Segunda-feira Santa

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São João 12, 1-11
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume. Nessa altura disse um dos discípulos, Judas Iscariotes, aquele que havia de o entregar: «Porque é que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para os dar aos pobres?» Ele, porém, disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava. Então, Jesus disse: «Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura! De fato, os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim não me tendes sempre.» Um grande número de judeus, ao saber que Ele estava ali, vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Os sumos sacerdotes decidiram dar a morte também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, os abandonavam e passavam a crer em Jesus.

O Evangelista João nos faz ouvir um texto sugestivo: “Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia onde morava Lázaro e suas irmãs, Maria e Marta”. Uma das irmãs, Maria exatamente unge os pés de Jesus, Judas que estava presente à cena se indigna: “Para que este desperdício todo, este perfume caro podia ser vendido por trezentas moedas e o dinheiro todo poderia ser distribuído entre os pobres”. Mas este Evangelista acrescenta: “ele dizia isto, não porque tinha interesse ou piedade para com os pobres, ele assim falava porque era ladrão, guardava o dinheiro que se punha na bolsa comum e usava para as suas finalidades”. Diante das atrocidades que esperam Jesus nas próximas horas, esta é uma cena simpática Pela última vez, Jesus neste mundo encontra acolhida e carinho na casa de uma família deste mundo aqui, dentro em breve Ele será tratado como um animal qualquer. Este gesto da irmã de Lázaro pode ser multiplicado de mil maneiras na Igreja. Na verdade existem mil maneiras de se aproximar alguém de Jesus e lhe realizar uma pequena delicadeza, exemplos não faltam.
Passar uma hora diante do Santíssimo em vigília ou adoração, prostrar-se diante de Sua Palavra em atitude de escuta durante um tempo prolongado, ou então dado que Ele se identifica com os pobres sofredores deste mundo e afirmou que tudo o que fizermos aos menores, Ele o recebe como feito a si, podemos nestes dias da Semana Santa, consolá-Lo, através da consolação que podemos oferecer a uma pessoa que dela necessite. E aqui me recordo um pobre, uma pessoa idosa, solitária, de uma pessoa que não tem praticamente mais ninguém neste mundo, me recordo de pessoas que gostariam de desabafar e não encontram com quem. Ou diretamente no silêncio diante do Santíssimo Sacramento, na escuta de Sua Palavra amorosa, ou então servindo também amorosamente na figura de uma pessoa que necessite de nosso auxilio, nós podemos hoje e nos dias próximos, repetir este gesto caridoso que lhe fez a irmã de Marta, seis dias antes da paixão. É verdade, Ele não necessita mais destes cuidados, o Seu corpo é já um corpo ressuscitado, porém Ele afirmou e a sua Palavra continua a nos acompanhar como uma lâmpada que brilha em nosso caminho: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos foi a mim que o fizestes”.
Sirvamos a Jesus, quer direta, quer indiretamente, mas não permitamos a nós mesmos sermos indiferentes a Ele nestes próximos dias.

 

A CASA ENCHEU-SE COM A FRAGRÂNCIA DO PERFUME.
São Jerônimo (347-420), presbítero, tradutor da Bíblia, Doutor da Igreja
Comentário sobre o Evangelho de Marcos; PLS 2, 125s (trad. DDB 1986, p. 96 rev.; cf SC 494, p. 217)

«Encontrando-se Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso, e estando à mesa, chegou uma mulher que trazia um frasco de alabastro com perfume de nardo puro, de elevado preço» (14, 3). Esta mulher diz-vos diretamente respeito, a vós que ides receber o batismo. Ela partiu o frasco de alabastro para que Cristo, o Ungido do Senhor, fizesse de vós cristãos pela unção. É isso que está dito no Cântico dos Cânticos: «O teu nome é como perfume derramado: por isso te amam as donzelas. Leva-me atrás de ti, corramos!» (1, 3-4). Enquanto o perfume estava fechado, enquanto Deus só foi conhecido na Judéia, enquanto o Seu nome não foi grande senão em Israel (Sl 75, 2), as jovens não seguiam Jesus. Mas, a partir do momento em que o perfume se espalhou por todo o mundo, as almas dos crentes seguiram o Salvador. […] Ela partiu o frasco de alabastro, a fim de que todos usufruíssem do perfume […]; um ato que nos recorda o grão de trigo que, «se não morrer, fica só ele» (Jo 12, 24): assim também, se o frasco não for partido, não poderemos ungir-nos com o perfume. Esta mulher não é a mesma que é citada noutro Evangelho, por ter lavado os pés do Senhor (Lc 7, 38). Porque essa mulher, que era até então uma pecadora de má vida […], inunda com as suas lágrimas os pés do Salvador e seca-os com os seus cabelos; mas é só aparentemente que ela lava os pés do Salvador, porque o que realmente faz é lavar os seus pecados. […] Que o mesmo se passe convosco, que ides receber o batismo; dado que somos todos pecadores, que ninguém é puro, mesmo que a sua vida tenha durado um só dia (Job 14, 4) […], começai por abraçar os pés do Salvador, lavai-os com as vossas lágrimas, enxugai-os com os vossos cabelos; depois disso, tocar-Lhe-eis então na cabeça, como fez a mulher do Evangelho de Marcos. Quando descerdes à fonte da vida com o Salvador, tendes de aprender como foi que o perfume chegou à Sua cabeça. Porque, se «a cabeça de todo o homem é Cristo» (1Cor 11, 3), também a vossa cabeça há-de estar perfumada; e será pelo batismo que recebereis esta unção.

 

SEGUNDA-FEIRA SANTA
Jesus, seis dias antes da Páscoa entra na casa de amigos. Marta, Maria e Lázaro. É a última vez que Jesus se sente na própria casa, que se sente circundado de pessoas amigas e que Lhe querem bem. De um lado, percebemos um gesto bastante feminino e bastante significativo da parte de Maria. Ela, desta vez, derrama um bálsamo, um perfume precioso sobre o corpo de Jesus, diz o Evangelista, preparando-o para a sepultura. Ela o fez inconscientemente, ela não sabia que Jesus, dentro em breve seria morto e sepultado. Um gesto que honrou Jesus, e Ele toma a defesa do que Maria fez. Uma nota destoante, neste ambiente, vem de Judas Iscariotes, a respeito de quem falaremos em dias seqüentes. A nota destoante é esta: “para que este desperdício, este perfume poderia ser vendidos por trezentos Denários e o dinheiro poderia ser distribuído aos pobres”. De um lado o desejo de honrar Jesus, de outro, o de desprestigiar Jesus. O Evangelista monotonamente arremata: “Judas disse isso não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão, roubava o que era depositado na bolsa comum”.
Falo a cada um e desejaria falar a cada coração em particular. Você também seis dias antes da Páscoa, não seria capaz de um gesto significativo de amor, estima em amizade para com Jesus. Você seria capaz de prostrar em adoração prolongada à Jesus no Santíssimo. Ou você seria capaz de uma leitura meditada e prolongada da Sagrada Escritura, quem sabe, deste texto? Você seria capaz de honrar Jesus Cristo verdadeiramente num pobre que esteja necessitado de sua presença quer material, quer espiritual? De uma pessoa que esteja necessitada de uma luz, orientação na própria vida. São gestos pequenos, porém significativos, porque hoje, seis dias antes da Páscoa, eu e você queremos honrar Jesus, queremos, cada um a seu modo, repetir o gesto de Maria, e teremos todo o cuidado, em não imitar, nem de perto, o gesto de Judas Iscariotes.

Pouco antes da Páscoa, em Betânia, durante a refeição, uma mulher derrama sobre Jesus perfume precioso, o que é reprovado por um dos discípulos, Judas Iscariotes, e justificado e louvado pelo Senhor. “Marta serve, escreve São Cirilo de Alexandria, Maria derrama a unção: assim, pelas duas, se efetiva o amor total”. Ela “tomou uma libra de um perfume de puro nardo”, que em grego tem a designação de “pistikos”, que é traduzido por “puro” e, supondo que esta palavra vem de “pistos”, estaria dizendo: digno de fé, portanto autêntico. O Evangelista quer, sem dúvida, aproximar “pistikos” de “pistis” = fé, sugerindo que o mais precioso, para Jesus, é a fé ou a fidelidade testemunhada de modo surpreendente pelo gesto de Maria. O venerável Beda escreve que “os fiéis são chamados nardos porque compartilham, por meio da fé, desta unção custosa e pura, que aponta para a filiação messiânica do Senhor”.
De fato, Maria simboliza a própria Igreja, de modo que todos “vós fiéis, comenta São Jerônimo, sois chamados autênticos, porque a Igreja congregada de todas as gentes, oferece seus dons ao Salvador, isto é a fé dos que crêem. Rompeu o vaso de alabastro, para que todos recebam o ungüento”. Ofereçamos o nardo puro, ou seja, “a pureza da fé e da ação perfeita” (São Beda). “A casa foi repleta do odor do perfume” indicando que os fiéis, por seu exemplo e por suas palavras, tornam-se “por toda parte”, o bom odor do Cristo, que eles tornam conhecido e amado. “O que fez esta mulher será anunciado no mundo inteiro”, e este perfume, a fé, encherá todo o universo. “Dai-nos, Senhor, uma fé viva, uma esperança firme, uma caridade fervorosa, um grande amor por vós. Que eu tenha compaixão de todos os que me rodeiam e o que vos pedimos concedei-nos a graça de buscar seriamente”.

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