Terça-feira Santa

Por Pe. Fernando José Cardoso

João, capítulo 13, alguns versículos saltados.

Ontem a cena evangélica se situava em Bethânia, na periferia de Jerusalém. Hoje nós damos um salto e vamos para dentro da cidade, no ambiente da última ceia que antecedeu a morte de Jesus. Jesus meus caríssimos irmãos, está à mesa. Será a última refeição. Quantas vezes Jesus sentou-se à mesa com os pobres pecadores? Quantas vezes Jesus demonstrou nesse momento a Sua amizade, a misericórdia de Deus? Jesus nunca deixou de aceitar um convite, viesse de quem viesse.

Agora é a última vez. Jesus fala de seu traidor porque conhece os seus intentos e tem as rédeas da situação final em suas próprias mãos. Jesus profetiza veladamente que será entregue por Judas nas mãos dos pecadores. Pedro caríssimos irmãos, se assusta, faz um sinal a João que se encontrava ao lado de Jesus para que Jesus seja mais claro. E quando finalmente Jesus se torna um pouco mais claro, Pedro resolve seguir Jesus.

Mas Pedro resolve dar a vida por Jesus. Darás a vida por mim? E pouco depois de ter predito a traição de Judas, Jesus prediz a cena dolorosa e trágica das negações de Pedro. Em verdade vos digo, o galo não cantará três vezes esta noite, sem que tenha me negado por três vezes.

Pedro caríssimos irmãos, era um pobre discípulo de Jesus, muito parecido com cada um de nós. Pedro era generoso à sua maneira. Pedro queria, vejam só, salvar Jesus. Pedro queria transformar-se no salvador de Jesus. Jesus, no entanto, prediz a Pedro o que lhe acontecerá, pouquíssimas horas depois.

Caríssimos irmãos, é possível que não tenhamos chegado aonde chegou Judas Iscariotes. Mas é possível que muitos de nós nos sintamos muito emparentados com Pedro, porque apesar de generosidade, apesar de certos protestos de fidelidade, apesar de certas promessas depois de muitas confissões, nós continuamos os mesmos, nós não nos modificamos. E quem sabe caríssimos irmãos, quantas vezes com maior lucidez do que Pedro, com maior conhecimento de causa que o pobre Pedro naquela noite, nós tenhamos traído Jesus, sabendo que estávamos traindo Deus, sabendo conscientes de que estávamos vanificando, isto é, tornando inútil para nós, no momento da ação pecaminosa, a Paixão de Jesus em nosso favor.

Meus caríssimos irmãos, estes sentimentos todos não nos devem desesperar, mas devem fazer sim, com que humildes e confiantes, busquemos o perdão Naquele que sabe perdoar as piores ofensas que lhes foram cometidas.

 

Na primeira leitura um servidor misterioso, descrito pelo Profeta Isaías, está desencorajado. “Em vão eu trabalhei, em vão eu gastei todas as minhas forças”. Jesus, no Evangelho, também está, de certa maneira, perturbado e afirma a Seus discípulos, na última ceia, que não se sente a vontade; abre-lhes um coração ferido. Sabe que um dos mais próximos irá traí-lo. No entanto, após a saída de Judas, Jesus retoma o controle da situação! Após o abandono de Judas, Jesus demonstra ser Senhor de tudo aquilo que está para acontecer. “Agora o Filho do Homem será glorificado e Deus será glorificado Nele. Se Deus for Nele glorificado também Deus O glorificará sem demora”. Jesus, atribulado, sofredor, com o coração angustiado, não perde o controle da situação. É dono do Seu próprio destino; Ele mesmo havia dito neste Evangelho: “Eu dou a Minha Vida e a retomo! Ninguém retira a minha Vida, Sou Eu quem a ofereço, e novamente a tomo para Mim”. Tribulações, sofrimentos, angústias e feridas no coração, nós todos carregamos, e sobre este aspecto nós prolongamos a Paixão de Jesus. É consolador para nós, nesta terça-feira da Semana Santa, saber que através dos nossos sentimentos, das nossas penas, da nossa tribulação, qualquer que seja, continuamos os sentimentos de Jesus, prolongamos em nosso corpo, e de certa maneira, Ele sofre conosco, porque tudo o que se passa conosco, se passa com Ele também, porque nos tornamos seus membros através do Batismo. No entanto, se estas coisas todas se deram com Jesus e Jesus manteve a calma, serenidade, a presença de Espírito e, sobretudo a coragem. Ele o fez para que nós não sucumbamos sob o peso das nossas feridas e de tudo aquilo que nos contraria em nossa existência. Examine, contemple melhor, cada um em particular e no silêncio da oração prolongada, um Jesus ferido, angustiado, que permanece Senhor de Si mesmo; não desaba no seu Ser na Sua personalidade. Esta força que Jesus manteve durante a Paixão, hoje na Eucaristia, ou através da leitura meditada deste texto, deseja oferecer a você também. Receba-a com gratidão, porque esta força é sua também, para que você já como Ele nas Suas provações, sabendo que do outro lado você chegará após estas tentações, mais consolidado, mais forte.

 

“Um de vós me entregará”. Tais palavras, justamente pela sua imprecisão, devem ter trazido inquietação a todos os apóstolos. “Ele diz de modo geral, escreve Orígenes, para provar a qualidade de seus corações, para mostrar que os Apóstolos acreditavam mais nas palavras de Jesus, que em sua própria consciência… Os Apóstolos eram ainda fracos e temiam, a justo título, pelo que perguntam, duvidando deles mesmos: “Sou eu, Senhor?” O discípulo, que Jesus amava, pergunta ao divino Mestre, quem o entregaria. A Tradição viu neste discípulo, o próprio João, um dos três Apóstolos escolhidos como testemunhas da ressurreição da filha de Jairo, da Transfiguração e da Agonia de Jesus. “Que este discípulo tenha apoiado sua cabeça no peito do Mestre, reflete São Beda era sinal não só da dileção presente, mas do mistério futuro. Como todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos no coração de Jesus, é justo que repouse em seu peito aquele que será repleto de uma sabedoria e de uma ciência incomparáveis”. “É aquele a quem eu der o pão, que vou umedecer no molho”. É alguém que come à sua mesa, nele irá penetrar Satanás, ou seja, aquele por quem o mal chega, a traição como no caso presente. No entanto, Jesus não maldiz, nem condena Judas. Ele deixa a sorte eterna de Judas e de todos, finalmente, entregues à misericórdia divina, encarnada Naquele que deu sua vida para salvar todos os homens. “E era noite”, observação que adquire um valor simbólico. Trata-se, certamente, do poder das trevas. “O infeliz, exclama São Cirilo de Alexandria, respira a pleno pulmão esta “noite” que é a força dos maus desejos”. “Dai-me, ó Senhor, um coração firme que não seja dominado por pensamentos indignos que prejudicam o próximo; um coração valente que não se dobre diante das tribulações; um coração reto para agir segundo vossa vontade”.

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