O Presépio que Deus colocou

MONASTERIO, Enrique. El Belén que puso Dios.
Madrid, Ediciones Palabra, 2004, 152 págs.  
Tradução do espanhol: Mons. Inácio José Schuster

No princípio Deus quis colocar um presépio, e criou o universo para enfeitar a manjedoura.
Primeiro inventou o tempo, e dividiu-o em meses, em semanas e em dias. Os dias estavam formados por milhões de anos, que são como instantes para Deus.
E começou seu trabalho.
Fez o céu, e encheu-o de estrelas e de pássaros.
Fez a luz, e logo o sol (assim conta a Bíblia, ainda que pareça estranho), e acendeu uma lâmpada branca na noite para que se visse bem a cara de Jesus e não se enganassem os anjos da Noite feliz.
Fez as montanhas, tão autênticas que pareciam de rolha, e as coroou de águias e de neve. Fez mares e oceanos de papel de prata, e grandes desertos de areia dourada para os camelos dos Reis Magos.
Depois chamou a menor de todas as estrelas (tinha apenas 6 milhões de hipergigawatts), e levou-a até a outra ponta do universo. Ali, com muito cuidado, deu-lhe um empurrãozinho com o dedo, com a força justa para que, milhares de séculos mais tarde, iluminasse sobre as praias da Arábia à vista dos Magos do Oriente.
Tudo isto não foi muito difícil para o Senhor. Com o seu olhar coloriu todas as espécies de flores que havia criado, e atapetou de musgo as margens dos rios. Também fez crescer as árvores, que, ao espreguiçar-se, agitaram o ar e formaram a brisa e os vendavais. Agora dizem que é o vento quem move as árvores e não ao contrário, mas isto teria que demonstrá-lo.
Do vento nasceram as dunas e a primeira música do campo.
Logo Deus fez uma pausa, e pensou onde colocar seu presépio. E decidiu que em Belém. Imaginou as figuras: o boi, a mula, as lavadeiras, os pastores… E, como não tinha pressa, lhes deu uma estirpe: pais, avós, bisavós… Centenas de vidas para criar cada vida; centenas de amores para conseguir o gesto, o tom de voz, a mão estendida na postura exata do presépio de Deus.
Pensou em sua Mãe: toda a eternidade sonhou com Ela. E, desejando suas carícias, foi desenhando nos antepassados de Maria como esboços dessa flor que havia de brotar a seu tempo.
Igual a um artista que persegue tenazmente a pincelada perfeita, Deus pintou milhares de sorrisos em outros tantos lábios. E ensaiou em outros olhos o olhar limpíssimo que teria sua Mãe. Até que um dia nasceu a Virgem, sua Filha predileta, sua Esposa Imaculada, sua obra mestra. E a colocou no presépio junto à manjedoura, com Jesus, que, por ser só de Maria, era seu retrato vivo.
E viu Deus tudo o que havia feito. E tudo era muito bom; mais ainda, estupendo. E tanto gostou que decidiu transmitir diretamente o nascimento de seu Filho a todos os dezembros da história, e a todos os corações que tivessem lugar para um presépio. Assim inventou o Natal.
O Natal não é um aniversário, nem uma recordação. Muito menos só um sentimento. É o dia em que Deus coloca um presépio em cada alma. Somente pede-nos que lhe reservemos um canto limpo; que lavemos as orelhas para ouvir a canção dos anjos na Noite feliz; que tiremos a sujeira acumulada, acudindo ao estupendo detergente da Penitência; que abramos as janelas e olhemos o Céu se passarem de novo os Magos; que são verdade, que existem, e vem seguindo a estrela de então, caminho do mesmo portal.
Ainda que talvez só vejamos um casal jovem de imigrantes que acabam de chegar à cidade. Não trazem o burrico, porque a espécie está em perigo de extinção, mas uma moto desvencilhada, que sabe Deus como ainda segue funcionando. Não encontrarão lugar nos hotéis, e ela deverá dar a luz no Metrô. Difícil será para a estrela entrar ali embaixo e situar-se na estação sem permissão da polícia municipal.
Se passarem por tua porta, não lhes digas que tens a casa cheia de hóspedes. Eles se conformam com o estábulo de teu coração. Abre-o de par em par, e, como é Natal, disponha-te a brincar de bonecas com Maria. Deixa-me que te acompanhe: emprestar-te-ei a rolha das montanhas, meu castelo de Herodes, um burrico com a orelha rasgada, a prata para o rio e um racimo de anjos, que nos ensinarão canções de manjedoura para o Menino do presépio.

Com a prece e a bênção copiosa do Céu, um Santo Natal de nosso Senhor JESUS CRISTO e um Abençoado 2014.  
Mons. Inácio José Schuster
Pároco

 

O SENHOR OLEIRO

Criou, pois, Deus ao homem a sua imagem, a imagem de Deus lhe criou, homem e mulher os criou (Gênesis 1, 27).

O oleiro, sentado a sua tarefa (…) com seu braço molda a argila, com seus pés vence sua resistência; põe seu coração em acabar o envernizado, e gasta suas vigílias em limpar o forno.
Todos estes põem sua confiança em suas mãos, e cada um se mostra sábio em sua tarefa.
Sem eles não se construiria cidade alguma, nem se poderia habitar nem circular por ela. (…)
Não demonstram instrução nem juízo, nem se lhes encontra entre os que dizem máximas. Mas asseguram a criação eterna; e o objeto de sua oração são os trabalhos de seu ofício (Eclesiástico 38, 29-34).

Sabíeis que os anjos trabalham, e que no Céu há oficinas de todas as classes? Não podia ser de outro modo já que os anjos são seres espirituais, e criar é próprio do espírito. Também os homens que alcançaram a glória gozam do mesmo privilégio. Não vos parece razoável que os grandes pintores, os poetas, os escultores ou os trompetistas continuem sua tarefa no Paraíso? Que seria de Mozart sem a música? Como poderia Velázquez seguir sendo Velázquez no Céu sem uma paleta cheia de cores e um grande lenço diante? Pois igual ocorre com os que fazem novelas, com os agricultores, com os cozinheiros, com os palhaços ou com os notários. No Céu, trabalhar é parte da felicidade que Deus concede.
—Mas então—me direis— em que fica o famoso descanso eterno?
Descansa-se, naturalmente, mas só da fadiga, do suor, das angústias deste mundo; não da condição humana. E já diz o Livro de Jó que o homem nasce para o trabalho e as aves para voar. Portanto, se essa é nossa condição, não teria sentido que nos passássemos a eternidade folgando.
Mas vamos a nosso assunto. Antes que o Senhor criasse o homem, nas oficinas do Céu não se trabalhava a madeira nem a pedra nem o bronze, nem nenhuma outra coisa material. Os anjos desenhavam criaturas só com a imaginação, e as armazenavam em um depósito de obras de fantasia: ali se empilhavam (é um dito, já que o espírito não ocupa lugar) montões de projetos: camelos para o deserto, burricos para o campo, pores de sol para a Antártida, nuvens de diferentes texturas para tormentas tropicais… Às vezes o Senhor —que é o único Criador de verdade (os demais são só criativos)— visitava aquele armazém de sonhos, aprovava algum dos projetos e lhes dava o ser, tirando-os do nada.
Assim funcionavam as coisas. Por isso surpreendeu tanto ali acima que, uma manhã, Deus decidiu manchar-se as mãos de barro.
O Senhor havia feito uma pausa. Percorreu de novo com o olhar todo o criado, e, por um instante, parou o relógio central das galáxias: deteve o piscar das estrelas, o vôo dos cometas, a torrente dos rios, o silvo da brisa… Até as ondas ficaram, durante aquele segundo, de gregas no oceano como frias esculturas de prata. E se produziu no mundo um silêncio tão profundo que até os anjos temiam rompê-lo com seu vôo. E disse Deus:
—Vamos começar o segundo ato da Criação. Tudo está disposto para receber ao soberano deste mundo. Façamos, pois, ao homem a nossa imagem e semelhança…
Baixou então a terra, e, à sombra de uns álamos, junto ao rio, abriu sua oficina de olaria.
Tomou o Senhor lodo do solo. Era uma terra avermelhada e branda que em seguida se amoldou às carícias do Criador.
—Primeiro formarei o corpo de vosso rei, disse o Senhor.
E inclinando-se sobre a terra, começou a modelá-lo, enquanto lhe falava em voz muito baixa:
—Teu corpo será formoso e forte. Caminharás erguido, porque não deves humilhar-te ante criatura alguma: só ante teu Deus.
Teus olhos contemplarão de frente como as águias; e verão o relevo; medirão as distâncias e gozarão com as cores das coisas. Acenderei neles uma luz para que as demais criaturas reconheçam em ti a seu dono.
Tuas mãos serão atrativas e fortes: servirão para golpear, mas também repartirão carícias. Terão seu próprio idioma, tão expressivo como o olhar ou a palavra. Servir-te-ão para criar beleza; manejarão instrumentos toscos e refinados; serão sensíveis e rebeldes.
Vou modelar-te um coração: uma bomba de sangue que, além de dar vida ao corpo inteiro, será o sismógrafo do espírito que registre, em uma precisa escala de latidos, todas as emoções que tua alma possa experimentar.
Terás um cérebro vigoroso, capaz de conhecer as leis mais secretas deste universo que te criei. Com ele, chegarás longe: nem tu mesmo alcançarás a conhecer seus limites. Serás uma máquina perfeita se souberes submeter-se ao espírito, que é seu guia; se te humilhares ante a verdade e creres nela; se aprenderes a escolher a Sabedoria antes que a genialidade: se não renunciares a conhecer-me a mim, que sou teu Criador.
Concedo-te também o dom que até agora só outorguei aos anjos. Serás capaz de amar e de receber amor. Ao entregar teu corpo, entregarás tua alma e todo teu ser, como eu mesmo me entrego. Poderás unir-te a tua esposa —e ela a ti— em um amor fiel e fecundo. E quando digas “para sempre”, assim será: amando, te farás eterno, como eu sou eterno.
Este barro, com o qual te formo, é sagrado. Vais ser lodo e espírito em uma só peça. Não te vendas; não desprezes a matéria que te dei. Porque teu corpo também foi feito a imagem de Deus.
O Corpo de meu Filho me serviu de modelo para criar-te a ti, Adão.
A continuação, soprou o Senhor um vento de furacão que endureceu o barro, penetrou por todos seus poros e o encheu de vida.
Assim nasceu o primeiro homem, a única criatura material que, por ser imagem de Deus, falava cara a cara com o Senhor; amava como ama o Senhor, e era senhor de quanto se movia sobre a terra.
—Realmente é importante —lhe disse seu Criador—: o universo é teu.
Coloca um nome em cada animal e em cada planta, porque todas as criei para ti, e ainda não sabem o que são nem para que estão no cosmos: tu deves defini-las e explicá-lo.
Aprende a ser dono desta terra. Não lhe peças que te dê o que só eu posso dar-te, porque me ofenderias a mim, te destruirias a ti mesmo e a terra te castigaria. Ama ao mundo como eu o amo, respeitando suas leis. Contempla-o, e não deixes nunca de assombrar-te ante a beleza: assim me conhecerás a mim, que sou seu Criador. E trabalha: ajuda-me a completar minha obra. Manifestarás teu senhorio sobre a terra convertendo-a em teu lar, domesticando-a para teu serviço e o de meu filho.
Eu dispus tudo em Belém para o nascimento de Jesus; mas ainda faltam os caminhos por onde chegarão os pastores e os Magos. A ti te corresponde fazer o plano de rodovias, e construir o castelo de Herodes, o presépio do portal, a pousada…
Os cavalos ainda estão descalços. Terás que fazer-te ferreiro para resolver o problema. E oleiro, como eu, para guardar a água e o trigo em minha casa de Belém. E deves inventar a pecuária, porque é preciso enchê-la toda de ovelhas. E te darei sementes de todas as plantas, para que nasça a agricultura. Deves saber, além do mais, que escondi petróleo nas entranhas da terra, e carreguei de energia o coração da matéria. Tem paciência: já a descobrirás, e serás poderoso.
Criei oito mil espécies de aves, para que aprendas a imitar seu vôo. Elas serão também tuas professoras de música. (Também há oito mil espécies de formigas; mas duvido que possam ensinar-te algo prático, por muito que se empenhem os fabulistas).
Por último, te concedi o dom da palavra, para que falemos em tua língua quando me necessites: fala-me, que quero ser teu interlocutor a todas as horas. Oferece-me teu trabalho de cada dia e canta-me a mim em todas tuas canções.
Diga sempre a verdade: não profanes a palavra que te dei. Se te cansas de fazê-lo, podes inventar a literatura.
Com tudo isso, saberás ajudar-me a montar o presépio?

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