Oração para o tempo da Quaresma

Pe. Fernando José Carneiro Cardoso

Senhor Jesus, vossa Igreja, ao instituir o tempo quaresmal como preparação para a solene Páscoa anual, nele inseriu a prática do jejum e da mortificação. Confesso que estas duas práticas, embora as tenha conhecido desde minha infância, jamais foram por mim assimiladas. Além do mais, foram freqüentemente deformadas. Privar-me de um chocolate ou refrigerante; sofrer paciente o calor e abster-me de água gelada; abandonar determinado programa de TV; encurtar conversas ao telefone… Francamente, Senhor, que tem a ver tudo isso com a vida cristã? Necessitais de estômagos semi-vazios, ou de renúncias minuciosas? Em que Senhor, essas mortificações me aproximam de Vós? Necessitais de pequenos cortes e sofrimentos adicionais que me imponho a mim mesmo? Sois deveras contrário à alegria e ao bem estar? E há mais: não me podem estas práticas conduzir ao envaidecimento? Não existe o perigo de me alçarem ao pináculo de mim mesmo e, no final desta Quaresma, sentir-me em paz comigo, avançando pretensões descabidas diante de Vós? Não pode a prática do ascetismo (que palavra tão fora de época!) transformar-me num ser soberbo e credor perante Vós? E tudo isso se passará apenas entre nós dois? Não é essa relação intimista, da qual outros estão excluídos, justamente criticada por todos os que descobrem o valor comunitário da Quaresma?… Ou então, Senhor, – e esta é outra possibilidade bem real – transtornei ou falsificaram para mim antigos mestres e pregadores o que, lido à luz do Vosso Evangelho, recobra significado novo e singular? Sim, Senhor, esta é a verdade. Vós dissestes que, enquanto vossos discípulos desfrutavam de Vossa companhia, não deviam jejuar. A presença do esposo e sua natural alegria excluem a tristeza! Mas, acrescentastes: “dias virão em que o esposo lhe será tirado; então naquele dia jejuarão”. Ah Senhor, compreendo agora que o genuíno jejum cristão está relacionado com Vossa partida e Vossa ausência. Compreendo, Senhor, que ele se relaciona com Vossa Paixão dolorosa. À Vossa luz compreendo que o jejum, assim intuído, recobra sentido. Será mesmo normal a uma vida cristã digna desse adjetivo. Afinal, se não me privo de nada neste mundo; se satisfaço todas as exigências de meu corpo e de minha psicologia; se busco a felicidade imediata para todos os reclamos da carne; se insisto em viver comodamente e sem nenhuma privação, posso afirmar que meu Esposo, o Encanto dos meus olhos, está ausente? Ausência não sentida e percebida, Senhor, continua a ser porventura ausência? Se neste mundo me satisfaço sempre, sem jamais dizer “não” a qualquer veleidade ou capricho, posso dizer que sinto de fato Vossa ausência e que nada Vos substitui? Posso afirmar que tenho fome e sede de Vós? Sim, Senhor, agora sei o que é jejuar: jejuar é dizer, “não” a mim mesmo; e isto não só com palavras, mas também com o corpo, expressão externa de minha pessoa. Compreendo também que neste mundo nada me poderá jamais satisfazer, sem Vossa presença. Noto, contudo, frequente dissociação entre a palavra e a prática concreta, pois se me comporto aqui como aquele que sempre possuiu o que deseja, haverá ainda lugar para o Acabamento futuro que sois apenas Vós? Vós ordenais que eu exprima não só com a mente, mas também com o corpo o período do tempo inacabado vivido no exílio deste mundo, longe da visão reservada à Pátria. Vistas as coisas desse modo, entendo, Senhor que se minha vida cristã não é piedosa ilusão acrescida de devoções adicionais e periféricas, haverá sempre necessidades de se jejuar. E não apenas jejum de alimentos (que no mundo pós-cristão em que vivo, recebe o nome moderno e elegante de dieta), mas ainda jejum dos olhares, jejum das palavras (ah, o silêncio é para o espírito o que o sono é para o corpo!) jejum dos ouvidos; sobretudo jejum do consumismo grotesco e vulgar; jejum, finalmente, de meus pecados, com os quais prolongo as atrocidades que vos infringiram vossos inimigos! Não é desejo meu, Senhor, que meus jejuns se restrinjam ao âmbito estreito de nossas relações pessoais. Decididamente não quero ser um cristão e católico intimista e egoísta. O que subtraio a mim neste tempo quaresmal posso reciclar e reverter em benefício de meus irmãos. E não só o dinheiro, mas também o tempo o carinho, a solidariedade, a paciência, o perdão. Senhor, se me concederdes a graça de jejuar nesta Quaresma, concedei-me ainda outra graça: não me envaidecer e não me sentir superior aos demais. Pelo contrário, o que vos suplico é para mim uma graça à primeira vista antipática: um sentimento de confusão e de vergonha. Sim, sem nenhum masoquismo: confusão e vergonha ao comparar o que por Vós suporto no período de vossa ausência sentida em minha vida neste mundo à vista de Vosso Corpo por mim pendente na Cruz… Honestamente, Senhor, que vos tenho eu na realidade oferecido em troca do quanto por mim sofrestes? Vós nada para Vós reservastes ao Vos doardes a mim. E eu Vos dou apenas migalhas que sobram de minha abundância… Concedei-me ao menos isto, meu Senhor Crucificado: que a prática renovada de meu jejum quaresmal me conduza para mais perto de Vós, que de tudo Vos despojastes por mim! Que, no final desta Quaresma, diga eu também, e não apenas com as palavras do Salmista, mas com toda verdade de meu ser que é espírito e corpo também. “Só em Deus encontra serenidade a minha alma”!

 

Oração Quaresmal atribuída a Santo Agostinho

Senhor, na Vossa presença expomos as nossas faltas e simultaneamente as feridas que por causa delas recebemos. Se medirmos o mal que fizemos, é bem pouco o que sofremos e muito maior o que merecemos. Mais grave o mal que cometemos, incomparavelmente inferior ao que suportamos. Sentimos que é dura a pena do pecado, mas depomos a obstinação de pecar. A nossa fraqueza geme esmagada sob o peso dos castigos com que nos punis justamente, e a nossa maldade não quer se desfazer dos seus caprichos. O espírito anda atormentado, mas a cerviz não se verga. A nossa vida suspira no meio das dores e não nos corrigimos. Se contemporizardes conosco, não nos emendamos, e se tirais de nós vingança, gritamos que não podemos. Se nos castigais, sabemos declarar que somos réus, mas se afastais por um pouco a Vossa ira, esquecemos logo o que deploramos. Se levantardes a mão, logo prometemos a emenda, se retirais a espada, já nos esquecemos da promessa. Se nos feris, gritamos que nos perdoeis, se nos perdoais logo entramos de Vos provocar. Aqui estamos, Senhor, culpados que se confessam réus nesta Quaresma; não ignoramos que não nos perdoais, merecemos a morte. Pai onipotente, o que sem merecimento algum de nossa parte Vos pedimos, Vós que nos tirastes do nada. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

 

Oração, jejum e esmola na Quaresma

O caminho de regresso a Deus que representa o tempo de Quaresma iniciado pela Igreja na Quarta-feira de Cinzas tem na oração, no jejum e na esmola três pontos de apoio fundamentais. O contexto atual reclama mais que nunca viver a Quaresma como um caminho de regresso profundo desde o coração da vida a Deus. Cenários internacionais de conflito e de violência impõem a necessidade de redescobrir o caminho da paz como via de diálogo e de justiça, algo que «passa através da conversão do coração de cada um de nós. Também, a sociedade secularizada do Ocidente evidencia a necessidade de redescobrir os horizontes de esperança, algo que só o Deus vivo pode dar. Por isto é importante voltar a Deus seguindo a Jesus, caminho, verdade e vida. Para isso a Quaresma recorda três meios: a oração, o jejum e a esmola.

Para o cristão – orar significa deixar-se amar pelo Pai, pôr-se em atitude de escuta, de docilidade interior e apresentar-lhe tudo o que somos, nossas expectativas e esperanças; é viver a oração como um sacrifício de louvor e de intercessão. A oração também «significa unir-nos a Jesus, na Igreja e seu corpo na história e abrir-nos ao sopro do Espírito Santo, que faz novas todas as coisas»; em resumo, a oração na Trindade é a que devemos descobrir cada vez mais.

Por outro lado, o jejum  na grande tradição espiritual, tem um sentido escatológico, como quando se espera um momento importante; é como passar a um segundo plano a necessidade física de alimentar-se ao estar nutrido por este desejo e esta espera. Na tradição cristã, o jejum representa, sobretudo, a dimensão da espera do Senhor  e a abertura do coração, despojando-se de tudo o que é obstáculo ao dom de sua vinda. No tempo quaresmal  o jejum representa ser peregrinos para o grande dom da Páscoa e, portanto, redescobrir a necessidade e o desejo de Deus como alma profunda de nossa existência, dispondo-nos a estar vazios de nós mesmos para estarmos repletos d’Ele.

Por sua parte, longe de ser só um gesto de dar, a esmola é uma atitude de coração: é um coração humilde, arrependido, misericordioso, compassivo, que busca reproduzir nas relações com os demais a experiência de misericórdia que cada um de nós vive na relação com Deus. Por isso a esmola é atenção, é concretizar, é discernimento, é dom: todas elas dimensões que foram experimentadas pelo fiel quando contempla o amor de Deus que lhe acolhe e lhe perdoa.

Este é o convite para esta Quaresma: redescobrir o valor do sacrifício; um pequeno sacrifício, um gesto de amor, possivelmente humilde, escondido, mas autêntico, que custe algo e que seja feito por louvor e amor a Deus e por alguém que sofra e tenha necessidade. De fato, sem sacrifício não há amor, assim como sem amor o sacrifício seria simplesmente constrição exterior. O sacrifício é oferecimento de amor. E não devemos esquecer o grande exemplo que nos deu Jesus e lembre-se que tanto amou Deus o mundo que não se reservou o seu próprio Filho, mas que o entregou por todos nós.

“Jejum das palavras supérfluas é um bom propósito para esta quaresma”.
“A quaresma é um momento privilegiado de busca de sentido através da mudança de estilo e ritmo de vida diário, porque não há nenhuma profissão nem vocação que não possa ser transformada”.
“O tempo quaresmal pode se converter em um momento para tratar de «calar ou falar de outra maneira”.
“Falar menos e gozar do silêncio, oferece a possibilidade de abrir-se à vida interior”.

 

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