4º Domingo de Quaresma – Ano B

Por Pe. Inácio José Schuster

DEUS AMOU TANTO O MUNDO!
2 Crônicas 36, 14-16. 19-23; Efésios 2, 4-10; João 3, 14-21

No Evangelho deste domingo, encontramos uma das frases absolutamente mais belas e consoladoras da Bíblia: «Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho único, para que todo aquele que nele creia não pereça, mas tenha vida eterna». Para falar-nos de seu amor, Deus serviu-se das experiências de amor que o homem tem no âmbito natural. Dante diz que em Deus existe, como atado em um único volume, «o que no mundo se desencaderna».
Todos os amores humanos –conjugal, paterno, materno, de amizade– são páginas de um caderno, ou fagulhas de um incêndio, que tem em Deus sua fonte e plenitude. Antes de tudo, Deus, na Bíblia, fala-nos de seu amor por meio da imagem do amor paterno. O amor paterno está feito de estímulo, de impulso. O pai quer fazer crescer o filho, impulsionando-o a que dê o melhor de si. Por isso, dificilmente um pai louvará o filho incondicionalmente em sua presença. Teme que não se esforce mais.
Uma marca do amor paterno é também a correção. Mas um verdadeiro pai é desta forma aquele que dá liberdade, segurança ao filho, que o faz sentir-se protegido na vida. Eis aqui por que Deus se apresenta ao homem, ao longo de toda a revelação, como sua «rocha e baluarte», «fortaleza sempre perto nas angústias».
Outras vezes, Deus fala-nos com a imagem do amor materno. «Acaso uma mulher esquece seu filho, sem compadecer-se do filho de suas entranhas? Pois ainda que essas chegassem a esquecer, eu não te esqueço» (Is 49, 15). O amor da mãe está feito de acolhida, de compaixão e de ternura; é um amor «entranhável». As mães são sempre um pouco cúmplices dos filhos e com freqüência devem defendê-los e interceder por eles perante o pai. Fala-se sempre do poder de Deus e de sua força; mas a Bíblia fala-nos também de uma fraqueza de Deus, de uma impotência sua. É a «fraqueza» materna.
O homem conhece por experiência outro tipo de amor, o amor esponsal, do qual se diz que é «forte como a morte» e cujas chamas «são flechas de fogo» (Ct 8, 6). E também a este tipo de amor recorreu Deus para convencer-nos de seu apaixonado amor por nós. Todos os termos típicos do amor entre homem e mulher, inclusive o termo «sedução», são empregados na Bíblia para descrever o amor de Deus pelo homem. Jesus levou a cumprimento todas estas formas de amor, paterno, materno, esponsal (quantas vezes se comparou a um esposo!); mas lhes acrescentou outra: o amor de amizade. Dizia a seus discípulos: «Já não vos chamo de servos… chamo-vos de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dou a conhecer» (João 15, 15).
O que é a amizade? A amizade pode constituir um vínculo mais forte que o parentesco mesmo. O parentesco consiste em ter o mesmo sangue; a amizade em ter os mesmos gostos, ideais, interesses. Nasce da confidência, isto é, do fato de que confio a outro o mais íntimo e pessoal de meus pensamentos e experiências. Agora: Jesus explica que nos chama amigos porque tudo o que ele sabia de seu Pai celestial nos deu a conhecer, confiou-nos. Fez-nos partícipes dos segredos da família da Trindade! Por exemplo, do fato de que Deus prefere os pequenos e os pobres, de que nos ama como um pai, de que nos tem preparado um lugar. Jesus dá à palavra «amigos» seu sentido mais pleno.
Que devemos fazer depois de ter recordado este amor? Algo simplíssimo: crer no amor de Deus, acolhê-lo; repetir comovidos, com São João: «Nós cremos no amor que Deus tem por nós!» (I João 4, 16).

 

Por Pe. Fernando José Cardoso

Na tradição litúrgica da Igreja, este DOMINGO foi sempre conhecido pelo nome “LAETARE” (Alegrai-vos). A preparação da celebração e a sua própria realização devem ter em conta o que diz a Oração Coleta: “Deus de misericórdia… concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais”. Os ornamentos de flores poderão aparecer, mas muito discretos, como sinal deste momento de alegria que se situa a meio do caminho da Páscoa.
Seguindo a sequência das etapas mais importantes da história da salvação, na 1ª Leitura iremos ouvir a crônica do exílio (Segundo Livro das Crônicas). Para o cronista, a história do povo judeu é um hino à fidelidade de Deus e à sua paciência que tudo fez para manter e renovar a fidelidade dos homens. No centro de toda esta narração, encontramos o templo, destruído em primeiro lugar, e depois a convocatória para a sua reconstrução.
O salmo 136 canta não só o passado marcado pelo pecado (“se eu me não lembrar de ti, Jerusalém”), mas também o futuro que poderá ser melhor, através da graça do perdão. São Paulo convida-nos a alegria, porque a ressurreição de Jesus é a nossa ressurreição por obra e graça do amor de Deus. Estando mortos por causa dos nossos pecados, Deus deu-nos a vida. “É pela graça que fostes salvos, por meio da fé”. Sendo assim, não podemos ficar indiferentes. Temos que corresponder com boas obras ao amor imenso de Deus, manifestado em Jesus Cristo.
O melhor itinerário quaresmal é ter os olhos fixos na morte e ressurreição de Cristo, realizando ao mesmo tempo uma conversão. Nas trevas da noite pessoal de Nicodemos, Jesus vem ao seu encontro e entra em diálogo com ele. Toda a caminhada de fé se orienta para o mistério pascal. Hoje, a partir da imagem da serpente elevada no deserto para ser salvação, este mistério apresenta-se através de uma linguagem de exaltação. O Filho do Homem será elevado pelos homens na cruz; Deus O exaltará na sua glorificação. A cruz e a glória encontram-se. A cruz torna-se luz e ilumina todos os homens e as suas obras.
A partir da cruz, o Filho do Homem torna-se visível a todos os homens que o queiram “ver”, que desejem vê-lo face a face para n’Ele descobrir toda a radicalidade da humanidade que é a mesma que Deus assumiu ao enviar o seu único Filho ao mundo para redimi-lo. Por isso, a cruz é o caminho da fé e, com ela, da verdadeira salvação, para que todos os que acreditam tenham a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Não podemos esquecer isto, porque, hoje, Deus envia a sua Igreja (todos nós) ao mundo para que continue a ser instrumento de salvação. Deus ama este mundo e nós devemos imitar o nosso Pai. Este amor divino é manifestado a todos nós na Eucaristia. Novamente, Deus é “elevado” e apresentado a todos, para que a nossa fé cresça e ansiemos pela salvação que nos vem da Páscoa do Senhor. “Nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir” (2ª Leitura). Que Cristo continue a modelar a nossa vida.

 

A LUZ DA VERDADE ILUMINA NAS TREVAS
Evangelho do IV Domingo da Quaresma
Por Padre Angelo del Favero

Jo 3,14-21
“Então Jesus disse a Nicodemos: ‘Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha nele vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já está julgado; porque não creu no Nome do filho único de Deus. Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus’.

Neste IV domingo da Quaresma (“laetare”), a Palavra divina bate em nosso coração trazendo a alegria de um grande anúncio: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16); e é justamente o Filho unigênito que o revela “de noite” para Nicodemos, figura de cada homem, pesquisador (por natureza) da Verdade (Jo 3,1). Conversando com ele, Jesus declara: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3,3); e o “mestre em Israel” ingenuamente pergunta como pode um homem voltar para útero materno. A resposta é um caminho da mente que começa há muito tempo: “Pois Deus amou o mundo ..”. Com este “pois”, Jesus traça um paralelo entre o fato narrado no livro dos Números e o seu destino: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho Homem, a fim de que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna”(Jo 3,14).
Lembro-me aqui do episódio: no tempo do êxodo dos israelitas no deserto, muitos deles morreram por causa da picada de serpentes venenosas enviadas por Deus para punir a desconfiança do povo. Só se salvaram aqueles que conseguiram olhar para uma serpente de bronze colocada em um poste por Moisés, sob as instruções do próprio Deus (Nm 21, 4b-9). A partir da figura deste evento bíblico, Jesus revela a Nicodemos a necessidade salvífica (“necessita”) que Ele mesmo seja levantado no madeira da cruz, em uma espécie de identificação vicária e reparadora com a serpente – pecado: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus “(2 Cor 5,21). Essa nossa “justificação” consiste em uma espécie de “gravidez” da natureza humana na morte de Cristo, graças à qual cada um de nós foi regenerado Nele para a vida nova do Espírito Santo. Nenhum homem da história humana foi excluído deste renascimento “do alto”, mas só a vida daqueles que não querem fazer o mal pode ser efetivamente regenerada.
De fato, Jesus diz a Nicodemos: “quem faz o mal odeia a luz e não vem para luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus”(Jo 3,20-21). Estas palavras do Senhor lançam um raio de luz divina na questão aparecida no dia 23 de Fevereiro de 2012 no Journal of Medical Ethics, título de um artigo de medicina moral. Ela foi colocada por dois estudiosos italianos que operam na Austrália, e já percorreu o mundo, não só científico. A questão (perversamente retórica) é esta: “O aborto depois do nascimento: por que a criança deveria viver?”.
A tese dos dois “pesquisadores” é expressa com palavras que comparam a vida da criança antes e depois do nascimento, aspecto que pode trazer o mal-entendido “gestacional” de Nicodemos. E eis aqui as suas declarações absurdas: “quando depois do nascimento se verificam as mesmas circunstâncias que justificam o aborto antes do nascimento, deveria ser permitido o que nós chamamos de aborto pós-natal” (do Zenit italiano, 13/03/2012: “O aborto após o nascimento? “). Porém, eis, ao contrário, a pergunta sincera de Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Por acaso pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer? “(Jo 3,4).
Do artigo em questão, eu só li as citações publicadas pela agência Zenit, que entre outras coisas, informa que “numa carta aberta, os autores do artigo se declararam maravilhados pela reação hostil, dizendo que “devia ser um mero exercício de lógica”” (Zenit, italiano, 12/03/2012: “O aborto eo infanticídio”). Apesar das minhas limitações, acho que posso comentar o conjunto com o juízo que Jesus faz hoje: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,19-21).
Em outras palavras, baseando-se somente na lógica “pura” (e não na razão iluminada pela luz da Verdade), é arriscado acabar no abismo moral do qual os autores escrevem: substituir o valor da vida com a qualidade da vida significa simplesmente não reconhecer a dignidade do homem. E a sua dignidade, fonte de grande alegria, é esta: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

 

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA – Ano B
“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Is 66, 10s).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

Meus irmãos,
Estamos vivendo um momento de aproximação do teatro da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o domingo LAETERE, ou seja, o domingo em que os paramentos podem ser róseos. Por isso, todos nós somos convidados a restaurar nossas vidas em Cristo Senhor.
Na Quaresma, a liturgia relaciona a caminhada de Israel com a revelação em Cristo e a nossa salvação pela fé, professada no Batismo. Por isso, pela recepção do Batismo o fiel é convidado a formar uma comunidade de luz e de misericórdia.
A primeira leitura – 2Cr 36,14-16.19-23) Deus encarregou Ciro de reconstruir o Templo. O final de 2Cr esboça uma teologia da história de Israel – que findou, pelo Exílio, em 587 aC. O Cronista pensa como Jeremias e Ezequiel: Deus advertiu bastante, pela boca dos profetas, mas Israel não obedeceu e os reis quiseram fazer a sua própria vontade: por isso veio o Juízo: a destruição de Jerusalém e o exílio de sua elite. Mas a última palavra de Deus é de misericórdia: como ele fez destruir, assim, também faz reconstruir. Para isso, usa-se do vencedor dos babilônios: Ciro, o persa. Deus castiga mas não para destruir, mas para renovar o homem.

Caros fiéis,
O trecho que relaciona o episódio referente a Israel, narrado neste domingo, à primeira vista não parece ilustrar o Evangelho. Contudo, é bom que se observe que a liturgia de hoje apareça atravessada de um fio homogêneo: a passagem da morte à vida, das trevas à luz, do pecado à reconciliação, do pecado à graça santificante. Israel estava morto, a terra e a cidade estavam destruídos. E, pior do que tudo isso, o povo hebreu estava exilado. Mas, Deus fez o povo hebreu reviver, levando-o de volta. E isso, sem mérito da parte daquele Povo, mas pelo intermédio de um pagão, o rei Ciro, conforme relata a primeira leitura, que se apresenta a si mesmo como encarregado de Javé para realizar esta obra.
Na mesma linha de entendimento, a segunda leitura fala de nossa revivificação com Cristo, numa terminologia eminentemente batismal. Acentua fortemente a gratuidade desse agir de Nosso Deus. Não foi por nossos méritos, mas porque Deus assim o quis, em sua grande e insondável misericórdia. O que não quer dizer que não precisamos fazer nada. Não somos salvos pelas obras, mas para as obras, para as obras boas que Deus nos preparou em sua eterna providência.  A Carta aos Efésios(Ef 2,4-10) apresenta Deus que restaurou a nossa vida em Cristo. Todos os homens afastaram-se de Deus e estão mais perto da morte do que da vida. A isso responde o texto deste domingo: Deus nos corressuscitou em Cristo e nos deu um lugar na sua vida. Morto mesmo é quem está entregue ao seu egoísmo; para reviver, precisa de amor que seja maior do que o seu fechamento à riqueza da graça, que Deus nos demonstra em Jesus Cristo. Esta maravilha do amor deve manifestar-se, também, na vida dos que assim são renovados: devem realizar a caridade que Deus desde sempre sonhou para eles.

Irmãos e Irmãs,
Da morte de Jesus nasce a vida. Por isso, celebramos este domingo que é chamado de Domingo da Alegria, conforme canta a antífona da entrada: “Alegra-te, Jerusalém! Exultai e alegrai-vos, vós todos que estáveis tristes!”. É o domingo do amor de Deus, do amor narrado – primeira leitura retirada do Livro das Crônicas -; do amor anunciado – segunda leitura; e do amor plenamente revelado na pessoa de Jesus Cristo – Evangelho. Um amor surpreendente e único de Jesus que assume a condição humana, inclusive a morte. Da morte de Jesus, porém, nasce a vida, a vida eterna. Da maldição da cruz brota a graça salvadora para as criaturas.
Nicodemos era fariseu, magistrado e membro do Sinédrio. Foi um dos poucos da classe dominante a reconhecer que na pessoa de Jesus havia alguma coisa a mais que profeta. Mas se manteve sempre com discrição, tanto que foi procurar Jesus pela noite, ou seja, às escondidas. Foi Nicodemos quem teve a oportunidade para defender Jesus, estando presente e agindo com desenvoltura no sepultamento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Caríssimos irmãos,
Deus amou o mundo, assim anuncia o Evangelista João(cf. Jo 3,14-21). Mundo significa o universo e as criaturas criadas. Mundo pode significar a humanidade invadida pelo mal, que não quer receber a doutrina salvadora de Jesus, que se opõe ao Reino de Deus, especialmente nos grandes momentos da paixão, morte e ressurreição. Por isso, Jesus anunciou: “Coragem, eu venci o mundo!” (Jo 16,33).
É, pois, necessário fazer uma transposição de mundo para o sentido da liturgia de hoje: “Deus amou o mundo” (Jo 3, 16a). Esse amor de Deus mistura dois sentidos: o  de enviar o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. O mundo é englobado por tudo: pecadores, ovelhas desgarradas, corações transviados, os Zaqueus, os Dimas, as Madalenas, os Judas. A condição para todos é a mesma: crer que no nome do Filho único de Deus.
Crer é ter a experiência de Cristo, como temos do alimento, da alegria, das cores. Crer implica entrar em contacto com o Mistério da Salvação. É preciso estar em comum união com Cristo, o que implica falar, agir, viver, conviver com o mistério da Cruz, que é escândalo para uns, loucura para outros, e poder e sabedoria de Deus para os cristãos verdadeiros, porque enquanto o mundo gira a Cruz permanece de pé.
A cruz não é um incidente de percurso. A cruz está prevista e querida por Deus, ainda que espante o modo de pensar humano. Aqui reside a novidade da liturgia de hoje: na Páscoa podemos vestir as vestes da luz, da salvação, da comunhão com Deus, sob a condição de ser levantado com o Cristo na cruz.
A salvação que vem da Cruz é certa. Cristo não mente. Não será por acaso que, no momento em que se fala da salvação que vem da Cruz, menciona-se a palavra “verdade” e a palavra “luz”. Quem age conforme a verdade, se aproxima da luz. João aproxima no seu Evangelho a verdade da luz. Luz, com um sentido maior que claridade, significa presença de Deus e o estado em que se encontram os que foram redimidos por Jesus. São Paulo diz que os cristãos são filhos da luz, isto é, vivem envolvidos por Deus.
Jesus se identificou com a verdade e é um único caminho da verdade e da vida. Agir conforme a verdade significa pautar o pensamento, o sentimento e a ação no modo de agir, sentir e pensar de Jesus. Como São Francisco, que fez da verdade um critério básico do seguimento de Cristo, iluminando sua vida e seu agir, podemos seguir o que nos ensinou Pio XI a respeito do pobre frade de Assis: “um quase Cristo redivivo”.

Meus irmãos,
Como batizados, podemos nos perguntar: participamos da comunidade? Nossa comunidade reflete a luz de Cristo? Nosso mundo é um pouco melhor porque nossa comunidade existe?
No momento em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos propõe um tema específico para meditação durante a Quaresma, por meio da Campanha da Fraternidade, busquemos nos identificar com tão salutar proposta e posicionemo-nos em defesa da dignidade humana, contra todas as formas de violência, construindo um mundo de paz. Isso porque cremos em Cristo e crer nEle significa segui-Lo. Crer em Cristo significa amá-Lo. Crer em Cristo significa viver nEle e por Ele em Deus.
Aproximamo-nos da grande Festa da Páscoa. Por isso, somos chamados à alegria de uma estreita preparação para esta festa da misericórdia, da redenção, do amor. Não há lugar para a tristeza onde o amor está vencendo. A certeza do amor de Deus nos enche de consolação e nos afasta de qualquer atitude de desesperança e de tristeza.
Apesar de nossas contínuas infidelidades, Deus, misericordioso e sempre fiel à sua aliança, incansavelmente nos chama à obediência filial e à reconciliação. Que Deus nos ajude e nos ilumine a perceber os sinais de amor presente na vida quotidiana, porque da morte gloriosa de Cristo nasceu a vida plena.

Caríssimos irmãos,
Nesta ocasião especial de uma experiência mística especial, em que a liturgia nos propõe a meditação da misericórdia de Deus que sempre se nos derrama como bálsamo em nossas chagas, abertas pelo pecado, as rosas deste domingo, no prenúncio da primavera (lembrando que estamos às vésperas da estação das flores nos trópicos), nos antecipa, por meio da Santa Igreja e, mais ainda, da participação à Sagrada Eucaristia, o gozo eterno que desfrutaremos no céu.
Na Antigüidade cristã, este Domingo era chamado Dia das Rosas, pois os cristãos se presenteavam mutuamente com as primeiras rosas da primavera. No século X, entrou na liturgia deste dia a singular Bênção da Rosa, sendo que em Roma a rosa passou a ser de ouro. O Papa ia à Basílica estacional de Santa Cruz de Jerusalém, levando na mão uma rosa de ouro que significava a alegria pela proximidade da Páscoa e, regressando, presenteava com ela o prefeito de Roma.
Dessa solenidade derivou o costume, ainda hoje em vigor, do Soberano Pontífice benzer neste dia uma rosa de ouro e a oferecer a uma pessoa, a uma igreja ou a uma instituição, em sinal de particular atenção. No Brasil há três rosas de ouro: uma que foi ofertada à Princesa Isabel, em 1888, pelo papa Leão XIII, pela abolição da escravatura; uma outra oferecidas à Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em 1966, pelo papa Paulo VI, devido à monumentalidade de sua edificação; e o papa Bento XVI, em visita àquele Santuário Nacional, em 2007, ofereceu a simbólica rosa de ouro à Senhora Aparecida.
Neste dia, a Santa Igreja faz como que uma pausa na penitência quaresmal e demonstra alegria pelo toque do órgão, pelos ornamentos dos altares e pela cor rósea dos paramentos. Toda a missa respira alegria e júbilo pela grande festa que se aproxima.
Vivendo esse momento especial da liturgia, procederemos, após o Ofertório da Missa, a bênção das rosas. Na oração. Pediremos a Deus a graça de, ao experimentar a fragrância de tão belas rosas, sejamos reconciliados “no odor dos vossos ungüentos e, cheios de alegria e exaltando de fé, corramos ao encontro das festas que se aproximam”, a alegria pascal. Amém.

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