5º Domingo de Quaresma – Ano B

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São João 12, 20-33

Entre os que tinham subido a Jerusalém à Festa para a adoração, havia alguns gregos. Estes foram ter com Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e pediam-lhe: «Senhor, nós queremos ver Jesus!» Filipe foi dizer isto a André; André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto. Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna. Se alguém me serve, que me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de Eu dizer? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente para esta hora é que Eu vim! Pai, manifesta a tua glória!» Veio, então, uma voz do Céu: «Já a manifestei e voltarei a manifestá-la!» Entre as pessoas presentes, que escutaram, uns diziam que tinha sido um trovão; outros diziam: «Foi um Anjo que lhe falou!» Jesus respondeu: «Esta voz não veio por causa de mim, mas por amor de vós. Agora é o julgamento deste mundo; agora é que o dominador deste mundo vai ser lançado fora. E Eu, quando for erguido da terra, atrairei todos a mim.» Dizia isto dando a entender de que espécie de morte havia de morrer.

Neste quinto e último domingo da quaresma, o Evangelista João nos diz que no final da vida pública de Jesus, uns gregos, oriundos do paganismo, desejavam conhecer Jesus. Foram a Felipe e disseram: “Nós queremos ver Jesus”; Felipe e André o reportaram a Jesus. Este texto deve ser lido e meditado com um olho nos acontecimentos dos anos vinte, outro olho nos anos noventa, quando o Evangelho foi redigido finalmente.
Quando este Evangelho era redigido, era já um fato, a pregação havia deixado os judeus que não se convertiam mais, e se tinha aberto exclusivamente aos pagãos. Entende-se então que aqueles gregos nada mais eram, no quarto Evangelho, do que a antecipação do mundo pagão, que entraria no Reino de Deus, em lugar dos judeus incrédulos, que se fecharam inteiramente para a Revelação plena de Deus em Jesus Cristo.
De lá para cá, são muitos os gregos, e não apenas estes, são muitos os povos que querem ver Jesus.
Neste final de quaresma você também gostaria de ver Jesus? Bem, não como pessoas apenas curiosas, não como pessoas que buscassem um autógrafo de Jesus, ou desejassem uma fotografia ao lado de Jesus. Você deseja contemplar Jesus também? Se este desejo nasce do fundo do seu coração, se ele é sincero, Jesus responde a você como respondeu à aqueles que o queriam ver no final do ministério: “Agora o Filho do Homem será glorificado, se o grão de trigo não cair por terra e não morrer, ele permanece só, se ele morrer, ele dará muito fruto”.
A quem quer ver Jesus, Ele não nega a própria visão, só que se manifestará de uma maneira insólita, que talvez não esperássemos, não se manifestará a nenhum de nós no esplendor da Glória Pascal, não se manifestará a nenhum de nós na sublimidade da Sua Ressurreição, mas se mostrará a nós como Cordeiro de Deus, pregado na cruz pelos nossos pecados. É assim que Jesus quer ser visto por cada um de nós, enquanto caminharmos neste mundo.
A Glória da Ressurreição está preparada no século futuro, para aqueles que nesta vida souberem contemplar Jesus. Se o seu desejo é sincero e honesto, contemple o Crucificado; Jesus não tem nenhuma vergonha de se mostrar a você como crucificado, porque é desta maneira que Ele mostra até onde foi o amor louco que Ele possuía, e possui por você.

 

SE O GRÃO DE TRIGO NÃO MORRE
5º Domingo de Quaresma B

Jeremias 31, 31-34; Hebreus 5, 7-9; João 12, 20-33

“Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só; mas se morre, dá muito fruto”. Não se trata do único ensinamento que Jesus tira da vida dos camponeses. O Evangelho está cheio de parábolas, imagens e idéias que procedem da agricultura, que era em seu tempo (e ainda é para diversos povos) a profissão que ocupa um maior número de pessoas. Ele fala do semeador, do trabalho nos campos, da colheita, do trigo, vinho, azeite, figueira, da vinha… Mas Jesus não se detinha naturalmente no plano agrícola.
A imagem do grão de trigo lhe serve para nos transmitir um ensinamento sublime que põe luz, antes de tudo, em seu caso pessoal, e depois também no de seus discípulos. O grão de trigo é, antes de tudo, o próprio Jesus. Como um grão de trigo, Ele caiu em terra em sua paixão e morte, reapareceu e deu fruto com sua ressurreição.
O “muito fruto” que Ele deu é a Igreja que nasceu de sua morte, seu corpo místico. Potencialmente, o “fruto” é toda a humanidade –não só nós, os batizados–, porque Ele morreu por todos, todos foram redimidos por Ele, também quem ainda não sabe disso. A passagem evangélica conclui com estas significativas palavras de Jesus: “Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos para mim”. Mas a história do pequeno grão de trigo ajuda também, em outro versículo, a entender a nós mesmos e o sentido de nossa existência.
Depois de ter falado de trigo, Jesus acrescenta: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16, 25). Cair em terra e morrer não é, portanto, só o caminho para dar fruto, mas também para “salvar a própria vida”, isto é, para seguir vivendo!
O que ocorre com o grão de trigo que rejeita cair na terra? Vem algum pássaro e o come, ou se seca ou desfalece em um lugar úmido, ou é moído na farinha, comido e aí termina tudo. Em todo caso, o grão, como tal, não continuou. Se ao contrário é semeado, reaparecerá e conhecerá uma nova vida, como nesta estação vemos que sucedeu com os grãos de trigo semeados no ano passado.
No plano humano e espiritual isso significa que se o homem não passa através da transformação que vem pela fé e o batismo, se não aceita a cruz, mas fica agarrado a seu modo natural de ser e a seu egoísmo, tudo acabará com ele, sua vida se encaminha a um esgotamento. Juventude, velhice, morte. Se, ao contrário, crê e aceita a cruz em união com Cristo, então se lhe abre o horizonte de eternidade. Há situações, já nesta vida, sobre as quais a parábola do grão de trigo coloca uma luz tranqüilizadora.
Tu tens um projeto que te importa muitíssimo; por ele trabalhaste, havia-se convertido no principal objetivo na vida, e eis aqui que em pouco tempo o vês como caído na terra e morto. Fracassaste; ou talvez te privaste dele e ele foi confiado a outro que recolhe seus frutos. Lembra-te do grão de trigo e espera.
Nossos melhores projetos e afetos (às vezes o próprio matrimônio dos esposos) devem passar por esta fase de aparente escuridão e de gélido inverno para renascer purificados e cheios de frutos. Se resistem à provação, são como o aço depois que foi submerso em água gelada e saiu “temperado”.
Como sempre, constatamos que o Evangelho não está longe, mas muito perto de nossa vida. Também quando nos fala com a história de um pequeno grão de trigo. Ao final, estes grãos de trigo que caem na terra e morrem seremos nós mesmos, nossos corpos confiados a terra.
Mas a palavra de Jesus assegura-nos que também para nós haverá uma nova primavera. Ressurgiremos da morte, e desta vez para não morrer mais.

 

«SE O GRÃO DE TRIGO MORRER, DÁ MUITO FRUTO»
São Cirilo de Alexandria (380-444), Bispo, Doutor da Igreja
Comentário sobre o Livro dos Números, 2; PG 69, 619 (trad. Delhougne, Les Pères commentent, p. 193)

Cristo, primícias da nova criação […], depois de ter vencido a morte, ressuscitou e sobe para o Pai como oferenda magnífica e esplendorosa, como as primícias do gênero humano, renovado e incorruptível. […] Podemos considerá-Lo o símbolo do feixe das primícias da colheita que o Senhor exigiu a Israel que oferecesse no Templo (Lev 23, 9). O que representa este sinal? Podemos comparar o gênero humano às espigas de um campo, que nascem da terra, ficam à espera de crescer e, depois de amadurecerem, são apanhadas pela morte. Era por isso que Cristo dizia aos Seus discípulos: «Não dizeis vós que, dentro de quatro meses, chegará o tempo da ceifa? Pois bem, Eu digo-vos: erguei os olhos e vede. Os campos estão brancos para a ceifa. O ceifeiro já recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna» (Jo 4, 35-36). Ora, Cristo nasceu entre nós, nasceu da Virgem Santa como as espigas brotam da terra. Aliás, não hesita em dizer de Si próprio que é o grão de trigo: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.» Deste modo, ofereceu-Se por nós ao Pai, à maneira de um feixe e como primícias da terra. Porque a espiga de trigo, como aliás nós próprios, não pode ser considerada isoladamente. Vemo-la num feixe, constituído por numerosas espigas de um mesmo braçado. Cristo Jesus é único, mas aparece-nos como um feixe, e constitui efetivamente uma espécie de braçado, no sentido em que contém em Si todos os crentes, em união espiritual, evidentemente. Se assim não fosse, como poderia São Paulo escrever: «Com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar lá nos céus» (Ef 2, 6)? Com efeito, uma vez que Se fez um de nós, nós formamos com Ele um mesmo corpo (Ef 3, 6). […] Aliás, é Ele quem dirige estas palavras a Seu Pai: «Que todos sejam um como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17, 21). O Senhor constitui, pois, as primícias da humanidade, que está destinada a ser armazenada nos celeiros do céu.

 

A MORTE FOI VENCIDA, ELA NÃO TEM MAIS PODER
Padre José Augusto

Para tudo na nossa vida existe uma hora. O livro do Eclesiástico vai dizer: “1.Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para cada coisa debaixo do céu: 2.tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; 3.tempo de matar e tempo de curar; tempo de destruir e tempo de construir; 4.tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar” Há hora para tudo. Em São Mateus, quando José estava naquela grande dúvida de acolher ou não Maria, o anjo diz para ele o seguinte: “José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21). Jesus veio por causa disso: para nos salvar, nos libertar do pecado, para derrotar o demônio e vencer a morte. Jesus tinha consciência do que iria acontecer com Ele. No Evangelho de hoje tem algo que muitas vezes não percebermos: a angústia de Jesus. Quando Ele está no Monte das Oliveiras e está lá suando, sofrendo. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (Jo 12, 24). Se Jesus não passasse pela morte, nós não teríamos vida. Jesus venceu a morte e deu-nos vida. Daqui a uma semana, celebraremos a nossa salvação. Esse mistério ninguém entende. Uma vez que você entrou no caminho e conheceu Jesus, quando o desânimo vier, prossiga! O nosso objetivo final é a vida eterna. “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 25). Façam do domingo o dia do Senhor. Não se apeguem às coisas desse mundo. Quem se apega a esse mundo vai morrer, pois tudo passa. Deus não pode passar na sua vida. Ele precisa ser o primeiro sempre. Pais, dêem Deus para seus filhos. Eles não podem ser materialistas. Tudo é passageiro, mas nosso Senhor não pode passar. Chegou a hora de Jesus, para que a nossa hora chegue. Ele venceu a morte. Ele nos deu a vida eterna para que a tenhamos. Jesus teve medo, passou angústia, mas persistiu. Somos livres em Jesus Cristo porque Ele nos salvou.

 

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“A mim, ó Deus, fazei justiça, defendei a minha causa contra a gente sem piedade; do homem perverso e traidor; libertai-me, porque sois, ó Deus, o meu socorro.” (Sl 42, 1-2)

Meus Irmãos e Minhas Irmãs,

Chegamos ao fim de mais um retiro anual neste abençoado e favorável tempo de conversão e de reflexão. Todos somos convidados, neste derradeiro domingo da Quaresma, a refletir e entender a aprendizagem divina: a hora de Jesus.

“Dias virão” é uma expressão que, no Antigo Testamento, muitas vezes, soa como uma ameaça. Hoje, entretanto, ouvimos uma promessa das mais carinhosas: uma nova Aliança, conforme nos ensina a primeira leitura retirada do Livro de Jeremias (Jr 31,31-34). A antiga aliança tinha sido rompida demasiadas vezes. Deus recorre ao último recurso: uma nova aliança. Aliança que será diferente da anterior. A Lei não mais estará escrita em tábuas ou em rolos, mas no coração de cada um dos viventes. Não mais precisarão de mestre, pois todos conhecerão a Deus, que os toma para si, esquecendo seus pecados.

No tempo de Josias, por volta de 620 aC, revive a fé em Judá. Mas a Aliança foi tantas vezes rompidas pelo povo, que só Deus a pode renovar ainda, por seu amor que perdoa e restaura. Por parte do homem, pressupõe a virada do coração, a conversão. Então a nova Aliança superará a antiga.

Irmãos e Irmãs,

A segunda leitura (Hb 5,7-9) nos fala que Cristo morreu por nós e se tornou princípio de salvação. Em Cristo, a nova e eterna aliança é concluída. Por isso, estamos chegando perto da hora decisiva para Jesus. Sendo o Filho de Deus, Jesus, é o perfeito pontífice, mediador. Mas é, também, o perfeito discípulo de Deus, que aprende a obediência pelo sofrimento: na obediência descobriu a lógica do plano de Deus, a doação até o fim. No seu clamor de oprimido, encontrou ouvido junto a Deus: a força para assumir sua cruz e morrer em prol dos pecados de todos. Este foi o caminho de sua glória e de nossa salvação e reconciliação com o Pai.

O capítulo 12 do Evangelho de São João é denso e tenso(cf. Jo 12,20-33). Jesus subiu a Jerusalém para a festa dos judeus, para a Páscoa judaica. Pernoitando em Betânia, a poucos quilômetros de Jerusalém, na casa de Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos, Maria, num gesto profético, ungiu-lhes os pés com perfume precioso e enxugou-os com os cabelos. Ao gesto de Maria, acontecido na privacidade, respondeu a multidão pelas ruas de Jerusalém, levando ramos de oliveira e gritando hosanas àquele que vem em nome do Senhor.

Todos, homens e mulheres, jovens e crianças, judeus e pagãos, cidadãos e plebeus, discípulos e inimigos, encontram-se no teatro da salvação. Jesus demonstra perfeitamente que tem consciência que irá morrer e qual será o tipo de morte que para Ele está reservada. Jesus anuncia que é chegada a hora de sua paixão. Preocupa-se com ela. Expressa o desejo de ver os Apóstolos com ele no cumprimento da vontade do Pai. Gostaria que todos o acompanhassem nessa hora. O próprio Evangelista coloca a Cruz como caminho de glorificação. Há uma perfeita sintonia entre a vontade de Jesus e a vontade do Pai.

Meus irmãos,

É chegada a hora decisiva. Quando Jesus começou a vida pública, fazendo o milagre de Caná, falou de uma hora em que ainda não havia chegado. Hoje Ele afirma que chegou a hora. A palavra hora, em João, significa o momento da paixão, morte e ressurreição, o cumprimento pleno da vontade do Pai. A hora de Jesus inclui a cruz e a ressurreição, pelas quais se ofereceu ao mundo a salvação. E essa hora aparece no Evangelho hodierno sob várias figuras ou expressões afirmativas. Por isso, o grão que vai nascer e frutificar, o perder a vida para conservar a vida eterna, a glorificação, a exaltação, a voz do céu, a morte, o julgamento, tudo isso são demonstrações que é chegado o momento da paixão de Jesus.

É necessário, pois, que o fiel fite com os olhos da fé, porque na primeira vez em que Jesus, em sua vida pública, subiu a Jerusalém, recebeu a visita de Nicodemos. O velho mestre representava, de certa forma, todos os judeus a quem anunciava em primeiro lugar, a nova doutrina e as condições exigidas para recebê-la. Agora, é um grupo de gregos pagãos que o foram ver.

Jesus anuncia que é chegada a hora de sua glorificação na morte. Os gregos queriam vê-lo. Ver, no Evangelho de São João, está na linha do crer. Não basta vê-lo, contudo, com os olhos do corpo, mas devemos ver com os olhos da fé. Por isso é necessário entrar no destino de Cristo.

Jesus fala por parábolas. Compara-se a um grão de trigo que morre para poder dar fruto. Vê-lo, portanto, é compreender, o quanto for possível, esse caminho de morte e vida, de humilhação e glória. Vê-lo, de fato, quem também é capaz de ser grão de trigo e fazer morrer seu egoísmo e seus interesses, para que repontem frutos de salvação.

Irmãos e Irmãs,

O discípulo verdadeiro, segundo Jesus, não deve ter medo e fugir do caminho do sofrimento. Devemos ter cuidado com o verbo “odiar”, que ocorre no versículo 25 do Evangelho. Jesus não manda ter ódio, como entendemos a palavra hoje. Aqui ela está em contrabalanço com amar. Dois extremos para dizer que o discípulo deve viver inteiramente desapegado. São inúmeras as vezes em que o Mestre coloca essa exigência e a põe de muitos modos. O discípulo não deve fugir da morte, se ela for necessária, pela edificação do Reino de Deus. Tudo no mundo é relativo, tendo em vista que o essencial é a vontade salvadora do Pai, que mandando seu Filho ao nosso meio era necessário que Ele morresse para a nossa salvação.

O sim de Jesus à vontade do Pai é dolorosamente difícil. Compreende-se que, nesse momento de intensa luta interior e de decisão, Ele pede aos Apóstolos que não o abandonem e promete aos que estiverem com ele até o fim – passando pela cruz e chegando à glória – que o Pai do Céu os receberá com honras. Ele ainda fala do servo, porque a gratuidade aqui na salvação é fundamental. Gratuitamente, o Redentor morre na cruz para a salvação do mundo. Por isso, gratuitamente deve acompanhá-Lo e com ele sofrer e morrer o servo.

A morte cruenta na cruz é a única forma de servir, porque há muitas formas de cruz e muitas maneiras de dar a vida por Cristo. Servir, viver a vida prática em coerência com esse serviço, repartir com os irmãos o que tem e o que é, anunciar de todas as formas a seu alcance a pessoa e os ensinamentos de Jesus, esse comportamento significa um contínuo morrer para os próprios interesses, significa repetir na prática a conformidade expressada no Horto das Oliveiras: “Não se faça a minha vontade, e sim a vossa”.

Meus irmãos,

A pergunta que hoje nos interpela é: “Queremos ver Jesus?” Cristo é verdadeiramente Deus, professado pelo Concílio de Nicéia no ano de 325 e pelo Concílio de Éfeso em 431. Queremos contemplar e ver a beleza infinita e a riqueza da plenitude da vida, do amor, da ternura, da piedade daquele que se revela na Sagrada Escritura como Deus vivo. Jesus é o Deus conosco, um Deus no contexto da história humana; nele está a fonte infinita do amor, da paz, da alegria, da confiança. Se Jesus é Deus, descobrimos até que ponto Deus nos amou.

Diante de Jesus morto na cruz só há silêncio: Jesus me amou até morrer por mim. Cada um se encontra sozinho diante do mistério de Deus: “Deus morreu e nós o traspassamos. Nós o matamos encerrando-o no invólucro deteriorado das idéias rotineiras, exilando-o em formas de piedade pela ambigüidade da nossa vida que lançou um véu obscuro sobre ele”(Joseph Ratzinger). A fé cristã recebe da cruz de Jesus a sua forma característica: dizer sim à aventura de perder a própria vida, dizer sim a um amor autêntico.

A síntese da mensagem da Liturgia de hoje é a seguinte, na conclusão dos exercícios quaresmais: ao aproximar-se da Semana Santa, todos somos convidados a descobrir a arma com a qual Jesus venceu o seu adversário e o pecado: a obediência ao amor, obediência ao amor até o fim.

Temos o incessante desejo de ver a Jesus e só poderemos fazê-lo quando o vermos no irmão e na irmã, especialmente, nas vítimas da violência, que corrompe toda a obra da justiça, que é a paz. Amém.

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