Solenidade da Epifania do Senhor

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Mateus 2, 1-12
Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judéia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judéia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.» Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-me para eu ir também prestar-lhe homenagem.» Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.

Hoje, domingo, nós celebramos a solenidade da Epifania do Senhor. Este vocábulo significa manifestação. Hoje alguns fiéis cristãos orientais celebram o seu Natal, e nós o vivemos em comunhão com eles. Jesus, diz o Evangelho de hoje, foi adorado por três personagens exóticos vindos do oriente. A tradição cristã posterior foi quem os numerou três. Foi esta mesma tradição quem mostra o longínquo oriente, a Pérsia de onde vieram e que lhes deu nomes. O importante nesta solenidade é sabermos que Jesus não nasceu apenas para os Judeus representados pelos pastores de Lucas no presépio de Belém. Mateus traz outra dimensão do nascimento de Jesus e de sua ação futura, que Lucas nas páginas da infância não menciona explicitamente, ao dizer que personagens pagãos vieram do longínquo oriente para render homenagem ao Rei dos Judeus. Mateus está antecipando o que Jesus diria mais tarde na conclusão de uma de suas parábolas: “Muitos virão do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa com o Deus dos patriarcas, com o Deus de Abrão, Isaac e de Jacó”. O que Mateus hoje quer dizer e o que a Igreja hoje celebra neste tempo de natal é o universalismo da missão salvadora de Jesus. Ele não veio só para o povo judaico; Ele veio como luz que resplandece por toda humanidade. Ele veio iluminar todos os seres humanos, e por isto mesmo hoje é o dia litúrgico das missões, todos os povos não judeus podem se sentir representado e antepassado naquelas figuras exóticas que vieram adorar o rei dos judeus. Todo trabalho missionário da Igreja não tem outro escopo e finalidade a não ser levar os pagãos num serviço litúrgico agradável a Deus, a honrá-lo como Deus merece. Vivamos neste ano de 2018 e espírito da Epifania, que é o universalismo; sejamos orgulhosos a pertencer a uma Igreja que desde o início se chamou católica, isto é, universal; chamada a estar presente em todos os povos e a transformar raças tão distantes, tão diversas, e pessoas de línguas tão diferentes num único povo que possua uma única fé, que tenha como meta uma única realidade para qual se dirija na esperança, e, sobretudo um povo que apesar de tantas dificuldades se ame, se compreenda e se una cada vez mais. Eis o mistério da Epifania, eis o mistério da Igreja embutido no mistério da Epifania, todos os povos formando um só coração, uma só alma, pelos serviços dos missionários e pelo seu também a louvar e bendizer a Deus.

 

«Viram o menino com Maria sua mãe. Prostrando-se, adoraram-No»
Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), bispo e Doutor da Igreja
Meditações para a oitava da Epifania, n°1 (a partir da trad. Noël, Eds. Saint-Paul 1993, p. 302 rev.)

Os magos encontram uma pobre jovem com uma pobre criança coberta de pobres faixas […] mas, ao entrarem naquela gruta, sentem uma alegria que nunca tinham experimentado. […] A divina Criança demonstra alegria: sinal da satisfação afetuosa com que os acolhe, como primeiras conquistas da Sua obra redentora. Os santos reis olham em seguida para Maria, que não fala; mantém-se em silêncio, mas o seu rosto reflete a alegria e respira uma doçura celeste, prova de que lhes presta bom acolhimento e lhes agradece por serem os primeiros a vir reconhecer o seu Filho naquilo que Ele é: o seu Mestre soberano. […] Criança digna de amor, vejo-Te nessa gruta, deitado na palha, pobre e desprezado; mas a fé ensina-me que Tu és o meu Deus, descido do céu para minha salvação. Reconheço-Te como meu Senhor soberano e meu Salvador; proclamo-Te como tal, mas nada tenho para Te oferecer. Não tenho o ouro do amor, porque amei as coisas deste mundo; amei apenas os meus caprichos em vez de Te amar a Ti, que és infinitamente digno de amor. Não tenho o incenso da oração, pois infelizmente vivi sem pensar em Ti. Não tenho a mirra da mortificação, porque, por não me ter abstido de miseráveis prazeres, tantas vezes contristei a Tua infinita bondade. Que Te oferecerei então? Meu Jesus, ofereço-Te o meu coração, manchado e despojado: aceita-o e transforma-o, uma vez que vieste cá abaixo para lavar com o Teu sangue os nossos corações culpados e transformar-nos assim de pecadores em santos. Dá-me, pois, esse ouro, esse incenso, essa mirra que me faltam. Dá-me o ouro do Teu santo amor; dá-me o incenso, o espírito de oração; dá-me a mirra, o desejo e a força de me mortificar em tudo o que te desagrada. […] Virgem santa, tu acolheste os piedosos reis magos com uma viva afeição e eles ficaram cheios de felicidade; digna-te também acolher-me e consolar-me, a mim que venho, seguindo o seu exemplo, visitar e oferecer-me ao teu Filho.

 

Nossa força e vitória é Jesus
Padre Roger Luis

Neste Ano Novo nós precisamos guardar isso: “nossa força e vitória tem um nome e é Jesus”. Ele é nossa força, nossa vitória, nossa esperança e alegria. Precisamos voltar para casa nessa certeza, celebrando a glória de Deus que hoje a Igreja nos permite recordar, na Festa da Epifania. Um Deus que é acessível, que se deixa encontrar. Antes do nascimento de Jesus, muitos achavam que Deus era distante e até inacessível, mas com o nascimento em Belém de Judá, com a encarnação de Jesus, esse Deus se deixou encontrar por todos nós. Ele se deixa tocar e toca em cada um de nós, quando abrimos o coração. Talvez algumas pessoas chegaram aqui e não tinham tido ainda uma experiência pessoal com esse Deus que permite que nós o enxerguemos e que quer nos tocar. Ele quer entrar na sua vida, quer transformar o seu coração, quer mudar sua vida. Diga comigo: “toca Senhor, toca em mim. Me alcança Senhor, assim como o Senhor permite que eu te alcance, alcança minha vida, minha história. Eu quero ser alcançado por Ti, ser tocado por Ti, ser envolvido por Ti. Eu quero ser encontrando. Obrigado Senhor, porque eu posso sentir que o Senhor me encontra. Muito obrigado Jesus”. A Igreja vai dizer no Catecismo da Igreja Católica (CIC), no número 528 que a Epifania é a manifestação de Jesus como Messias de Israel, o Filho de Deus e Salvador do mundo. Assim como esse magos acolheram a boa nova da salvação, nós precisamos acolher. Os magos eram pagãos, adoravam os astros, mas foram humildes e sensíveis, ao ponto de serem atraídos por Deus. A alegria do Senhor é a nossa força Deus se utiliza de todas as coisas para atrair aqueles que são Dele. Deus os atraiu por uma estrela, algo tão comum para eles, mas foi assim que Deus os atraiu para a Verdade. A partir do momento que Deus se revela a eles, os magos começam a romper com a vida velha. “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2). O Ano Novo está apenas começando, deixe as coisas velhas para trás. A partir do momento que os reis magos permitem ser conduzidos por aquela estrela, eles já sabiam que tudo o que eles haviam vivido não fazia mais parte de suas vidas, porque o Messias havia nascido para eles. É isso que Deus quer de mim e de você, assumir uma vida nova nesse Ano Novo. Você seguiu a estrela, foi até o presépio, você viu o Menino. Você não pode mais ficar com a vida velha. “Portanto, se alguém está em Cristo, é criatura nova. O que era antigo já passou, agora tudo é novo” (2Cor 5, 17). Fale comigo: “tudo se fez novo na minha vida, eu encontrei o sentido da minha vida: Jesus. Ele é o motivo da minha alegria. Jesus, aquele que me dá a vida nova. Eu te encontrei Jesus. Eu te encontrei e, hoje, estou assumindo a vida nova, porque eu estou em Cristo. Passou o que era velho. Tudo se fez novo. Eu sou um homem (mulher) novo (a), em Cristo Jesus”. Nós fomos iluminados por uma forte luz e onde essa luz chega as trevas se dissipam. Você só pode aceitar a luz de Cristo na sua vida e nada mais. Nós temos que ser ousados e romper com a vida velha. Nós temos que ter coragem de ser diferentes, de dar testemunho, de dizer “eu não quero mais essa vida velha”. Se você permanecer fiel a Deus, tudo o que você está experimentando de vida nova é só o começo de tudo o que Deus quer fazer em sua vida. O mundo continua nas trevas, mas sobre Ti apareceu o Senhor e Sua gloria já se manifesta sobre Ti. Você faz parte desse povo convocado por Deus para permanecer na luz. Diga: “eu vou permanecer na luz, Senhor. Continuar na Tua luz, ilumina todas as áreas de trevas na minha vida, porque eu vou permanecer na Tua luz”. O que você precisa deixar hoje para continuar seguindo Jesus? O que você ainda possui e precisa abandonar para ser uma pessoa feliz? Para ficar com Jesus? Hoje precisamos oferecer nossa liberdade a Jesus, no lugar do ouro oferecido pelos magos, nossa decisão, no lugar do incenso e a nossa consciência lavada e purificada pelo Sangue de Jesus, no lugar da mirra. Qual é a sua decisão? Siga o caminho de Jesus. É vida nova, é Ano Novo. Permaneça com o Menino, pois só Ele pode te dar a vitória, a força e tudo o que você precisa. A resposta é sua.

 

São Cirilo de Jerusalém (séc. IV) escreveu um livro, intitulado “Catequeses Mistagógicas”, onde nos explica a celebração do batismo. Diz-nos que no momento das renúncias, os batizandos estavam com as caras voltadas para o Ocidente. Quando faziam a profissão de fé e eram batizados, tinham as caras voltadas para o Oriente. São Cirilo explica-nos a razão deste gesto. Do Oriente, vem a luz, é onde nasce o dia: é onde nos vem a salvação pela vida nova que se recebe no batismo. A renúncia faz-se com a face voltada para o Ocidente, ou seja, para a noite. Também aqui poderíamos recordar Santo Inácio de Antioquia que nos diz que vem do Oriente para o Ocidente para se “ocultar ao mundo e voltar novamente a nascer, com Cristo, pelo caminho do martírio”. Como não recordar a orientação das igrejas antigas cristãs! Hoje, recordamos que “uns Magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém”, porque tinham visto a estrela do rei dos judeus que acabava de nascer. Viram a luz que tinha nascido, expressão perfeita e natural do mistério do Natal que ainda estamos a celebrar. A profecia de Isaías cumpriu-se: “Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor”. No Oriente, esta festa é para os cristãos de grande importância. Nos textos desta solenidade, encontramos muitas referências a esta “manifestação, epifania” de Deus que está presente entre os homens. O mistério já não é secreto; foi revelado, como nos diz São Paulo: “os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho”. Os Magos são o sinal desta universalidade que contém o mistério cristão: é para todos os povos, para todos os homens e mulheres, de todos os tempos, de todas as culturas e raças, porque Deus fala sempre ao coração de cada um. Num tempo em que tanto se fala de globalização, como é importante a mensagem deste dia! O Evangelho é para todo o mundo e a nossa missão é difundi-lo até aos confins da terra.
Os Magos ainda nos convidam a fazer uma outra reflexão. Eles foram capazes de interpretar os sinais que tinham ao seu alcance. Viram a estrela, estudaram-na, puseram-se a caminho e perguntaram sobre o seu sentido até chegar às Escrituras. Depois, contemplaram o mistério (o Menino), ofereceram-lhe o melhor que tinham com um profundo sentido e “regressaram à sua terra por outro caminho”, porque a contemplação do mistério os transformou completamente. Todos os sinais dos tempos que hoje temos ajudam-nos a fazer também este processo de vê-los, de interpretá-los à luz da palavra, de contemplá-los e celebrá-los na nossa vida, de oferecer o melhor de nós próprios e de fazer com que a nossa vida se transforme (convertidos). Todo este processo deverá ser feito pessoalmente, mas também com a comunidade e com toda a Igreja, porque a Igreja é, hoje, o sinal, como a estrela, que convida a todos a fazer este processo de fé. Temos que ajudar a “orientar” a vida do mundo e de cada pessoa, nosso irmão. A Igreja é sacramento. “Olhai com bondade, Senhor, para os dons da vossa Igreja, que não Vos oferece ouro, incenso e mirra, mas Aquele que por estes dons é manifestado, imolado e oferecido em alimento, Jesus Cristo, Vosso Filho”, diz a Oração Sobre as Oferendas. A manifestação de Deus que acontece em cada eucaristia faz-nos participar pessoalmente do mistério de Deus “para que possamos contemplar com olhar puro e receber de coração sincero o mistério em que por vossa graça participamos” (Oração Depois da Comunhão).

 

A manifestação do Senhor
A presença de Deus faz a humanidade mudar de rumo
Dom Paulo Mendes Peixoto

No Natal celebramos o nascimento do Menino Deus. Na Epifania, esse mesmo Filho de Deus se manifesta ao mundo como divino e humano. É a revelação daquilo que o mundo busca hoje, isto é, a paz, a unidade, a comunhão e a preservação da terra. Deus vem a terra para humanizá-la, fazendo com que a Criação seja resguardada na sua integridade e na dignidade. Para os destruidores da terra e da humanidade, a manifestação do Filho de Deus é atitude de rivalidade. A Sua mensagem exige justiça e honestidade no trato com os bens da natureza. Jesus vem como a estrela que brilha na cultura da escuridão, ameaçando o poder político desonesto e explorador do povo e da nação. Transparece um grande contraste entre a humilde aldeia de Belém e a pomposa e orgulhosa metrópole de Jerusalém. É a força da simplicidade deixando preocupado o orgulhoso poder dominador do rei de Israel. Dificilmente a força do imperialismo consegue ficar de pé se apoiando em falsas e infundadas iniciativas. A presença de Deus faz a humanidade mudar de rumo. Os critérios de ação são outros, exigindo compromisso com o sentido real da vida. O cenário da violência e da submissão deve ser superado, valorizando a força da solidariedade e da partilha. O egoísmo, as práticas inconseqüentes e irresponsáveis levam à autodestruição. O sonho dos cativos é a busca da liberdade, o retorno a uma vida feliz. Esta é a esperança no Rei que se manifesta, revelando o plano divino escondido para as gerações do passado. Jesus se manifesta não como “salvador da pátria”, mas como “Salvador do mundo”. Isso não foi entendido pelos sábios de outrora. Tendo havido a manifestação de Jesus, cabe a nós hoje ver Nele a nossa vida e a nossa história. Ter a mente e o coração abertos para encontrá-Lo na sinceridade e no compromisso de vida. Assim poderemos ser luz e caminho para todas as pessoas que vivem sem esperança e atropeladas pelas grandes dificuldades e crises da vida.

 

Epifania do Senhor

Cidade do Vaticano – Isaías anuncia a manifestação da glória do Senhor sobre Jerusalém e a conseqüente vinda para ela dos outros povos, para também serem iluminados pela luz divina. Jerusalém é o centro, atrai para si a atenção dos povos, mas ao mesmo tempo vive a vocação de iluminá-los, de conduzi-los ao Senhor. Paulo nos fala que essa glória do Senhor é o mistério de Jesus Cristo, ou seja, a glória do Senhor que ilumina Jerusalém e atrai para ela os demais povos, é Jesus Cristo com sua salvação. Através dele todos os povos “são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa”. O Evangelho de Mateus explicita essa atração dos povos pela luz que ilumina Jerusalém, através da vinda dos magos, conduzidos pela luz de uma estrela que irá pairar sobre a casa onde se abriga Jesus, a misericórdia, a salvação, a própria luz! Contudo os doutores da Lei, aqueles que deveriam possibilitar a Luz iluminar, lendo e anunciando os escritos dos profetas, especialmente aquele que diz que será em Belém o nascimento do Messias, do Salvador, não querem ser incomodados pela luz e preferem permanecer na escuridão. Pouco lhes importa que a missão do Messias seja unir o povo de Deus e iluminar as nações. Os magos, fascinados pelo clarão apreendido nos estudos dos astros e da natureza, já que não possuem as profecias, intuem e tem conhecimento do nascimento do Salvador e sabem que é naquela região. Ao visitarem o Messias, lhe ofertam ouro, incenso e mirra. Ouro, ao rei; mirra, o óleo com o qual esposa se perfuma para suas núpcias, sinaliza que o Senhor é o esposo; e incenso, ao Deus encarnado. Discernindo a reação do rei Herodes, os magos não retornam a ele após a visita ao Senhor. Para nós, batizados, que temos o conhecimento da vinda do Messias, que a celebramos a cada ano no Natal, como é nossa postura em relação às exigências da revelação? Somos seus anunciadores a todos os homens? Aceitamos que o Senhor se revela a todos e de modo diverso, de acordo com a cultura e possibilidades de cada um? Cremos que a Igreja é a nova Jerusalém, de onde brilha a Luz do Sol verdadeiro, Jesus Cristo, e para ela se dirigem todos os povos, todos os homens de boa vontade? Também, como os Magos desviamos nossa caminhada daquelas pessoas ou situações que nos afastam de Deus, que optaram pelo Mal? Que preferem o acomodamento à prática do bem? Ser cristão é acreditar que a vinda de Jesus Cristo trouxe para a Humanidade a união definitiva de Deus com o Homem e que todos os homens são chamados a viver essa união e que a Igreja tem a missão de ser farol, porque nela está a Luz verdadeira. Epifania, – manifestação da misericórdia de Deus a todos os homens,- façam já parte da Igreja ou ainda não.

Fonte: Radio Vaticano

 

Festa da Epifania do Senhor
Mt 2, 1-12 “Viemos prestar-lhe homenagem”

Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal – a Manifestação do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que Jesus foi manifestado, não somente ao seu próprio povo, mas a todos os povos e nações, representados pelos Magos do Oriente. Embora a festa tenha muita popularidade folclórica, também esconde uma grande verdade da fé – que a salvação em Jesus é para todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus. O texto de hoje é altamente simbólico – usa uma técnica da literatura judaica chamada “midraxe”, ou seja, uma releitura de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las.
Assim, Mateus quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do Antigo Testamento. Por exemplo:
– Vêm os magos (nem três, nem reis!) buscando o Rei dos Judeus. Esses magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Êx 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9, 11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas maravilhas feitas por Ele.
– A estrela é sinal da vinda do Messias, relendo a profecia de Balaão em Nm 24, 17.
– O menino nasce em Belém, conforme a profecia de Miquéias (Mq 5, 1)
– Os presentes lembram as profecias de Segundo e Terceiro-Isaías, e dos Salmos, sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23; 60, 5; Sl 72, 10-11).
– Herodes, como o Faraó, massacra os filhos do povo de Deus (Êx 1, 8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes diante do nascimento de Jesus. Os que deveriam reconhecer o messias – pois são versados nas Escrituras – ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo através da religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe presentes, sinal da partilha, grande característica do Reino que Jesus veio pregar. Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e do seu evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico com shows e cantos, mas que de forma alguma possa questionar a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todas as pessoas de boa vontade têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer. Jesus não precisa de presentes, mas, sim do nosso esforço na vivência do seu Reino. Na prática, temos que optar – para a vivência religiosa vazia como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca todas as pessoas de boa vontade, sem distinção de raça, cultura ou tradição religiosa, representados hoje pelos magos, para a construção do mundo de paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (Jo 10, 10).

 

Os Reis Magos

Cidade do Vaticano – Comemora-se no próximo dia 6 o “Dia de Reis”, isto é, a festa dos Reis Magos. Dentro de nossa liturgia, essa comemoração está intrinsecamente unida à Epifania, ou seja à manifestação de Deus, já que o mistério renovado é a manifestação de Jesus Cristo a todos os povos. Contudo, para facilitar a celebração de mistério tão importante, passou-se sua liturgia para o domingo logo após à solenidade de Maria, Mãe de Deus. Todavia, nosso calendário popular continua assinalando o dia 6 de janeiro como o Dia de Reis.
Mas, quem são os Reis Magos?
Vamos procurar responder a essa pergunta estudando os Evangelhos e pesquisando em inúmeros documentos. Em primeiro lugar, o relato de São Mateus não é uma reconstituição histórica do que de fato aconteceu, pelo menos não foi essa sua intenção. O Evangelista e sua comunidade original quiseram mostrar que o Messias não veio para salvar uma pátria, mas todo o mundo. Mateus escreve para os judeus cristianizados, quer mostrar que Jesus é o descendente de Davi e que sua missão é oferecida aos pagãos. Não parece verdadeiro que toda Jerusalém tenha ficado alarmada e nem que Herodes tenha convocado todos os sumo sacerdotes e nem que tenha permitido aos magos prosseguirem em seu caminho. Também não deve ser verdadeiro que a estrela tenha seguido um curso contrário às leis naturais. Não se deve buscar uma explicação segundo as leis da astronomia. Quanto aos “Reis Magos”, o texto evangélico não fala em três, mas em “magos do Oriente”. No século III, Orígenes fala em três, provavelmente por causa dos três presentes: “ouro, incenso e mirra”. Já São João Crisóstomo, no século IV, fala em 12. Em algumas catacumbas encontramos o números 2 e 4.
Os nomes usuais Melchior, Gaspar e Baltasar aparecem em um manuscrito do século V. Segundo Heródoto, os “magos” eram uma tribo dos medos, que se transformou numa casta de sacerdotes entre os persas e que praticavam a adivinhação, a medicina e a astrologia. Provavelmente Mateus pensa em astrólogos oriundos da Babilônia. Para os judeus, “Oriente” era toda a terra que se estendia além do Jordão. Devido aos presentes oferecidos ao Menino, a tradição cristã considerou os magos oriundos da Arábia, o país do incenso. Já em Is 60,6 vemos que a estrela-guia, na época de Mateus essa idéia não causaria estranheza alguma. Flávio Josefo, um grande historiador judeu, relata histórias semelhantes de estrelas que surgiam quando nascia pessoa destinada a uma grande missão. Por isso, a reação de Herodes, e muito provável.
Mas essa história da estrela já surgiu em Nm 24, 17.19, mil e duzentos anos antes do nascimento de Jesus: “Eu o vejo, mas não é um acontecimento que acontecerá dentro de pouco tempo; sinto-o, mas não está perto: uma estrela desponta da estirpe de Jacó, um reino, surgido de Israel, se levanta… Um rebento de Jacó dominará sobre seus inimigos”.
E agora, em que vamos acreditar?
O relato de Mateus deve ser compreendido à luz da intenção teológica do evangelista, o qual não pretendeu escrever um relato histórico, mas mostrar o significado salvífico do nascimento de Jesus: ele veio para todos os homens, como a luz. Ao ser acendida, ilumina a todos, indistintamente.

Fonte: Rádio Vaticano

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