Apresentação do Senhor e Purificação de Nossa Senhora

Por Mons. Inácio José Schuster

Hoje, 2 de fevereiro, 40 dias após a celebração do Natal, celebra a Igreja a festa da apresentação do Senhor ao templo. O Senhor entra em Sua própria casa. O Senhor é apresentado a Deus. Na verdade, de acordo com a lei de Moisés, deviam ser consagrados a Deus os primogênitos, isto é, as crianças do sexo masculino que nascessem por primeiro, de todas as mulheres. Eram pessoas estreitamente relacionadas com Deus. Jesus é filho de Deus, e, no entanto, submeteu-se a esta lei Mosaica. Foi apresentado e foi consagrado. Hoje, a Igreja celebra o dia da vida consagrada, isto é, são todos aqueles e aquelas que decidiram seguir radicalmente, “sine glossa”, o Evangelho de Jesus Cristo, emitindo os famosos 3 votos de pobreza, obediência e castidade. Estes religiosos e religiosas no Senhor são, para a Igreja, um sinal vivo, concreto, que o Reino de Deus está por vir. Abandonaram as riquezas deste mundo porque descobriram uma riqueza escatológica maior, que é Jesus Cristo ressuscitado. Estão de tal modo unidos a Deus, que não querem outra coisa a não ser realizar Sua vontade, expressa, concreta, historicamente, na vontade do superior religioso. E, finalmente, não se desejam casar, com quem quer que seja, a não ser com Deus, o próprio Criador. Emitem então o voto de castidade ou de virgindade perpétua. Não são apenas os religiosos aqueles chamados a seguirem radicalmente o Evangelho. De maneira diversa ou distinta, porque não existe uma única maneira concreta de se seguir Jesus, todos nós estamos chamados à radicalidade. O delicado em tudo isto é que não existem regras prontas ou parâmetros bons. Assim, por exemplo, se quero seguir Jesus pobre, até onde devo aumentar as minhas posses materiais? Se quero seguir Jesus obediente, como fazer para realizar em tudo a vontade de Deus? Se quero seguir Jesus casto e inteiramente dedicado ao Pai, como viver a castidade de acordo com meu estado? Para todos vale a ordem e o convite de Jesus. “Quem quiser ser Meu discípulo, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.” A festa de hoje é a festa da radicalidade. Dela estão excluídos apenas aqueles que afirmam a si próprios: “eu não fui feito para a radicalidade, eu prefiro navegar na mediocridade”. Mas eu espero que não seja o caso de nenhum daqueles que me vêem e me escutam neste momento. Pelo contrário, após esta meditação, procurar-se-á responder à seguinte pergunta: Que posso fazer mais em minha vida Cristã, para seguir Jesus Cristo com maior radicalidade, consagrando-me a Ele, ou então, vivendo a consagração batismal?

 

«Porque meus olhos viram a Salvação que ofereceste a todos os povos»
Beato Guerric d’Igny (c.1080-1157), abade cisterciense
1.º Sermão para a festa da Purificação da Virgem Maria, 2.3.5 ; PL 185, 64-65 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 470 ; cf SC 166, pp. 315 ss.)

Eis, meus irmãos, entre as mãos de Simeão, um círio aceso. Acendei também, nesta luminária, os vossos círios, lâmpadas que o Senhor vos ordena que segureis, acesas, em vossas mãos (Lc 12, 35). «Aqueles que O contemplam ficam iluminados» (Sl 33, 6); aproximai-vos, pois, de maneira a serdes, mais que meros portadores de velas, luzes que brilham no interior e no exterior, para vós mesmos e para o próximo.
Que haja, portanto uma vela acesa no vosso coração, na vossa mão, na vossa boca! Que a lâmpada que tendes no coração brilhe para vós mesmos, que a lâmpada que tendes na mão e na boca brilhe para o vosso próximo. A lâmpada que tendes em vosso coração é a devoção inspirada pela fé; a lâmpada que tendes em vossa mão, o exemplo das boas obras; a lâmpada na vossa boca, a palavra que edifica. Porque não devemos contentar-nos em ser luzes aos olhos dos homens por nossos atos e palavras, pois é preciso também que brilhemos diante dos anjos, com a oração, e diante de Deus, com as nossas intenções. A nossa lâmpada diante dos anjos é a pureza da devoção que nos faz cantar com recolhimento ou rezar com fervor, na sua presença. A nossa lâmpada diante de Deus é a resolução sincera de agradar unicamente Àquele diante de Quem encontramos a graça […]
Assim, a fim de acendermos todas estas lâmpadas, deixai-vos iluminar, irmãos, aproximando-vos da fonte da luz, Jesus, que brilha nas mãos de Simeão. Ele quer, seguramente, iluminar a vossa fé, fazer resplandecer as vossas obras, inspirar-vos palavras para dizerdes aos homens, encher-vos de fervor na oração e purificar as vossas intenções […]. E, quando a lâmpada desta vida se extinguir […], vereis a luz da vida que não se extingue levantar-se e elevar-se na noite como o esplendor da luz do meio-dia.

 

JESUS, MARIA E JOSÉ, SEJAM PARA NÓS O MODELO DE FAMÍLIA

No Evangelho de hoje vemos José e Maria, que formam uma família israelita comum, religiosa, que cumpre seus deveres e devoções. Seguindo a tradição cumprem o ritual de purificação da mãe e a apresentação de Jesus no templo: “Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor”. Jesus é consagrado ao Pai. José e Maria apresentaram Jesus como alguém pobre, oferecendo um casal de rolinhas ou pombinhas, a menor das ofertas. Lucas era muito inteligente e sabia bem o que escrevia. Repare que nessa passagem da Apresentação do Senhor Jesus no templo, o evangelista insiste em mostrar como os pais d’Ele seguiam às leis, todavia, o mais importante são as profecias de Simeão. De fato, Cristo foi sinal de contradição, pois sempre seguiu as leis, todavia, foi Ele mesmo quem veio libertar o povo dessas mesmas leis que oprimiam. O Filho de Deus é apresentado em Sua casa como pobre, um contraste com a riqueza do templo. Nesse local encontram o velho Simão, que fala maravilhas do Menino Jesus: “Luz para iluminar as nações”, luz que vinha de Deus Pai, e de Sua santidade, luz que nos liberta do pecado e da opressão. Diz que Jesus será aceito pelos excluídos e marginalizados da sociedade, e os poderosos e doutores da lei O rejeitarão, sendo então sinal de contradição. O que foi dito de Jesus deixam José e Maria admirados. O Senhor estava agora no templo em comunhão com o Pai, na casa do Pai, que também era Sua casa. E o Filho voltará para restaurar a casa do Pai, agora descaracterizada, pois Deus é e será sempre o protetor dos pobres, como o foi Jesus Nazareno em Sua vida inteira. Irmãos e irmãs, que Jesus, Maria e José, sejam para nós o modelo de família que é a imagem de Deus, sinal de amor entre Deus e a humanidade e da entrega Cristo à Sua Igreja. Jesus nos é apresentado todos os dias, basta que percebamos Seus sinais, mesmo nas pequenas coisas encontramos sinais de Cristo. Percebendo os sinais do Senhor nos tornamos pessoas melhores, menos egoístas, mais humanas, perdoando e sendo perdoadas. Sendo misericordiosos nos tornaremos luz na vida de alguém. E ao nos tornarmos luz para os necessitados, é sinal de que nós acolhemos Jesus e Seus ensinamentos e que queremos nos libertar de nossos pecados. Não esquecendo que, ao deixarmos nosso coração fechado para luz da vida de Cristo, esse será o principal caminho para nossa queda. E somos livres para escolher que caminho seguir: o caminho da justiça que liberta ou da injustiça que leva à morte. Maria, nosso exemplo de mãe e missionária, em sua humildade aceitou e guardou em seu coração tudo o que lhe foi dito no templo. Protegeu o Filho, mas sabia que O estava criando para a humanidade. Aprendamos de Nossa Senhora tudo o que ela tem a nos ensinar. Que Jesus seja a luz de nossas vidas, que possamos estar sempre a serviço do Reino de Deus e nos consagremos inteiramente a Ele. Confiemos em Seu amor de Pai, que nunca deixa um filho desamparado, mesmo quando achamos que fomos por Ele abandonados, Ele estará aqui sempre perto, no consolando e protegendo. Senhor Jesus, possa eu aprender de Ti e de Tua família a obediência ao Pai e o serviço humilde à humanidade.

 

O evangelista insiste sobre a proposição circunstancial: “Concluídos os dias da sua purificação”, mostrando a conformidade legal da Sagrada Família. Por outro lado, já anuncia Aquele que “veio para cumprir a Lei e os profetas”, mas que não se limita a uma observância material, dobrando-se às disposições da “letra” da Lei. Ele vai além, cumprindo-a em seu sentido profundo, “segundo o Espírito”, seu Espírito, o Espírito que tinha inspirado profeticamente Moisés. “Levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor”, e apresentaram este pequeno menino que necessitava ser “levado”, que Simeão vai “tomar em seus braços”, e cuja grandeza é em verdade mais brilhante que o raio: pois Ele é o sumo sacerdote, ao mesmo tempo,  que é a futura vítima da Nova Aliança, da qual a “apresentação” é o preâmbulo. Esta criança é o “Primogênito” por excelência, tanto de Deus como de sua mãe. Consagrado, Ele é  oferecido a Deus, como resgate, como Redenção de todos os homens de todos os tempos, capaz de lhes conceder uma purificação perfeita. “Esta purificação, escreve Orígenes, é de fato, não só fruto de Jesus, mas também de Maria: ela está associada ao seu Filho, fisicamente, pois ela “O traz” e “O leva” e Simeão vai lhe anunciar que ela comungará dos sofrimentos da Redenção. Esta purificação é de ambos, mesmo se Jesus seja o único Salvador, o Santo e o Redentor”. Este momento, portanto, manifesta o verdadeiro “Santo dos Santos”, perfeitamente “o Ungido” como significa o seu título de Cristo e de Messias. E as palavras de Simeão precisam o alcance universal desta “apresentação”: “Causa de soerguimento para muitos homens”; é Ele a “luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel”. E Santo Agostinho comenta que este idoso Simeão “se torna um destes pequenos a quem é prometido o Reino”. E eis seu último suspiro: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz”.

 

APRESENTAÇÃO DO SENHOR

A Igreja católica reservava outrora uma bênção especial às parturientes que, logo que o seu estado permitia, se apresentavam a Deus com seus. É provável que este uso se tenha introduzido na Igreja em memória e veneração da Mãe de Deus, que, obediente à lei do seu povo, fez a sua apresentação no templo. A festa que a Igreja hoje celebra tem o nome de Apresentação do Senhor no templo. E é também a Purificação de Nossa Senhora ou Senhora das candeias. É hoje o dia da bênção das velas (candeias) e em muitas igrejas, antes da celebração da Missa, organiza-se solene procissão, em que são levadas velas acesas, símbolos de Jesus Cristo – que, apresentado a Deus no templo de Jerusalém pelo santo velho Simeão, foi saudado como a luz que veio para iluminar os povos. Comemora-se o dia em que Maria Santíssima, em obediência à lei mosaica, se apresentou no templo do Senhor, quarenta dias depois do nascimento de Jesus. Para melhor compreensão deste ato de Maria, sejam lembradas neste lugar duas leis que Deus impôs, no Antigo Testamento. A mulher que desse à luz uma criança do sexo masculino ficava privada de entrar no templo durante quarenta dias a seguir ao parto; e se a criança era menina, o tempo da purificação era de oitenta dias. Passado este tempo, devia apresentar-se no templo e oferecer um cordeirinho, duas rolas ou dois pombinhos, e entregar a oferta ao sacerdote, para que este rezasse sobre ela. Com esta cerimônia, a mulher era aceita outra vez na comunhão dos fiéis, da qual a lei a excluía por algum tempo, depois de ter dado à luz. A segunda lei impunha aos pais da tribo de Levi a obrigação de dedicar o filho primogênito ao serviço de Deus. Crianças que pertenciam a outra tribo, que não a de Levi, pagavam resgate. É admirável a retidão e humildade de Maria Santíssima em sujeitar-se a uma lei humilhante, como foi a da purificação. A maternidade da Virgem, em tudo diferente da das outras mulheres, isentava-a desta obrigação. Davi enche-se de vergonha, quando se lembra da sua origem: “em pecados me concebeu minha mãe”. A Maria, o Anjo tinha dito: “O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”, São José recebeu do céu a comunicação consoladora: “O que dela (de Maria) nascerá, é do Espírito Santo”. Virgem antes, durante e depois do parto, o seu lugar não era entre as outras filhas hebréias, que no templo se apresentavam para fazer penitência e procurar perdão do pecado. Maria prefere, todavia, obedecer à lei e parecer atingida pela pecha comum a todas. Além disso, sendo de origem nobre, descendente direta de David, oferece o sacrifício dos pobres, isto é, dois pombinhos! Na humildade é acompanhada pelo Filho. Ele, que é “Filho do Altíssimo”, autor e Senhor das leis, não admite para Si motivos que O isentem das mesmas. Querendo ser nosso semelhante em tudo, exceto no pecado, sujeita-Se à lei da circuncisão. Por altura de ser apresentada Maria Santíssima no templo, deu-se um fato que merece toda a nossa atenção. Vivia em Jerusalém um santo chamado Simeão, muito velho, que com muito fervor aguardava pela vinda do Messias. De Deus tinha recebido a promessa de não sair desta vida sem ter visto, com os próprios olhos, o Salvador do mundo. Guiado por inspiração divina, viera ao templo quando os pais de Jesus nele entraram, em cumprimento das prescrições legais. Como os Magos conheceram o Salvador, este fez-Se conhecido por Simeão, o qual o tomou nos braços e bendisse a Deus, dizendo: “Agora, Senhor, deixai partir o vosso servo em paz, conforme a vossa palavra, pois os meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes diante dos olhos das nações; Luz para aclarar os gentios e glória de Israel, vosso povo!” José e Maria ficaram admirados do que se dizia do Menino. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: “Este Menino veio ao mundo para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. Vós mesma tereis a alma varada por uma aguda espada e assim serão patenteados os pensamentos ocultos no coração de muitos”. – Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Já estava muito velha. Vivera 7 anos casada, enviuvara e estava com 84 anos. Não deixava o templo, e servia a Deus dia e noite, jejuando e rezando. Tendo vindo ao templo na mesma ocasião, desfez-se em louvores ao Senhor e falava do Menino a todos os que esperavam a redenção de Israel. Cumpridas todas as prescrições da lei, José e Maria voltaram para casa. A Deus deve-Se louvor e gratidão, depois dum parto bem sucedido. De Deus vem todo o bem para a mãe e para o filhinho. É justo, pois, que a mãe peça a bênção divina. A mãe cristã sabe que sem a assistência e auxílio de Deus, não pode educar os filhos na virtude e no temor de Deus. Reconhecendo esta insuficiência, faz a Deus oferecimento do filho, prometendo ao Senhor ver nele uma propriedade divina, garantia do seu amor, e fazer tudo que lhe estiver ao alcance para educá-lo para o céu. Oxalá todas as mães cristãs eduquem os filhos para Deus, e não para o serviço do mundo, de Satanás e da carne!

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