Quaresma: tempo de oração intensa, jejum e penitência

Não somente reduzindo os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado
Por Vitaliano Mattioli

Dentre todas as solenidades cristãs o primeiro lugar é ocupado pelo mistério pascal. Devemos nos preparar para vivê-lo convenientemente.
É por isso que foi instituida a quaresma, um tempo de quarenta dias  para chegar  dignamente  à celebração do tríduo pascal.
A  quaresma, como pratica obrigatoria,  foi instituída no IV século.  Mas desde sempre os cristãos se preparavam para a Páscoa com uma oração intensa,  jejum e penitência.
O número de quarenta dias tem um significado simbólico-bíblico: quarenta são os dias do dilúvio, da permanência de Moisés no monte Sinai, das tentações de Jesus.
Na verdade, se a quaresma é um tempo privilegiado para o nosso aperfeiçoamento, toda a nossa vida de cristãos deve  ser vivida como esforço para adquirir as virtudes e lutar contra o inimigo, o diabo. Já o apóstolo Pedro exortava os cristãos: “Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, fortes na fé” (1Pd 5, 8-9a).
Este combate é um combate interior. O papa Leão Magno (440-461) numa sua pregação, disse: “É agora que os nossos corações devem se mover com maior fervor para a perfeição espiritual… Muitos combates acontecem dentro  de nós mesmos, os desejos da carne se opõem aos do espírito, e os do espírito aos da carne… Mas, aquele que está em nós é mais forte do que aquele que está contra nós”. O mesmo Papa, noutra homilía: “A quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus”.
A nossa vida está posta no meio das dificuldades e dos combates; se quisermos ser vencedores, é preciso combater. É por isso que precisa uma oração intensa e contínua.
Uma oração não limitada às praticas de oração, mas entendida como uma vida de profunda intimidade com o Deus Trindade que mora dentro de nós.  Um Autor do IV sec., o Pseudo-Crisóstomo, escreveu: “Não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas é preciso conservar sempre vivo o desejo e a lembrança de Deus. A oração é a luz da alma, alegra a alma e tranquiliza o coração”.
O jejum  é fundamental para a nossa purificação. Mas o fim não é tanto a abstinência das comidas,  quanto dos vicios. Ainda nos exorta o  papa Leão Magno: “Mortifiquemos um pouco o homem exterior para que o interior seja restaurado; perdendo um pouco do excesso corpóreo, o espírito robustece-se”.
É inútil  o jejum se não se praticam as virtudes. Cuidados para não cair na repreensão de Deus feita pelo profeta  Isaías  (58, 1-10)… Precisa cumprir a prescrição que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias; não somente reduzindo os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado… O sentido do jejum não reside somente na abstenção dos alimentos. Esta traz proveito se o coração se afasta da iniqûidade e a língua se abstenha da calúnia e se pratica a mansidão e paciência… O jejum tem por objetivo suprimir os desejos corporais e ações desordenadas”.
O bispo São Pedro Crisologo escreveu: “Homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrificio santo”.
Mas tudo isso não está completo se não se adianta um terceiro elemento:  a penitência, no sentido de ter misericórdia e compreensão com os outros.  Por isso, São Pedro Crisólogo adianta: “Para que esta oferta seja aceita a Deus, deve acompanhá-la a misericórdia; o jejum só dá frutos se for regado pela misericordia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum”.
Entremos com muita alegria e boa vontade na quaresma de 2016, mas lembremos que toda a nossa vida deve ter uma  dimensão penitencial.

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