Quarta-feira de Cinzas – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste dia, cada um de nós recebe um pouquinho de cinzas sobre a fronte ou a cabeça, enquanto o sacerdote pronuncia as palavras do livro do Gênesis: “… lembra-te homem que és pó e ao pó voltarás”.

Sim, “és pó e ao pó voltarás”, mesmo que sejas um homem importante, mesmo que sejas uma excelência, mesmo que sejas alguém de quem outros se aproximam muito dificultosamente, chegará um dia e não se sabe quando, neste dia tu receberás a todos indistintamente, todos te poderão visitar, sem mesmo marcar o dia e a hora desta visita, sem nenhum protocolo, estarás no cemitério católico Leão XIII, estarás no cemitério do Jardim da Memória, ou quem sabe no Municipal.

Sim verdadeiramente o homem é pó da terra, vejam: nós somos 60% de água, 39% de matérias orgânicas e 1% de sais minerais. Não há do que se envaidecer sumamente, não é verdade?

No entanto quando a Igreja inicia a Quaresma, não quer humilhar o ser humano, não quer humilhar cada homem e cada mulher, se como ponto de partida, cada um de nós é cinza e um dia estará encerrado em uma caixinha de ossos, que com o tempo, também desaparecerão.

É bem verdade que este é o ponto de partida, mas o ponto de chegada para nós que possuímos fé, é a experiência luminosa da Páscoa e da Ressurreição.

O homem é apenas cinzas. É um pouco do pó da terra, não do que se orgulhar, uma vez mais, é bom repetir, basta uma pequenina pedrinha inoportuna, para enviá-lo prontamente ao outro mundo. E, no entanto, este homem, pó da terra colado a este planeta terra, deve ser preciosíssimo aos olhos de Deus, que por causa desde pozinho, Ele também se fez pozinho a fim de se assemelhar em tudo a cada um de nós e nos conduzir ao reino de sua bem-aventurança eterna.

Diz um Salmo caríssimos irmãos e irmãs, que a morte é o pastor que conduz cada ser mortal à sua última morada, o túmulo do cemitério. Mas neste dia, nós dizemos a cada homem e a cada mulher, que o Senhor é o pastor que nos conduz. O pastor que nos conduz não ao cemitério, mas o pastor que nos conduz para as relvas verdejantes e os prados eternos.

Basta que nesta Quaresma, que hoje se inicia, este pó da terra que sou eu, este pó da terra que é você, se deixe modelar nas mãos do grande oleiro que é o Senhor de todos nós. Sim, Ele é capaz de transformar este pó da terra numa pedra preciosa para si. Ele é capaz de transformar este pó da terra num diamante, que vale a pena conservar por toda a eternidade.

Assim é o homem caríssimos irmãos, grande e pequeno, fraco e poderoso, numa palavra pecador e um pequeno Deus. Deixemo-nos tocar por Deus neste tempo que nada tem de tristeza. Deixemo-nos tocar neste tempo que é sim, uma primavera do espírito. Nós sabemos que os muçulmanos se alegram durante alguns dias de seu Hamadam, e realizam uma grande festa a seu término.

A Quaresma caríssimos irmãos, tem uma certa analogia distante com Hamadam dos muçulmanos. Entremos neste tempo com o coração alegre, porque Deus esta presente de maneira especial na vida de cada uma de nós. Sim, Ele deseja modelar-nos para que nós nos contemplemos numa nova luz, diferentes de como éramos, bem mais atraentes, bem mais luminosos, bem mais alegres e perfeitos.

Todo alpinista, quando inicia o seu grande desafio, a escalada de uma montanha, não mede seus esforços. Ele prevê de certa maneira a alegria de chegar ao final da competição.

Nós também, ao final desta Quaresma, estaremos no topo daquela grande montanha quando contemplaremos Jesus transfigurado e ressuscitado na glória que Deus lhe reservou.

E contemplaremos também, com os olhos da esperança, a glória que está reservada a todos aqueles que caminham hoje, com Cristo, na direção do calvário. Olhos fixos, porém no dia da sua própria ressurreição.

 

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

CONVERSÃO E PENITÊNCIA
– Fomentar a conversão do coração, especialmente durante este tempo.
– Obras de penitência: o jejum, a mortificação, a esmola…
– A Quaresma, um tempo para nos aproximarmos mais de Deus.

I. COMEÇA A QUARESMA, tempo de penitência e de renovação interior para prepararmos a Páscoa do Senhor1. A liturgia da Igreja convida-nos com insistência a purificar a nossa alma e a recomeçar novamente. Diz o Senhor Todo-Poderoso: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, com jejum, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai os vossos corações, não as vossas vestes; convertei-vos ao Senhor vosso Deus, porque ele é compassivo e misericordioso…2, lemos na primeira leitura da Missa de hoje. E quando o sacerdote impuser as cinzas sobre as nossas cabeças, recordar-nos-á as palavras do Gênesis, depois do pecado original: “Memento homo, quia pulvis es…” Lembra-te, ó homem, de que és pó e em pó te hás de tornar3. “Memento homo…” Lembra-te… E, não obstante, às vezes esquecemos que sem o Senhor não somos nada. “Sem Deus, nada resta da grandeza do homem senão este montinho de pó sobre um prato, numa ponta do altar, nesta Quarta-feira de Cinzas, com o qual a Igreja nos deposita na testa como que a nossa própria substância”4. O Senhor quer que nos desapeguemos das coisas da terra para que possamos dirigir-nos a Ele, e que nos afastemos do pecado, que envelhece e mata, e retornemos à fonte da Vida e da alegria: “O próprio Jesus Cristo é a graça mais sublime de toda a Quaresma. É Ele quem se apresenta diante de nós na simplicidade admirável do Evangelho”5. Dirigir o coração a Deus, converter-se, significa estarmos dispostos a empregar todos os meios para viver como Ele espera que vivamos, a não tentar servir a dois senhores6, a afastar da vida qualquer pecado deliberado. Jesus procura em nós um coração contrito, conhecedor das suas faltas e pecados e disposto a eliminá-los. Então lembrar-vos-eis do vosso proceder perverso e dos vossos dias que não foram bons…7. O Senhor deseja uma dor sincera dos pecados, que se manifestará antes de mais nada na Confissão sacramental: “Converter-se quer dizer para nós procurar novamente o perdão e a força de Deus no sacramento da reconciliação e assim recomeçar sempre, avançar diariamente”8. Para fomentar em nós a contrição, a liturgia de hoje propõe-nos o salmo com que o rei David manifestou o seu arrependimento, o mesmo com que tantos santos suplicaram o perdão de Deus. Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E, segundo a imensidão da vossa misericórdia, apagai a minha iniqüidade, dizemos a Jesus com o profeta real. Lavai-me totalmente da minha falta e purificai-me do meu pecado. Eu reconheço a minha iniqüidade e tenho sempre diante de mim o meu pecado. Somente contra Vós pequei. Ó meu Deus, criai em mim um coração puro e renovai-me o espírito de firmeza. Não me expulseis para longe do vosso rosto, não me priveis do vosso santo espírito. Restituí-me a alegria da salvação e sustentai-me com uma vontade generosa. Senhor, abri os meus lábios a fim de que a minha boca anuncie os vossos louvores9. O Senhor nos atenderá se no dia de hoje repetirmos de todo o coração, como uma jaculatória:Ó meu Deus, criai em mim um coração puro e renovai-me o espírito de firmeza.

II. O SENHOR também nos pede hoje um sacrifício um pouco especial: a abstinência e, além dela, o jejum, pois o jejum “fortifica o espírito, mortificando a carne e a sua sensualidade; eleva a alma a Deus; abate a concupiscência, dando forças para vencer e amortecer as suas paixões, e prepara o coração para que não procure outra coisa senão agradar a Deus em tudo”10. Além destas manifestações de penitência (a abstinência de carne a partir dos 14 anos e o jejum entre os 18 e os 59 completos), que nos aproximam do Senhor e dão à alma uma alegria especial, a Igreja pede-nos também que pratiquemos a esmola que, oferecida com um coração misericordioso, deseja levar um pouco de consolo aos que passam por privações ou contribuir conforme as possibilidades de cada um para uma obra apostólica em bem das almas. “Todos os cristãos podem praticar a esmola, não só os ricos e abastados, mas mesmo os de posição média e ainda os pobres; deste modo, embora sejam desiguais pela sua capacidade de dar esmola, são semelhantes no amor e afeto com que a praticam”11. O desprendimento das coisas materiais, a mortificação e a abstinência purificam os nossos pecados e ajudam-nos a encontrar o Senhor. Porque “quem procura a Deus querendo continuar com os seus gostos, procura-o de noite e, de noite, não o encontrará”12. A fonte desta mortificação está principalmente no trabalho diário: nos pormenores de ordem, na pontualidade com que começamos as nossas tarefas, na intensidade com que as realizamos; na convivência com os colegas, que nos deparará ocasiões de mortificar o nosso egoísmo e de contribuir para criar um clima mais agradável à nossa volta. “Mortificações que não mortifiquem os outros, que nos tornem mais delicados, mais compreensivos, mais abertos a todos. Não seremos mortificados se formos suscetíveis, se estivermos preocupados apenas com os nossos egoísmos, se esmagarmos os outros, se não nos soubermos privar do supérfluo e, às vezes, do necessário; se nos entristecermos quando as coisas não correm como tínhamos previsto. Pelo contrário, seremos mortificados se nos soubermos fazer tudo para todos, para salvar a todos (I Cor IX, 22)”13. Cada um de nós deve preparar um plano concreto de pequenos sacrifícios para oferecer ao Senhor diariamente nesta Quaresma.

III. NÃO PODEMOS DEIXAR passar este dia sem fomentar na alma um desejo profundo e eficaz de voltar uma vez mais para Deus, como o filho pródigo, a fim de estarmos mais perto dEle. São Paulo, na segunda leitura da Missa, diz que este é um tempo excelente que devemos aproveitar para nos convertermos: Nós vos exortamos a não receber a graça de Deus em vão […]. Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação14. E o Senhor nos repete a cada um, na intimidade do coração: Convertei-vos. Voltai-vos para mim de todo o coração. Abre-se agora um tempo em que este recomeçar em Cristo se irá apoiar numa particular graça de Deus, própria do tempo litúrgico que começamos. Por isso, a mensagem da Quaresma está repassada de alegria e de esperança, ainda que seja uma mensagem de penitência e mortificação. “Quando algum de nós reconhece estar triste, deve pensar: é que não estou suficientemente perto de Cristo. E o mesmo deve pensar quando reconhece em si uma clara tendência para o mau humor, para a irritação. E não deve pretender jogar a culpa nas coisas que tem à sua volta, pois seria um erro e uma maneira de se desorientar na procura da causa dos seus estados de ânimo”15. Às vezes, certa apatia ou tristeza espiritual pode ser motivada pelo cansaço, pela doença…, mas com muito mais freqüência procede da falta de generosidade em corresponder ao que o Senhor nos pede, do pouco esforço em mortificar os sentidos, da falta de preocupação pelos outros. Em resumo, de um estado de tibieza. Em Cristo encontramos sempre o remédio para uma possível tibieza e as forças para vencer defeitos que de outro modo seriam insuperáveis. Quando alguém diz: “Sou irremediavelmente preguiçoso, não sou tenaz, não consigo terminar as coisas que começo, deveria pensar (hoje): Não estou tão perto de Cristo como deveria. “Por isso, aquilo que cada um de nós possa reconhecer na sua vida como defeito, como doença, deveria ser imediatamente referido a este exame íntimo e direto: Não sou perseverante? Não estou perto de Cristo. Não sinto alegria? Não estou perto de Cristo. Vou deixar de pensar que a culpa é do trabalho, que a culpa é da família, dos pais ou dos filhos… Não. A culpa íntima é do fato de eu não estar perto de Cristo. E Cristo me está dizendo: Volta. Voltai-vos para mim de todo o coração. “[…] Tempo para que cada um se sinta urgido por Jesus Cristo. Para que os que alguma vez se sentiram inclinados a adiar esta decisão saibam que chegou o momento. Para que os que estão dominados pelo pessimismo, pensando que os seus defeitos não têm remédio, saibam que chegou o momento. Começa a Quaresma; vamos encará-la como um tempo de mudança e de esperança”16.

(1) Cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 109; (2) Joel 2, 12; (3) Gên 3, 19; (4) J. Leclercq, Siguiendo el año litúrgico, Madrid, 1957, pág. 117; (5) João Paulo II, Homilia da Quarta-feira de Cinzas, 28-II-1979; (6) cfr. Mt 6, 24; (7) Ez 36, 31-32; (8) João Paulo II, Carta Novo incipiente, 8-IV-1979; (9) Sl 50, 3-6.12-14.17; (10) São Francisco de Sales, Sermão sobre o jejum; (11) São Leão Magno,Liturgia das Horas. Segunda leitura da quinta-feira depois das Cinzas; (12) São João da Cruz, Cântico espiritual, 3, 3; (13) Josemaría Escrivá,É Cristo que passa, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, n. 9; (14) 2 Cor 5, 20;Segunda leitura da Missa da Quarta-feira de Cinzas; (15) A. M. García Dorronsoro, Tiempo para creer, pág. 118; (16) ib.

 

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Hoje iniciamos a caminhada espiritual que nos conduzirá à festa anual da Páscoa: os cristãos professam a fé em Jesus Cristo que por nós morreu e ressuscitou. É cheio de simbolismo o rito das cinzas. Já era uma forma de penitência muito usada no Povo da Antiga Aliança. É curioso saber que as cinzas que hoje impomos sobre a cabeça, são provenientes dos ramos utilizados no Domingo da Paixão, do ano passado, lembrando a glória de Jesus entrando triunfalmente em Jerusalém. A Liturgia faz-nos um forte apelo! «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!» ou ainda «lembra-te que és pó e ao pó da terra hás de voltar.» As cinzas fazem-nos pensar na caducidade da nossa vida terrena. As cinzas fazem-nos pensar que precisamos de nos arrepender dos nossos pecados.

Esmola, oração, jejum
«Quando deres esmola!»
A nossa sociedade dá muito apreço a certos valores, como por exemplo, a solidariedade. Nas grandes catástrofes, as pessoas gostam de socorrer os habitantes das áreas afetadas. Mas há outros gestos de amor fraterno mais escondidos e que espiritualmente têm um valor evangélico elogiado por Jesus. As obras de misericórdia fazem parte do caminho de perfeição indicado por Jesus nas bem-aventuranças! Não socorremos os pobres para que o mundo nos estime e elogie publicamente, mas porque pela fé reconhecemos nos irmãos o próprio Deus. «O Pai vê o que fazemos no segredo e recompensará a nossa generosidade!»

«Quando rezardes»
A oração é a força que vence a Deus. Jesus também orou. O Evangelho mostra-nos muitas vezes Jesus orando no silêncio da noite, na solidão do deserto. Somos convidados a uma oração humilde, confiante, mais intensa. A nossa intimidade com Deus é favorecida pelo silêncio, pela privacidade. «Entra no teu quarto, fecha a porta e Deus Pai te dará a recompensa.»

«Quando jejuardes»
O jejum é uma terapia e uma fonte de cura. Espiritualmente a força do jejum é descrita pela Bíblia. Lembremos a grande cidade de Nínive, que Deus não destruiu, porque os seus habitantes jejuaram! Jesus também jejuou, santificando deste modo a nossa observância quaresmal. Também neste caso, nada de ostentação exterior! «Não desfigurar o rosto! Não apresentar um ar sombrio!» Pelo contrário, «perfuma a cabeça! O Pai sabe tudo e dar-te-á a recompensa!»

Alegria, irmãos! Pratiquemos jubilosamente estes três meios de penitência que o Evangelho ensina!
Resgatemos os nossos pecados com obras de misericórdia!
Rezemos por toda a humanidade!
Perfumemos a vida espiritual com a virtude da temperança!
Resumindo: reparte pelos pobres a tua renúncia quaresmal e Deus Pai te recompensará na Ressurreição dos justos!

Fala o Santo Padre
«Se a carne tem como destino o pó, o espírito é feito para a imortalidade.»
1. «Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum. Convocai a assembleia, reuni o povo. Determinai uma santa assembleia» (Jl 2, 15-16).
Estas palavras do profeta Joel esclarecem a dimensão comunitária da penitência. Sem dúvida, o arrependimento não pode partir senão do coração que, segundo a antropologia bíblica, é a sede das profundas intenções do homem. Porém, os atos penitenciais devem ser vividos também juntamente com os membros da comunidade.
Especialmente nos momentos difíceis, a seguir a uma desventura ou a um perigo, a Palavra de Deus, pela boca dos profetas, costumava convocar os fiéis para uma mobilização penitencial: todos estão convocados, sem qualquer exceção, desde os idosos até às crianças; todos unidos, para implorar de Deus a misericórdia e o perdão (cf. Jl 2, 16-18).
2. A Comunidade cristã escuta este forte convite à conversão, no momento em que se prepara para empreender o itinerário quaresmal, que começa com o antigo rito da imposição das cinzas.
Sem dúvida este gesto, que alguns poderiam considerar de outros tempos, está em contraste com a mentalidade do homem moderno, mas isto leva-nos a aprofundar o seu sentido, descobrindo a sua singular força de impacto.
Impondo as cinzas sobre a cabeça dos fiéis, o celebrante repete: «Recorda-te que tu és pó, e em pó te hás de tornar». Voltar a ser pó é a sorte que, aparentemente, irmana homens e animais. Porém, o ser humano não é apenas carne, mas também espírito; se a carne tem como destino o pó, o espírito é feito para a imortalidade. Além disso, o crente sabe que Cristo ressuscitou, derrotando a morte também no seu corpo. Ele caminha na esperança, rumo a esta perspectiva.
3. Portanto, receber as cinzas sobre a cabeça significa reconhecer-se como criatura, feita de terra e destinada para a terra (cf. Gn 3, 19); significa, ao mesmo tempo, proclamar-se pecador, necessitado do perdão de Deus, para poder dar nova vida à esperança do encontro definitivo com Cristo, na glória e na paz do Céu.
Esta perspectiva de alegria compromete os cristãos a fazer todo o possível para antecipar no tempo presente um pouco da paz futura. Isto pressupõe a purificação do coração e o fortalecimento da comunhão com Deus e os irmãos. Esta é a finalidade da oração e do jejum para os quais, diante das ameaças da guerra que incumbem sobre o mundo, convidei os fiéis. Com a oração, pomo-nos totalmente nas mãos de Deus e somente dele esperamos a paz autêntica. Com o jejum, preparamos o coração para receber do Senhor a paz, dom por excelência e sinal privilegiado da vinda do seu Reino.
4. Porém, a oração e o jejum devem ser acompanhados de obras de justiça; a conversão deve traduzir-se em acolhimento e solidariedade. A este propósito, o antigo Profeta admoesta: «O jejum que aprecio é este (…): abrir as prisões injustas, desatar os nós do jugo, deixar ir livres os oprimidos, quebrar toda a espécie de jugo» (Is 58, 6).
Não haverá paz na terra, enquanto perdurarem as opressões dos povos, as injustiças sociais e os desequilíbrios econômicos ainda hoje existentes. Mas para as grandes e desejáveis mudanças estruturais, não são suficientes iniciativas e intervenções exteriores; exige-se sobretudo a conversão do coração de todos ao amor.
5. «Convertei-vos a mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Poderíamos dizer que a mensagem da celebração de hoje se concentra nesta profunda exortação de Deus à conversão do coração.
Este convite é repetido pelo apóstolo Paulo, na segunda Leitura: «Suplicamo-vos, pois, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus… Este é o tempo favorável; este é o dia da salvação» (2 Cor 5, 20; 6, 2).
Caros Irmãos e Irmãs, eis o momento favorável para revermos a nossa atitude em relação a Deus e aos irmãos. Eis o dia da salvação, em que devemos examinar profundamente os critérios que nos orientam na nossa conduta quotidiana.
Senhor, ajudai-nos a voltar com todo o nosso coração para Vós, Caminho que conduz para a salvação, Verdade que liberta e Vida que não conhece a morte.
João Paulo II, Roma, 5 de Março de 2003

 

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG.

“Ó Deus, vós tendes compaixão de todos e nada do que criastes desprezais: perdoais nossos pecados pela penitência porque sois o Senhor nosso Deus” (Sb 11, 24s.27).

Iniciamos com a Quarta-Feira de Cinzas um tempo muito especial na vida da Igreja Católica. A Igreja quer santificar o tempo e neste sentido nos convida a viver um momento de retiro espiritual: a SANTA QUARESMA. Na Santa Quaresma tudo nos leva a pensar no tripé de conduta de vida: a penitência, percorrendo estes quarenta dias preparando-nos para a Páscoa, quando então celebraremos o mistério da morte e ressurreição de Nosso Senhor, centro da nossa fé, dedicando maior atenção para a ORAÇÃO, AO JEJUM e à RECONCILIAÇÃO com Deus e com os nossos semelhantes.

Meus irmãos,
As cinzas que serão impostas no dia de hoje são o principal símbolo litúrgico do início da Santa Quaresma, tanto que dão o nome ao dia e ao sagrado ofício litúrgico. As cinzas representam a pequenez do homem. Abraão ao falar com o Senhor, no Antigo Testamento, intercedendo por Sodoma, considera-se uma nulidade diante de Deus e, por isso mesmo, considera uma ousadia fazer um pedido: “Sou bem atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18,27). Por isso, ao recebermos as cinzas na Liturgia hodierna vamos pensar em duas atitudes fundamentais da vida cristã: ARREPENDIMENTO e PENITÊNCIA, PURIFICAÇÃO e RESSURREIÇÃO. Receber as cinzas é um compromisso de conversão: o abandono do pecado, de penitência pública, pedindo perdão a Deus pelos nossos pecados, purificando de nossas faltas e ressurgindo para uma vida nova, a vida da graça e da amizade com Deus, para viver nos quarenta dias do tempo quaresmal uma permanente e contínua vontade de retorno à vida da graça e mudança de vida, atendendo a própria oração de imposição de cinzas: “Convertei-vos e credes no Evangelho”.

Irmãos caríssimos,
Quaresma é tempo de oração, de penitência, de jejum e de abstinência de carne, tudo isso em função de ser a morte e a ressurreição de Jesus o centro da celebração de nossa fé. Por isso, para fazer penitência e se converter, é preciso muita humildade, muita disposição de mudança e muita persistência. A penitência começa conosco mesmos, dentro de nossas pequenas e grandes limitações, procurando corrigir nossos desvios e pecados e buscando lucrar a graça santificante de Deus. O orgulhoso é incapaz de fazer penitência, pois ela pressupõe humildade, o reconhecimento da pequenez de nossa natureza humana diante do Criador, diante do próprio mistério da criação.

Irmãos e Irmãs,
A Sagrada Liturgia insiste na autenticidade da penitência: rasgar o coração, não apenas as vestes. “Agora – diz o Senhor -, voltai para mim com todo o vosso coração com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes, e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar do castigo” (Joel 2,12-13). Além disso, a Liturgia insiste no caráter interior do jejum, juntamente com as outras “boas obras”, a esmola e a oração. A Primeira Leitura de hoje é uma exortação à penitência, ao jejum e a súplica. Penitência significa volta para Deus, por isso nós somos convocados pelo escritor sagrado: “rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”(cf. Jl 2,13). Esta nota sagrada nos convida a entrar em espírito penitencial, de mudança de vida, de hábitos, para a procura da via ordinária da santidade. Na Segunda carta de São Paulo aos Coríntios(2Cor 5,20-6,2), o Apóstolo proclama o novo tempo de reconciliação com Deus, com vistas à iminência da Parusia: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus” (2Cor 5, 20b-21). São Paulo nos exorta a valorizar a reconciliação, aproveitando o sacramento da penitencia oferecido por Cristo, que assumiu o nosso pecado, e a não deixar passar a oportunidade, já que este é o tempo oportuno e favorável, para a mudança de vida e a busca do rosto de Deus.

Caros irmãos,
O Evangelho deste dia(Mt 6,1-6.16-18) nos apresenta a esmola, o jejum e a oração como o triple fundamental para se viver bem o tempo favorável da Quaresma. Jesus nos apresenta estas três boas obras, que devem ser feitas em seu valor intrínseco, que só Deus vê, e não para serem vistos pelos homens e pelas mulheres. O verme da vaidade, que incita o orgulho e à hipocrisia, tira à justiça cristã da generosidade, da gratuidade, a sua pureza virginal que busca a Deus unicamente. O olhar do homem deturpa tudo o que toca; é de um ardil sutil e fatal; pode haver uma tendência a praticar a justiça “só para ser visto pelos homens”. As pessoas que fazem o pela de dar esmola, apenas para aparecer, que reza, que jejua, no palco de nossa ilimitada vaidade apenas e, secretamente não procura a justiça, mas ao egoísmo é réu da sua própria condenação. Jesus é claro no dia de hoje: o jejum, a esmola e a oração são agradáveis a Deus somente quando Ele vê: “Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”(cf. Mt 6,6)

Caros irmãos,
Na Quaresma somos chamados a contemplação do rosto do Senhor: rosto que na Quaresma se apresenta como “rosto sofredor”. Na Liturgia, nas Stationes quaresmais, e também na piedosa prática da Via Crucis, a oração contemplativa leva a unir-nos ao mistério d’Aquele que, mesmo não tendo conhecido o pecado, Deus identificou-O com o pecado em nosso favor (cf. 2 Cor 5, 21). Na escola dos Santos, cada batizado é chamado a seguir cada vez mais de perto Jesus que, subindo a Jerusalém e prevendo a sua paixão, confia aos discípulos: “Tenho de receber um batismo” (Lc 12, 50). O caminho quaresmal torna-se para nós, desta forma, seguimento dócil do Filho de Deus, que se fez Servo obediente. O caminho para o qual a Quaresma nos convida realiza-se, em primeiro lugar, na oração: as comunidades cristãs devem tornar-se, nestas semanas, autênticas “escolas de oração”. Depois, outro objetivo privilegiado é a aproximação dos fiéis ao Sacramento da reconciliação, para que cada um possa voltar a “descobrir Cristo como mysterium pietatis, no qual Deus nos mostra o seu coração compassivo e nos reconcilia plenamente Consigo” (Novo millennio ineunte, 37). A experiência da misericórdia de Deus, além disso, não pode deixar de suscitar o empenho da caridade, estimulando a comunidade cristã a “apostar na caridade” (cf. Novo millennio ineunte, IV). Na escola de Cristo, ela compreende melhor a exigente opção preferencial pelos pobres, opção que se for vivida “é dado testemunho do estilo do amor de Deus, da sua providência, da sua misericórdia” (ibid.).

Meus Irmãos,
A celebração de hoje tem outro significado muito importante: louvar e agradecer ao Senhor pela sua abundante misericórdia: “Lembra-te de que és pó e ao pó tornarás”. Perante a grandiosidade de Deus nós somos um “verme”, o menor, o mais ínfimo de todos os servidores. Por isso, Deus nos ama com profundidade e derrama sobre nós a sua misericórdia e a sua paz. Mesmo sendo pó, Deus sempre se lembrará de nós e cumprirá a Sua promessa de conceder o Reino das Bem-aventuranças. Fazer penitência não é ficar triste, mas, pelo contrário, é ficar alegre e feliz. “Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos” (Sl 50), rezamos no Salmo Responsorial desta celebração. É o canto da humildade clamando a misericórdia do Deus da Vida, sempre pronto a nos acolher, santos pela sua graça e pobres pecadores pelas nossas misérias, e nos coloca dentro da economia de sua Salvação. Nesse contexto de penitência e conversão, devemos perceber a misericórdia de Deus que confia com abundância na capacidade do homem de assimilar o Reino de Deus. Desta forma, a Liturgia de hoje nos ensina que penitência é um reflexo de reparação depois de uma falta. Sentimos a insuficiência do homem natural que somos. Tratamos de reparar isso, mas sabemos que o único que pode reparar mesmo é Deus. Por isso, a melhor penitência é: abrir espaço para Deus. Abrindo espaço para Deus, caminharemos quarenta dias, para vê-lo em toda a sua majestade, o SENHOR RESSUSCITADO QUE NA CRUZ MORREU PARA QUE RESSUSCITEMOS COM ELE. AMÉM!

 

ORAÇÃO QUARESMAL atribuída a Santo Agostinho

Senhor, na Vossa presença expomos as nossas faltas e simultaneamente as feridas que por causa delas recebemos. Se medirmos o mal que fizemos, é bem pouco o que sofremos e muito maior o que merecemos.

Mais grave o mal que cometemos, incomparavelmente inferior ao que suportamos. Sentimos que é dura a pena do pecado, mas depomos a obstinação de pecar. A nossa fraqueza geme esmagada sob o peso dos castigos com que nos punis justamente, e a nossa maldade não quer se desfazer dos seus caprichos.

O espírito anda atormentado, mas a cerviz não se verga. A nossa vida suspira no meio das dores e não nos corrigimos. Se contemporizardes conosco, não nos emendamos, e se tirais de nós vingança, gritamos que não podemos. Se nos castigais, sabemos declarar que somos réus, mas se afastais por um pouco a Vossa ira, esquecemos logo o que deploramos. Se levantardes a mão, logo prometemos a emenda, se retirais a espada, já nos esquecemos da promessa. Se nos feris, gritamos que nos perdoeis, se nos perdoais logo entramos de Vos provocar.

Aqui estamos Senhor, culpados que se confessam réus nesta Quaresma; não ignoramos que não nos perdoais, merecemos a morte. Pai onipotente, o que sem merecimento algum de nossa parte Vos pedimos, Vós que nos tirastes do nada. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

 

NORMAS PARA O JEJUM E A ABSTINÊNCIA
Publicada por Rafael Vitola Brodbeck

Chegou a Quaresma. Iniciamos o tempo forte da Igreja para combater, em nós, a influência do demônio, do mundo e da carne. E um dos métodos, que nos vem da Bíblia, e é atestado pela unânime tradição católica, é o jejum, em sentido amplo. Esse jejum abarca o jejum em sentido estrito, e as várias formas de abstinência.

Para melhor realizarmos o propósito que o Senhor tem para as nossas almas, a Igreja dá normas simples e mínimas para que os fiéis iniciemos a luta espiritual.

Conforme o Código de 1983, eis as normas:

Jejum: fazer apenas uma refeição completa durante o dia e, caso haja necessidade, tomar duas outras pequenas refeições que não sejam iguais em quantidade à habitual ou completa. Não fazer as refeições habituais, nem outros petiscos durante o dia (embora, pela tradição, se possa beber algo sem açúcar). Estão obrigados ao jejum os que tiverem completado dezoito anos até os cinqüenta e nove completos. Os outros podem fazer, mas sem obrigação. Grávidas e doentes estão dispensados do jejum, bem como aqueles que desenvolvem árduo trabalho braçal ou intelectual no dia do jejum.

Abstinência: deixar de comer carnes de animais de sangue quente (bovina, ovina, aviária, bubalina etc), bem como seu caldo de carne. Permite-se o uso de ovos, laticínios e gordura. Estão obrigados à abstinência os que tiverem completado quatorze anos, e tal obrigação se prolonga por toda a vida. Grávidas que necessitem de maior nutrição e doentes que, por conselho médico, precisam comer carne, estão dispensados da abstinência, bem como os pobres que recebem carne por esmola.

Quarta-feira de Cinzas: jejum e abstinência obrigatórios.

Sexta-feira Santa da Paixão do Senhor: jejum e abstinência obrigatórios.

Demais dias da Quaresma, exceto os Domingos: jejum e abstinência parcial (carne permitida só na refeição principal/completa) recomendados.

Dias assinalados pelo calendário antigo como Sextas-feiras das Têmporas: jejum e abstinência recomendados.

Dias assinalados pelo calendário antigo como Quartas-feiras das Têmporas e Sábados das Têmporas: jejum e abstinência parcial recomendados.

Demais sextas-feiras do ano, exceto se forem Solenidades: abstinência obrigatória, mas não o jejum. Essa abstinência pode ser trocada, a juízo do próprio fiel, por outra penitência, conforme estabelecer a conferência episcopal (no Brasil, a CNBB estabeleceu qualquer outro tipo de penitência, como orações piedosas, prática de caridade, exercícios de devoção etc).

 

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