Os personagens da noite de Natal

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‘Lugar do nascimento de Jesus Cristo’
É impossível ao homem passar pela contemplação da Encarnação de Cristo sem que se deixe tocar por tão maravilhoso mistério. Ele precisa apenas encontrar lugar no coração humano, como encontrou no coração de alguns dos personagens da noite de Natal.
Mas quem foram esses homens e essa única mulher que, de alguma forma, participaram daquela noite diferente de todas as outras? O que eles têm em comum conosco, homens do século XXI? Quais suas características? Será que são espelhos para nós?
Elio Passeto, religioso da Congregação Nossa Senhora de Sion, especializado em cultura judaica e residente há 26 anos na Terra Santa, concedeu uma entrevista exclusiva para o Portal Canção Nova sobre este tema.

– Quem eram os pastores? Eles eram judeus?
Esses personagens são elementos externos do fato que estava ocorrendo, ou seja, do nascimento de Jesus, da manifestação de Deus de maneira concreta na história. Até porque, eles não eram judeus, não eram aqueles que estavam esperando o Messias.
Eles só aparecem depois do nascimento do Menino e são convidados a anunciar o fato. No fundo, eles são os transmissores da Boa Nova à humanidade. Com os pastores, o nascimento de Jesus sai do particular do povo judeu e vai para o quadro universal, para toda a humanidade.
O interessante é que este fato ocorreu à noite, e os pastores estavam aguardando e guardando algo: o rebanho. No momento em que acontece o nascimento, que Deus se faz presente e se revela, eles são aqueles que percebem, porque estão atentos, em sentinela. Usam  a linguagem simples, num primeiro nível, que é o dialeto do pastor, daquele que cuida, que vela. Por outro lado, usam também o vocabulário teológico que traz em si o significado um pouco mais profundo:  eles aguardam por algo novo que está para acontecer.
Nós devemos ser como os pastores de Belém?
Os pastores representam as pessoas que estão sempre alerta. O cristão é aquele que deve estar atento à percepção de Deus, saber o que Ele está querendo falar, o momento em que Ele está se manifestando em nossas vidas. O Senhor não se manifesta no espetacular, mas no simples, no dia a dia. Somos chamados como pastores a estarmos atentos para percebermos a forma como Deus se manifesta e anunciar que Ele se manifestou.

– E os Reis Magos? Que teologia eles nos trazem?
Os três Reis Magos representam o Oriente, a tradição que antecede o nascimento de Jesus, a tradição bíblica. A ideia dos Reis Magos nos remete à sabedoria, ao conhecimento de um passado importante, de um conteúdo que está sendo transmitido. Eles trazem todo um conhecimento, uma cultura oriental. A nossa fé não nasce no Ocidente, embora ela se expanda e se desenvolva lá, mas ela nasce no Oriente. Os Magos nos recordam esta profundidade histórica de uma fé que nasce em Abraão e tem seu cume em Cristo.

– O rei Herodes é uma ‘figura inquietante’, mas também está presente na noite de Natal.
É o personagem que circula em torno do nascimento. Para nós que vivemos aqui, percebemos que Herodes foi, de fato, uma pessoa importante. Ele deixou grandes construções, foi um homem de grande capacidade de construção. O reinado dele não foi justificado pelo Judaísmo como Saul, Davi e Salomão, mas ele recebeu o título do Império Romano, e o conquistou por meio de forças políticas.
Casou-se com uma mulher judia chamada Mirian para justificar um pouco a proximidade com o mundo judeu, mas matou sua esposa e os dois filhos que teve com ela.
Com a figura de Herodes vemos dois reinados em discussão, mas qual o verdadeiro: o estabelecido por Deus ou pelo homem? Herodes representa o reinado humano de um anti-Deus. Jesus, que está nascendo, traz um reinado para a humanidade, o qual é estabelecido pelo verdadeiro Rei, Deus que se manifesta em meio aos homens.

– São José era este homem idoso que vemos retratado nas imagens?
Se voltarmos um pouco àquele tempo, vamos nos lembrar que uma menina ou um menino de 12 e 13 anos eram considerados adultos na cultura judaica. Quando José e Maria ficaram noivos, ela teria entre 13, 14 anos. Ele era um pouco mais velho  – por volta dos 30 -, mas não era um idoso, de idade avançada como o vemos, muitas vezes, caracterizado no Ocidente.
Maria é a figura chave de todo o processo do Natal. É importante ressaltar que toda resposta que ela deu a Deus foi particular e livre. Ela poderia ter dito ‘não’ ao chamado do Senhor.
É importante ligarmos esse ‘sim’ de Maria com todos os ‘sins’ da história da Bíblia. Mulher atenta, sempre a espera de Deus, a quem dá uma resposta livre ao chamado e à sua missão. Uma missão que dá ao mundo Jesus, Aquele que nasce na pequena cidade de Belém, na Judeia. É a pátria dos antepassados de Davi e, por isso, também chamada de “A cidade de Davi”.
Deus tem a pedagogia de escolher a realidade humana, simples e frágil. Ele transforma o fraco, o pequeno. Davi é o modelo típico do homem que quer muito, tem muita força de vontade e é convicto da sua ideia de Deus, mas cai a toda hora, porém, ele traz em si traços importantes para que o Plano de Deus se realize.
Nós temos, de um lado, Davi lutador; do outro, a tradição guarda um Davi que reza, que se planta diante de Deus e pede perdão. Temos este homem composto de fragilidade, mas que, voltando-se para Deus, torna-se forte.

– E Cristo, o personagem principal da noite de Natal?
Deus que se fez carne. O grande problema que se coloca é este, pois não se sabe o que é mais difícil: se é Deus que se fez homem ou se é ver que este homem é Deus. Somos sempre desafiados. O Evangelho mostra, de forma muito clara, que em todo caminhar de Jesus houve um reconhecimento de que Ele era Deus. Mas, no último momento em que Jesus estava com os discípulos, Pedro, no Galicantu, no último momento de julgamento, ainda não havia percebido essa dimensão profunda do Pai no Filho. É o grande desafio do Natal. A proclamação de que, realmente, o Senhor se manifesta no humano. Nossa fé é pós-pascal, depois da experiência profunda de Deus, uma vez morto e ressuscitado, é que podemos compreender que esse Menino nasceu, que esse Menino é Deus.

– Uma mensagem de Natal
Que este seja um tempo de graça. Que cada um possa experimentar esse Deus em profundidade, Aquele que se faz presente, que se faz Menino. Que este nascimento seja realmente motivo de alegria para todos nós.

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