2º Domingo da Quaresma – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Gênesis 22, 1-2. 9a. 10-13. 15-18; Romanos 8, 31b-34; Marcos 9, 2-10
ESCUTAI-O!

«Este é meu Filho amado, escutai-o». Com estas palavras, Deus Pai dava Jesus Cristo à humanidade como seu único e definitivo Mestre, superior às Leis e aos profetas. Onde fala Jesus hoje, para que possamos escutá-lo? Fala-nos antes de tudo por meio de nossa consciência. Ela é uma espécie de «repetidor», instalado dentro de nós, da própria voz de Deus. Mas por si só ela não basta. É fácil fazê-lo dizer o que nós gostamos de escutar. Por isso, necessita ser iluminada e sustentada pelo Evangelho e pelo ensinamento da Igreja. O Evangelho é o lugar por excelência no qual Jesus fala-nos hoje. Mas sabemos por experiência que também as palavras do Evangelho podem ser interpretadas de maneiras distintas. Quem nos assegura uma interpretação autêntica é a Igreja, instituída por Cristo precisamente com tal fim: «Quem a vós escuta, a mim escuta» [Lc 10, 16. Ndt]. Por isso, é importante que busquemos conhecer a doutrina da Igreja, conhecê-la em primeira mão, como ela mesmo a entende e a propõe, não na interpretação –freqüentemente distorcida e redutiva– dos meios de comunicação. Quase igualmente importante como saber onde fala Jesus hoje é saber onde não fala. Ele não fala certamente através de magos, adivinhos, astrólogos, pretensas mensagens extraterrestres; não fala nas sessões de espiritismo, no ocultismo. Na Escritura, lemos esta advertência a respeito: «Não haja entre ti ninguém que faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, que pratique adivinhação, astrologia, feitiçaria ou magia, nenhum encantador nem consultor de fantasmas ou adivinhos, nem invocador de mortos. Porque todo aquele que faz estas coisas é uma abominação para Yahweh teu Deus» (Dt 18, 10-12). Estes eram os modos típicos dos pagãos de referir-se ao divino, que buscavam a sorte consultando os astros, ou vísceras de animais, ou no vôo dos pássaros. Com essa palavra de Deus: «Escutai-o!», tudo aquilo acabou. Há um só mediador entre Deus e os homens; não estamos obrigados a ir «às cegas», para conhecer a vontade divina, a consultar isto ou aquilo. Em Cristo temos toda resposta. Lamentavelmente, hoje aqueles ritos pagãos voltam a estar na moda. Como sempre, quando diminui a verdadeira fé, aumenta a superstição. Tomemos a coisa mais inócua de todas, o horóscopo. Pode-se dizer que não existe jornal ou emissora de rádio que não ofereça diariamente a seus leitores ou ouvintes o horóscopo. Para as pessoas maduras, dotadas de um mínimo de capacidade critica ou de ironia, isso não é mais que uma inócua brincadeira recíproca, uma espécie de jogo e de passa-tempo. Mas, enquanto isso, olhemos os efeitos ao largo. Que mentalidade se forma, especialmente nos jovens e nos adolescentes? Aquela segundo a qual o êxito na vida não depende do esforço, da aplicação no estudo e constância no trabalho, mas de fatores externos, imponderáveis; de conseguir dirigir em proveito próprio certos poderes, próprios ou alheios. Pior ainda: tudo isso induz a pensar que, no bem ou no mal, a responsabilidade não é nossa, mas das «estrelas», como pensava Ferrante, de lembrança manzoniana [em referência ao romance «Os noivos» de Alessandro Manzoni (1785-1873) Ndt] Devo aludir a outro âmbito no qual Jesus não fala e onde, contudo, se lhe faz falar todo o tempo. É o das revelações privadas, mensagens celestiais, aparições e vozes de natureza variada. Não digo que Cristo ou a Virgem não possam falar também através destes meios. Fizeram-no no passado e podem fazer, evidentemente, também hoje. Só que antes de dar por certo que se trata de Jesus ou da Virgem, e não da fantasia enferma de alguém, ou pior, de farsantes que especulam com a boa fé das pessoas, é necessário ter garantias. Necessita-se neste campo esperar o juízo da Igreja, não precedê-lo. São ainda atuais as palavras de Dante: «Sede, cristãos, mais firmes ao mover-vos; / não sejais como pena a qualquer sopro» (Par. V, 73s.) São João da Cruz dizia que desde que, no Tabor, disse-se de Jesus: «Escutai-o!», Deus se fez, em certo sentido, mudo. Disse tudo; não tem coisas novas para revelar. Quem lhe pede novas revelações, ou respostas, ofende-o, como se não se houvesse explicado claramente ainda. Deus segue dizendo a todos a mesma palavra: «Escutai-o!», lede o Evangelho: aí encontrareis nem mais nem menos do que buscais».

 

SEGUNDO DOMINGO DE QUARESMA
Mc 9, 2-10: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!

O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si  mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (8,34). Começando esta passagem com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz. O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito importante – o fato que ele era um homem de oração.  Durante a oração aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim Marcos mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isso é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo – Marcos aqui vislumbra mais uma vez o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”( v.5) Claro, seria bom ficar ali, num momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta.  Quem não iria querer?  Mas não é uma sugestão que Jesus possa aceitar.  Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e em seguida “desceram da montanha” (v. 9).  Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte, é precisa descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário!! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da cruz!!  Talvez foi a força da experiência do Monte Tabor que deu a Jesus a coragem necessário para aguentar a experiência bem dolorosa do Calvário! Todos nós – seja qual for a nossa vocação – precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus.  Mas estas experiências não são “intimistas”- nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo dele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés;  por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Também este trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração.  Pois, se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”!  Somos fracos demais para aguentar esta experiência – por isso busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação – mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizerem Jesus e os três discípulos!  Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!” (v. 7). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!

 

UM DIFÍCIL AMIGO                 
Dom Geraldo M. Agnelo, Cardeal Arcebispo emérito de Salvador

Este segundo domingo da quaresma nos traz, nos relatos bíblicos, uma marca, um selo de Deus que pode parecer chocante em nosso relacionamento com Ele: Deus é um difícil amigo! Depois de ter manifestado, na transfiguração de Jesus: “Este é o meu Filho predileto”, “não poupou o próprio Filho”, entregando-o à morte na cruz. E ao primeiro personagem do povo eleito da Aliança pediu o sacrifício de seu filho Isaac. O tema do amor de Deus é o centro da mensagem cristã, argumento fundamental da revelação. Deus não revela o seu amor com ensinamentos teóricos; não dá a definição do amor, mas oferece o testemunho de um Deus que ama, que está à procura do homem, quer chamá-lo relacionar-se pessoalmente com ele, estreitar uma relação de amizade e de aliança. Deus não somente ama, mas também quer ser amado. O amor de Deus parece exprimir-se exatamente na força com que exige do homem resposta incondicional. Deus tomou a iniciativa de oferecer o perdão do seu amor, quer, porém que o homem o escolha, dê-lhe sua preferência em tudo, e lhe permaneça fiel. Ele conhece nossas dificuldades, mas parece multiplicar as mesmas em nosso caminho. Assim o significado do sacrifício de Isaac, na vida de Abraão. Ao chamamento de Deus, Abraão responde com fé: “Aqui estou!” Nessa simples palavra está toda a vida do patriarca. Ele é servo de Deus, sempre pronto a obedecê-lo; é amigo de Deus. Depositário feliz da promessa maravilhosa, em Isaac, será pai de uma multidão incalculável. Nele, está todo seu futuro e de sua descendência. Nele se encarna a bênção divina que se estenderá pelos séculos. Sua história tem esse ritmo: Deus disse, Abraão responde. A fé de Abraão foi cultivada e amadurecida mediante a prova. É manifestação da confiança em Deus, que fascina, mas é paradoxal, escapa a todo cálculo e previsão humana. Abraão apóia-se somente sobre a palavra de Deus, sobre suas promessas. É o modelo de nossa fé e da nossa resposta ao amor de Deus. Do sacrifício iniciado, Abraão retorna cheio de alegria com Isaac, mantido vivo. O sacrifício de Isaac é prenúncio do sacrifício de Cristo Jesus. Jesus tinha já anunciado aos discípulos seu sofrimento na cruz, em Jerusalém. Os discípulos ficaram desconcertados, sem compreender o desfecho trágico da missão de Jesus. Não tinham aprofundado o desígnio do Pai que entrega seu Filho a morrer na cruz para salvar a humanidade; numa palavra, não compreendiam como se pode salvar no desastre do calvário. Ainda não tinham captado o modo de ser do amor de Deus, manifestado na morte de Cristo, escândalo para os Judeus, loucura para os gregos. O evangelho de hoje nos apresenta Pedro, João e Tiago como testemunhas da revelação em que presenciam Jesus transfigurado, envolvido na glória de Deus, chamado pelo Pai: “Este é meu Filho amado: escutai-o.” Esta revelação é destinada a fazer os discípulos compreenderem o modo de agir do amor de Deus por nós e fortalecer sua fé. O reinado de Deus, já presente com Jesus vindo com poder, é submetido à paixão, vinculado à ressurreição. A transfiguração é antecipação da ressurreição. Sua narração insere-se entre duas predições da paixão. O próprio Jesus mostra sua glória no esplendor das vestes. Moisés e Elias, na aliança e na profecia, tinham recebido revelações extraordinárias de Deus. Agora se apresentam como testemunhas da glória de Jesus. O que para a antiga aliança era futuro esperado, agora está presente e centraliza a história. A tradição situou a cena no monte Tabor, o novo Horeb ou Sinai de Moisés e Elias. Transfigurar significa transformar. Deus que em Jesus Cristo assumira a forma de escravo, assumindo a figura humana, humilhou-se. Pedro queria perpetuar a experiência do Tabor. O testemunho do Pai mostra a pessoa de Jesus em quem se deve crer, e seu ensinamento a ser posto em prática na vida. A nós que temos ouvido o que Jesus ensinou e realizou, chegado até nós pela vivência cristã de dois milênios, podemos tentar interpretar também nossa experiência pessoal. Cremos que, com o batismo, Deus nos chamou à vida nova, diferente do modo de viver dos que se identificam com o mundo de egoísmo, de falta de amor. Deus nos destina à glória, prometendo a vitória sobre o mal e plenitude da felicidade. Somos provados pelos sofrimentos e pela incerteza do futuro. É a condição de quem vive na fé, que se apóia na palavra de Deus. Não devemos temer. Deus não poupou o próprio Filho. O amor de Deus não se limita a palavras: faz o caminho dos fatos, dando-nos o seu único Filho que passou pela morte na cruz, mas ressuscitou para sempre.

 

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA
Mc 9,2-10: “Este é o meu Filho amado: ouvi-o”
2Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E 3transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas. 4Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus. 5Pedro tomou a palavra: Mestre, é bom para nós estarmos aqui; faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. 6Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados. 7Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra; e da nuvem veio uma voz: Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o. 8E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles. 9Ao descerem do monte, proibiu-lhes Jesus que contassem a quem quer que fosse o que tinham visto, até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos. 10E guardaram esta recomendação consigo, perguntando entre si o que significaria: Ser ressuscitado dentre os mortos.

No Evangelho de hoje, contemplamos a manifestação da glória de Jesus Cristo a Pedro, Tiago e João, um sinal dado aos Apóstolos, da Sua divindade e dos poderes divinos que daria à Sua igreja. Desde a Encarnação, a Divindade de Jesus, estava escondida por detrás da Humanidade. Mas, no alto do Monte Tabor, Jesus se manifesta a estes prediletos discípulos, que iam ser colunas da Igreja. Deste modo, o esplendor da glória de Jesus, deixa os três entusiasmados com as alegrias que teriam no fim, assim, ficam animados a seguir o Mestre. Jesus, mostra que terão sérias adversidades no caminho escolhido, mas a vitória será recompensadora. Santo Tomás de Aquino (†1274), nos diz na Suma Teológica, II,q.45,a.1: “…foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória”. Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? – O Magistério da Igreja, nos diz, que para melhor compreender este fato miraculoso, deve-se ter em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua paixão e Morte, renunciou voluntariamente à glória divina e se encarnou, fazendo-se semelhante a nós humanos em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4,15). No momento da Transfiguração, Jesus Cristo, deixa que sua alma, apareça miraculosamente no Seu corpo. Jesus, quer nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada. Mais tarde, São Paulo nos dirá: “que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há de manifestar em nós” (Rm 8,18). A Quaresma nos convida à Conversão. Ela nos lembra que é preciso voltar o coração para Jesus Cristo. Mas, infelizmente quando o pecado toma conta, corremos um grande risco. O risco de não enxergar mais o pecado. E tudo é normal. Afinal, todos fazem assim. Coragem! Deixemo-nos Transfigurar em Cristo. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica,III,q.45,a.4 ad 2, ainda nos diz: “Assim como no Batismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a ação de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, o Espírito Santo em forma de pomba e se houve a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como o sacramento da segunda regeneração (a ressurreição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Uno e Trino dá a inocência no Batismo, da mesma forma dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…”. Na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal, não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa.

 

Os domingos da Quaresma são dias de “escrutínio”, não só para os catecúmenos que se preparam para o Batismo, mas também para cada cristão e para cada comunidade paroquial com ações pastorais que se podem fazer com aqueles que terão um especial contacto com os sacramentos da iniciação cristã: pais que querem batizar um filho ou que têm um filho a preparar-se para a 1ª Comunhão; jovens que se preparam para o Sacramento da Confirmação. As leituras deste domingo são um convite à reflexão profunda da nossa fé. Iremos ler na 1ª leitura, durante o ciclo quaresmal, diversos momentos da História da Salvação. Hoje, é-nos apresentado o sacrifício de Abraão, nosso pai na fé. Abraão é um peregrino que confia em Deus e que por Ele tudo arrisca, inclusivamente o seu filho. Deus fez uma aliança com Abraão e agora lhe exige uma resposta de fé. É a fé que levará Abraão a peregrinar, confiando em Deus, até à terra prometida. Da sua descendência, surgirá um novo povo. Aceitar sacrificar o seu próprio filho a Deus, é uma prova de que Abraão tem uma fé forte, “adulta”. Ele não duvida em doar, por amor, tudo a Deus. É o anúncio do sacrifício real de Cristo na Cruz. Não deve ter sido fácil para Abraão aceitar o pedido de Deus (sacrificar o seu próprio filho); estava diante do mistério incompreensível de Deus. Esta situação também aconteceu a Pedro, Tiago e João, no Monte Tabor, que, perante o mistério de Deus, não compreendiam o anúncio da cruz e da ressurreição. Porém, confiaram (a fé é sempre protagonista) que um dia iriam compreender a fonte de vida nova que Deus lhes concedia. Para compreenderem a transfiguração de Jesus e participar dela, estes apóstolos tinham Moisés e Elias (a Lei e os Profetas). Na vida do cristão, a Palavra de Deus recebida da Igreja e na Igreja deve orientar para a Eucaristia pelo caminho da fé. Assim, abrir-se-ão horizontes de contemplação e de vida nova. A subida ao Monte Tabor teve início na vida humana que é sujeita a tentações, como vimos no passado domingo. No contexto quaresmal em que nos encontramos, é importante ligar e relacionar a mensagem de cada domingo. A vida de fé que se recebe no Batismo e que nos preparamos para celebrar no seu núcleo central da Páscoa, é uma vida a ser vivida “descendo o monte”, na normalidade do quotidiano, onde a tentação poderá aparecer. Desejar viver sempre na “transfiguração”, seria querer “viver nas nuvens” (“é bom estarmos aqui”), recusando a vida com os seus sacrifícios e com as suas dificuldades; seria uma outra tentação, ou seja, querer fugir da nossa condição humana. Todavia, é muito importante “subir o monte com Jesus” para novamente ouvirmos a voz que diz: “Este é o meu Filho muito amado: escutai-O”. Esta frase dá-nos a certeza de que Deus está sempre conosco e que não há nada neste mundo que nos possa tirar esta segurança (cfr. com a 2ª leitura). Esta “experiência de fé” transforma o nosso modo de encarar a vida, faz-nos ver a vida de uma maneira diferente, faz-nos ser testemunhas da nossa esperança. Todos os sacramentos são momentos de transfiguração. O Batismo é a primeira experiência de Deus em nós. Mas, a Eucaristia é sempre uma experiência de transfiguração que nos leva para a vida mais “transfigurados”, ou seja, cada um de nós é um ícone da vida de Deus em nós. A Eucaristia transfigura o nosso olhar, leva-nos a olhar os outros com o olhar de Deus e a descobrir neles o próprio Jesus que caminha conosco.
Com informações do Missal Romano, da CNBB e do SDPL

 

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto” (Sl 26, 8s)
Meus irmãos e minhas irmãs, Vamos caminhando no nosso grande retiro espiritual na Santa Quaresma, tempo de penitência e tempo de conversão. Tempo da escuta da Palavra de Deus e dos seus desígnios para a nossa caminhada diária para que possamos voltar para a amizade com Deus. Deus não quer a morte do pecador, mas sim que esse pecador se converta e viva uma vida em abundância, dando testemunho do kerigma cristão. Na primeira Leitura – Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18) apresenta Abraão obediente até o sacrifício de seu filho único. Pedindo que Abraão sacrificasse seu Filho, Deus não apenas testou a sua obediência, mas colocou em questão todo o futuro de sua descendência. Será que Deus precisa de tais provas para saber se o homem lhe é fiel? Ou será que a fidelidade e a confiança só crescem quando são provadas? Prestes a sacrificar toda a segurança, o homem se torna realmente livre; e é assim que Deus o quer, para que seja seu aliado. Abraão foi sempre obediente a Deus. Abraão, observando seus contemporâneos, percebe que tal é o amor que têm por seus deuses que chegam a sacrificar-lhes seus primogênitos. Parece-lhe, então que o amor de Deus exige dele o sacrifício de Isaac. Mas Deus o impede, não quer a morte do homem, mas a vida. Abraão passa, então, a considerar Isaac como duplo dom de Deus: nascido de Sara estéril e salvo da morte. De qualquer modo, a disponibilidade da fé de Abraão é agradável a Deus, que renova as promessas a ele feitas. Prezados irmãos, Na Carta de São Paulo aos Romanos(Rm 8,31b-34) Deus não poupou seu único Filho. Quem, de fato, sacrifica seu filho não é Abraão, mas é Deus mesmo: prova de seu amor por nós, que não conseguimos imaginar, mas no qual acreditamos firmemente. A fidelidade de Deus anunciada na primeira leitura é aqui plenamente proclamada: Deus está com todos os que têm fé e que por ela foram justificados. Assim, também, Cristo que, em sua fidelidade ao Pai, deu a vida por nós, não pretende condenar-nos. Esse argumento pode resumir-se numa pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo e do Pai?”. Nesse contexto, há uma única resposta: só nós podemos separar-nos do amor de Deus em Cristo Jesus. Deus jamais tomará a iniciativa da ruptura. Ele é um Deus fiel. Caros irmãos, A liturgia deste domingo é repleta do mistério de Deus: a sua transfiguração. Esta passagem bíblica tem um significado muito profundo, tendo em vista que o saudoso Pontífice João Paulo II, na sua Carta Apostólica do Rosário da Santa Virgem Maria, incluiu como quarto mistério luminoso exatamente da perícope que hoje refletimos a Transfiguração do Senhor Jesus. Mas, irmãos, o que vem a ser a Transfiguração? A Transfiguração é o momento em que Jesus revela sua glória diante de seus discípulos. Esse é o resumo do Evangelho deste segundo domingo da Santa Quaresma. Devemos situar esta visão no contexto em que Marcos criou ao conceber a estrutura fundamental dos evangelhos escritos. Na primeira parte de sua atividade, Nosso Senhor Jesus Cristo se dirige às multidões, mediante sinais e ensinamentos, que deixam transparecer o “seu poder e a sua autoridade”, mas não dizem nada sobre o Seu Mistério Interior. Na segunda metade de seu Evangelho, ele fala que Jesus revela às suas testemunhas  – e depois discípulos – o seu Mistério interior: sua missão do Servo Padecente e sua união com o Pai. O que foi confiado a Jesus pessoalmente, pelo Pai, na hora do Batismo, quando a voz da nuvem lhe revelou: “Tu és o meu filho muito amado, em quem eu pus minha afeição” (Mc 1,11). Agora é revelado aos discípulos: “Este é o meu filho amado, escutai-o”. Isso para demonstrar que os mistérios de Deus não podem ser reservados para poucos, mas devem ser comunicados e partilhados com muitos para a edificação do Reino de Deus que se inicia na nossa peregrinação por este mundo. O Evangelho de hoje(Mc 9,2-10) nos mostra quem é Aquele que nos veio salvar e em que nos haveremos de transformar, se superarmos as tentações da vida presente pela contínua conversão aos seus ensinamentos e sua pessoa: seremos transfigurados. Meus irmãos, O Antigo Testamento é um compêndio de recados para o povo de Israel. Ali está presente a aliança entre Deus e a Nação Israelita. O povo prometeu: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse!” (Ex 24,3). Mas Jesus veio inaugurar um novo tempo. Deus nos apresenta o seu Filho Jesus, a nova Arca da Aliança, o novo templo de Deus, e recomenda com insistência: “Escutai-o!” Este era o dever dos apóstolos e o nosso hoje: escutar Jesus com mais atenção do que o povo de Israel escutou Moisés, que lhes transmitira a vontade de Deus. Apesar da morte, ele tem palavras de vida eterna. Os caminhos de Deus ultrapassam as razões da inteligência humana; quanto mais, quando se trata da morte de quem, por definição, é imortal. Jesus não se transfigura para deslumbrar seus discípulos e seguidores e demonstrar-se superior a eles. Jesus tratou de um gesto para inspirar, criar e fundamentar a confiança de quem tinha razão para ter medo. Morte e vida não se contradizem, mas fazem parte de um processo natural e de um mistério de fé e esperança cristã. Jesus, Filho de Deus Altíssimo e destinado para ser rei eterno e universal, devia passar pelos escarros, pelas dores e pela morte. Por isso, o Monte Tabor e o Monte Calvário, postos hoje um perto do outro, nos ajudem a compreender que no mistério da dor há ricas e encantadoras sementes divinas. O monte da Transfiguração é colocado hoje à luz do Monte Calvário. Não pelo formato geográfico, porque o Calvário não passa de uma pequena elevação, mas pelo seu significado simbólico dentro da história da salvação. O Calvário é marcado pelo sangue e pela dor, mas de seu chão brotam as raízes da vida eterna. O Tabor vem hoje envolto de luz e divindade, entretanto, profetizando um caminho de aniquilamento: cumprir a vontade do Pai até o extremo da renúncia e da morte. No Tabor ecoa a voz amorosa do Pai: “Este é meu filho muito amado, escutai-o”. No Calvário ouvimos a célebre frase da condição humana do Senhor: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Aos olhos da fé, os dois montes se fundem, porque a crueza do Calvário revela a extrema misericórdia e o infinito amor de Deus. A morte que Jesus anuncia como a sua, morte violenta, convida-nos a morrer diariamente para o pecado, a cada minuto, a cada instante, procurando sempre passar do Calvário para o Tabor, da desgraça para a luz, do pecado para a graça salvadora. Morrendo para o pecado estamos transfigurando para a vida eterna. Meus irmãos, Aparecem Moisés e Elias. Moisés o maior legislador e  Elias o mais santo dos profetas. Jesus Cristo superou todos os profetas, porque nele se completou o tempo da salvação, porque “Ele é o Meu Filho muito amado”. Por isso, as atitudes que devemos cultivar nesta segunda semana da Quaresma são as seguintes: a humildade, o despojamento, o serviço, a doação em prol de muitos. Só podemos aceitar este ensinamento na confiança de que ele teve razão. A razão de Jesus é a razão do Batismo, em que somos lavados do pecado e inscritos como cidadãos do céu. Valorizamos nosso Batismo, passando do Calvário – sofrimento e pecado – para o Tabor – alegria e graça santificante de Deus. Portanto, somos convidados a subir com Jesus a montanha e, na companhia de três de seus discípulos, viver a doce e cândida alegria da comunhão com ele. Somos embalados pelo testemunho da fé de Abraão e de Sara, que, obedientes à palavra de Deus e portadores da palavra da Salvação, desafiaram as deficiências da velhice e da esterilidade para gerar numerosa descendência. As dificuldades e sofrimentos da caminhada não podem nos abater ou desanimar. No meio dos conflitos da vida, o Pai nos permite vislumbrar, desde já, sinais de ressurreição e nos dá o mandamento de escutar a palavra de Jesus, o Filho amado. Renunciando aos vícios, libertando de tudo que vai contra os valores do Evangelho vamos assumir a nossa vocação de servir a Cristo, que é servir aos irmãos na busca de maior solidariedade e fraternidade. Amém!

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