II Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste domingo do tempo comum, nós escutamos um eco do precursor João Batista, traduzido para nós pelo Evangelista João. João Batista está no final de sua carreira. Ele viveu o dia mais importante de sua existência: apontou com seu dedo para Jesus e exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, eis aquele de quem eu havia dito”. Ao ouvirem esta afirmação do Batista, dois discípulos seu, André e um outro, se puseram a seguir Jesus. O quarto Evangelho, ao ver os dois discípulos, Jesus se volta para traz, os vê e pronuncia as primeiras palavras, que curiosamente serão as últimas deste Evangelho: “A quem procurais, o que quereis?” Os dois desconsertados responderam: “Rabi, onde moras?” Jesus lhes respondeu: “Vinde e vede”. Foram, viram, ficaram com Ele e depois começaram a chamar outros. André chamou seu irmão Simão, mais tarde foi chamado Felipe Natanael, e assim começou uma corrente de uns a chamar outros ao encontro de Jesus. Ainda hoje, no século XXI, a Igreja tem necessidade de precursores como João Batista, que apontem para Jesus, o único Cordeiro de Deus que tira o pecado deste mundo. Mas também tem necessidade de muitos outros, como André, como Simão Pedro, que convidem a outros cristãos. Estes que estão na seqüência de André e de Simão são os bispos e os sacerdotes, eles estão sempre presentes, sempre a serviço do Evangelho, e a principal tarefa que receberam na ordenação sacerdotal, é a tarefa de evangelizarem em nome de Jesus. Eles efetivamente estão cumprindo a missão a qual foram chamados por graça de Deus. Mas atenção: existe um lugar para o telespectador fiel, leigo, para se receber os tesouros de Jesus, é preciso se desinstalar, “Vinde e vede”. Aqueles que são preguiçosos, superficiais nas coisas do Espírito, aqueles que deixam Deus sempre para o penúltimo e último lugar, aqueles que estão sempre fazendo algum parêntese ou esperando o dia seguinte, estes correm o perigo de nunca conhecerem Jesus. Se você jamais teve um momento para um silêncio mais aprofundado, se você jamais fez um retiro espiritual na sua existência, se jamais rezou prolongadamente, você está correndo o risco de não conhecer Jesus. Você está bem instalado na sua poltrona, mas Jesus está passando e se afastando.

 

DESCOBRIR MEU LUGAR NA IGREJA
Dom Alberto Taveira
Queridos irmãos e irmãs, poderia o barro reclamar com o oleiro? Achar ruim pelas formas com que foi feito aquele jarro bonito ou quem sabe uma vasilha para conservar água fresca? Quem é capaz de moldar objetos de barro, de cerâmica, põe a sua alma na arte que faz, põe tudo que é capaz e expressa uma visão das coisas que tem. Nós somos obras deste artista que é Deus, e Deus é o melhor artista. E toda a obra que realizou o Senhor nosso Deus é bem feita. Nenhum de nós foi mal feito. Ou como ouvi uma um dia dizendo: “Nenhum foi feito no rascunho”. Deus nos fez como obras primas. Se você quebra aquele vaso, São Paulo diz que, ainda que seja um vaso de barro, ele carrega um tesouro impressionante. Você já tentou emendar um jarro bonito? O remendo fica muito feio. Por isso que as pessoas se tornam infelizes, porque não descobriram a grande maravilha que está em você buscar a obra do artista que foi o autor da sua vida. Hoje, o Apóstolo São Paulo nos recorda: o nosso corpo foi feito para o Senhor, e o Senhor para o corpo. E observa: ‘será que vocês não perceberam que vocês são templos onde o Espírito Santo habita? O Espírito Santo de Deus habita em cada um de nós e você será feliz na medida em que percorrer toda a sua existência entendendo a beleza da obra de arte que Deus fez. Esta obra de arte tem seu nome, tem essa marca, tem a assinatura de Deus feita no seu batismo. Eu via nesses dias um artigo em uma revista sobre obra de arte especialmente em cerâmica de algumas regiões do Brasil, e havia uma observação a respeito de um artista, que dizia que cada uma das obras que realiza é totalmente original. Deus é assim conosco, quando você descobre o plano deste artista, você é feliz. Em um tempo em que a Palavra de Deus andava rara, não é que Deus não falasse, mas os ouvidos é que estavam sendo fechados. Mas um jovem, Samuel, precisou aprender a discernir: Três vezes escuta um chamado, até que o sacerdote lhe diz: da próxima vez você responderá: “fala Senhor que o teu servo escuta!”. Isso tem o nome de vocação. Samuel, que depois observa as escrituras, não deixava cair no chão nenhuma das palavras do Senhor. Sua vocação, sua vida começou a ser pautada, não por simplesmente perguntar ‘o que eu quero’, ‘o que eu gosto’, mas ‘o que o Senhor quer de mim?’, ‘o que o Senhor pensa para mim?’. Já pensaram que revolução se todos nós que estamos aqui, a partir de agora, com a força da palavra que escutamos hoje, estivéssemos dispostos a dizer: ‘eu não vou mais usar o meu corpo apenas segundo os meus impulsos, mas vou buscar a palavra do Senhor para que esse corpo que é templo do Espírito Santo seja santo’. Duas idéias que quero deixar no coração de todos: Nós fomos criados como obra prima de Deus, ninguém é rascunho, ninguém é obra mal feita. Segundo: para eu ser feliz é necessário aprender este discernimento e não deixar cair nenhuma palavra do Senhor, antes, responder a esta palavra, ter a coragem de dizer o  ‘sim’. Gosto de recordar João Paulo II dizendo: “Não existe cristão sem vocação”. E ele explicava: ‘a vocação é um olhar de amor de Deus sobre cada pessoa. ‘ Eu tenho procurado plantar isso em vários lugares. Em paróquias, nós precisamos não só fazer uma pastoral das vocações para a vida religiosa, sacerdotal ou missionária, mas também uma pastoral vocacional para o matrimônio, até porque hoje, cresce o número de pessoas que não querem nem se casar, nem ser padre, nem se consagrar de forma nenhuma. Querem apenas desfrutar a própria vida. São homens, e mulheres, jovens e adultos destinados a infelicidade. Vocação é quando você descobre o ‘como’ você vai entregar a sua vida. Que bom se você pudesse descobrir que existe um chamado de Deus para você, não só se casar, mas para viver e receber o sacramento do matrimônio. Qual é o seu lugar na Igreja? Como fazer para descobrir? Dirijo-me especialmente aos adolescentes e jovens: Hoje, dois discípulos de João Batista escutaram João que aponta para Jesus e diz assim: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” Ali está o Cordeiro de Deus. E eles vão atrás de Jesus. Aqui está o ponto de partida, para você descobrir o seu lugar na Igreja, para você realizar os seus dons. O primeiro passo para alguém fazer essa experiência de discípulo, é o encontro com Jesus Cristo. Hoje eu faço um apelo muito especial, a jovens, rapazes e moças, que sentem essa inquietação no seu coração. Ninguém se exclua desta provocação, descubra o seu jeito de responder a nosso Senhor, porque você não pode ficar fora disso. Não mandei você ser batizado.  Por isso, se feito cristão, templo do Espírito Santo, sua vida tem agora esta marca, de responder ao convite d’Ele.

 

II Domingo do Tempo comum B
(1 Samuel 3,3b-10.19; 1 Coríntios 6, 13c-15a. 17-20; João 1, 35-42)
GLORIFICAI A DEUS EM VOSSO CORPO

A passagem do Evangelho permite-nos assistir à formação do primeiro núcleo de discípulos, do que se desenvolverá primeiro o colégio dos apóstolos e em seguida toda a comunidade cristã. João está ainda às margens do Jordão junto a dois de seus discípulos quando vê passar Jesus e não se retém de gritar de novo: «Eis aí o Cordeiro de Deus!». Os dois discípulos compreendem e, deixando o Batista, colocam-se a seguir Jesus. Vendo que o seguem, Jesus volta-se e pergunta: «O que buscais?». Respondem-lhe, para romper o gelo: «Mestre, onde vives?». «Vinde e vede», responde-lhes. Foram, viram, e aquele dia ficaram com ele. Esse momento passou a ser para eles tão decisivo em suas vidas que recordam até a hora em que ocorreu: era por volta das quatro da tarde. Na segunda leitura, São Paulo ilustra uma marca que deve caracterizar a vida do discípulo de Cristo: a pureza. «O corpo –diz entre outras coisas– não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo… Glorificai, portanto, a Deus com vosso corpo». Tratando-se de um tema tão ouvido e vital para nossa sociedade atual, vale a pena dedicar-lhe atenção. Talvez quem é capaz de entender melhor o tema da pureza são precisamente os verdadeiros enamorados. O sexo faz-se «impuro» quando reduz o outro (ou o próprio corpo) a objeto, a coisa, mas isto é algo que um verdadeiro amor rejeitará realizar. Muitos dos excessos em andamento neste campo têm algo de artificial, devem-se à imposição externa ditada por razões comerciais e de consumo. Não é, como se quer fazer crer, «evolução espontânea dos costumes», é evolução guiada, imposta. Uma das desculpas que contribuem mais a favorecer o pecado de impureza na mentalidade comum e a descarregá-lo de toda responsabilidade é que não faz mal a ninguém, não vulnera os direitos nem a liberdade dos demais, exceto, diz-se, se se trate de estupro ou violação. Mas não é verdade que o pecado de impureza acabe em quem o comete. Todo abuso, onde quer e por quem quer que seja cometido, contamina o ambiente moral do homem, produz uma erosão dos valores e cria o que Paulo define de «a lei do pecado», e da qual ilustra o terrível poder de arrastar os homens à ruína (Cf. Romanos, 7, 14 ss). A primeira vítima de tudo isso são precisamente os jovens. Fenômenos tão reprovados, como a exploração de menores, o estupro e a pedofilia, mas também certas atrocidades cometidas não sobre menores, mas por menores, não nascem do nada. São, ao menos em parte, o resultado do clima de exasperada excitação no qual vivemos e no qual os mais frágeis sucumbem. Não foi fácil, uma vez que se pôs em andamento, deter a avalanche de lodo que tempo atrás se abateu sobre populações do Brasil, destruindo-as. Era necessário evitar o corte de árvores e outros danos ambientais que fizeram inevitável o deslizamento de terra. O mesmo vale para certas tragédias de fundo sexual: destruídas as defesas naturais, aquelas se fazem inevitáveis. Mas hoje já não basta uma pureza feita de medos, tabus, proibições, de fuga recíproca entre o homem e a mulher, como se cada um deles fosse, sempre e necessariamente, uma insídia para o outro e um inimigo potencial, em vez de, como diz a Bíblia, «uma ajuda». É necessário enfatizar em defesas já não externas, mas internas, baseadas em convicções pessoais. Deve-se cultivar a pureza por si mesma, pelo valor positivo que representa para a pessoa, e não só pelos perigos de saúde ou de bom nome aos que expõe sua transgressão. A pureza assegura o mais precioso que existe no mundo: a possibilidade de aproximar-se de Deus: «Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus» (cf. Mt 5, 8. Ndr), disse Jesus. Não o verão só um dia, após a morte, mas já agora: na beleza do criado, de um rosto, de uma obra de arte; vê-lo-ão em seus próprios corações.

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