrada de fervor e de amor eterno, assume assim seu aspecto dramático e carregado. Após este fato, Jesus pede aos discípulos que preparem a ceia da Páscoa. Ele lhes diz: “Ide à cidade, à casa de alguém e dizei-lhe: “O Mestre diz: o meu tempo está próximo. Em tua casa irei celebrar a Páscoa com os meus discípulos”. André de Creta observa: “Ditosos os que pela fé podem receber o Senhor, preparando seu coração como um cenáculo e dispondo com devoção a ceia”. No início da ceia, porém, volta à questão da traição de Judas. Não bastava preparar o recinto exterior.  O grande drama era justamente o fato de Judas não aceitar Cristo como ele era. Muitas vezes também nós somos tentados a utilizar Deus para nossos próprios propósitos. Não é Deus que deve ser mudado, mas nós é que somos mudados por Ele. Jesus leva seus discípulos a se examinarem profundamente à luz da Verdade de Deus e se interrogarem sobre sua fé, esperança e amor, que devem permanecer sólidos em meio às tentações. “Deus, nosso Pai, nós somos fortemente refratários a uma vida virtuosa. Fortalecei nossa fraqueza, perdoando-nos para que possamos enfrentar esta luta espiritual. Ajudai-nos contra nossa própria negligência e covardia”.

 

Mateus, capítulo 26, versículos 14 a 25.

Ontem meditamos a cena da traição de Judas contida no evangelho de João. Hoje contemplamos a mesma cena descrita pelo evangelista Mateus. Jesus está à mesa pela última vez com seus pobres discípulos. Pela última vez Jesus faz mesa comum com os pobres pecadores. Judas caríssimos irmãos, está prestes a desencadear toda a ação. Os evangelistas buscam uma explicação imediata para aquele ato insano de seu antigo colega. Era ávido pelo dinheiro. Judas era ladrão. Mas Jesus não despreza Judas nem no último minuto.

Como um bom judeu e celebrando uma ceia pascal, Jesus lhe dá um gesto preferencial, Ele lhe oferece pessoalmente um pedaço de pão, molhado naquela sopa que costumava acompanhar os pães ázimos. Um último e supremo gesto da parte de Jesus. Como se Ele quisesse dizer a Judas: da minha parte, apesar de tudo, não existe nenhuma animosidade, vai apenas amizade, delicadeza e também respeito. Da minha parte não existe nenhum rancor.

Meus caríssimos irmãos, se Jesus tratou Judas até o último minuto, antes que deixasse aquela sala com tanta deferência, com tanto carinho e ao mesmo tempo com tanto respeito, com que deferência, com que carinho e com que respeito Jesus trata cada um de nós que se sente nesta Semana Santa um pobre pecador?

Talvez não tenhamos chegado ao gesto tresloucado de Judas, mas muitos de nós se sentem acabrunhados pelos seus pecados. Eu me sinto caríssimos irmãos, acabrunhado por meus próprios pecados, mas me consola o gesto supremo e último de Jesus para com Judas. Era a última vez que os dois se viam assim digamos, numa cena familiar. A próxima vez e a última vez em que se verão, será no jardim quando Judas conduzirá a tropa para prender Jesus.

Aqueles últimos olhares de Jesus para com Judas, hoje caríssimos irmãos, se renovam para cada um de nós, a cada um de nós, qualquer que tenha sido o seu passado, quaisquer que tenham sido os seus pecados e a gravidade dos mesmos, pode sentir o olhar de Jesus que “in extremis”, deseja-lhe oferecer as mãos para puxá-lo, para arrancá-lo do abismo e reconduzi-lo para Deus. É isto que Ele fará nestes três últimos dias que nós celebraremos como tríduo pascal de sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Que amor, que gratidão imensa deveria surgir de nossos pobres corações. Ao mesmo tempo, que felicidade, que tranqüilidade sabermos que somos tão amados apesar de tudo o que fizemos por Jesus Cristo, nosso Salvador.

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